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@volupiasolar
nada do que eu fui me veste agora
Mia Couto, Poemas Escolhidos (2016)
Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros sou eu.
Clarice Lispector, em “Para Não Esquecer”. (Editora Rocco; 1.ª edição [1999]).
floating weeds (1959)
Você é foda !
Aparece pra gente conversar. ❤
o teu desapego foi revolucionário e eu plantei uma guerra na nossa nação para te manter preso nas minhas fronteiras. o egoísmo fajuto que eu visto na minha pele, esconde um amor digno de pena. você não me olharia com pena e disso eu sei, mas quem souber de nossa história o faria. mas a história não transparece imparcialidade, mon amour. e a nossa história nunca foi a la Jane Austen, mas sempre se pareceu com um filme do Tarantino. entre tantos conflitos e embates, me vi te querendo ao te enxergar por trás da tua armadura de ferro, tua vulnerabilidade sagaz e tua sapiência astuta. eu te quis pelos teus golpes em falso e por todas as vezes em que você caiu em campo. a tua fraqueza foi a coisa mais forte que me fez te amar e que nos fez construir uma muralha em torno da nossa nação instável e conturbada. cansados e fadigados após tantas batalhas, colocamos tijolos um a um para nos proteger de nós mesmos. finalmente, nosso país começou a ter o respeito dos desatentos que o viam de fora. nossa redoma rendeu os esforços e a população pintava poesias em tinta azul nos muros. éramos felizes e sabíamos disso. tantos outros cobiçavam nossa realidade e descobrimos que liberdade nem sempre é ser livre. o nosso amor nos prendia feito ataduras de velcro um ao outro e não machucava. andávamos costurados pele com pele e podíamos sorrir para quem nos visse. acreditei que estávamos a salvo dentro do nosso mundo, acreditei que as nossas fronteiras nos protegeriam. acabei por nos sucumbir e os escombros da nossa nação são marcadas com o rubro sangue de nossos cidadãos. eu queria que voce soubesse que eu sabia da nossa tragédia e tentei a todo custo evitá-la, mas o destino não é gentil com os bobos. quando morremos naquele terremoto surpreendente que assustou ate mesmo Tókio. o silêncio era gritante ali debaixo das ruínas e nos vi desaparecer da existência humana e se tornar pó. eu e você nos desenlaçamos impiedosamente. nosso país se tornou memória e até hoje destino o meu amor às cinzas que restou de nós e do que construímos. morremos e não construíram nenhuma estátua de mármore sobre nós. talvez porque a nossa essência era de vidro, cuidado, frágil. não suportava esse hiato em que me perdia sem a direção de tua voz, guiando meus sonhos, passos e desejos. porque eu te desejava tanto, te desejava como os judeus desejam a paz de Jerusalém, eu te desejava como o muro das lamentações anseiam pelas lágrimas dos rabinos. eu te desejava como a Dorothy Stang desejava o fim das guerras fundiárias no Xingu. eu te desejava mais que a Anne Frank desejava o fim dos antissemitas. mas a minha lucidez se perdeu quando você se transformou em mudez pura. meu coração foi um pedaço de terra israelense e você veio como um foguete do Hamas deixando a ferida exposta. eu fui o peito da missionária e você foi o Vitalmiro, covarde, disparando seis tiros frios. eu fui a Anne Frank e você foi o tifo que me corroeu em Bergen Belsen.
nasço renasço sempre foi e será assim a vida que me tenho é tudo que morre em mim.
sempre fui o espaço de ausências que explodiram em alguém –quase grânulo– –poeira– nada.
(x)