“Desde o crepúsculo.” respondeu ela, e como se só a frase, a menção do tempo, a lembrasse a quanto tempo estava de pé contra aqueles monstros, acabou piscando longamente e suspirando, como se isso fosse recuperar suas forças. E então, quando retornou a abrir os olhos, deu o primeiro passo a frente contra os caranguejos. Com Lightning em riste, mantinha as pinças dos animais afastada de si, enquanto procurava brechas em suas “armaduras” onde poderia enfiar o bastão de prata em suas visceras. Depois de um tempo, esses lugares já não eram mais tão difíceis de encontrar. Geralmente eram na boca, e lá Helena mirava a ponta de seu bastão, que penetrava tão bem quanto qualquer outro aço afiado, e desfazia os monstrengos em pó após um chiado de dor vindo destes. Mas é claro que eles não caiam tão fácil assim. Suas pinças enormes eram um verdadeiro obstáculo, e se a loira não fosse tão ágil, já estaria entre as garras. Só que sua agilidade apenas servia para fazê-la recuar, desviar, não ser atingida, e aquilo ficava extremamente cansativo, ainda mais quando dois caranguejos ou mais se aglomeravam em volta dela. Se não fosse por Adônis e suas flechas, estaria perdida.
Porém outro problema se mostrou quando Helena por fim percebeu o quanto o ambiente era desfavorável a ela, por um simples e cansativo motivo: o mar. Os monstros que saiam deles estavam molhados, e a cada vez que respingavam água salgada em sua pele, se sentia ser atingida por vários alfinetes, tamanha a ardência apesar da pequena quantidade de pingos. Mantinha-se a todo custo longe do mar, mas a medida que os monstros vinham para cima de si, via-se presa contra um paredão salgado. Sentindo-se um pouco mais forte, e tomando medidas desesperadas para sair daquele meio, ergueu o bastão em direção ao céu noturno, que logo se iluminou com um raio acertando a arma. Sua propriedade secreta. Helena separou a arma em duas, uma em cada mão, e cada pedaço de prata brilhava em fios elétricos que a circundavam. Então, matá-los se tornou imensamente mais fácil. A cada toque, os caranguejos molhados eram eletrocutados e explodidos em faíscas e poeiras. Até que, por um descuido, ficou próxima demais do mar, e uma onda lambeu seu tornozelo, a fazendo abafar um grito de dor, sua carne se corroendo, apesar do estrago em sua perna não ser mais do que uma ilusão em seus nervos, visto que a pele branca atrás da calça continuava perfeitamente intacta. Mordeu o lábio e os joelhos se flexionaram, e com esse descuido, uma pinça bateu em sua mão, e um dos bastões saiu voando e rolando pela areia, longe de seu alcance. O que sobrou, ela não teve escolha se não mergulhar no mesmo mar que agredia sua perna.
A eletricidade se espalhou pelo mar, descarregando totalmente aquela parte do bastão. E aquilo ainda conseguia de certa forma suavizar a dor que ela sentia, para se reduzir a não mais que pinicões ao redor de seu tornozelo. Os últimos caranguejos então explodiram em poeira, e Helena se afastou da água, caindo sobre um joelho na areia seca, a perna molhada dormente, mal conseguia usá-la no momento. Só que não havia tempo para recuperar o fôlego, pois quando levantou a cabeça, viu que um ser em especial não havia gostado nada nada do seu raio no mar. Aparentemente, sua façanha despertou outro caranguejo, mas muito maior e forte do que os outros, e muito mais ameaçador, erguendo-se para a fora do mar, e com um olhar particularmente odioso contra a filha de Júpiter, quase como se quisesse uma vingança por ela ter eletrocutado seu habitat. Apenas metade de seu bastão, descarregado, era inútil contra aquela criatura, e Helena tentou se levantar para fugir, desviar-se daquele monstro que levantava sua garra contra ela, fazendo chover sobre ela. Tentou ignorar as novas dores com os pingos que caíam sobre seu corpo, mas sua perna ainda tanto fraca impedia agilidade em seus movimentos, a fazendo cambalear para trás e quase cair novamente, de maneira que pode apenas arregalar os olhos enquanto via a garra pronta para esmagá-la. Novamente: se não fosse por Adônis, estaria perdida.
O tempo desacelerou como se imerso em areia movediça. Os sons morreram e definharam colocando um silêncio sepulcral que abafava seus ouvidos. Algodão grosso vibrando com a pulsação forte e compassada do coração. A adrenalina e outros hormônios que vira nos livros de ciências deixaram seu sangue fervente e congelado, as sensações conflitantes fazendo arder o corpo com o seu poder máximo herdado de Cupido. A areia espalhava-se no ar em ondas a cada passo largo do semideus. Tão fofa quanto estava tão fina quanto nunca estaria, não importava. Nem gelo fino e frágil o impediriam de cruzar a curta faixa de orla e interceder pela amiga. Adônis parecia atravessar uma camada pesada de neblina. Sim, neblina. A névoa o abraçaria como uma velha amiga, tão maleável a seus desejos quanto os pensamentos incertos que o assaltavam. Não deveria ter deixado Helena cuidar daquele ponto da praia e a falta de percepção no momento o enfurecia. A maldição não se esvanecera durante o tempo, Juno não deixava pontas soltas nem tratamento leviano para aqueles que ela odiava. Até ele mesmo tivera problemas em aceitar Helena no início da amizade, imagina uma deusa com milênios de traição nas costas?
