Música.
Música.
Só Deus sabe o quanto eu odeio clichês. Só Ele sabe o que foram essas últimas 365 noites. Foram milhões de lágrimas. Respirar me cansava, parecia que sempre seria o meu ultimo folego. Porém, não há como negar — o tempo sempre tem razão. O ponteiro sempre mostra o caminho para a cura. Pode ser que o despertador possa não te acordar na manhã que você mais precisou. Entretanto, ele nunca se atrasa. Nunca.
E então depois de tantos capítulos de terror, quando cheguei a um ponto que apenas esperava o pior sempre depois de outro, o destino me surpreende, e ele pregou a mais inocente e irônica peça. Quem iria imaginar que o grande responsável por me salvar de fantasmas, seria o meu fantasma mais antigo? Aline voltou.
Voltou da mesma forma que surgiu: sem aviso, sem roteiro, sem pedir licença, quando eu menos esperava. E, no fundo, eu não posso negar — existe algo em mim que fica em paz com isso. Querendo ou não, fico feliz em saber que a música continua sendo a grande responsável pelas grandes mudanças que decidem boa parte das escolhas da minha vida. As piores e as melhores. Todas. Cada virada, cada queda, cada reencontro… tudo carregava uma trilha sonora única. Absolutamente todos os momentos que de alguma maneira foram o bombordo do meu destino, foi logo guiado pela arte que eu mais estimo nesse mundo.
Eu a vi sem querer. No momento mais improvável e inocente. Eu vi os sinais em seu braço, a música estava lá. Sempre esteve. Obrigado, Led Zeppelin.
Lá estava ela. Perdida… ou talvez escondida. Difícil dizer. Difícil duvidar. Outra semelhança entre nós: nunca sabemos ao certo onde estamos dentro de nós mesmos. E isso só aumenta a lista de coincidências que já perdi a conta. Pensamentos, medos, sonhos, conceitos e a música — tudo se encaixa de um jeito tão natural. Isso até a assusta, aos poucos ela dá a mesma importância que eu dou. Familiar demais para ser acaso.
Quando estou com ela, o resto desaparece. Eu estou calmo, entretanto o meu coração continua acelerado, no ritmo de uma bateria do Rush. O terror perde o volume. As pessoas somem. Vejo as marcas do meu colapso sumindo em minhas mãos, meu corpo está me dizendo algo. Não há como contestar. O tempo desacelera. Ficam só nós dois… e a melodia.
Ela sempre esteve ali. Sempre. E continua estando — como se fosse a única coisa constante em meio ao caos.
Com Aline não sinto medo dos meus mais recentes fantasmas, não sinto medo dela e nem da necessidade que senti por tanto tempo, que tanto me fez sofrer, que tanto me fez sentir perdido, tão insuficiente. Sempre fui apenas isso para ela. Insuficiente.
É incomum pensar que algo que me feriu antes agora parece… seguro. Como se a dor tivesse sido só uma versão inacabada de algo que ainda estava por vir, algo que se maturou no momento mais correto. Tempo é algo ainda a ser compreendido pelo homem.
Eu me recordo que a música foi feita para unir pessoas e não o contrário, ela estava me afastando do que realmente importava para a minha vida, acreditava que a música estava me machucando. Meu grande erro.
A música nunca afastou ninguém. Ela sempre foi o caminho.
Na minha humilde opinião, a musica foi a forma mais próxima que o homem encontrou para materializar sentimentos, eu consigo entender Neil Peart o momento que ele escreveu Bravado, consigo sentir todas as dúvidas de sua vida, todas as certezas que lhe faltou quando mais quis encontrar e toda a sua libertação que a arte pode o proporcionar. Porque existem sentimentos que não cabem em palavras — só em acordes, apenas em refrões em sua melodia, letras que parecem ter sido escritas para alguém que nem sabíamos quem éramos. Para momentos que viriam acontecer.
Eu entendo isso agora. "And if love remains".
Entendo quando alguém escreve sem saber se está certo ou errado, apenas sentindo. Entendo a dúvida. Entendo o vazio. Entendo a tentativa desesperada de organizar o caos interno em algo que faça sentido — mesmo que não não precise fazer.
E talvez seja isso que me reconforte. Eu voltei a viver, a sentir. Porque esse retorno é um recomeço ou apenas mais um verso bonito antes do fim.
Valentim.
















