Saudade que não cabe no tempo dos abraços que não foram dados
Saudade que não faz barulho, igual lágrima reprimida
Que a gente não vê, mas que inunda o coração
Saudade do tempo que era completo
E agora é amor
Partido
Saudade, pai!
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Saudade que não cabe no tempo dos abraços que não foram dados
Saudade que não faz barulho, igual lágrima reprimida
Que a gente não vê, mas que inunda o coração
Saudade do tempo que era completo
E agora é amor
Partido
Saudade, pai!
Se perder
A dor continua, persiste, cresce… Dizem: “o tempo vai ajudar, vai amenizar…” Eles mentem! A dor não diminui. Ela se torna pior, bem pior! É mais intensa, latente, sufocante…Com a horrível sensação de que a vida até o dia em que tudo mudou não existiu, o que é uma contradição, pois se sofro agora é por ela.
É uma vida nova, cheia de tristeza, medo e angústia, uma paralisia que amedronta, dói todo o corpo, tão acostumado a agir, a correr…
Não consigo não chorar, não consigo ver propósito em nada, me arrependo do que não fiz, do que não disse e o “se”, o pronome com o qual nunca me importei, me assombra. “Se” eu tivesse sido mais presente, se eu tivesse feito/agido diferente, “se” eu perder mais alguém que amo, “se” eu passar pela vida em brancas nuvens, “se” eu morrer só, “se” depois for nada…”se”…
A minha bússola era o meu pai; o meu apoio pra agir, pra ser; quando conversávamos ou nos abraçávamos sem ao menos falar era ter de volta a minha sanidade. Ele sabia o que se passava em mim, sabia o claro e o obscuro do meu coração.
Toda vez que a gente perde algo é difícil substituir. Se for um objeto claro que é mais fácil. Quando se trata de uma pessoa, a máxima “ninguém é insubstituível” perde todo o sentido. Nos adaptamos a substituição, até porque não há outra forma de agir. Mas a perda é sentida todo dia, ela passa a fazer parte de ti e se você deixar ela te envolve na escuridão. Quanto mais você deixá-la te enlaçar mais difícil vai ser encontrar a luz.
A morte traz a morte pra nossa rotina. A gente passa a ter medo, medo de faltar para quem amamos, medo de que quem amamos nos falte, medo de não aproveitar bem o tempo que nos é concedido. E não é só a morte que passa a se fazer presente, o tempo também se instala.
Vc pede que o tempo passe, para que assim a dor diminuía (porque ela não passa). E ao mesmo tempo pede que ele não passe porque vc tem medo de esquecer o passado, as feições, a sensação que o abraço causava e, principalmente, porque vc tem medo de perder de novo.
Meu pai tinha muito medo, não gostava que eu e minha mãe saíssemos juntas, odiava quando eu viajava a trabalho e ficava numa enorme tensão quando uma de nós estava doente. Eu sempre o chamava de exagerado, trágico…Mas eu não sabia! A morte não fazia parte da minha vida. Só que já havia se instalado na dele, quando o seu pai morreu, da mesma forma repentina…
Meu avô sempre esteve presente na nossa família através das histórias que papai contava. Eu notava todo o amor e toda saudade que ele sentia. E por isso ele foi tão amoroso comigo, porque ele sabia o que era a dor de perder alguém e a falta que esse alguém vai fazer na vida de quem ficou. É como eu vi numa das milhares de reflexões que procurei pra ter um alento: não é a pessoa que morre, não é ela quem parte. Nós que partimos pra ela, somos nós que não vamos mais abraçar, conversar, tocar…
A maneira como papai falava do vovô sempre me comoveu e ao mesmo tempo me incomodou, porque pensava: quando vai chegar a minha vez? E eis que ela chegou e da mesma forma que foi probmeu pai, repentinamente.
A tristeza e o sufoco dos primeiros dias não se comparam aos dias atuais. Talvez seja pelo fato de: “é, realmente aconteceu! Você tem que se conformar e seguir em frente!”
Me dizem: “o tempo vai amenizar a dor”, “vai diminuindo aos poucos”. E eu vivo cada dia dessa nova vida buscando numa fé que não tenho uma forma de continuar, pedindo ao tempo para que ele passe e traga a resignação, a tranquilidade pra mente e pro corpo e que seja solidário comigo, contendo a morte e fazendo eu ver de novo o lado bom de viver.
