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Toni & Leila 9
Querem alguma outra coisa? Ele perguntou. Elas fizeram que não. As duas estavam numa atitude pouco à vontade. Depois de mais ou menos meia hora, Carminha levantou-se e saiu. Leila ficou algum tempo enxugando suas lágrimas. Toni se aproximou. Ela levantou-se e o evitou.
Desculpe, desculpe, mas hoje não vai dar, ela disse e saiu.
Ele olhou para Eduardo, que deu um sinal e saiu correndo atrás dela.
Não, por favor, não vai embora desse jeito. Ela chorava e ele a abraçou. Ela se deixou ficar assim até se acalmar.
Vamos, ele pediu e voltaram para o bar. Dentro do escritório, ela ficou no sofá e ele sentou-se de frente para ela, não querendo forçá-la a nada. Mas ele esticou o braço e acariciou seu rosto.
Por favor, Leila. Eu não quero que você vá embora. Eu só quero te ajudar. O que quer que esteja acontecendo, eu estou aqui, nem que seja só para ouvir. Ela levantou os olhos vermelhos para ele e o abraçou.
Você ainda não sabe, Leila, não sabe que eu te amo? Ele disse, emocionado. Ela começou a chorar de novo.
Ah, Toni… Meu anjo lindo!
Fica comigo, ele disse, deixa eu cuidar de você! E a beijou no rosto, na testa, nos cabelos. Depois ele perguntou se ela queria algo e trouxe uma vodka e uma Schwepps.
Só vou dar uma força pro Eduardo e já volto, ele disse. Ela se deixou ficar. Quando o bar estava mais calmo, ele voltou e sentou-se ao seu lado, pegando em sua mão. Ela deitou a cabeça em seu peito e ele a afagou.
Era sua irmã? Ele perguntou.
Não.
Eu pensei que fosse sua irmã. Ela engoliu seco.
Já fomos muito amigas um dia. Ela era irmã do meu namorado. Ele só ficou aguardando se ela ia continuar falando.
Vira e mexe ela me procura e quer ouvir tudo de novo. Ela não se conforma até hoje, ela quer achar um motivo, ela quer achar um culpado. Ela quer ficar ouvindo a histórias várias vezes para ver se eu caio em contradição. Ele continuou calado, já que ela estava falando numa torrente, sem se segurar.
Eu tinha acabado de entrar na faculdade, imagina, eu estava encantada com a USP, com São Paulo, fiz várias amizades, nunca tinha ido a tantas festas na minha vida, me sentia completamente feliz. Aí o Élcio e eu começamos a sair juntos, no começo mais como amigos e depois de um tempo a gente percebeu que estava sempre junto, que já éramos namorados mesmo sem planejar. Não acontecia nada de diferente, ele de vez em quando ficava meio quieto, reservado, mas eu achava que era o jeito dele mesmo. A gente não usava nada, nenhum tipo de droga, a gente estudava pacas, tinha um grupo de amigos que saía sempre junto. Eu juro, nada de estranho aconteceu! Ele nunca reclamou de ninguém, nem da família, nem de colegas, nem de professor, nada! Naquele dia, a gente tinha dormido na república dele, e de manhã ele me levou de metrô até o ponto de ônibus e me disse que não ia para a aula, que a gente se encontrava mais tarde. Ele não me deu nenhuma explicação, e eu não perguntei também! Acho que esse foi o meu erro! Eu devia ter perguntado, mas não perguntei! Às vezes a gente ficava cansado, queria fazer outra coisa, sei lá! De vez em quando ele ia numa loja no centro, um sebo, tinha revistas em quadrinhos, games, livros, ele adorava ir lá! Eu não me lembro exatamente, mas pensei que talvez ele fosse para lá… Nunca imaginei ou desconfiei, eu juro, ele não disse nada de diferente, nada de estranho… Toni apenas ouviu tudo e ficou quieto. Então… essa era a história que a irmã do Élcio queria ouvir? Ele não tinha certeza de ter entendido. Qual era a continuação?
