thestar-russo:
Embriagado pela dor alucinante, o criminoso até tentou observar conforme a garota se afastava para procurar nos banheiros o kit sobre o qual conversavam, mas a visão parecia instável e um tanto embaçada. Nem tentou com muito afinco, afogando-se na sensação esquisita de tê-la longe. Não era como se eles vivessem juntos (céus, podia bem ser o oposto daquilo!), mas de alguma maneira conforme a jovem se afastava, tinha sentido um incômodo o qual não podia dizer reconhecer. Para a própria sorte - se é que tal palavra ainda pudesse descrever qualquer coisa naquela noite -, Veronica não tardou em retornar. As mãos ansiavam por toca-la, tanto que o fez, sem nem pensar sobre como certamente iria mancha-lá de sangue. Não era como se estivesse muito consciente de seus atos e palavras, de qualquer maneira. O pedido o fez erguer o canto dos lábios no que parecia um riso, tinha escutado aquelas palavras de formas outras formas antes. Mulheres pedindo que passasse a noite com elas, ou até que engajassem em algo mais sério — sempre odiou aquela intimação, aquele pedido tão singelo. E lá estava ele, não apenas apreciando ouvir o pedido, mas querendo mesmo atende-lo. Claro que, àquele ponto, suas forças já não mais pareciam capazes daquilo. Assentiu apenas, em pequenos movimentos, e prensou os lábios um contra o outro assim que Parrish avisou sobre a faca. Respirou o mais fundo que conseguia, fechando a mandíbula no pano com quase nenhuma força, até que ela enfim começou a extrair a arma. A agilidade era bem vinda, mas a dor se fez presente mesmo assim. Movimentou o corpo de modo instintivo, tenso, enquanto grunhia abafado pelo pano quase em um grito. Os olhos encheram de lágrimas, e quando relaxou os músculos no sofá outra vez, as coisas ficavam ainda menos compreensíveis. Não estava com medo de morrer, não nas mãos de Veronica, mas a situação tampouco era calma. “Ronnie…” Repetiu o apelido, tossindo um pouco e contorcendo a expressão a cada pontada de dor que o movimento trazia. “Não vai embora” Ele chegou a pedir, depois de puxar a toalha para longe do rosto, e foi os olhos verdes foram a última coisa que ele viu antes de desmaiar.
A sensação de querer fazer de tudo para livrá-lo daquela dor era absurda e agonizante, mas muito contraditória também, considerando que na maioria das vezes que se encontravam, Stefano só fazia Verônica sentir raiva e vontade de machucá-lo. A verdade era que Ronnie preferia mil vezes enganar-se quanto ao que sentia, do que assumir que estava apaixonada por um dos maiores criminosos que já havia encontrado. Mas, naquela noite, estava tudo estranho; e, aparentemente, não só para ela. Sabia que Stefano não parava de delirar, mas o modo urgente como ele ficava lhe tocando estava deixando-a intrigada - e ela tampouco se importava em estar sujando-se cada vez mais com o sangue dele; sentia-se bem em estar ali ajudando-o e continuaria fazendo o que fosse preciso para salvá-lo. Verônica pôde sentir o corpo arrepiar-se inteiramente assim que removeu a faca e escutou-o grunhindo; era como se também estivesse sentindo a dor - ou como se quisesse pegá-la um pouco para si. Estava sendo ruim vê-lo sofrer (ainda que tivesse desejado um momento como aquele em muitos dos encontros que já haviam tido). A mulher encarou-o nos olhos no momento em que seu apelido fora dito com dificuldade e simplesmente travou com o pedido dele, voltando à realidade apenas quando percebeu as orbes escuras distanciando-se dali “Não, não, não, não” repetiu, assim que as pálpebras do italiano se fecharam, levando ambas as mãos para o rosto dele, uma de cada lado “Ei, ei, ei, ei, por favor, não…” ela murmurou com a voz embargada, tentando trazê-lo de volta. Estava completamente desesperada, mas sabia que tinha que se acalmar; aquele era o momento de terminar de cuidar do ferimento.
