-...uma máquina do tempo? - falou deixando cair a caneta esquisita e quente no chão. - Depois eu me preocupo com você.
Continuou procurando pela sala por uma pasta verde, onde deixava seus documentos originais.
-Quando precisa não se acha essas coisas! - Falou irritado pra sí.
Após alguns minutos procurando ele pensou naquele brinquedo estranhamente nostálgico, que não lembrava onde havia conseguido. Foi até a caneta pegá-la, colocou no bolso mais externo de sua mochila, que usava como estojo por anos já, desde que ganhou a mochila da mãe por ter entrado na faculdade. A última vez que havia pegado na pasta foi no dia de ir fazer sua matrícula. Lembrava que quando chegou, perto da hora do almoço, colocou a pasta na gaveta mais a direita da estante, e num susto com essa lembrança foi correndo procurar ela ali, onde estava soterrada por tudo que era papel.
Guardou a pasta na mochila, fechou as janelas da sala. Foi correndo pegar as chaves do carro e foi embora.
Sentou em sua mesa do trabalho e viu seu calendário de mesa ainda em agosto, esqueceu de virar a página na saída do dia anterior, como sempre fazia no final de cada dia. Apertou o botão de ligar do computador e mudou a página do calendário, abriu a mochila e depositou a pasta em sua mesa. Olhou para o calendário do computador e viu “31/08”.
-Caralho, que agosto não acaba nem quando ele já acabou! Jurava que hoje era dia primeiro de setembro.
-Num é? Agosto sempre dura 3 meses a mais que os outros meses. - seu colega de mesa falou num tom bem humorado.
Chegou em casa, depois de virar a página do calendário no final do expediente, descongelou um prato de comida pronta que sempre havia no freezer, sentou no sofá com a tv ligada, em sua rotina noturna. Com uma cerveja no braço do sofá ficou conferindo seu celular antes da primeira garfada, viu uma piada sobre agosto nunca acabar e lembrou da sensação estranha de achar que era o dia seguinte. Como se fosse um dejavú (djavan, como costumava brincar) só que mais pastoso, não havia um momento certo de onde aquela sensação começou e ela não saiu por completo até o meio da tarde, que ficou atolado em suas demandas.
-E amanhã ainda tem aquela merda de questionário no RH. - falou para sí pensando que tinha que levar sua carteira de trabalho, já que nunca lembrava os números. - Como se eu pudesse mandar alguém no meu lugar pra responder as perguntas…
As 2 da manhã, deitado na cama, pensando se era possível, se o quarto estivesse ainda mais escuro, dormir com o olho aberto, já que não ia ver nada, igual com os olhos fechados.
O teto surgiu no escuro, iluminado pelo celular, que ligou a tela com alguma notificação. Olhou a tempo de ainda ver no visor: 2:31. - Tô fudido, só 4 horas de sono.
A cada dia que passava pior ficava sua insônia, fruto de stress no trabalho, diziam alguns amigos quando contara em uma noite que saíram para comer.
Acordou no susto com o despertador. Olhou o relógio do celular que marcava 7:30. O terceiro alarme disparado, o último dos 3 que sempre colocava. Pulou da cama pensando brevemente no café da manhã que seria pulado mais uma vez. Colocou a primeira roupa que achou e correu para a sala pegar sua carteira de trabalho. Não estava na gaveta que sempre guardava.
-Puta que pariu, cadê essa merda? - gritou já pensando que falaria que um motoqueiro fechou ele, desequilibrou e caiu, e teve que ficar pra ajudar o cara. Guardava essa desculpa a 2 semanas, quando viu um motoqueiro no corredor tirando a moto no susto da frente de um carro mudando de faixa.
-Cadê essa porra? - perguntou irritado olhando o resto da estante.
Abriu a mochila para pegar o papel informando quais documentos precisava levar, para ter certeza que estava procurando algo realmente necessário. Abriu o bolso mais de fora e viu o objeto metálico de um amarelo queimado, cor de bronze. Pegou ele tentando lembrar o que era e como o havia conseguido.
Era bem mais pesado que seu tamanho o fazia pensar. Apesar de parecer com uma caneta cara, não havia tampa para puxar. Talvez se rodasse, já tinha visto canetas que a tampa era de rosquear. Sentiu ela mexer um pouco, mas com muita resistência. A tampa devia estar emperrada.
Segurou com mais força e tentou outra vez. A tampa girou, mas quando soltou a pressão a tampa voltou pro lugar, como se uma mola dura estivesse fazendo aquela resistência toda. A coisa começou a esquentar de leve.
-Será que é uma máquina do tempo? - falou e deixou a caneta cair no chão por ter esquentado demais. Pensou na sensação estranha do dia anterior, o dia que foi dormir muito tarde e agora estava atrasado demais para pensar nessas coisas. - Depois eu me preocupo com você. - e continuou procurando pela sala a sua pasta verde de documentos.