Um suspiro aliviado, um relaxar de músculos – mesmo que ainda tensos por conta das dores – fora a resposta física em ouvir a voz do semideus e vê-lo que ainda está ali, que ainda está bem. – Não, eu não… Eu não vou te mandar embora de novo! – Fala com convicção, e realmente não estava disposto a fazer isso novamente. Brandon tem uma expressão assustada e amedrontada no rosto e aquilo magoa o moreno por dentro. Não fora sua culpa e o que ele tinha em mente era a melhor das intensões. A mão, cujo braço machucado lateja, segura o par de adagas recuperadas na entrada da Casa Grande e, a canhota, o segura para que não fizesse o mínimo de movimento possível. – Você… Você está tremendo! – Comenta passando o braço bom por cima do ombro do ruivo. Brandon está quente e é tão forte quando Tomas imaginou que ele seria. O outro toma o braço do mais baixo por cima dos ombros e o leva de encontro com uma mesa exposta naquele lugar todo empoeirado. – Pensei que aqui era mais cuidado, tendo em vista que já o lar do Oráculo! – Observa. Logo, as coisas que dispunha sobre a mesa estavam no chão e uma ordem veio do mais velho para que ele se deitasse. Grace não queria deitar-se, queria ficar de guarda olhando para o topo da escada como quem espera por qualquer coisa a qualquer momento. – Eu não preciso deitar! – Fala quando já está sentado sobre a mesma. Seus olhos alternam entre os olhos claros de Brandon e a escada, ainda vazia graças aos Deuses. – Mas, e você… Está bem mesmo? – O moreno procura por algum ferimento, algum sinal de lesão ou contusão da mais leve que fosse até encontrar o que por sinal havia acabado de ter sido feito. – Brandon, o que é isso? – A mão boa foi de encontro ao pescoço do ruivo onde sinais de arranhões estavam evidentes. – Do outro lado também… – Franze o cenho. – Aconteceu algo? – Ele o encara.
Naquele momento, Tomas espera que qualquer coisa saísse dos lábios finos e rosados do mais novo amigo, porém, não admitiria que o mesmo se automutilasse. Não é certo, e não se pode. A preocupação enche-o por dentro e a tensão volta quando seus olhos miram numa silhueta, grande o suficiente pra suprir a altura de Brandon, atrás deles. A mão boa de Tomas repousa sobre o peito alheio – que é perfeitamente delineado e ressaltado. – Não se meche. Não faça nada! – Grace sussurra para o ruivo mantendo contado visual com o ciclope. O monstro os olha como um mendigo olha para um prato de comida, mas a aura emanada daquele espécime não de apenas fome, mas uma raiva alimentada por algo desconhecido para o garoto e que parece ser a única coisa que enxerga. Sem nenhum movimento brusco e todo calculado, o moreno segura uma das adagas com a mão do braço bom e a esconde atrás do corpo. Lentamente, desce da mesa e se pergunta porque ainda não os atacou quando teve a chance e, isso, o fez notar o quão idiota e descuidado é por não ter ouvido um monstro daquele tamanho subindo as escadas. Semideuses suculentos. – Oh, eu tenho certeza de que não somos! – O moreno responde com a voz mansa e tranquila. Autmun vai comer os dois. Chefe vai ficar feliz com isso. A voz do ciclope soa estridente e triunfante até demais. “Mantenha a calma Tomas”. O monstro pega o porrete que antes estava seguro em uma espécie de bainha. – Você não vai querer fazer isso! – Tomas soa não tão manso quanto antes sentindo a voz falhar. Ah, Autmun vai querer fazer isso sim, fala por fim investindo contra ambos.
Tomas empurra Brandon para o lado e apara o golpe do ciclope que estava destinado ao ruivo. – BRANDY SE ESCONDA! – O moreno grita. “Sua voz Tomas, se concentre na sua voz”. Socos, chutes, desvios. O monstro manipulava os golpes do moreno a seu favor e quase sempre conseguia tirá-lo de seu caminho. Claro, e era bem fácil. Um ciclope de quase dois metros de altura contra um garoto de um e setenta e sete, bem mais fraco a julgar pelo corpo espesso do monstro sem nenhuma grama de gordura, apenas músculos. Tommy não sabe onde Brandon está – o que gostaria muito d saber – pois o perdeu entre um golpe e outro, mas o ciclope parece saber muito bem. Em passos pesados, depois de jogá-lo contra uma parede cheia de quadros, o monstro partiu para algum lugar e uma raiva, incomum no moreno tomou contra de todo seu corpo, inclusive sua voz. – PARE AÍ MESMO! – A voz de Tomas soou grossa, determinada, nada doce como de costume e até amedrontadora. O ciclope parou no mesmo ato. O garoto sente-se forte e destemido como se pudesse pegar aquele monstro com as próprias mãos e jogá-lo para do outro lado doo atlântico. – Você… Vai pegar essa adaga e enfiar na garganta… – Novamente o charme, desta vez tão forte como jamais esteve, se fez presente em sua voz. -… Agora! – Os olhos de Tomas, antes castanhos, assumiram o vermelho escarlate e sua aura de um vermelho tão sombrio quanto a escuridão. Grace o encarava no limite dos olhos. Sua cabeça estava quase baixa, mas seus olhos conseguiam mirá-lo por completo por debaixo da sobrancelha. Expressão séria, sem nenhum outro sentimento que não a raiva e a determinação. Ele está estático, sem nenhum movimento a não ser as orbes avermelhadas acompanhando cada milímetro de movimento do ciclope que acatou as ordem como uma criança obediente. – Agora a outra… Pegue-a! – Ordena mais uma vez. -… E enfie em seu coração! – O monstro pareceu hesitar. – Eu estou mandando! – Tomas tombou a cabeça para o lado e a levantou transpassando o monstro com os olhos. Inexpressivo, assim o ciclope o fez e não demorou a se desfazer em pó deixando no ar apenas o tinir de ambas as adagas se chocando contra o chão.
