Pelos corredores todos sussurram: Vejam! Esta é Mackenzie Roheese, a filha da Feiticeira dos Corvos! Está em Fatales há pouco tempo, e todos já sabem que é uma Seditiosus, além de ser uma bruxa de magia defeituosa. Aparenta ter por volta de 19 anos e se parece com Olivia Cooke, mas pode ser apenas um feitiço.
❝ MIRROR MIRROR ON THE WALL ✦
Em meio a todos os conflitos existentes quase sempre envolvendo bruxas malvadas ou injustiçadas, e alguma figura Real inocente e vice versa, temos a história dos feiticeiros da Linhagem dos Corvos, uma classe especial de feiticeiros cujos poderes baseavam-se nas forças da natureza. Seus poderes não originam-se desta como as fadas, porém com o passar dos anos as técnicas de curandeirismo que a bruxa branca Raven Roheese possuía serviram como base para que criasse suas próprias poções especiais, feitiços e escrevesse, até mesmo, um livreto contendo as conjurações secretas que apenas o clã dos Corvos possui. Mesmo não sendo uma linhagem poderosa como a de Merlin, a linhagem de Raven tornou-se forte á sua própria maneira. A bruxa acreditava que a única maneira de se dar bem e sobreviver seria ficando de fora de todas as brigas que aconteciam em Éther e viver uma vida baseada no pacifismo na floresta, onde os animais logo pegaram gosto pela bruxa e respeitaram seu espaço, numa relação de respeito mútuo. Por muitos e muitos anos, foi baseando-se nisso que o clã passou por várias e várias gerações de mulheres, até chegar á geração de Joham, o primeiro bruxo em toda a história do Clã, e também aquele cuja magia manifestou-se com mais força. Infelizmente, ainda que fosse um tanto quanto pacífico, Joham não era tão honesto ou bom quanto ele mesmo pensava ser. Casou-se com uma camponesa submissa a suas vontades e teve com ela um primeiro filho, cuja mania não se manifestou. No ano seguinte teve mais dois, cuja diferença era apenas de míseros dez meses. Nenhum dos dois garotos manifestou magia. Quando um pouco mais crescidos, novamente a mãe veio a engravidar, e novamente, de um menino. E aí seguiu-se ano após ano, até que o feiticeiro tinha sete filhos homens e nenhum deles manifestava magia. Desesperado, culpou a mulher pela desgraça de seu clã.
Desesperado por uma herdeira de sua mania, e ansiando que esta viesse ainda mais poderosa do que era, Joham resolveu interferir em seu próprio destino utilizando das magias do livreto para que conseguisse ter uma menina, e assim, corrompendo o sangue puro do Clã dos Corvos. Pode parecer uma regra um tanto quanto boba, mas o nascimento de uma criança com magia deve vir de forma natural, sem poções que contribuam para tal, ou então, algo ruim pode acontecer. Não em todos os casos, mas para uma linha que respeitava profundamente os desejos da natureza, feri-la de tal forma só poderia vir a terminar de forma trágica. A esposa de Joham engravidou pela oitava vez, e, para surpresa da mulher, deu a luz a uma menina. No primeiro toque de suas mãos calejadas sobre a testa ainda ensaguentada do bebê, ele sentiu a faísca mágica dar-lhe um choque. Porém, veja só como são as coisas! A pequena bruxinha havia nascido doente. Terrivelmente doente. Um castigo pela trapaça que Joham tentara dar na ordem natural das coisas. Após um ano cuidando de Rosallie, Joham soube que a magia bloqueada só poderia ser curada com a interferência de oura magia: a fonte encantada. Obcecado por ter uma filha a quem pudesse deixar o legado da família, mandou todos os seus sete filhos atrás desta, e por longos oito meses estes permaneceram na estrada, até mesmo os mais novos, que tinham por volta de seus oito anos. Quando retornaram para casa, porém, fora com as mãos vazias. Tentaram explicar para o pai que era impossível encontrar algo como aquilo e que ele lhes perdoasse.
Oh, ele deveria ter o feito. Eram apenas sete moleques com uma vida toda pela frente! Porém, a fúria fez com que lançasse um feitiço nas pobres crianças, transformando-as em sete corvos e expulsando-os de casa. Só depois que seus filhos, amedrontados e agora em forma de animais, voaram para longe, foi que o homem arrependeu-se do ato, mas agora não havia volta. Criou a pequena Rosallie como se fosse filha única e teve que voltar aos primórdios dos ensinamentos do clã, trabalhando como curandeiro para que desse a sua garotinha a melhor chance de sobrevivência.
