Presunçoso de sua parte fazer aquele anúncio, mas ele precisava saber. Era como se tudo que se passara entre os dois até então fosse falso, de modo que aquelas pretensões asseguradas inicialmente podiam não ser verídicas. Asseguraria que, dali para frente, fossem trabalhar apenas com a honestidade, quer Wilhelmina gostasse ou não. Podia ser perturbadoramente franco quando queria, sendo este o motivo pelo qual não suportava as dissimulações. No fim, ela também estava assumindo que o príncipe queria insistir no enlace — como se ele tivesse poder suficiente para decidir acerca daquilo, e não o pai. ‘ O que haveria de diferente para que eu mudasse de ideia? ’ perguntou retoricamente, sustentando o olhar, como se o fato de ser traído não interferisse; só mostrava o quanto ele precisava tratar aquilo como uma negociata, para que não se decepcionasse com a garota. Ilusões passadas não teriam espaço no futuro deles, agora sabia, e mesmo certo encanto teria de ser deixado para trás. Não repudiaria Mina como tinha pensado naquela noite, mas também era como se pudesse vê-la em uma versão mais crua e menos idealizada. Ele não estava tão certo de que ela tivera as melhores intenções como dizia, mas também não via como poderia estar trabalhando em sentido contrário. Efetivamente estudava tudo o que podia sobre a Finlândia, mostrando um interesse até incomum para alguém que ainda não tinha se casado. Ainda assim, Hakon nunca tinha visto isso como necessariamente ruim. ‘ Não é isso que faz de você uma mentirosa ’ disse calmamente, sem querer com essa acusação suscitar outro conflito, até porque ele já tinha deixado claro qual era o cerne do incômodo. ‘ Dedicou-se a mim? ’ soltou riso curto e cético, negando com a cabeça o disparate. ‘ Acho que ambos sabemos que era somente a você mesma que estava se dedicando ’ a parte dele que se importava tinha quebrado no momento em que constatou que a dita dedicação não passava de uma farsa. Hak sabia que ela usava das palavras como sua principal arma, Mina tinha nisso se especializado, e tivera o pai como professor. Era com a intenção de fazer com que o moreno se sentisse culpado que colocava as coisas naqueles termos, e mesmo que se sentisse responsável, não podia deixar que as coisas acabassem indo por aquele caminho novamente. ‘ As coisas… saíram do controle ’ disse simplesmente, assumindo que ela se referia ao seu episódio explosivo. ‘ Foi para isso que me chamou aqui? E você não foi clara sobre o que quer com a Finlândia ’
Assentiu brevemente com a cabeça, os olhos castanhos ainda repousados no noivo, e logo, um suspiro fora solto através dos lábios delicados. " ––– Lembro-me bem do dia em que nos conhecemos. O dia do torneio na Albânia... Acredito que já faz quatro anos. E acho que nunca te falei, mas me encantei por você no momento em que te vi; primeiramente, não apenas como amante, mas como alguém que eu sabia que poderia contar com ––– um alicerce em meio a desconhecidos. E me orgulho de dizer que eu estava certa." E então, os lábios repuxaram-se para os lados, em um relance de sorriso que iluminou o rosto da austríaca ––– era um semblante encantado, porém, melancólico. " ––– E depois de cinco noivados, quando meu rei anunciou que seria a este homem que eu haveria de pertencer..." Os dedos frágeis, então, permitiram-se tocar as mãos alheias, massageando-as delicadamente com o polegar. Hak sabia o quanto Willa gostava de suas mãos. " ––– Foi uma boa notícia para mim. Me casar com você, com o Hak que, você deve me permitir dizer-lhe, eu ardentemente admirava. Estava feliz na possibilidade do matrimônio com alguém que aprecio, que seria bom para mim. Digo, como marido, o seu amigo podia ser uma pessoa deveras... Difícil." Soltou, erguendo discretamente