O moreno caiu de joelhos sentindo-se fraco se odiando por impor sua vontade sobre a do outro, mas fora preciso então a culpa não poderia pegá-lo e açoitá-lo como um feroz carrasco. Respira com dificuldade e os músculos falham, mas o moreno consegue se colocar em pé. – Brandy… – Sua voz voltara ao normal, tão amedrontada quanto antes. -… Você está bem?
Seus pensamentos turbulentos eram acalmados pela voz suave do amigo. O medo flutuava para fora de si como um passe de mágica. Embora ainda permanecesse um tanto inseguro por conta da fraqueza em seu corpo, o ruivo estava mais preocupado em deixar o outro inteiro novamente. Os olhos claros e inocentes procuravam ao redor qualquer sinal de néctar ou ambrosia. Era disso que o moreno precisava. A teimosia dele era engraçada, mesmo quebrado e machucado, não abandonava a pose de cara durão. Brandon não pode deixar de sorrir. "Na verdade precisa. Estás tão destruído quanto o acampamento ficará quando tudo passar." um tom divertido banhava as palavras ditas. Seu humor melhorara ao perceber que ainda conseguia ouvi-lo. Era bom ter tal capacidade de volta, e melhor ainda pois os sons das lutas agora não possuíam mais importância, eles eram abafados pelo timbre distinto da voz do outro. A preocupação era palpável, mas o garoto ignorou. Ao menos até notar para onde o olhar de Grace era atraído. Que seus ferimentos seriam descoberto, disso nunca duvidara, mas ao menos pensava que seria depois e que ele poderia culpar a briga anterior com o Minotauro e a Manticore. Mas claro, Moros nunca deu-lhe tudo de bandeja. Era inacreditável como tudo para ele tornava-se difícil. Mordeu o lábio, encarando os olhos escuros que nadavam em confusão. Esse era o momento em que estragaria tudo. A hora que tanto temeu, não havia mais como esconder. Assim que abriu a boca para cuspir rapidamente a resposta, a postura do menor mudou drasticamente. Quase pôde sentir o clima dentro do sótão transformando-se em algo sombrio, pesado.
Por puro instinto, ou talvez obediência, Brandon permaneceu quieto até que fosse lhe dado o segundo comando. Como um bom romano, esquivou-se e fez o que fora ordenado. Mais uma vez via-se correndo para longe do rapaz que, minutos antes, dissera e jurara nunca mais fazer aquilo. Ah, as ironias do destino. Tempo para reagir, ele não tinha. Vasculhou o antigo e recente homizio, se encolhendo por ali para esperar o perigo passar. Sentia-se como uma criança inútil, porém, estava tão cansado que não hesitou em continuar quieto. Agora, Tomas Grace não parecia o rapaz inócuo que o ensinou alguns golpes e confessou gostar de seu jeito incomum de falar. Ele parecia alguém perigoso, audaz. Naquele momento, não temeu pelo amigo. Temeu pelo Ciclope. Algo mudou nele, para ruim, podia dizer. Mesmo sem conseguir enxergar seu rosto por causa de onde estava, via por uma fresta pequena a face do monstro. A confusão estampada na feição da criatura poderia ser um reflexo da que o ruivo demonstrava. O medo no único olho também era quase o mesmo que estava nos olhos do filho de Puta. Preferia sem sombras de dúvidas que estivesse acontecendo uma luta ali, não que o moreno gritasse ordens para o adversário. Era uma cena incomum, tinha de admitir. Uma criatura com mais de dois metros de altura, corpulento e com fome por eles, obedecendo os comandos mortais de um semideus que não deveria ter mais do que um e setenta de altura. E filho da deusa do amor. Zombou. Mas oh. Nunca duvidara das capacidades de lutas dele, e agora era claro que existiam mais truques do que lhe fora contado. O som aveludado e firme o deixavam com desejo de fazer exatamente a mesma coisa que o monstro. Pegar a adaga e enfiar na sua própria garganta, seu próprio coração. Os dedos finos rodeavam o anel de ouro imperial, cogitando tal ato. "Eu estou mandando" ele dissera. Gungnir era pesada agora em seu anelar. Os seus braços pareciam ser feitos de concreto, por mais que quisesse acatar as ordens junto com Autmun, não conseguia. Antes que percebesse, tudo acabara. O silêncio encheu o recinto e sua pálpebras piscaram, espantando a névoa confusa. Se dissesse que entendia o que fez com que desejasse algo tão estúpido para si mesmo, estaria mentindo. Mas parecera a coisa certa a fazer, ao menos antes. Foi aquilo que o Ciclope sentiu. Talvez até mais forte, pois, diferentemente de Brandy, ele não vivera. Poderia ter sido ele. Mesmo sem saber, Tomas poderia ter tirado a vida dele somente com o poder da fala. Sim, esse era um ótimo segundo motivo para não querer mais ouvir. Voltar ao tão conhecido e acolhedor silêncio que o cercava antes. Respirando superficialmente por receio do outro ouvir, arregalou os olhos, tentando decidir o que fazer a seguir.
