Quando a porta de vidro se abriu, o sininho que anunciava a chegada de um novo cliente assustou San. Com os olhos arregalados, ele se virou na direção da entrada da floricultura, se afastando do pequeno buquê que aparava acima do balcão. O dia tinha começado lento, poucos carros estacionados nas ruas e poucas pessoas andando pelas calçadas. Na atualidade, todos sempre estavam muito apressados para chegarem ao trabalho, e os únicos estabelecimentos cheios eram os dinings, com suas garçonetes de patins e pisos quadriculados. A floricultura de San não tinha muitos clientes, por vezes um ou outro casal ou uma senhora. Porém, assim que viu o rosto do homem que tinha acabado de entrar, teve que reprimir um sorriso. É o de sempre, pensou.
— Bom dia senhor, como posso lhe ajudar? — o atendente disse formalmente, apesar de saber que os dois tinham praticamente a mesma idade. A etiqueta que lhe fora ensinada pelo patrão não devia falhar.
O rapaz — um menino, praticamente — ajeitou o chapéu de feltro de vestia sobre os espessos cabelos escuros, puxados para traz cuidadosamente. Ele vestia um sobretudo hoje, uma vez que o clima lá fora estava frio; um início de outono particularmente gelado, mais do que o ano anterior, 1951. Abaixo dele, o terno cinzento de sempre, com leves amassados aqui e ali, as marcas de desgaste clareando o tecido em algumas partes. Seu rosto, livre de qualquer marca a não ser a pequena pinta abaixo do olho esquerdo, exibia a expressão relaxada que San achava tão charmosa. Mas havia certa tensão em seus ombros e na maneira que ele esfregava as mão ao se aproximar do balcão de vidro no centro da loja, olhando para cada canto e cada flor que conseguia achar, menos para o atendente à sua frente.
— Eu... gostaria de um buquê de peônias.
San o encarou por alguns instantes. Aquele rapaz vinha à sua floricultura, naquele mesmo horário, toda manhã, há pelo menos dois meses. Todos os dias, pedia um buquê de uma flor diferente, pagava em dinheiro e sorria timidamente. Em alguns dos dias, quando devia estar se sentindo mais feliz, dizia mais algumas palavras, quase sempre comentários sobre as notícias do dia ou de como estava o clima. Sempre olhava San nos olhos durante o tempo todo, o tom escuro deles contrastando com sua pele clara.
— Peônias... — respondeu San, percebendo que havia um leve tom de decepção em sua voz. Por que? Ele era apenas um cliente. Um regular, bonito e simpático, apesar de misterioso e pouco falante. Mas ainda era apenas um cliente. Tudo bem se não olhasse em seus olhos, ele não era obrigado a isso.
San tinha uma mania, uma péssima mania; ele sempre fora sonhador demais, imaginativo demais. Traçava perfis de pessoas que nem conhecia a partir de uma única ação, delegava sentimentos e pensamentos à elas sem se preocupar se eram mesmo delas. Moldava-as como queria, como achava que elas seriam. Dava significados a tudo que faziam. E ele já tinha dado uma bronca em si mesmo em relação ao que pensava desse cliente em particular. Muito provavelmente tudo que você percebe que ele faz, não significa o que você acha que significa. Não é por que ele sorri que está feliz em lhe ver. Não é por que ele volta todos os dias que seja por sua culpa.
— Com... licença? — San ouviu a voz do menino como que vinda de um lugar distante, despertando-o do torpor em que tinha se colocado. Percebeu que estivera todo esse tempo encarando-o descaradamente, enquanto sua mente voava a quilômetros por hora com todos seus pensamentos. Merda, pensou, acabei de dar uma de idiota.
— Ah, sim, me perdoe. — O florista virou-se de costas rapidamente, sentindo suas orelhas esquentarem de vergonha. Concentre-se, Choi San. — Já vou providenciar seu buquê.
Tudo passou em uma questão de minutos, mas que para o atendente pareceram eras. Suas mãos tremiam levemente enquanto ele escolhia as flores mais bonitas e as juntava cuidadosamente em um buquê, enrolado on papel celofane. Depois de colocar um laço branco para finalizar, se virou novamente e o entregou ao rapaz. Dessa vez, seus olhares se encontraram por um segundo, antes de se afastarem novamente, mas mesmo assim, San pensou ter visto um pequeno sorriso no canto da boca do outro.
— São 3 dólares — disse, e, sem dizer mais nenhuma palavra (nem mesmo obrigado), o cliente regular entregou-lhe o dinheiro, acenou com a cabeça e saiu pela porta da frente, ativando mais uma vez o sininho que San não sabia se gostava ou não.
Já estava escurecendo quando san chegou em casa. Morava em um apartamento há quase uma hora de bonde de sua floricultura, e não era nem grande nem pequeno. Era suficiente.
Ele acenou com a cabeça para o porteiro, quando adentrou o pequeno e sujo saguão. Estava cansado; o dia tinha sido cansativo, e durante todo o tempo, as imagens do seu cliente regular — o seu mais querido cliente — agindo diferente do usual o assombraram. Talvez San estivesse assim por não gostar de mudanças, por se sentir perdido e frustrado quando algo com o que já estava acostumado sumia de uma hora para outra, sendo substituído por incerteza. Talvez fosse por ter se sentido frustrado consigo mesmo, ficando encarando-o por tanto tempo; colocava a culpa em si mesmo, achava que o efeito viera por não tê-lo atendido direito.
