Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.
— Água Viva
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Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.
— Água Viva
Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário: sou sozinha, eu e minha liberdade.
— Água Viva
Que febre: conseguirei um dia parar de viver? ai de mim, que tanto morro.
— Água Viva
E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já.
— Água Viva
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.
— Água Viva
Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida mas é vivida.
— Água Viva
Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar.
— Água Viva
Eu que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Quero a isenção de Mozart. Mas quero também a inconsequência. Liberdade? é o meu último refúgio, forcei- me à liberdade e aguento- a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre.
— Água Viva
Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá- lo ou escrevê- lo.
— Água Viva
O que escrevo é um só clímax? Meus dias são um só clímax: vivo à beira.
— Água Viva
É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão.
— Água Viva
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.
— A Paixão Segundo G.H.
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
— A Paixão Segundo G.H.
estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?
— A Paixão Segundo G.H.
Afinal de contas, para viver feliz, um homem tem de conhecer vez ou outra alguns momentos de perfeito vazio.
— O Olho
essas gaiolas são invisíveis, e talvez seja por isso que elas machuquem tanto.
— Acreditar em mim é a minha única possibilidade de existir
o relógio marca
sete horas e dez minutos
falta algo
no meio desses dias
que dançam mal
nos meus ouvidos
quanto tempo demora
pra eu me acostumar
a não ouvir mais a sua voz?
— Tudo Nela Brilha e Queima