repetição, eterno retorno e construção de sentido em Ney Dicí
demorei, mas cá estou novamente. desde o primeiro texto muitas coisas rolaram e acabei adiando a escrita deste, que está fervilhando em minha cabeça há algum tempo. o lado bom é que posso agora incorporar algumas sugestões que recebi de pessoas que leram o texto sobre Prólogo (obrigado pelo feedback!) e talvez fazer um comentário que avalie um pouco mais a fundo aquilo que estou apreciando. eu demorei tanto que o nosso artista analisado aqui lançou mais um trabalho, Dejavu durante um sonho. prestem atenção nesse título e como ele só confirma o que pretendo mostrar.
diferentemente do primeiro texto, busquei seguir o que alguns de vocês me sugeriram e decidi fazer um texto mais analítico, mas sem ser chato, só coisas que pensei mesmo depois de tudo que ouvi (até aqui) do nosso amigo Ney Dicí. rapper, mc, produtor musical, produtor de vídeos, enfim, um multiartista, Ney Dicí tem 7 discos lançados e muitos outros trabalhos no currículo. musicalmente preciso, suas linhas tem uma identidade muito pessoal que ora lembram o que estamos acostumados a ouvir em rap ora nos surpreendem com elementos que ele não poderia colher se não morasse em uma cidade do interior da Bahia. e ele fala disso: identidade, amor, dor, família. e sim, é um ciclo (lembra das "pontas soltas"): não só as temáticas, outras coisas também se repetem em seu rap. mas não por falta de criatividade, o que Ney Dicí faz é justamente o que sugere o poeta Manoel de Barros: "Repetir, repetir - até ficar diferente".
a repetição em Ney Dicí é mais que um recurso de estilo e ritmo - embora funcione bem para isso -, é antes uma forma de nos lembrar que, mesmo que tentemos, uma palavra nunca quer dizer a mesma coisa, ainda que se repita (ninguém entra duas vezes no mesmo rio, não é Heráclito?). Machado de Assis escreve em "Dom Casmurro" que "Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição." para demonstrar isso eu busquei exemplos que não acontecessem nos refrões; entendo que em refrões de rap (até de outros gêneros) haja uma tendência para a repetição de palavras, frases ou expressões, talvez pra "grudar" na nossa mente e porque a gente gosta, no fim das contas. então minha análise vai tentar focar nas repetições que aparecem nos versos, seguindo cronologicamente (de certa forma), começando por Scalca.
entendo que Scalca seja de um outro momento da vida de Ney Dicí, me sinto seguro para dizer isso porque tenho a honra de conhecer o artista pessoalmente. mesmo assim, basta ouvir seus álbuns, fazendo esse trajeto temporal e é perceptível a mudança. enfim, neste as repetições são bastante frequentes. em "linguagem poética" poderíamos usar nomes como "estribilhos" ou "anáfora", não quero me ater a isso. em geral são marcadores de ritmo e de identidade: "A vida me ensinou, foi a vida que me ensinou" ("A vida me ensinou"), "Se é pra amar, se é pra amar que seja agora" ("Se é pra amar"), "Sei o que perdi, muita coisa perdi" ("Linhas incontáveis"). Em Rumo ao motivo disso tudo as repetições ganham diversificações mais sofisticadas, são momentos em que Ney Dicí aproveita para cantar e imprimir mais intimismo às suas linhas: "Eu vim pra sorrir, eu vim pra cantar" ("Sextante"), "Esse mundo me feriu, esse mundo me pisou, esse mundo me traiu e já não consigo sentir o que você sente, amor" / "Juro que tentei dei o meu máximo, juro que tentei dei o melhor de mim" ("Indiferença"). apesar das muitas mudanças temáticas ao longo de sua carreira, Ney Dicí se utiliza das referências religiosas, não em tom de louvor, mas de comparação, como em Pontas soltas do ciclo: "Você foi marcado por Deus? Igual a Caim foi marcado por Deus?" / "Igual os MC's da cidade, eu tô / Igual os MC's da cidade (eu tô), cheio de pseudo-humildade / Igual os MC's da cidade" ("Ode à falsidade").
"e se dejavus forem presságios?" os exemplos são vários. é um rap repleto de imagens que circulam como num redemoinho, como num sonho que se repete. e aliás, falando em sonho, lembra do título do novo CD? este álbum faz a viagem ficar ainda mais interessante. nele nós somos pegos de surpresa ouvindo versos de outras músicas tocando nas novas músicas, como em "Saudade mal quista": "Nada me prende aqui, pertenço a outro plano, mano eu não sou daqui / Cansado dessa vida mas não termina aqui, vou subir pra outro plano." lembra?
acho que é isso, ouçam o novo trampo de Ney Dicí (e os outros também). até breve.