Ou talvez, fosse por simplesmente ter tido seu coração partido.
— Boa noite, senhor Bong — disse suavemente para o velho senhor, inclinado em sua cadeira lendo o jornal do dia com os óculos de meia lua equilibrados na ponta do nariz. Ele se assustou levemente com a voz de San, e levou alguns segundos para reagir. Ele já está muito velho, pensou San. Não é hora de se aposentar?
— Ah sim! Senhor Choi, tem uma entrega pro senhor.
Uma entrega? San parou onde estava, a mente se agitando assim que registrou as palavra do porteiro. Como assim? Quase ninguém que conhecia tinha seu endereço, com a exceção de seus pais — que estavam muito longe dali para ligarem. Devem ser cartas, ou contas atrasadas, pensou. Não havia a mínima possibilidade de ser outra coisa.
Mas, assim que ele se aproximou do pequeno balcão, e aceitou do velho senhor uma caixa de cor escura embrulhada com um laço branco, não pode evitar de pensar o que poderia ser. De quem poderia ser. Ele girou a caixa algumas vezes; não havia nada escrito do lado de fora dela, nem remetente nem destinatário.
— O senhor sabe como essa caixa chegou aqui? — perguntou, uma vez que não poderia ter sido entregue pelo correio.
— Foi um rapaz durante a tarde — ele ficou a cabeça, e San quase conseguia ver mecanismos funcionando em sua mente, fabricando a memória que tinha sobre o remetente. — Um pouco alto, cabelos pretos. Tinha uma pinta abaixo do olho, eu acho.
San prendeu a respiração. Não... pode ser. Seu coração martelou no peito como nunca antes, e suas mãos apertaram a caixa com mais forças segurando-a contra o peito trovejante. Deve ser uma coincidência, pensou. Ou uma alucinação. Certamente não poderia ser verdade.
— O senhor está bem, senhor Choi? Está meio pálido — o porteiro falou com a voz pequenina, e San retribuiu seu olhar, tentando acalmar a si mesmo com a respiração.
— Está... tudo ótimo. — disse, tentando soar confiante. Porem, o olhar desconfiado do senhor Bong mostrava que não tinha sido convencido. — Obrigado.
Teve que conter cada célula de seu corpo para que não subisse correndo as escadas até seu andar, o terceiro. Quando finalmente conseguiu abrir a porta do apartamento — depois de derrubar a chave quase dez vezes —, entrou tão rápido que quase tropeçou e derrubou a caixa delicada em seus braços. Sentindo o coração martelando como nunca e a respiração pesada, por conta do susto e da ansiedade, colocou a caixa sobre a pequena mesa da cozinha.
Nesse momento, foi como se o tempo tivesse desacelerado. Cada movimento, desde puxar o grosso laço de fita branca, até desencaixar a tampa grossa da caixa preta, parecia se estender por horas. San nao sabia o que sentir, sua mente ia e voltava entre o presente e o passado. Todas as memórias que tinha do cliente misterioso, cujo qual nem sabia o nome, ou o que fazia. Não sabia nada sobre ele, agora que parava para pensar, mas, mesmo assim, tinha desenvolvido um carinho inexplicável por ele. Se lembrava de cada flor que tinha lhe vendido. E pensava que esse carinho tinha sido arruinado pelo dia de hoje, mas assim que o porteiro descrevera o remetente da estranha caixa, não pode evitar de visualizá-lo em sua mente.
E então, abriu a caixa. O rapaz franziu a testa para o conteúdo: papel de embrulho cor de creme, e, acima dele, milhares de vidrinhos quadrados, cheios de um líquido transparente. Ou, ao menos, era o que pensava, mas ao pegar cada um em suas mãos, viu que muitos deles tinham colorações sutis, amareladas ou arroxeadas. Ele contou cada um; 64. 64 frascos cheios de água colorida. Que tipo de pegadinha era essa?
San estava começando a se irritar com o “presente” quando viu algo abaixo do papel de embrulho. Um quadrado branco, com letras escritas delicadamente em tinta escura. Ao pegar o cartão, sentiu seu coração parar no peito.
“Um perfume para cada linda flor. E todos para a flor mais bela.”
Seus dedos estavam trêmulos quando ele largou o cartão sobre a mesa, e pegou cada frasco na mão, abrindo-os um a um. Não era água; era perfume. Cada fragrância mais delicada, mais doce e mais inebriante do que a anterior. Pequenas etiquetas identificavam-as com os nomes das flores: cérbera, amarílis, gardênia. Margarida. Peônia. San sentiu a visão embaçar e, logo em seguida, algo escorreu pós suas bochechas. Sua mão subiu para enxugar as lágrimas que tinha deixado escapar sem querer, emoções o sufocando como nunca. Então era verdade, pensou.
Cada olhar, cada sorriso, cada palavra trocada. Cada coisa que San imaginara. Era tudo verdade.
E, quando a mão tocou o rosto, ele sentiu o cheiro de cada um dos perfumes misturados na própria pele. E soube que, depois daquele momento, nunca mais sentiria nada como aquilo. Por que não eram só perfumes.
Eram amor em forma de aroma.