As pernas trêmulas almejavam sair correndo dali, correndo para longe de uma das únicas pessoas em que realmente confiava no Acampamento. Mas seu cérebro se negava a oferecer o comando necessário para esta ação. Era quase como se ele quisesse fazer com que o coração do menino acreditasse novamente no moreno. O músculo, a mente viva e turbulenta, recusavam-se a isso. Recordavam das inúmeras vezes que foram machucados por confiar demais em alguém. Mesmo que palavras de incentivo para cair novamente nas garras da confiança fossem gritadas, não conseguia. Tudo o que aconteceu fora para mantê-lo seguro, seu cérebro gritava. Mas quase foi você, fomos nós. Retrucava o coração. A batalha interna teve seu término quando os ouvidos trabalharam e buscaram a voz suave e aterrorizada de Grace. Ah, traidores. Ficou rapidamente em pé saindo do esconderijo. Diferente da primeira vez, não jogou-se de imediato nos braços do outro, não, ainda se encontrava assustado demais para isso. Engolindo seco e cruzando os braços, em uma posição claramente defensiva, encarou a porta escancarada. "Vou fechá-la." murmurou. Parte de si ainda queria aproveitar a chance e escapar porque ficar sozinho em um ambiente fechado com aquele menino não estava em seus planos. Depois de fechar a porta, encostou-se nela para que tivesse a oportunidade de avaliar toda a situação. Em silêncio, observou o quão machucado o menor parecia estar. Quase como se estivesse de pé por obrigação. Isso, junto com a maneira como seus olhos refletiam a mesma vulnerabilidade que Brandy tivera logo após a disputa com os dois monstros, quebraram toda casca de dúvida. Como pudera pensar em uma estupidez daquelas? Aquele semideus à sua frente nunca o machucaria. Ao contrário, faria o que fosse para protegê-lo e acabara de provar isso. Estúpido, Brandon. Tão estúpido. Lágrimas mais uma vez ameaçaram a visão do mais velho.
Com passos firmes e largos, se aproximou sem mais hesitação. Ele tomou o rosto do amigo em suas mãos e depositou um pequeno beijo em sua testa. Os polegares acariciavam as bochechas sujas. "Sinto muito." pediu humilde, carregado de arrependimento. Ainda que não explicasse o porquê do pedido. Deslizou as mãos para o quadril do outro, ajudando-o a manter-se de pé. "Sabe, foi realmente bastante assustador o que tu fizeste." uma risada nervosa lhe escapou. "Sua voz parecia... eu não sei. Convincente demais. Nem ao menos cheguei a pensar o quão ridículo era ver um monstro tirar a própria vida por você mandar." expressou sua surpresa com seu jeito inocente de ser. Ele tagarelava como se o perigo tivesse ficado do lado de fora e o sótão fosse o local mais seguro do mundo. "Fiquei assustado, você me assustou. Eu nem estava com medo daquele ciclope, era você que estava me amedrontando." confessou, a diversão em seu rosto era de uma certa forma, engraçada. Quase como se nada dos acontecimentos importassem. "Foi um medo sem fundamento, eu sei. Mas oh, quase quis chorar feito um bebê. Porém juro, já passou." assentiu, reforçando sua afirmação. As sobrancelhas finas se arquearam e ele abriu um sorriso mostrando seus dentes brancos. "E esqueci de dizer. Estou ouvindo. Não, eu não tenho ideia de como diabos isso aconteceu. A adrenalina me curou, talvez?" adicionou a brincadeira e uma risada tímida por fim. Por alguma razão, a ansiedade para ver a reação do outro para a surpresa o assombrava. "Sua voz é bastante bonita, Tommy." o sorriso diminuiu e as bochechas se avermelharam, ganhando a tonalidade quase tão forte que se assemelhava ao vermelho escuro do sangue que ainda manchava os lados do seu rosto.