Hey, little girl Look what you’ve done You’ve gone and stole my heart and made it your own
◥◣ an Wöfflin’s early life point of view ◥◣
O coração de Bridget batia forte como no dia que dera a luz à Veridiana. De fato, era como se ela própria estivesse sentindo as ansiedades, dores e angústias da amiga que já estava há algumas horas dentro do quarto. Descendo alguns lances de escada, a morena encontrava membros da grande família da quais ela e Mina agora faziam parte. Louis estava num canto, com uma carranca que ninguém ousava contrariar, e vários parentes tentavam ignorar a situação, aproveitando o uísque que era servido por empregados especializados, obviamente contratados por Sebastian. Bridget sorriu para si mesma, só então se dirigindo ao futuro papai, colocando o copo cheio pela metade com scotch legítimo na frente do moreno. “Eu sei, soldado. Você não bebe, mas são ordens da Mina. Ela sabia que você estaria aqui, com exatamente essa cara e me mandou te dizer que está tudo bem.” Louis meramente assentiu às palavras da morena —— o alemão, tão diferente inicialmente, ainda parecia estranho se pronunciado pelos lábios da americana ——, mas não antes de dirigir um olhar que, Bridget sabia, poderia ser interpretado como cansado por alguém que olhasse com mais cuidado para a linguagem corporal do então capitão Wöfflin. Haviam sido dias difíceis, e o trabalho de parto demorara para realmente acontecer —— ainda àquela hora, Mina não apresentava o grau de dilatação desejável. Com sorte, o próximo Wöfflin nasceria em poucas horas, quando a nevasca cessasse. O nascimento de um novo integrante na família tinha sido capaz de reunir grande parte dos parentes mais próximos —— o que não significava pouco, se Bridget fosse completamente sincera. Olhando de um lado para o outro do grande hall da mansão de seu marido, e, curiosamente, pai de Louis, não conseguiu conter o sorriso quando o olhar carinhoso foi parar justamente na própria filha, que mais parecia uma princesinha no colo de Sebastian, dirigindo-se a eles dois tão logo pôde tomar um copo de scotch para si mesma, já que não podia fazer mais nada pelo papai em questão; o objetivo que Mina a impusera já havia sido cumprido, e agora bastava esperar, e, ainda que fosse impaciente com aquele tipo de situação, uma vez que tudo ao seu redor inspirava cuidados, simplesmente sabia que a amiga passaria por aquilo tudo, e depois riria —— típico de Whilhelmina, se o moreno que se casara com a médica pudesse concluir o pensamento da Darcy.
Se Bridget fosse capaz de ignorar seus anseios e nervosismo pela amiga, ela acharia engraçada a situação em que as duas se encontravam. Viera de um lugar relativamente simples, e tanto ela quanto Whilhelmina participaram de uma seleção maluca pela mão do herdeiro de um magnata em especial nos Estados Unidos, surpreendentemente acabando casadas com membros de algo parecido com uma família real suíça, ainda que o país não ousasse usar aquela nomenclatura nobiliárquica para com os Wöfflin —— o povo suíço jamais admitiria que aquela família era uma das mais importantes dentre o rol de riquezas e poder político que possuíam —, da qual agora elas orgulhosamente proviam os herdeiros. Elas haviam passado por tantas coisas juntas e sabiam que passariam por tantas coisas mais, seja lá o que a vida lhes trouxesse; sabiam que tinham uma a outra, e, ao olhar para toda aquela gente espalhada pela sala, a morena sabia que as duas agora contavam com todas aquelas pessoas que, apesar de serem completamente diferente entre si, eram agora uma família. Não demorou muito para que o choro alto e esganiçado enchesse as paredes dos quartos e todos os olhares do salão se voltaram para o, então, capitão, ao mesmo tempo em que sorriam aliviados.
