TINHA A MANIA CONSTANTE de se ver como alguém incômodo, e chegou a passar por sua mente se não estaria aborrecendo a alemã ao fazer perguntas mais invasivas. Sendo mais reservado que expansivo, Hak preferia que não lhe perguntassem coisas – e normalmente não o faziam, optando por fazerem presunções a seu respeito. Assim, quando instigava outrem daquela forma, imaginava que teriam reação semelhante à sua. ‘ Mas certamente deve ter uma necessidade de apontá-las ’ provocou, sorrindo, já que momentos antes Tatia estivera ressaltando bons traços nele. Esperava que, colocando dessa forma, fosse suficiente para que a alemã parasse, e então ele se visse livre do azulado que subia ao pescoço sempre que um elogio dela era direcionado a si. Nunca soubera lidar com elogios e parabenizações, embora isso não significasse que desgostasse. Era por isso que nos aniversários, por exemplo, sempre arrumava desculpas para sair das próprias festas, ou mantinha em sigilo a data para que não tivesse de se preocupar em ser abordado. ‘ Meu instinto de sobrevivência diz para não acreditar ’ meneou a cabeça, ainda sorrindo, como que se desculpando. Era verdade que ele podia ser desatento quando não estava focado em algo específico. Até então, mesmo sendo a herdeira de um reino que, no passado, tinha sido causador de problemas, e que, Hakon desconfiava, ainda tencionava revanche pelas guerras perdidas, não vira motivos para manter um olho na Von Losch. Ora, tê-lo como observador nunca era bom; normalmente, significando que Zircon estava em busca de novos territórios, buscando reinos fracos para sobrepujar. Não queria ter de fazer aquilo com Tatiana, mas se tivesse de fazer, faria. Era difícil exigir dele alguma lealdade, quando a de Hak estava quase que completamente com o rei finlandês. ‘ O que é praticamente um elogio, também ’ emendou. ‘ Pode significar que você faz coisas que outros não fazem ’ testou, jogando sem saber se obteria resposta, já que ela vinha sendo bastante vaga até então. Não era a melhor pessoa para arrancar informações de outros — não com aquele método — mas com Tatia teria de bastar. Até porque, não havia compromisso algum ali; tratava-se apenas de uma conversa informal. ‘ Algo me diz que espera exatamente isso ’ parou, dessa vez assumindo um tom mais sério. ‘ Não gosto de ficar em desvantagem, deve saber ’ era óbvio, para qualquer um que tivesse olhos, e não seria um problema revelar isso. Da mesma forma que não lidava bem com a derrota, ser passado para trás ou ter informações incompletas era um pesadelo para o príncipe. ‘ Fácil assim? ’ surpreendeu-se, quando ofereceu respostas de mão beijada. Ousou até rir fracamente em acompanhamento, esperando que voltasse atrás no instante seguinte. Devia ser por isso que não sabia ao certo o que perguntar. Porém, havendo tantas desconfianças em torno da figura dela, não faria mal perguntar diretamente, ou faria. ‘ Não me parece uma princesa comum, se é que me entende. É difícil pensar em você como alguém que aguarda passivamente as ordens do Kaiser… E duvido que estivesse fazendo apenas isso no seu reino ’
Não fora preciso mais para notar que pedia para cessar suas avaliações, e a Von Losch assentira, como quem bem entendia o significado no pedido silencioso. Na visão de alguém como a alemã, no entanto, a provocação poderia soar, também, como repreensão sutil e verdade era que não lidava bem com represálias. Não porque levava-as exagerada e seriamente, ou porque retraía diante dessas, mas porque as compreendida, compreendia o suficiente, até, para indicar o contrário. ❛ ┆ Nesse caso, não se preocupe. As guardarei para mim mesma daqui para frente.❜ Que não fosse culpada pela inócua instigação. Tinha algo, afinal, sobre ir onde não era incentivada que mostrava-se, com os anos, produtivo — e, se completamente honesta, especialmente atraente. Não carregava pretensões de estender-se, entretanto, o que deixara claro com um sorriso conclusivo, evidenciando que finalizaria, por completo, o assunto. Não era usual, inclusive, que mostrassem resistência quando mais clara com suas impressões, principalmente quando positivas, mas pouco conhecia do Hesse para entender as razões pela qual ele as dispensava. Talvez, não se importasse o suficiente com suas percepções, ou, talvez, fosse o que ela tirava de quem era. No fim, ‘não gostava de ter suas qualidades apontadas’, como fizera questão de esclarecer. Tatiana, por sua vez, tinha explicação plausível por seu comportamento deveras questionável: não podia evitar a si mesma ou a própria mente de trabalhar de maneira a analisar reações, provocá-las. Fora assim toda a sua vida e crescera para criar um gosto por isso — o que não significava que utilizaria de qualquer conhecimento adquirido para enfraquecê-lo, apenas que o teria, caso necessário. ❛ ┆ Instinto de sobrevivência, huh? Não acha que me faz parecer como maior ameaça que, de fato, sou?❜ As orbes azuladas buscaram segurar-se as do mais alto, na intenção de capturar uma resposta livre de possíveis filtros. Não estava equivocado ao questioná-la, certamente, mas, também, pouco era sincero em suas ditas suposições. Hakon não via como uma possibilidade distante que ela soubesse mais, bem como não era alertado por seus instintos. Ele desconfiava, buscava por confirmações, e sua colocação seguinte apenas evidenciara que estava certa. A cabeça, então, pendera para trás enquanto um sorriso ronhoso, amoral, tomava-lhe os lábios. ❛ ┆ Pode significar, não?❜ Sempre fora repreendida ao demonstrar, tão claramente, que entretia-se com jogos como aquele. Mas não tinha problemas, certo? Não quando ofereceria respostas claras, fáceis. Não quando nem deveriam estar tendo aquela conversação, de maneira tão informal. A mudança na tonalidade seguinte, apesar de tudo, não viera como surpresa e Tatia assumira a mesma seriedade, ainda que mantivesse a leveza. ❛ ┆ Eu não esperaria nada menos.❜ Soltou, dispensando maiores explicações. ❛ ┆ Mas, deve saber: não tenho intenção alguma de vê-lo em tal posição.❜ Que bem viria em o ter em desvantagem, no fim? A surpresa do finlandês, então, fora recebida por um arquear sutil de sobrancelhas, a cabeça tombando para um dos lados enquanto o observava com um risinho comedido, como quem rebatia ‘fácil assim’. Estava ciente do risco que corria, mas não tinha pretensão alguma de encontrar-se em posição comprometedora. ❛ ┆ Digamos que passividade não é exatamente o esperado tratando-se de mim.❜ Assumiu, prontamente. Hermann tinha pretensões um tanto diferentes para a princesa, o que deixara claro na criação pouco comum de Tatiana. ❛ ┆ E não, não aguardava por ordens... Eu garantia que fossem seguidas, executadas.❜ Isso é, até ser enviada para Hyacinthum. A revelação ainda era uma, mas de pouco peso, imaginava, se interpretada levemente. Em verdade, estava habituada a oferecer respostas ponderadas a perguntas prudentes e se ele quisesse respostas mais diretas, teria de fazer perguntas do mesmo tipo. ❛ ┆ Sabe, para quem buscava clareza e honestidade, anda bem cauteloso.❜ Apontou, não, exatamente, em repreensão, mas em sinal de que dispensaria sutilezas se ele o fizesse. ❛ ┆ Então por que não me diz o que realmente quer saber?❜