a mente sem correntes de Joab3
vim pra falar também. falar um pouco de como as coisas que vejo, leio, escuto, assisto me atingem, como me modificam e me levam para lugares que eu, talvez, não imaginaria. esse texto é uma promessa e um exercício também (como quase tudo é exercício).
e, como prometido, vim lhes apresentar os versos ácidos, inteligentes e precisos, milimetricamente contados, cortados à faca, tal como João Cabral, do mc Joab3 e seu mais recente trabalho solo, “Prólogo”. o disco do garoto prodígio é um dos gritos mais sutis de existência do rap teixeirense, esse que resiste e hoje respira por máquinas, graças aos novos mcs empenhados em não deixar que sejamos soterrados pela cultura de massa, que em si, não é uma problema, mas quando é a única difundida, vendida e comprada, assusta, nos coloca num ponto de inércia e ilusão.
ao lermos o título, “Prólogo”, somos levianamente conduzidos a acreditar que se trata de um trabalho de estreia. por outro lado, por conhecer mais de perto Joab3, ainda que há pouco tempo, enxergo nessas faixas um novo artista, abordando novos temas, utilizando e experimentando novas técnicas de escrita. No álbum, o mc nos transporta para África e para os guetos de Teixeira de Freitas; somos bombardeados com referências que vão de Jorge Ben Jor a Ed Motta, de Racionais a Parteum; nos defrontamos com filosofia e existencialismo, discussões que perpassam uma busca por identidade; compreendemos o resgate à memória de seus ancestrais e a luta de quem viveu e viu de perto o racismo. aqui podemos encontrar parte dos resultados de um letrista que estuda e ouve rap como quem faz uma autópsia.
a única participação especial é com Ney Dicí, que produziu o ep, e é uma das melhores faixas do álbum e uma das melhores de ambos, considerando todos os seus trabalhos, “Inferno”. apesar das muitas referências bíblicas, se engana quem espera um rap dócil e comportado. em “Prólogo” nós conhecemos a voz ainda prenhe do rap do extremo sul baiano. inquietante, urgente e necessário, o álbum de Joab3 é um dos que eu mais esperei ouvir esse ano.