Névoa. Dessa vez não deixaria se levar pela urgência da defesa e do âmbito de eliminar acima do planejamento. Primeiro faria o controle de ambiente, antes de partir para cima como cada fibra do seu ser queria fazer. Ergueu o braço, a mão estendida na direção da loira caída e vulnerável. A névoa fez um redemoinho, juntando partículas de areia no ar e vibrando numa coloração diferente. Acima que se dissipou, Helena não mais existia. Um tronco esbranquiçado pela maresia estava no lugar onde outrora estivera. A mudança de alvo confundiu o caranguejo, bolhas de espuma começando a escapar da boca articulada e deformada. Ele iria atacar a pedra, sabia que ia. E Adônis não podia permitir tal ato. As pontas dos dedos da mão esquerda pinicaram e, em milésimos, o braço inteiro pegou fogo. Chamas negras e azuladas de um tom tão profundo quanto petróleo lambia a pele num calor frio, causticante. A bola de fogo acertou a lateral do corpo gigantesco fazendo-o se desequilibrar sobre as patas articuladas. Uma mancha negra e fumegante indicando onde terminara o projétil, e onde o monstro ganhara ódio pelo semideus.
O silêncio ainda era perturbador. Ainda mais quando preenchido pela respiração superficial e o crepitar das chamas no braço. O outro braço mantinha-se incólume ao segurar a espada e, num golpe, rechaçar a pinça que descia em sua direção. Lascas da cascas escura do caranguejo voaram do corte, pedaços atravessando um gel. A pata maior veio como um bate-estaca, descendo acima de sua cabeça num golpe mortal. E, num piscar de olhos, estava na caverna da Hidra, defendendo a própria vida depois de testemunhar a morte da irmã. As chãos engrossaram no braço esquerdo e contaminaram o braço esquerdo. Quando a espada fazia o arco no ar, a lâmina prateada se tornou negra com as chamas do ódio. Metade da pata caiu no chão, cortada, abandonada. Sem perder tempo (se é que era contabilizado naquele estado), Adônis chutou Lighting da areia, a segurou com a mão e fingiu arremessar na direção dos olhos, corrigindo no último segundo para o ponto fraco agora exposto. O caranguejo gritou, mas a voz de Adônis suplantara por conta da proximidade. -- HELENA! -- O disfarce de pedra se desmanchou quando a loira ficou sentada na areia com as mãos erguidas para o monstro. A corrente que escapava do bastão aumentou, englobando o caranguejo numa bola de arame farpado brilhante. O semideus sentiu o cheiro de queimado penetrar as narinas e viu Helena revirar os olhos de cansaço, desmaiando na areia.
Um pena que, ao atingir o chão, as luzes acabaram. O monstro ainda estava vivo, as pernas articuladas funcionando perfeitamente quando saia completamente do mar e preparavam-se para o ataque. Adônis avançou, uma trilha de pingos escarlates e pretos trançando o caminho de sua espada no chão. Um golpe, um preciso golpe. A pata decepada bateu na lateral do corpo, queimando mais com o contato das chamas dos braços. A pata menor fechara-se em torno do bastão na tentativa de tirá-lo. Cupere se enfiou no pequeno espaço, o corpo colado ao do caranguejo, e enterrou a espada no exato lugar onde Lighting estava. Tirou a espada e a enterrou novamente, o ângulo diferente para causar mais dano. Mais uma vez e a ponta surgiu entre os olhos saltados da criatura.
E o tempo voltara a correr normalmente, como alguém que soltara a respiração depois de muito tempo. Demorou mais tempo para Adônis voltar a respirar normalmente, e um tempo ainda maior para que as chamas se extinguissem. Como sempre, os braços estavam negros como a morte denunciando para quem olhasse o uso dos poderes, de certa forma, proibidos. A praia estava calma novamente, os monstros dispersos no ar pela areia dourada. Adônis se encaminhou ao corpo cansado de Helena e a levantou nos braços. Se a praia estava naquele estado, não gostaria de pensar em como a enfermaria se encontraria. Tenha fé. Ajeitou a amiga de tal maneira que pudesse carregá-la num só braço e defender com a espada enegrecida. Seria difícil, mas, com um pouco de esperança, tinham passado tempo o suficiente lutando para voltar num momento pós-ataque.