O encontro com sua mãe tinha definitivamente sido intenso. Pelo menos por parte da mulher que a tomou nos braços e chorou com vigor, um choro repleto de saudades e alívio. Dentro de si, apenas o que existia eram sentimentos conflituosos que também a fizeram chorar no colo quente e confortável da mulher, contudo, seus prantos tinham uma outra tonalidade: tristeza. Tristeza de sentir aquele abraço e reconhe-lo, mas ao focalizar no rosto dela encontrar ali um estranho, mais um estranho irreconhecível dentre todos que tinha visto e observado, sem nunca encontrar familiaridade, conforto, aconchego, nada ou ninguém para denominar um “lar”. Mas ainda sim sabia, bem em seu interior sentia que aqueles braços já tinham a envolvido antes, aquele sorriso lhe dirigido e aquelas marcas no canto dos olhos dela atentamente observadas. Sim, era sua mãe, não havia dúvidas e ela não precisava nem mesmo dizer, já o sabia. Então por que ainda não conseguia lembrar? Puxar de si suas memórias que deveriam ser tão preciosas para ela quanto cada respiração que dava. Quando a soltou, sentiu o frio da solidão novamente, o frio daquele mundo no qual foi jogada completamente sozinha sem qualquer aviso. Secou as lágrimas de seu rosto e perguntou de seu irmão com um nó na garganta. Sua mãe hesitou por longos momentos, até finalmente ceder, dando as indicações com um tom melancólico e ao fazer menção de se levantar para irem juntas, Pietra a parou. – Por favor… Me deixe ir sozinha. – engoliu seco e fechou os olhos. – Ele tentou se matar, não é? Me deixe falar com ele sozinha… – e com essas palavras se afastou indo até a porta do quarto dele.
Seus olhos tinham de perto a madeira branca que a separava dele e mesmo através dela podia sentir sua presença, uma presença silenciosa e fria como uma chuva de inverno. Um soluço inexplicável atravessou sua garganta e ela o reprimiu colocando a mão na frente da boca. Que sentimentos eram aqueles? Por que era tão difícil esticar a mão para abrir a porta e encará-lo? Por que aquilo doía tanto? “Promete que vai me salvar onde eu estiver?” Sua mão estendeu-se para tocar a maçaneta e girá-la lentamente, a sentindo fria como gelo. O ranger da madeira aos poucos revelando o quarto branco e com um forte cheiro antisséptico. Parada na entrada encarou a figura esguia e pálida que jazia na cama, misturando-se com todos os outros tons claros e estéreis. No exato momento que seus olhos se encontraram com os dele, seu coração parou e no instante seguinte passou a doer como um tiro de arma. Levou a mão até o peito e apertou com força o local enquanto lágrimas desciam por seu rosto. Cada passo em sua direção era um verdadeiro esforço visto que suas pernas fraquejavam e a figura dele brilhava com o choro acumulado em seus olhos. “Eu estava com medo. Muito medo, oppa.” – Pi… Pierre… – disse num fio de voz, um sopro fraco e melancólico. Ele era pele e ossos, as bochechas cavadas e olhos inchados, uma casca, uma concha que a encarava com um olhar triste e seus olhos tristes eram os dela. Via as trevas ao redor dele, vozes sussurrantes e sombras sugando cada parte de si. Ao olhar para seus braços vias grandes manchas de escuridão puxando sua felicidade, objetivos, tudo. Via naqueles lábios rachados e cortados cada pedaço de sua alma que se conectava a dele, observava de dentro os seus monstros e ouvia os gritos vindos dele. Ele tinha tentado tirar a própria vida e ao imaginar a cena, o sangue caindo, escorrendo e pingando como pequenos contadores, indicando as horas passando, a vida morrendo, os demônios se esvaindo assim como os anjos. No silêncio do quarto o barulho vinha de todos os cantos, os pedidos de ajuda, as súplicas, e quando olhou para si mesma viu que também vinham de si. “Por que você me deixou sozinha? Eu estava com tanto medo, oppa.” Seus passos pesavam como se estivesse usando botas de chumbo. Queria gritar e expulsar aquelas sombras ao redor dele, queria com sua luta tirar aquele peso que sentia vindo daquele ser que emanava uma tristeza muito maior que era capaz de suportar. Suas pernas tremiam e cada vez que seus pés se moviam sentia que iria cair. “Por que você se machuca tanto? Por que não se apoia em mim?” Aquele garoto significava tudo para ela. Tudo.