E toda vez ela quer ouvir essa história de novo, ele confirmou. Ela segurou a cabeça.
Ela fica me forçando a lembrar de detalhes, ela quer que eu repita as mesmas palavras que trocamos naquele dia… As mesmas palavras! Ela estava sofrendo.
Ela procurou testemunhas, ela falou com as pessoas para confirmar minha história… ela fez o trajeto de ônibus no mesmo horário para ver se batia o que eu havia contado… ela procurou o motorista e mostrou uma foto minha para ver se ele se lembrava…
Mas por quê? Ele perguntou. Por que ela te atormenta tanto?
Porque… ele se matou! Toni ficou calado, surpreso. Ela olhou para ele.
Da pior forma possível! Ele se jogou na frente do metrô! Aquele tipo de tumulto que ninguém divulga… Não sai no jornal de jeito nenhum… Fecham imediatamente a estação e o metrô fica inoperante durante horas. Depois falam que houve um problema técnico… Ele ficou estarrecido. Nem imaginava que esse tipo de coisa acontecia.
Quando foi isso?
Há 4 anos. Eu tive que ir lá reconhecer o corpo. Quer dizer, as roupas, o que sobrou dele. Virou uma pasta e só tinham o meu número de celular, anotado num coraçãozinho que eu dei a ele. Eu que avisei a família, em Cubatão.
Mas essa Carminha… O que ela quer de você?
Ela quer entender… Ela sofre e fica tentando montar um quebra cabeças. Eu tenho pena dela, mas… às vezes penso…
O quê?
Que talvez… talvez ela tenha razão. Talvez eu tenha sido culpada.
Não, não fala isso! Ela começou a chorar de novo.
Não tem outra explicação, Toni… Ele a abraçou.
Não fala isso, não pensa isso. Por favor…
No final da noite, ele a levou para casa, entrou em seu apartamento e dormiu com ela.
Sua mãe, ela disse.
Eu vou ficar, ele respondeu. Ele a beijou na testa, abraçado a ela, já na cama.
Você é tudo o que importa pra mim. Ela levantou os olhos para ele.
Eu te amo e quando a gente tá apaixonado só liga pra quem a gente ama. Ela mordeu o lábio inferior.
Acho que… Acho que eu estive apaixonada nesses 3 últimos anos e não sabia… Ele sorriu, feliz e a beijou na boca.
Toni & Leila 8
No final da noite, quando todo mundo já tinha ido embora, ele a abraçou e beijou. E os dois ficaram ali, de pé, isolados, perdidos um nos braços do outro, completos e felizes. Ele queria falar, descrever em palavras toda a sua emoção, mas seu corpo era mais rápido e o fazia por ele, apertando-a e sentindo-a em toda sua totalidade, enquanto a pegava no colo e a levava para o pequeno escritório. Ela também não falava nada, os dois apenas se comunicavam com suspiros e gemidos, toques e abraços. De repente ele parou, abriu os braços e disse:
Pronto.
O quê? Ela perguntou.
Pode tirar minha roupa, ele respondeu com um sorriso maroto. Ela sorriu.
Por favor, ele pediu. Ela começou a desabotoar sua camisa, de cima para baixo, e quando expôs seu peito, ela afundou seus rosto e beijou seus pelos, experimentando-os com a língua. Depois pegou um dos mamilos e o sugou, o que o fez arrepiar-se. Ela puxou as mangas da camisa e o despiu, e na sequência começou a manusear o cinto de seu jeans; mas ela o fez de forma a provocá-lo, não de uma vez, mas apalpando seu traseiro e tocando-o de leve e puxando o cinto, sem nunca abrir a sua calça. Aquilo foi crescendo nele e ela percebeu que sua excitação estava atingindo nível máximo e que ele tentava se esfregar nela, o que ela lhe negava, afastando-se de propósito para que ele ficasse mais instigado. Quando finalmente ela abriu o cinto e desceu o zíper de sua calça, pode apreciar o quanto ele estava excitado. Ela abaixou sua calça e sua roupa de baixo e aproveitou para acariciá-lo devagar, alisando sua pele suave e macia. Ele a puxou para cima e a beijou na boca, começando a descer o zíper de seu vestido e o abaixando pelos ombros, até cair no chão. Ele olhou em seus olhos e beijou seu pescoço, fazendo-a agarrar-se a ele de forma quase violenta. Depois de se livrarem completamente de suas roupas, os dois se acomodaram no pequeno sofá.