Descobri que perder meu pai foi me perder também. E que amar é perder. Todo dia você perde um pouco quem ama. Todo dia alguém perde um pouco você.
Quanto vale um abraço ?
A vida, com o passar dos anos, torna tudo banal. O beijo se torna ordinário, dizer “te amo” sempre fica pra depois, o abraço sempre fica pra depois...E só depois a gente percebe o óbvio, que deveria ter priorizado o AGORA, porque depois pode ser tarde.
Eu sempre disse “te amo” pro meu pai e ele pra mim (me dizia até mais que eu, o que me fazia considerá-lo extremamente piegas). Hoje minha mente me diz: não foi o bastante! Sempre beijei a testa do meu pai e ele a minha, uma espécie de benção que a gente se dava: Minha mente: eu demonstrei pouco!
E tínhamos um ritual muito nosso: quando um de nós estava triste ou preocupado com alguma coisa – a gente se abraçava apertado. Eu recorria ao seu abraço muito mais do que ele ao meu. Sempre me ajudava, recuperava, energizava: encostar a minha cabeça no seu colo e ser enlaçada forte por todo aquele amor. Meu pai se foi, nunca mais vamos poder nos abraçar e agora o que todo o meu ser diz insistentemente: eu podia ter abraçado mais, independente do momento.
Nem eu mesma tinha noção do quanto esse toque me fazia bem, me dava forças contra o mundo, me deixava destemida e corajosa. Eu sabia que se algo acontecesse, me vendo sem chão, sem horizonte, ele estava ali, pronto pra me abraçar, sem julgamento, sem cobrança, só amor. E ele tinha o dom de saber quando eu estava necessitando urgentemente do seu carinho. Papai me abraçava e gracejava com seu bom sotaque paraibano: “Olha, que maravilha! Dá certinho na altura (ele com 1.86m e eu com 1.84m), ninguém precisa se baixar!” Enquanto digito essas palavras posso ouvi-lo claramente...
Outro dia, pensando sobre esses momentos e a sensação que eles me traziam, fiquei extremamente preocupada, me questionando: quando eu vou esquecer os traços, a voz, a sensação que o abraço dele trazia? Tenho lembrado diariamente, numa tentativa de manter viva a paz e a segurança que o nosso afago me dava.
E minha angústia vai além! A morte me fez ver o quanto banalizamos a vida, priorizando demais o trabalho; valorizando em excesso problemas e situações que se tornam pequenas diante da falta que um simples abraço pode causar; demonstrando pouco, porque acreditamos que podemos fazê-lo amanhã, só perdendo essa crença quando alguém que amamos nos é tomado.
Essa mesma angústia, porém, me tem sido benéfica, me fazendo priorizar o que de fato precisa ser priorizado; dizendo que amo hoje, sem deixar pra amanhã; pondo meus pensamentos pra fora sem medo; abraçando sempre meus amigos queridos e a minha mãe, que sei que sente tanto a falta do abraço do meu pai quanto eu.
Mesmo na ausência, meu pai ainda me ensina. Pena que percebi a importância do seu abraço tarde demais. Só agora me dei conta do amor, segurança e cura que ele carregava.
A tristeza é parte de mim e talvez seja pra sempre porque não tenho o abraço que sempre me protegeu e cuidou (mesmo sem saber). Pai, o que eu não daria para abraçá-lo uma vez mais?
Nunca pense que o abraço é um gesto simples e, portanto, banal. Não é! Ele é muito mais que o melhor lugar do mundo, é a personificação do mais puro amor.