os ombros perante a frase. Nunca havia comentado sobre o ex com Hakon, nem com ninguém. Ele era uma pessoa por quem Willa nutria genuíno nojo. " ––– Com o tempo, fiquei feliz em ver que não éramos como os noivos daqui, que se desprezam ou mal se conhecem. Pelo contrário, somos iguais em tantos aspectos; fizemos coisas grandiosas juntos, eu e você. Eu confio a minha vida a você, mein liebe, há quatro anos, e sinceramente, acreditei que fizesse o mesmo comigo; achei que era digna de sua confiança, mas..." Deixou a frase morrer, como se precisasse recobrar-se dos seus sentidos para continuar a falar o que desejava. " ––– ... Mas é com pesar que vejo que estamos deixando-nos desvirtuar. Estamos trocando as vivências e a confiança construída em quatro anos, por um momento de fúria. Tirando conclusões um sobre o outro a partir de, talvez, um mal entendido. E lhe pergunto agora, meu noivo... Essa troca vale a pena para você?" Os polegares continuavam a afagar as mãos alheias em movimentos circulares, e agora, Willa permitiu-se finalmente segurá-las, entrelaçando delicadamente seus dedos. Foi com a declaração seguinte de Hak que Willa assentiu levemente, deixando tilintar um riso sem humor na garganta. " ––– Muito bem." Declarou, os olhos ainda cravados aos do noivo. " ––– Agora, estou curiosa. Me diga onde você viu a mentira." A dúvida deixava-se evidenciar pelo tom de voz; nada afiado ou corrosivo, mas numa delicadeza quase frágil. Não é como se estivesse agindo como outra pessoa, mas deixando evidenciar seu lado mais fragilizado para Hak ––– um que ela não havia mostrado para ele desde que se conheciam. " ––– Por favor, não me ofenda. Não dessa forma." A cabeça era balançada em negativa " ––– Abra os olhos e os ouvidos para o que você diz sobre mim, e se pergunte se é realmente justo. Posso ter tomado a frente, mas jamais de forma tão egoísta, como você mesmo diz. Hak, você andava sempre tão cansado. Durante o tempo que dividimos os aposentos, eu não fui cega. Eu entendo o que são muitas responsabilidades, e me doía ver você desgastado daquele jeito. Eu queria vê-lo deitar e dormir uma noite inteira de sono pelo menos algumas vezes, para no dia seguinte, estar revigorado, e fazer o seu trabalho de príncipe, de rei, como ninguém jamais o fez. Mas as responsabilidades não se importam com nossas noites de sono, disso eu e você sabemos. Eu quis pelo menos uma vez cuidar de você, não apenas como sua princesa, mas como sua noiva, e como sua amante. Você pode não ter tido ciência dos projetos até o momento da sua concretização, mas eu tinha, e sempre estive do seu lado. Achei que você ia ficar satisfeito... Achei que confiasse." E pela primeira vez, Willa encarou o cenário janela afora. Um céu estrelado, assim como o teto da Torre de Astronomia; e tão logo, deixou um suspiro exausto escapulir os lábios. Ela estava exausta. " ––– Saíram... Saíram sim." Concordou, os olhos castanhos ainda no céu estrelado. " ––– O Lunae Messis provocou aquela reação em mim. Se não fosse a situação, não teria me inflamado; não teria me irritado, nem falado o que falei da forma que falei. Mas você também me humilhou." Você tem que se preocupar em me dar um herdeiro... Legítimo. Eram palavras difíceis de esquecer; como se ela não passasse de um objeto de procriação. " ––– Eu quero que a Finlândia seja o que ela tem o potencial de ser. Grandiosa, potente, invejada. A melhor educação, o melhor exército, os melhores desenvolvimentos... Um país mais exemplar do que já o é. Nunca trabalhei contra isso, e nunca trabalharei. Eu me importo, Hak. Me importo, e sempre vou me importar. Sou leal a bandeira, e sempre serei. E tenho certeza que você também quer o progresso do seu país. Acho que não somos tão diferentes."