Você tem um corpo maravilhoso, ele disse, quase sem fôlego. Ela acariciou seu rosto.
Meu anjo lindo, ela respondeu.
Leila recebeu um telefonema em seu celular que a deixou muito deprimida. Ela não quis se abrir para ninguém, mas Ju a ouvira e sabia que tinha sido alguém da família que havia ligado. Toni a viu chorando pelos cantos, encolhida e fugindo dele.
Tá tudo bem? Ele perguntou. Ela puxou o nariz e disfarçou.
Hum-hum.
Quer me contar alguma coisa?
Tá tudo bem, ela insistiu e se afastou. No final da noite, quando ficaram sozinhos, ela continuou evitando-o. Ele ficou confuso, sentado, esperando por uma explicação. Ela não queria encará-lo. Depois de algum tempo se contendo, ela começou a falar.
Talvez… talvez seja melhor nós não prosseguirmos com isso. Existem muitas razões contra.
Tipo o quê? Ele perguntou.
Você é meu patrão. Você é de outra classe social. Sua mãe.
Minha mãe? Ela gosta de você!
Ela gosta de mim como empregada, mas isso não quer dizer que ela me queira no seu círculo familiar. Ele respirou fundo. Havia algo que ela não estava falando.
Você sabe que não é só sexo, né? Ele perguntou, tentando ler sua expressão. Ela não o olhava. Pegou sua bolsa e se levantou.
Toni, eu não sirvo para você. Ele levantou-se atrás dela.
Ei, onde você vai? Eu vou te levar pra casa.
Não, não precisa, eu estou acostumada a ir sozinha. Estou acostumada. E saiu.
Ele ficou mandando mensagens. “Por que você pensa tão mal de si mesma?” Ela não respondeu. Ele não sabia de nada, pensou. Ele enviou outra. “Eu preciso de você. Eu gosto de você.” Na sequência, o celular tocou; ela não atendeu. “Eu tenho sentimentos por você. Não me faça falar por mensagem. Atenda.” Ela fechou os olhos. Pobrezinho. Não sabia com quem estava se envolvendo. Não devia ter se deixado dominar por suas urgências. Ele merecia melhor. Ela desligou o celular e deitou a cabeça no travesseiro, chorando.
No dia seguinte ele se aproximou e ela estava muito ocupada.
Eu vim para trabalhar, ela disse. Não vou te deixar na mão. Ele levou-lhe flores.
Eu quero sair com você num encontro, ele pediu. Um jantar.
Sabe que não dá. O bar não pode ficar sem nós dois ao mesmo tempo.
Então um almoço, ele disse. Ela não queria encará-lo.
Vou pensar, ela respondeu. Ele não insistiu. Natália ligou para ela. Queria marcar um almoço juntas. Ela topou, mas mesmo assim ficou preocupada em saber o que Toni havia dito a ela para que o convite aparecesse. Mas não o interrogou, deixou por isso mesmo. Quando as duas se encontraram, trocaram gentilezas e Natália contou sobre sua recuperação. A uma certa altura, ela perguntou:
Você e o Toni tem se dado bem ultimamente. Ela se incomodou mas não queria entregar.
Sim, a senhora sabe, porque provavelmente foi a senhora mesmo que lhe deu a ideia de me treinar para gerenciar. Ela negou.
Não, querida. A ideia partiu dele mesmo. Eu achei que você fez por merecer, afinal, eu vejo como você tem potencial e acredito que ele viu o mesmo.