Carta aberta a um solitário (a)
Há vários tipos de solidão. Não ter coragem de mudar de vida (ou de profissão) nos deixa isolados com o nosso temor; Não conseguir sair de um relacionamento abusivo é conviver apenas com o medo; Esconder a sexualidade é estar sozinho, vivendo uma vida que não é sua…Enfim, são muitas “solidões”. Acredito que cada um tenha a sua, que depende da sua história de vida, dos seus medos e demônios internos. Falando de mim, a minha solidão se realizou na perda do meu melhor amigo, do meu mentor, da minha segurança, da minha calma: o meu pai. Pra mim, a solidão vinda do luto é a pior de todas, porque ela te isola, desconecta, esvazia…
O que antes tinha cor passa pra uma escala de cinza, o que que movia teus dias passa a ser perda de tempo, a vida cheia de potencial se torna nada. E no auge da solidão o medo de não ser nada te deixa. Por fim, a solidão acaba, existindo apenas o vazio total de emoções.
Ninguém imagina ou observa (às vezes se afasta, até porque vc pediu por isso) porque o dia é frenético, a vida ( a sua já parou, a dos outros não) é urgente, as dores se sobrepõem e tá tudo bem, vc mesmo preferiu assim, escondendo tristezas em sorrisos pra Instagram. Porém, tudo está muito longe de estar bem, tá tudo muito perto do irremediável. “Como aconteceu isso? Eu vi ele (a) sorrindo ontem…(nos stories)”
A vida vai te jogar no chão em algum momento, não tem como escapar, principalmente quando se trata de perdas. Mas ela é tão esperta, tão sábia, acumuladora de milênios de avanços, sofrimentos e conquistas, que ela ao mesmo tempo destrói, também é benevolente, tocando no teu vazio de alguma forma. O desafio é: estar aberto a isso, ao sinal que a vida vai te dar. Pode ser sútil ou não, pode até ser outra perda…mas, o sinal vai acontecer. Vc vai estar pronto pra ele? Muito provável que nao, mas pode pedir ajuda pra se preparar.
Não vai ser fácil! Nunca é fácil se reerguer, ver cores onde tudo já se tornou negro e, especialmente, sentir medo de novo, porque sentir medo é viver. Todo dia tente (re)viver um pouco e se não der certo naquele dia, tente no próximo e no próximo, até que num dia desses tantos vc vai notar uma manchinha de cor invadindo a tua escuridão…Esta nunca mais irá embora, não tem como, vc se torna outra pessoa com a solidão. Mas, se ela te transformou/ dominou, vc também é capaz de domá-la.
E não se esqueça, o trunfo da solidão é te dar a sensação de ser o único no mundo. E vc não é! Saber disso é o primeiro passo pra aprenderes a dominá-la. Há pessoas que torcem por vc, te amam e estão contigo para o principal nesse processo de (re)viver: falar.
A solidão odeia que vc fale, que vc grite, que vc peça, mesmo que com os olhos, ajuda. Vc pode falar com um amigo, com o seu padre ou pastor, pode falar com o terapeuta ou com o CVV e até comigo, que estou aqui, falando com vc. Só não deixe de falar.
Eu tenho a minha solidão há quase dois anos, ela me maltratou muito e ainda tem uma morada espaçosa dentro de mim. Não posso dizer que vou vencer, mas antes eu não conseguia nem dizer: eu tô tentando.
E vou continuar…
Um início perfeito
“A primeira frase de um livro é fundamental pra gente seguir na leitura”. Era o que meu pai me dizia. Ele amava os livros e tinha o sonho de escrever o seu, o que o limitava era o início. Como montar o conjunto de palavras que vai fisgar o leitor e levá-lo até a última página? O fascínio pelo primeiro parágrafo era tanto que tornou-se uma mania, na qual eu me incluo. Procurar o início de história perfeito. Fizemos isso, até o fim! Os russos são campeões na arte de prender o leitor nas primeiras palavras. “Todas as famílias felizes se parecem, as famílias infelizes são infelizes cada qual a seu modo”, em Ana Karenina, de Tolstói. Dos nossos cânones nacionais, considero que não há nada melhor que Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.” Como superar Tolstói ou Machado, achando a junção de palavras certas, levando-a à imortalidade? Essa pergunta afligiu meu pai durante toda sua vida, onde boa parte dos seus dias era entre livros, autores e suas frases geniais. Hoje essa pergunta me atormenta. Não por querer ser genial, nunca serei. É necessário talento e esforço. Infelizmente, só detenho o segundo. Me amargura porque me impede de externar, da única forma que sei, em palavras, a dor da perda. A perda do que me fazia ver beleza e arte em tudo: meu pai!