Todos pararam o que estavam fazendo naquele mesmo instante. Rabastan, um garotinho de pouco mais de sessenta centímetros, cessou a implicância com o primo mais novo —— Chewie, como o apelidara por não conseguir pronunciar o nome corretamente —— assim que o pai desatou a dar passos largos e decididos em direção à escada. Os olhos escuros do moreno se arregalaram enquanto Kile tornara a chorar, agarrando-se nas roupas no primo para que ele não perseguisse o pai. Por alguns segundos, Rabastan ensaiou um choro, como se estivesse desafiando o ser alienígena que passara a chorar onde a mãe deveria estar a uma pequena disputa, mas parou tão logo a tia viera ao seu resgate, tomando tanto Kile quanto Rabas no colo assim que deixou Frederika —— um bebê de pouco mais de um ano —— com seu mais novo pretendente, que a aninhou da melhor forma que conseguia com toda a falta de jeito. Sebastian manteve tanto Veridiana quanto Bridget sob controle, pedindo por algum tipo de calma, mas era impossível que uma família tão dispersa e pouco dada a ordens —— Louis era um caso à parte, especialmente quando era ele quem as dava, na maior parte do tempo —— seguisse as diretrizes que o patriarca tão calmamente tentava impor, uma vez em que o imperativo dos Wöfflin parecia estar dado a uma pilha de nervos. Não seria Sebastian quem acalmaria todos ali presentes, e sabia muito bem disso. Mais um berro e uma risada gutural, e o moreno não foi capaz de se conter por mais tempo. Era controlado, sim, disciplinado rigorosamente, mas uma onda de satisfação e euforia o tomou, diferente de qualquer outro tipo de experiência que já tivesse passado. Nem mesmo as sessões de torturas contra os inimigos de sua pátria tiveram tanto sucesso em acalentar o coração gélido de Louis Wöfflin antes; nem mesmo o garotinho que agora tentava bater no próprio primo por conta de um chocalho. Se o moreno fosse se concentrar verdadeiramente nos sons que faziam parte da sinfonia da cacofonia na qual a mansão dos Wöfflin se tornara, poderia praticamente adivinhar que Kile e Rabastan já não estavam mais no colo de Julia, e provavelmente estariam tropeçando naquele exato momento em direção à escada, não fosse Bridget, que gritava para que tomassem cuidado.
Ignorou os próprios pensamentos, subindo as escadas com mais agilidade do que achava necessário, mas incapaz de fazer algo a respeito. Por um momento, assim que chegou à porta onde Whilhelmina deveria estar, segurando o mais novo filho deles, Louis pôde sentir o coração falhar, a garganta secar e as mãos, sempre tão decididas e ágeis, suarem de nervoso. Negou tão logo teve a oportunidade, revirando os olhos para si mesmo. Não era como se fosse um grande passo; ele sempre estivera dois à frente de qualquer um no tabuleiro. Não era como se a sua vida agora dependesse de não só uma, mais duas criaturas que poderiam feri-lo sem sequer tomarem ciência disso. Não, não era. Estava sendo um maldito emotivo, coisa que ele detestava, que não lhe trazia sequer um mísero benefício na guerra ou para proteger sua pátria —— ou, mais importante, para suprir suas necessidades básicas para com a morte de certas pessoas. Portanto, sem mais delongas, pressionou uma das mãos sobre a maçaneta, girando-a com decisão para abrir a porta e, pela primeira vez desde que Marveille, sua irmã mais nova, morrera, o Wöfflin se viu sem palavras. Os olhos arregalados tomaram conta de uma expressão antes comedida e séria. À sua frente, junto a um grupo de elite dos melhores enfermeiros e médicos que o dinheiro poderia pagar, estava a mulher que tornara tudo possível para ele; até mesmo a própria redenção, por mais piegas e dramático que aquilo lhe soasse.
Ainda que estivesse exausta, Whilhelmina se recusara a descansar antes de poder tomar a filha —— não um menino, como estavam esperando por conta dos exames, que pareciam falhar incessantemente, a propósito —— nos braços, e ainda se recusava a deixar que qualquer um tomasse aquele bebê diminuto, cuja mão agora apertava seu dedo mindinho com alguma força. Um choro esganiçado, dessa vez pertencente à mais velha, tomou conta do ambiente, transmutando-se em uma risada enquanto fitava a filha, com lágrimas nos olhos. Por segundos que mais pareciam horas, Louis manteve-se no portal do quarto, incapaz de esboçar qualquer reação inteligível. Não sabia como, em questão de segundos, já estava ao lado da mulher, sem jeito de chama-la, de tirá-la do transe que o bebê parecia tê-la refém. Foi só quando a criança passou a encará-lo —— os grandes olhos azuis gélidos, que refletiam os seus em muitos níveis ——, que a morena enfim levantou o olhar, só percebendo a presença do marido naquele momento. Ele tentou esboçar um sorriso para a morena, mas há muito já desistira de expressar qualquer ato de satisfação que não fosse um aceno de cabeça; sorrisos nunca fizeram parte das coisas que figuravam no rol de manias de Louis, e não seria agora que… “Soldado, gostaria de segurar a sua filha?” As palavras pouco cansadas e brincalhonas de Whilhelmina, sempre utilizando do apelido nada lisonjeiro que ela o dera desde o dia em que se conheceram, ancoraram-no ao chão, e, antes que o moreno pudesse perceber, ele já sentia os dedos, braços e todas as fibras de seu ser implorarem para que ele tomasse a filha nos braços —— uma parte de seu cérebro perguntou a si mesma sobre a origem do sexo do bebê, uma vez que, como os exames diziam, deveria ser um menino.