Seu filho é muito bom comigo. Assim como a senhora. Eu só posso agradecer e tentar fazer um bom trabalho.
Toni se preocupa com você. Ela não respondeu.
Acho que ele vê mais do que só seu potencial.
O Toni e eu somos de espécies diferentes, ela disse rápido. De classes sociais diferentes. Vocês são o tipo de pessoas que dão empregos, eu sou o tipo de pessoa que pede emprego.
Simplificou demais, querida. Não acho que o mundo seja dividido assim. Além do mais, você está esquecendo que existem sentimentos envolvidos74 aí. Leila a olhou assustada.
Eu tenho uma afeição sincera por você, apesar de não saber muito a seu respeito. E eu também acredito que você tem afeição por mim.
Claro que tenho! Ela se apressou em dizer.
Eu sei. Todo aquele tempo que você ajudou quando eu estava de cama, você não fez aquilo por interesse.
De jeito nenhum! O Toni pensou isso?
Não querida, relaxe. Ele não pensou. Estou só mencionando que o que nos liga é algo mais do que uma simples relação de patrão e empregado. Eu consigo sentir que você é sincera.
Sim. Mas eu não acho que possamos misturar as coisas. Ainda assim sou uma subordinada. Depois de algum tempo, Natália perguntou:
O Toni fez algo que a magoou? Ele deu a entender que você estava se aproveitando da situação? Ela fez que não.
Então por que, querida, você está tão desconfiada? Tão na defensiva? Ela não sabia como explicar aquilo. Natália dava a entender que sabia de algo mais. Ficou pensando se ele havia contado a ela que os dois estavam tendo um… ela nem sabia o que estavam tendo: um “caso”?
Olha, dona Natália, eu é que peço desculpas se não fui grata o suficiente, ou se não soube demonstrar. Me perdoe. Mas eu sei o meu lugar e não quero ultrapassar nenhum limite. As duas ficaram se olhando. No final do almoço, quando se despediram, a mulher mais velha lhe disse:
Você faz muitos pré-julgamentos. Converse direito com Toni. Por favor. Leila sentiu-se arrasada: sim, ela sabia. Mas o que ela não sabia, nem ele, era que ela não era boa o suficiente para eles. Ela sabia, e devia se pôr em seu lugar.
E apesar de estar sentindo-se culpada, seu stress a dominou. Primeiro discutiram por algo sem importância. Depois, as dificuldades começaram de novo na forma como se comunicavam. Toni não queria ser grosso, mas estava cada vez mais difícil. Foi Eduardo que fez a intervenção. Colocou os dois sentados de frente um para o outro.
Gente, vamos conversar. Por favor. Não dá pra ficar esse clima, ninguém consegue trabalhar direito, fica todo mundo com medo e as coisas emperram em todos os setores. Vamos nos comunicar.
A culpa é dele que não deixa todo mundo avisado sobre os prazos!
Você estava controlando os prazos! Ele devolveu.
Você é cheio de não me toques e se melindra por qualquer coisinha! Acha que temos que adivinhar seus pensamentos!
O quê? Você é que é bipolar! Tá de TPM, por acaso? Um dia tá bem, faz tudo certo. No outro tá de cara amarrada e fode com tudo!
Eu fodo com tudo? Você é bem cara de pau, hein? Era pra isso que você queria um gerente? Alguém pra pôr toda a culpa das coisas que você não faz?
Eu nunca deixei de te dar nenhuma informação! Todas as vezes que você perguntou eu dei todos os detalhes que você precisou, nunca deixei de te ajudar! Por que você não pergunta quando tem dúvida?
Por que você acha que todo mundo tem que ir atrás de você! Você quer ser o reizinho! Quer que eu me arraste pra você!
Eu já falei que não quero nada de você! Que inferno! Tudo você acha que tem uma segunda intenção! Não acredita em coisas que estão na sua cara!
Quem será que é o cego aqui, hein? Eu faço tudo por você! Ela se levantou e apontou para ele.