Não tinha memórias concretas, mas sabia que ele era uma parte dela, uma parte que surgia de seu coração e espalhava suas raízes até suas pernas e que nesse momento encontravam-se tão rígidas que era impossível respirar. Estava sozinha, completamente sozinha. O tempo todo, todos os dias, os instantes, cercada de pessoas que não se importavam com ela realmente e tudo que a envolvia era um gelado de um espaço vazio e grande. Mergulhava dormente numa água escura e viscosa da qual não conseguia se livrar, o tempo todo se perguntando o porquê de estar viva, seus objetivos. Era tão sofrido, tão dolorido acordar todas as manhãs e não encontrar ninguém ao seu lado, saber que ninguém a esperava. Encarar o escuro enquanto ele a encarava de volta. Não sabia que se sentia daquela maneira até aquele instante. Tentava bater os braços, as pernas, nadar para a superfície, mas quanto mais nadava, mais afundava. “Pierre!” Sorria, mas quando se encontrava solitária no meio da noite todos os sorrisos pareciam vagos, estranhos, distantes. Como poderia conter vida e morte vivendo ao mesmo tempo dentro de si? Cada frase que voltava à sua mente era outra pontada em seu peito. “Por favor… Volta… Volta…” Nada mais dissera, até parar exatamente à sua frente, onde os chiados, a dor, o sentimento de garras rasgando sua pele se intensificava. Seus lábios não se moviam, mas mesmo assim escutava vozes, sussurros. Trêmula e pesada sua mão se ergueu enquanto soltava o ar entrecortado preso em seu pulmão. Foi quando seus dedos tocaram suavemente a pele fina onde o cabelo dele começava que sentiu um choque subir por suas veias, a transportando para um outro tempo.
Abraçada aos próprios joelhos, enfrentando a própria impotência, Pietra soluçava em sua voz infantil. Por que aquelas meninas fariam algo tão horrível? Tudo que queria era ser amiga delas, então por que não permitiam? O que havia feito? Era sua culpa? Tinha escutado tudo pela porta da sala. “Como vamos nos livrar daquele estorvo?” “Não sei, por que não trancamos ela no armário e saímos?” “Ela é tão idiota, fez nossas lições e carregou nossos materiais o dia inteiro. Talvez seja útil.” “Útil? Não estou nem aí, ela é insuportável. Ela se faz de inocente para chamar atenção dos garotos, ela está desesperada para dar para eles.” “Haha! Que nojento! Quem iria querer aquilo?” “Será que ela tá voltando? Espero que tenha comprado os bolinhos certos, ela é tão burra que talvez confunda todos. Ela realmente acha que alguém acredita nessa história de boazinha?” Era inverno e o clima congelante, mas mesmo assim ela chorava do lado de fora, suas articulações vermelhas e doendo pelo frio. Pierre a encontrou ali e rapidamente a repreendeu por estar do lado de fora, tirando o próprio casaco e colocando em volta de seus ombros. – Frère, eu sou nojenta? – perguntou pálida como a neve que começava a cair. O garoto revirou os olhos com um sorriso gentil, sorriso gentil que mostrava apenas para ela. – Quem te disse isso? Você é muito boba mesmo. Não devia acreditar em tudo que falam. As pessoas são muito idiotas as vezes, e burras. Você é linda. Me diz quem te disse isso. – Pietra abriu um sorriso – Promete? Promete que não sou nada do que elas falaram? – ele concordou com a cabeça e segurou seu rosto. – Seja quem forem elas, são mais bobonas que você. Em quem acredita? Nelas ou em mim? – a garotinha sorriu mais um pouco com os lábios fechados – Em você, claro. – fez um meneio de cabeça e ele continuou – Então. Acredite em mim, elas são apenas pessoas muito más com medo de você. – seu irmão pegou sua mão e virou sua palma para o lado de cima, a mostrando as linhas que a cruzavam – Está vendo essa linha aqui, que parece um S? – a garota esticou um pouco o rosto para poder observar e concordou com a cabeça – Isso significa “Souviens-toi de moi” (Se lembre de mim). Toda vez que alguém disser algo ruim, olha pra sua mão e lembra que seu irmão está sempre certo, não eles. – ela riu e tocou a ponta do nariz dele – Promete que vai me salvar onde eu estiver? Que nem aqueles super-heróis? – ele apenas apontou para sua mão e repetiu – “Lembre-se de mim.” Eu vou te salvar. Eu nunca erro, não é? – sorriu e ela protestou cruzando os braços – Você é muito convencido, frère. – Pierre bateu no topo da cabeça dela e negou com o rosto – Estou brincando, bobinha. Vamos, eu compro um chocolate quente pra você. Mas só hoje, viu? – levantando-se animada ela segurou a mão dele e o puxou com força – Você diz isso mas compra todo dia, Pierre!