Rosa sempre fora uma jovem amorosa, amante da natureza e incapaz de ferir qualquer ser humano que fosse. Sua saúde frágil, no entanto, sempre lhe afetara de uma maneira gigantesca, uma vez que a garotinha sentia-se impotente para proteger àqueles que amava. Tentava sorrir para todos, mas era complicado não pensar que logo viria a morrer, e que não havia dado ao pai a única coisa que ele queria: uma herdeira saudável. Oh sim, ela sabia dos ancestrais, apesar de desconhecer o fato de ter sete irmãos espalhados pelo mundo, e sentia-se inferior porque graças a sua doença, todo o futuro do clã estava em perigo e morreria junto dela mais rápido do que o planejado. Mesmo todo seu otimismo não era o suficiente para livrá-la do peso da verdade: morreria logo. Conformada com seu destino, a moça resolvera viver seus dias para os outros, cometendo atos benevolentes para que, quando chegasse a hora, morresse em paz consigo mesma.
É como dizem, a verdade não pode ser escondida por muito tempo. Quando a camponesa já tinha por volta de seus vinte e dois anos – e uma saúde ainda mais frágil – a mãe chamou-a para uma conversa particular, os olhos cor de cristal incomuns que ela tanta invejava na mãe estavam carregados de tristeza, e seu corpo agonizava devido a uma infecção. O pai de Rosa havia tentado salvá-la, mas diferente dele, ela não queria interferir no curso da vida, e também não aguentava mais viver com tantas mentiras, tendo que esconder de sua tão amada filha a verdade por trás de tudo. Contou-lhe sobre seus irmãos, e sentindo a fraqueza confundir seus sentidos, implorou para que, como um último desejo, Rosallie resgatasse seus irmãos. Ela sabia que era pedir demais, porém confiava que uma alma boa como a da filha não teria um fim tão previsível quanto a morte. Não agora. Incapaz de negá-la seu pedido, e em choque pela verdade, Rosa concordou, e o mais rápido que pôde saiu em busca dos irmãos, levando consigo apenas o livreto da família para que pudesse se orientar.
Os longos meses que passara distante de seus pais foi o suficiente para que a saúde piorasse de forma quase crítica, e passou a viver apenas das poções que estavam contidas nas primeiras páginas do guia. Era estranho como, mesmo tendo a certeza de ser completamente normal, a natureza parecia estar sempre a seu favor. Os animais não a atacavam, encontrava sempre os melhores abrigos e conseguia escapar do castigo do tempo. As estrelas brilhantes no céu era o que usava para orientar-se em sua busca. Andou sozinha por cerca de um mês, até que finalmente conseguiu dominar sua primeira magia. Os astros realmente estavam a seu favor, pois através de uma magia de localização completada com seu próprio sangue, foi guiada por sete pequenos raios de sol durante o dia, e por sete pequenas faíscas da lua durante a noite. Os Céus presentearam-na, então, com uma chave brilhante, cujo brilho era retirado das próprias estrelas. Chegou, após tanta caminhada, e um reino escuro, onde o sol já não tinha poder algum para guiá-la. Cercada de animais selvagens e criaturas mágicas, foi fácil perder-se na escuridão, sendo guiada, agora, apenas pelas estrelas. Trolls carnívoros e gnomos traiçoeiros por diversas vezes perseguiram-na, até que uma fada finalmente mostrou-lhe o caminho desejado após ver em suas mãos delicadas a pequena chave brilhante, o brilho de uma estrela.
O Reino da Noite era esquecido por todos, encontrado apenas por aqueles que tinham um motivo nobre e encontravam-se próximos da morte. Muitos anos atrás, o Clã do Corvo havia ajudado a criá-lo para que algumas criaturas pudessem esconder-se do perigo, e assim, morrerem sozinhas e em paz. Guiadas por uma magia proveniente das estrelas, sol e lua, chegariam ao reino. Como descendente de Raven e usuária de magia, era fácil achá-lo. Principalmente pelo motivo nobre e a saúde fraca. Rosallie então, foi autorizada a seguir até a sede de todo o reino, o Castelo dos Corvos. Porém, a chave mágica que utilizara para chegar até lá havia se perdido durante o caminho. A única maneia de entrar no castelo, disse a fada, era se a jovem provasse que possuía o sangue de Raven, molhando a chave com o brilho da estrelas em seu sangue. Algo tinha que dar errado! Sem muitas alternativas, e sentindo que os trolls aproximavam-se de si, utilizou a pequena adaga que carregava consigo para cortar o dedo mindinho, utilizando-os como chave e banhando-o no sangue jorrado pelo corte. De certa forma, não incomodou-se. Estava pronta para morrer assim que libertasse seus irmãos. E a porta realmente se abriu. Dentro do castelo tudo era iluminado, diferente de todo o reino em si, e seguindo o barulho de pássaros, encontrou o salão central, onde sete pássaros negros como a noite estavam enfileirados, comendo sua refeição. Assim que a viram, o primeiro instinto foi atacar-lhe, porém, antes que tivesse seus olhos arrancados pelos bicos afiados dos corvos, mostrou-lhes o pequeno livreto com o símbolo da família. A natureza selvagem dos irmãos, tantos anos tendo que sobreviver como animais selvagens, vacilou.