O quê? Cê tá brincando, né? Ele também ficou de pé. Eu vivo atrás de você e você bancando a difícil! E ainda acha que faz tudo por mim!
E faço mesmo! O que eu faço pelo seu negócio é por você, por quem você acha? Eduardo se levantou.
Calma, gente. Acho que chegamos num ponto em que está óbvio o que está acontecendo aqui. Leila sentou-se e segurou o rosto entre as mãos.
Tem toda razão. Tá óbvio. Eduardo olhou para Toni. Leila se levantou.
Eu peço demissão, ela decretou. Os dois ficaram assustados. Ela foi para o vestiário. Toni ficou ali, sem ação, chateado.
Quer que eu fale com ela? Eduardo perguntou.
Não. Deixa ela se acalmar.
Toni foi ao vestiário, e ela estava sentada, com suas coisas na mão.
Por favor, ela disse. Não quero conversar!
Tem alguém aqui que veio para te ver, ele disse. Ela olhou para ele, ele parecia animado. Ela foi, esperançosa para o bar, mas quando chegou lá, e deu de cara com a mulher que a aguardava, ela ficou parada, em choque.
Leila, ela disse. Vendo sua reação, a mulher riu um pouco.
Não vai me cumprimentar? Ela mexeu os ombros e acabou esticando a mão.
Carminha.
Você recebeu minha mensagem?
Sim, mas não sabia que estava em São Paulo. Ela olhou em volta.
Podemos conversar um pouco? Leila apontou uma mesa, afastada.
Então você ainda trabalha de garçonete, hein? Não voltou pra faculdade? Toni e Eduardo ouviram a mulher dizer e Leila confirmar, e se entreolharam.
É, não. Ainda sou garçonete. Depois Toni pediu a Eduardo que levasse água para as duas, que conversavam em um tom muito baixo de voz, e pararam de falar quando ele se aproximou.
Toni & Leila 7
Numa noite, depois de se arrumar, ela apareceu e quando Toni e Eduardo olharam para ela, ficaram paralisados, de boca aberta: ela estava mais bonita que o normal. Tinha carregado bem a maquiagem dos olhos, como Eduardo a aconselhara, e o uniforme estava estrategicamente mais curto e mais decotado. Ela percebeu o olhar deles e deu de ombros.
Preciso de muita gorjeta hoje, ela disse, como se explicando. Toni fez uma careta e torceu o pano de prato que estava segurando com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
Cara, você precisa dar um jeito nisso, Eduardo comentou.
O que que eu vou fazer? Mandar ela embora? Não posso, hoje é sábado, o pior dia pra ficar desfalcado! Eduardo colocou a mão no ombro dele.
Não é isso que eu tô falando, meu chapa. Tô falando de vocês dois. Toni o encarou surpreso.
Vamos ser sinceros: tá na cara que rola um sentimento. E quem tá de fora percebe essas coisas. Toni arregalou os olhos.
Vocês ficam comentando isso? De nós?
Mais ou menos. Mas esse stress todo entre vocês… Na verdade é… E ele fez um gesto como se Toni entendesse.
O quê? Fala!
Tesão! Toni ficou encabulado e desviou os olhos.
Não é, ele negou. Ela me odeia. Eduardo riu, e depois se conteve.
Ela não te odeia, cara. E você também precisa resolver isso de alguma forma. Os dois se olharam. Eduardo bateu no ombro dele.
Negar não vai fazer o sentimento sumir, ele completou. E se virou. Toni ficou o resto da noite observando Leila sorrir e agradar os clientes, e seu plano realmente funcionou bem: as gorjetas tinham sido boas. Ela vivia precisando de dinheiro, ele pensou. Que tipo de encrenca será que ela estava metida? Depois lembrou-se que ela tinha mencionado que tinha entrado na faculdade. E teve um insight. No final da noite, ele a avisou.
Vou te levar pra casa. Ela se surpreendeu um pouco: não era uma oferta, era uma ordem. E ela esperou.