Soltou o braço assim que a memória a atingiu como um raio e ele pendeu ao lado de seu corpo imóvel. Olhou para suas palmas e sussurrou – Souviens-toi de moi. – ergueu o olhar e repetiu, dessa vez levemente mais alto, a voz ainda vacilando – Souviens-toi de moi. – mordeu o lábio inferior e quis fugir, fazer aqueles sentimentos pararem, doía tanto, tanto, tanto, era tão insuportável. Como machucava. Nadava sozinha naquele mar escuro e frio, não conseguia escapar, até que parou de lutar, parou de brigar contra a água pegajosa. Fechou os olhos aceitando seu destino. Até que olhou para o lado. Não estava sozinha? Lá longe outra pessoa também aceitava seu destino de afogar-se. Pierre. E então finalmente pôde sorrir, suas lágrimas misturando-se à água, afinal, nunca esteve realmente sozinha. “Mon frère, me desculpe não ter te visto aí. Eu lembro de você, eu lembro. Mon frère, obrigada… Agora não terei que afundar mais sozinha.”
Aquela voz foi capaz de trazer memórias que Pierre tinha antes esquecido, fosse por causa intencional ou pelas substâncias que costumava ingerir. Mas ver Pietra, ouvir sua voz o chamando e nossa, como tinha sentido falta dela, era uma experiência tão fora de si que ele achava realmente que tinha morrido. Seria aquele o paraíso que ele deveria ter recebido? Acontecera algum erro e ele fora mandado para o lugar errado? Talvez dali a alguns segundos ou minutos, alguém viria para lhe escoltar de volta para o inferno, lugar este onde merecia. A morbidade que o acompanhava era tremenda que ele até mesmo achou que Pietra estava ali para ler seus pecados, não era isso que faziam após a morte? Saber quantos erros para medir com as boas ações e dessa forma decidir para onde iria tal pessoa? Ele poderia poupar-lhe todo o processo apenas dizendo o que merecia, mas queria Pietra, nem que sua mente estivesse brincando consigo. Por que vê-la ali, logo naquele período de tempo em que nada podia fazer a não ser olhá-la. Sabia o que ela via, porque olhar Pietra era como olhar para si, e se odiou ainda mais por saber que ele mesmo tinha feito aquilo com ela. Os cabelos da cor mais pura do sol, uma herança da parte francesa que compartilhavam da mãe, caíam em cascatas por seus ombros e ela era tão bela. Tão bela quanto um anjo! E fora isso que tinha sido durante toda sua vida, até mesmo depois de sua morte. Ah Pietra... por que teves de morrer? Por que me deixastes para ter de arcar com as consequências da solidão? Sua mente era uma bagunça, mesmo que não ouvisse as vozes, Pierre estava se ouvindo. Pela primeira vez em muito tempo, Pierre voltava a ouvir a si mesmo dentro de sua cabeça, pensamentos soltos, inconclusivos e dispersos, mas era sua voz, com o sotaque forte da língua mãe. Não podia fazer nada mais do que olhá-la, porque havia chegado ao estado em que nada sentia, apenas dor, fosse essa física ou psicológica, ele não sabia. Mas não importava, porque doía, doía, doía. Era tão ruim assim ter alguém que você amava de volta? Talvez fosse, porque ele sabia que ela não era real. A Pietra que se encontrava em sua frente, a apenas alguns passos de distâncias que poderiam deixar de existir se ele se levantasse e fosse até ela, a abraçasse forte e dissesse o quanto a amava; não, aquela Pietra era de mentira.