O temido capitão Wöfflin, sempre tão astuto, sempre tão exigente e calculista, tão frio e sádico, tremeu naquele momento, tomando o pequeno embrulho entre os braços, já isenta de qualquer sangue em sua tez —— longe de ser como ele, ele esperava —— e qualquer resquício que pudesse indicar ter acabado de nascer. Uma breve olhadela para a criança, um pequeno olhar de satisfação dela por estar nos braços do pai e Louis quebrou. Simplesmente quebrou, incapaz de conter o meio sorriso ou as poucas lágrimas que escaparam de seus olhos, umedecendo os lábios enquanto tentava não apertar muito a criança. A garganta parecia ter secado novamente, e ele estranhamente não se incomodou com aquele mísero detalhe. Ela, aquela garotinha, parecia ser a única coisa que importava no mundo para ele, e o Wöfflin não a deixaria sair de seu campo de visão tão cedo, obcecado com a segurança dela, com as pessoas à sua volta e incapaz de conter o breve ciúmes paternal que lhe tomou conta. Não sabia por quanto tempo ficara parado ali, incapaz de se mover por um centímetro sequer enquanto aninhava a menina que ainda não possuía um nome no colo. Talvez estivesse ali por horas, mas não parecia ter sido o suficiente para si quando outras pessoas passaram a encher o quarto onde Whilhelmina —— sua Whilhelmina —— se instalara.
O andar de baixo, aonde os familiares e amigos estavam, absorveu a animação e euforia no instante que os potentes pulmões da mais nova Wöfflin encheram a sala com seu choro fino, porém exigente. Os familiares não podiam ser definidos como aconchegantes ou carinhosos, mas todos sorriram quando Louis abandonou os convidados e seguiu o choro da filha ignorando a tudo e a todos em seu redor. Todos sabiam que, apesar da postura rígida do capitão —— ou ex-tenente ——, ele era completamente devoto à esposa e à sua família. Todos estavam verdadeiramente felizes pelo acréscimo. Sebastian e Bridget esperaram algum tempo, dando espaço para que os dois conhecessem a própria filha, e então seguiram os passos de Louis, com o pequeno Rabastan no colo da morena. Assim que alcançaram o aposento, Bridget perdeu o fôlego com a cena a sua frente, porém, ao invés de soltar um dos seus gritinhos eufóricos, ela apenas agachou, colando o menino no chão, e indicou com os dedos a figura dos pais. “Rabastan, olha só a mamãe e o papai!” Ela introduziu, porém o menino parecia um tanto intimidado, mesmo que os dois à sua frente lhe fossem muito conhecidos. Foi Mina, com uma voz pesada de cansaço que preencheu o vazio, estendendo o braço para o filho. “Vem conhecer seu irmãzinha, querido.” E assim, com passos vacilantes o primogênito do casal alcançou a cama, e se a escalou com certa dificuldade até alcançar os pais e o pequeno pacotinho que seria sua irmã. “Rapha? Cadê o Raphael?” O moreno testou, sem ter muita certeza do que fazer, enquanto vasculhava os panos à procura do seu boneco de ação preferido —— isso é, quando o Chewbacca ou o Han Solo não estavam disponíveis ——, Raphael, a tartaruga ninja. Os olhos de Whilhelmina brilharam parcamente, sabendo que Rabastan, em sua inocência, tinha escolhido o nome por eles. A cena não podia ser mais tocante, e Sebastian tomou a esposa pela cintura, os dois se sentindo privilegiados por simplesmente poderem observar a felicidade dos dois que lhes eram tão queridos. Bridget sorriu, e então logo tratou de checar a amiga, acariciando-lhe a testa, mas sabendo que tudo o que a amiga precisava era da sua família e de uma longa noite de sono. No entanto, nada importava de fato agora. Estavam unidos, presos naquela atmosfera mágica que acarretava a chegada de um bebê, e por mais que houvesse tanto a se fazer, naquele momento tudo era absolutamente perfeito.
☆ ☆ ☆ Out of character: ☆ ☆ ☆
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