Rosallie não sabia o que fazer. Sua magia havia lhe levado até seus irmãos, mas também havia lhe levado até mais próxima de sua morte. O corpo fraco e as limitações podiam atrapalhar tudo, e, de repente, sentia-se novamente impotente para ajudar da forma que fosse. Ali, encarando os corvos que havia tentado libertar, e sentindo a dor do dedo decapitado, a insegurança dominou-a, fazendo com que os corvos agitassem suas asas, voando em volta desta. Pressionou o livreto em suas mãos, abrindo-o devagar, mas, ao folhear as páginas, não encontrou solução. Cada vez mais altos e velozes, o barulho dos corvos e seus movimentos começaram a ensurdecê-la e deixá-la nervosa, até que, quando colocada ao limite do desespero, a faísca de magia finalmente apontou, fazendo ribombar um barulho ensurdecedor por todo o castelo, e talvez, por todo o reino. O livreto abriu-se numa página secreta, e as escrituras apareceram pouco a pouco, conforme as gotas do machucado caíam gota após gota. Tomada por uma coragem impulsiva, ela as leu. E então, sentiu em seus ossos o pesar das palavras, libertando um a um seus irmãos da maldição.
Todos tinham a mesma idade de quando transformados, e agora, vendo sua irmã tão grande, o choque seguiu-se de felicidade. O estranho era que ao quebrar a maldição que prendia seus irmãos, sentiu-se cada vez mais e mais forte, como se a doença escapasse aos poucos de seu corpo e se perdesse na escuridão daquele reino negro. Agora que todos eram humanos, decidiu que os levaria para casa, para que pudessem recomeçar suas vidas, dessa vez, livres da tirania do pai feiticeiro. Quando saíra do castelo, todas as criaturas curvaram-se a esta, declarando que era a rainha digna de resguardar o Reino da Noite. Um tanto quanto pretensiosa, Rosallie jurou que sua magia continuaria guiando-os para o reino, onde viveriam seus últimos dias em paz, e para os demais que escutassem tal história, aquele lugar seria chamado “O Fim do Mundo”.
O pai desde, arrependido, não suportou a culpa e a compaixão dos filhos. Suicidou-se ao lado da mulher, deixando o pesar da culpa para todos seus herdeiros, mesmo que a culpa fosse inteiramente sua. Rosallie passou a viver na floresta e seguir os passos de Raven, junto aos animais, como uma simples curandeira e pacifista. E, bem, mesmo a mais solitária das almas acaba encontrando um verdadeiro amor, e assim, a bruxa apaixonou-se por um camponês comum, e veja você, que coisa! Eles tiveram cinco filhos. A quinta era uma menina adorável, porém, é claro que os Guardiões não perderiam a oportunidade de manipular mais uma vida. A garotinha nasceu como a única herdeira da magia de Rosa, e também, com a mesma doença que esta. Seus pulmões funcionavam com dificuldade, era pequena e magra, tão frágil quanto uma boneca. Chamaram-na de Mackenzie, e diferente de Joham, Rosallie não fez nada contra seus filhos e cuidou da garota com muito amor. Deram-lhe um aparelho construído por seu pai, e utilizando da magia da mãe, que utilizava elementos naturais para mantê-la respirando normalmente com um tubo no nariz.
Infelizmente, devido a suas limitações, Mackie sempre esteve sob a vigia dos pais e irmãos, que a viam como uma garota que devia ser protegida. Como sempre tivera um gênio fácil, a pequena bruxa nada fez a não ser aceitar tal proteção e manter-se sempre por perto de casa, na companhia de animais e cuidando do jardim de plantas que tinha. Afundava-se nos livros, e gostava de saber sobre plantas medicinais caso precisasse ajudar alguém ferido. Isso fez com que seus traços principais de personalidade sejam a bondade, inocência e ternura. Mackenzie vê bondade em cada singular alma, e gosta de ajudar e ser amiga de todos. Porém, paralelo a isso, é extremamente tagarela e medrosa. Não tem auto-confiança, e, e seu ponto de vista, sempre precisará de alguém ao seu lado. O maior medo que tem em seu coração é ficar sozinha. Diferente da mãe, sua magia manifestou-se aos oito anos, porém é de forma branda, assim como a própria bruxa é. Não consegue fazer nada grandioso, e quando tenta, logo sente o corpo negando os esforços, e as mãos começam a sangrar. Especialmente próximo ao dedo mindinho. Pode-se dizer que Mackenzie é uma boa alma, mas as vezes, pode ser muito sincera, traço que pode ser positivo e negativo. Foi chamada a pouco tempo para ir á Fatales, o que instantaneamente despertou-lhe o medo que sempre teve: solidão. Quando despediu-se da mãe, descobriu que esta esperava gêmeos. Ou seja: sete filhos.
Mackie quer, apesar de tudo, seguir o caminho da mãe, pois só de saber que todo seu sofrimento vai acabar em breve, e o preço é apenar dar um dedo em troca, alegra-se em saber que não será tão fraca para sempre. Tão indefesa. Tão frágil.
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