O fato de ele estar ciente de que ela não era real, seria um fator bastante estranho se não soubesse que talvez fosse pela quantidade de tempo que passara dormindo e sabia dos remédios que estava tomando, então era claro que ele estaria consciente de certas coisas. Sabia notar a diferença quando o mundo parecia imaginário, quando como estava sob influência de substâncias nocivas, e de quando parecia real, quando todas as vozes voltavam e os rostos o faziam tremer de frio quando o alcançavam. Mas talvez, só talvez, ter Pietra ali significava que ele ainda estava tentando. Tentando se dar uma chance porque ela era a única esperança que ele vira no mundo; um mundo completamente deturpado de sentimentos e amor. Pietra era a estrela mais brilhante do mundo, que estava rodeado em trevas. Quantas e quantas vezes compartilharam sussurros no quarto dividido, mesmo quando ela já era grande o suficiente para ter um quarto para si mesma, mesmo quando ele escondia segredos tenebrosos dela. Segredos compartilhados debaixo de cobertas e feitos de forma apressada, pois sua mãe brigaria com eles, caso os ouvisse acordados ainda depois de tamanha hora na madrugada. Mas como era bom, poder quebrar as regras com alguém que o entendia, mesmo que ela fosse mais nova, mesmo que fosse uma menina, mesmo que não conhecesse parte do mundo que ele tinha visto. Pietra era sua luz, aquela era uma frase recorrente nas páginas velhas de seu diário, que tinha virado um depósito de palavras que se entrelaçavam, formando versos, poesias que ninguém leria porque ele nunca permitira. Saber que algo não é (mais) real não nos impede de ansiar por tal coisa. Por isso que Pierre sempre fazia suas preces apenas e unicamente por causa de Pietra. “Deus por favor, onde quer que o senhor esteja, proteja minha luz. Faça com que ela esteja feliz onde quer que esteja.” Não que ele recebesse qualquer tipo de resposta, nunca recebera. Mas ver Pietra doía tanto que talvez seu coração tivesse congelado em seu peito.
Ele só conseguia ver ela, suas emoções tão à flor da pele que talvez, não talvez, e sim com certeza, Pierre estava se vendo em frente aos seus próprios olhos. As emoções dela sempre tão claras que ele sentia como se fosse chorar a qualquer momento. O som engasgado que saiu de seus lábios quando a mão dela tocou a dele e aquilo foi o interruptor que faltava para o corpo de Pierre vir à vida. Viveu novamente, por conta dela, mesmo que o contrário tivesse acontecido por causa dele. Pierre gostava de que a versão que sua mente tinha projetado de Pietra o permitia até mesmo conseguir sentir seu toque, macio e caloroso como sempre, mas ela era. Tão ela que a dor deu um intervalo para que a ausência se tornasse majestosa em si. Havia uma teoria no mundo que nunca ninguém se sentia vazio, porque até mesmo o vazio era um sentimento preenchedor, em sua solitária companhia. Seria verdadeiro tal argumento tão confuso, mas que fazia tanto sentido? A dor sumindo, Pierre se encontrou novamente tão são quanto tal indivíduo poderia estar. Sua alma gritava pela dela, e por um momento, Pierre se viu vendo flashbacks de sua infância, de quando segurava um corpo minúsculo em seus braços e a primeira vez que sentiu um amor tão puro quanto podia ser ao ouvir uma garotinha gritando seu nome depois de receber o prêmio de melhor aluna. Mas a ausência se fez tão presente que Pierre passou a perceber que algo também faltava. O ar. E as consequências de algo como aquilo foram logo evidentes quando sua visão turvou. _Pietra._ Consegui expelir, o único traço de ar restante em seu corpo e notou que a causa daquilo tudo fora que ela havia soltado sua mão. O poeta perturbado dentro dele, que era tudo menos um covarde, pôs-se ainda mais ereto na cama, sentando de uma forma tão dolorida devido às limitações, mas ainda assim sem desistir. Pierre gritou internamente, porque por fora nada podia fazer. A voz dela ao dizer seu nome ficou repetindo em sua mente até que ela pronunciou outra coisa e dessa vez Pierre se sentiu overwhelmed de sentimentos, tanto bons quanto ruins, mas nada daquilo importava porque sua Pietra, criada por sua mente, estava ali lhe dizendo coisas que somente ele lembrava. Aquilo confirmava ainda mais que ela tinha sido projetada pela doença que devia estar acontecendo dentro de sua cabeça. _Je ne me trompe._ Sussurrou, por ainda não confiava em sua voz. Mas suas mãos voltaram à vida novamente, pela segunda vez em menos de um minuto e ele tomou a mão dela de volta para si, porque o contato com Pietra era tão necessitado, tão precioso que ele apenas queria ficar daquela forma para sempre. _J-Je ne me t-trompe._ Disse novamente, dessa vez entre soluços que escaparam de sua boca porque ele não conseguia mais segurar as lágrimas que ameaçavam cair desde que havia posto seus olhos nela. _Je vous manqué. Por favor... por favor, não vá mais embora._ Ela tinha crescido tanto, mas ainda era sua Pietra. E mesmo não sendo real, o que doía em Pierre de forma absurda, ela estava ali. E ele não a deixaria ir uma terceira vez.