˛ ⠀ * ⠀ 🥀 Levou o indicador até a boca, teatralmente, como se fosse vomitar pela mera menção do nome de Pierre. As duas poderiam ter suas discrepâncias em personalidade e estilo, porém o ódio pelo Dark One (e os comentários maldosos sobre o resto da cidade) as mantinha unidas e amigas. Quando se sentaram na cabine, Andressa escutou com atenção ao que Andrina contava, passando as mãos pela saia do vestido para não amassá-lo. Não ter um coração não era necessariamente sinônimo de problema. Cruella não tinha um, mas fora uma escolha entregá-lo a alguém que confiava — ao mesmo tempo, a protegendo do risco de Rumpelstiltskin tentar tomar o órgão enquanto invadisse o território dele como Audrey. Era óbvio que aquele não era o caso da loira, tanto pelo comportamento robótico que vira nela mais cedo, quanto pela forma que falava sobre o ocorrido. “Certo.” Andressa aprumou os ombros, encarando um ponto distante no parque enquanto o brinquedo subia em ritmo devagar com as duas. “Como isso aconteceu? Quero dizer, como perdeu o seu coração primeiro? Você deu ele a alguém ou foi tirado de você?” Virou o rosto para estudar a reação da Waller, deslizando os olhos pela figura feminina. “Se você deu a alguém, Úrsula ou quem quer que seja, não deveria ser um problema. A magia acerca dos corações é quase poética. Quando alguém rouba um coração, está fazendo isso contra a vontade da pessoa de quem tirou. Sempre vai doer, sempre vai ter um pedaço faltando em você. Sempre vai se sentir vazia.” Frisou a palavra, a expressão mudando da impassibilidade que lhe era de praxe para uma estampa preocupada, quase como se esperasse a confirmação de que Bexley se sentia exatamente assim para bradar o ‘touché’.
Se havia alguém em quem a sereia poderia confiar para contar tudo o que tinha acontecido, esse alguém era Cruella. Não que a mulher fosse de todo confiável, não. Ela era terrivelmente insana. Porém, em algum momento, enquanto compartilhavam trivialidades estéticas e discussões como duas adolescentes convencionais, Bexley tinha conseguido se aproximar dela a ponto de revelar toda a fatídica história. Assim que terminou o breve e, por hora, pouco detalhado relato, visto que o completaria mais tarde, Bexley se ajeitou no banco e ensaiou um sorriso animado. — “ Que clima mais fúnebre! Se vamos fingir que estamos em um encontro, vamos agir como tal. ” Aprumou os ombros e jogou um beijinho para a amiga no ar. — “ Primeiro entreguei. E até então estava tudo bem. E que essa coisa toda de poesia vá a merda, com todo respeito. Mas é... Você tem razão. Agora me sinto vazia, oca, sei lá. ” Revirou os olhos, virando-se na direção da mulher e apoiando as mãos nas próprias coxas para continuar. — “ Eu dei... E depois ele foi... Tomado. ” Suspirou, desviando o olhar brevemente devido a vergonha em admitir aquilo em voz alta. — “ Eu senti quando isso aconteceu aqui dentro. Meu corpo inteiro batalhando para rejeitar o novo dono como células que lutam para eliminar uma ameaça no organismo... Eu adoeci, Andy. Fisicamente. Fiquei ridiculamente gripada exatamente como aquelas fadas estúpidas ficaram, dá para acreditar? ” Apesar das palavras, o tom da sereia não se exaltava, mantendo uma constância monótona ao compartilhar a história. — “ Você sabe que a razão para eu estar consciente neste lugar é porque eu virei as costas para minha família, né? Quer dizer, não a toda a família porque... Escolhi o lado da minha tia que, assim como eu, foi muito injustiçada nos mares. Por isso éramos próximas, não somente porque jurei lealdade à ela quando ajudei a roubar o tridente do Rei como também entreguei de vontade própria o meu coração. Sabia que ela não ia fazer nada, éramos família. Ela reconhecia o sentimento que me fizera abandonar os demais: a traição, o segundo plano... Dividíamos as mesmas angústias de certa forma, não havia porquê me prejudicar assim como não havia porquê eu me voltar contra ela. Mas... Ela morreu, Andressa. Foi assassinada! Qual a dificuldade em usar essa palavra, não é? Foi o que aconteceu e eu sei, eu sinto! Ou não sinto... Há só... Um vazio aqui dentro, o tempo inteiro esse nada absoluto. ”