A delegada soltou o rosto do homem e voltou endireitar-se no chão. “Vamos lá, você consegue” A respiração estava ofegante e sua maior vontade era de chorar; mas ela precisou ser forte. Pegou de dentro da maleta já aberta, os produtos necessários para higienizar o local e, após tirar a toalha encharcada de sangue do abdômen, aplicou o antisséptico sobre o ferimento. Logo em seguida, buscou a agulha juntamente com o fio cirúrgico; sorte era que Stefano tinha um kit completo, certamente muito bem preparado para lidar com situações como aquela - a única questão é que deveria ser um médico ali e não uma delegada -. Ronnie estava tremendo, mas não podia enrolar; o Russo não podia ficar muito tempo desacordado. Dessa forma, ela suspirou, procurando manter-se calma, e logo começou a suturar o local. Havia muito sangue, o que dificultou ainda mais para a mulher que nunca tinha lidado com um ferimento como aquele. O processo fez parecer que estava mais acabando com o restante da vida do homem, do que de fato salvando-o. Mas não demorou muito para finalizar a sutura com um nó - por sorte, o ferimento não era extenso. O resultado final não havia ficado lindo, mas ao menos havia parado de sangrar - e era isso o que importava, uh? Assim que terminou de cuidar do ferimento, a delegada aproximou-se novamente do rosto do homem ainda desacordado. Levou ambas as mãos nas laterais do rosto masculino, não se importando em sujá-lo com o sangue. Os olhos encheram-se de lágrimas, enquanto alisava-o com o polegar “Stefano!” chamou-o pela primeira vez, com um tom firme “Acorda, vamos! Você vai ficar bem, já tá tudo bem! Stefano, ei!” insistiu, levando uma das mãos para a testa dele e deslizando-a até os fios escuros “Stefano, eu tô aqui! Ei, eu tô aqui! Acorda!” pediu, agora com a voz embargada, enquanto dava-lhe alguns tapinhas na bochecha “Por favor… droga, volta pra mim!”
Seria mentira dizer que nunca havia imaginado qual seria a sensação ao falecer. Depois de ser adotado pelo Russo, envolto por luxos e poder, até havia esquecido a sensação de vulnerabilidade — como se fosse imortal. Mas aquela não era mesmo a primeira vez que chegava perto da morte. Antes mesmo de ser adotado, quando tudo o que tinha era o convento e as ruas, a fome e as fortes doenças já o fizeram pensar que havia chegado ao fim um bom par de vezes. A questão lhe retornara à mente também quando sua primeira figura materna, a freira Nora, tirou a própria vida; e uma última vez quando Emília, sua mãe adotiva, repetira o ato. Fazia muito tempo que não se permitia pensar na morte com sensibilidade, não após tantos machucados, não quando o assunto ainda era uma ferida não cicatrizada. Mas então lá estava ele, finalmente tendo em primeira mão a experiência que o trazia uma vez mais àquele lugar. Como era a morte? Havia perguntado a Nora, em uma ocasião, novo demais para entender qualquer resposta. A freira tinha dito que era silenciosa, calma. Que no fim, haveria paz e a certeza de que tudo ficaria bem. A certeza de que Deus os receberia, e que nada mais poderia feri-los. Stefano há muito deixara de acreditar na figura divina, mas percebeu, naqueles instantes que perdia tanto sangue e a consciência cedia, que aquela paz lhe atingia o coração e se espalhava. Que, de repente, teve certeza de que tudo ficaria bem. E então, silêncio. Tudo ficou quieto. Não houve memórias da vida como um filme, não houve uma luz branca, não houve uma dança de cores e formas magníficas. Apenas calmaria, silêncio e paz. Teria seu pai ido embora assim? Russo não achava que ele merecia, se fosse sincero. Ora essa! O próprio Stefano não se via digno daquela sensação. Mas se aquilo era mesmo a vida após a morte, ou o caminho até ela, ele não saberia dizer — e não se recordaria tão logo que as tentativas de Veronica sucediam em acorda-lo. Se o seu sono fora pacífico, o despertar parecia o oposto. Os olhos abriram de uma só vez, como quem recebia uma carga inesperada de energia, e o homem respirou fundo em uma busca agonizante por oxigenio, como se tivesse acabado de ser resgatado do mar. Tossiu um par de vezes, a mão indo na direção do abdômen que latejava a cada tosse. Quando enfim as coisas pareciam encaixar nos eixos de sua mente, se lembrou do que acontecia, de onde estava; com quem estava. “Ronnie” Uma vez mais o apelido soava tão natural que fazia parecer que há muito era utilizado. “Ai. Merda.” Xingou, devido à dor forte do peito, respirando com dificuldade. “Ei, tudo bem.” Garantiu, quando notou que ela parecia nervosa, mesmo que seus dizeres entredentes demonstrassem que ele não estava completamente bem. “Ali… embaixo… nesse pote” Apontou na direção da maleta de primeiros socorros. “O remédio.” Pediu, pois se a dor permanecesse naquele nível, talvez ele desmaiasse outra vez. E um remédio daquele com toda certeza resolveria — afinal, sequer poderia tê-lo em casa, tão forte que era. “Você… você está bem?”

