Sabe aquela menina que de vez em quando faz um extra, acho que o nome dela é Jeizy? Ela fez que sim.
O que você acha dela? Ela é legal?
Acho que é. Pelo menos, eu não tenho nada contra.
Tô pensando em contratar como fixa. Ela não gostou.
Não sabia que tava precisando de outra garçonete.
Não, na verdade estou precisando de alguém que me ajude a gerenciar. Ele olhou para ela, que parecia revoltada.
Nossa, não sabia que essa moça tinha tanta habilidade assim!
Não, não ela. Ela vai ser garçonete. Você. Leila assustou.
Eu o quê?
Você tem habilidade. Você já conhece a rotina, só precisa que eu te ensine umas coisas e você pode me ajudar a gerenciar o bar. Ela ficou estupefata. Não sabia o que dizer, o que responder.
Não sei se sou capaz. Ele olhou para ela.
É, sim, ele disse, num meio sorriso. Ela ficou desconfiada.
Isso é ideia da sua mãe?
Não. É minha.
Nos dias seguintes, sempre que podia, Toni chamava Leila para acompanhá-lo e para lhe mostrar papéis, e outras coisas administrativas. Quando os dois estavam juntos, ficavam como que num mundo à parte, numa bolha, onde só existiam eles. Ela prestava muita atenção e ele era muito sério e compenetrado. Os outros olhavam e sempre viam os dois debruçados sobre algum documentos, ou na frente do computador, falando num tom de voz amigável, sempre educados, sempre num boa sintonia. Toni não importunava mais ninguém com suas manias e Leila não mais era vista gritando e falando palavrões. Eduardo apontava para os dois e fazia cara de quem já sabia. Depois de algum tempo, realmente ele contratou outra garçonete e Leila começou a fazer sua parte como gerente do bar. Sempre que tinha alguma dúvida ela o procurava e ele, com toda paciência, a ajudava. Com o tempo, ela foi se soltando e tomando iniciativas, sendo que ele se orgulhava dela e sorria sempre que ela se mostrava proativa. Olhava para Eduardo e aprovava com um sinal de cabeça, ao que o barman respondia com um sinal de positivo. No dia de fazer a folha de pagamento, ele mostrou tudo a ela, deixando seu contra-cheque por último. E quando ele mostrou de quanto ia ser o salário novo dela, ele aguardou para ver sua reação. Ela sorriu.
Tá bom assim? Ele perguntou.
Ô! Bem melhor, né?
Assim você não vai mais precisar vender suas coisas, ele deixou escapar. O sorriso dela se dissipou.
Vender minhas coisas? O que você acha que eu vendi? Ele não queria responder, mas olhou sem querer para o cabelo dela. Ela passou a mão na cabeça.
Você não tá achando que… Você acha que eu vendi meu cabelo? Ela perguntou chateada. Ele não respondeu.
Você sempre espera o pior de mim, não é? Ela virou a cara.
Não! É só que… sei lá… alguém falou e eu fiquei com isso na cabeça. Ela ficou desconsolada.
Ele foi até o apartamento dela, levando flores. O prédio era mesmo feinho, mas quando ele entrou, ficou surpreso com a arrumação e limpeza do pequeno apê. Era como se fosse uma casinha de bonecas, com poucos móveis. Ela fez uma careta, mas o mandou entrar e ofereceu a cadeira, sentando-se na poltrona, com as flores na mão. Ele se aproximou e a tocou no ombro.
Eu vim pedir desculpas, ele disse. Eu falei uma besteira. Você tem o direito de ter o cabelo no comprimento que quiser. Ele a apertou um pouco para fazê-la olhar para ele. Ela pensou um pouco, e depois disse:
Eu não queria contar pra ninguém. Mas vou contar pra você. Ela olhou para o relógio.
Dá pra passar num lugar antes de ir ao bar? Ela perguntou. Ele concordou. Ela o levou para um hospital. Ele ficou quieto, só aguardando. Eles entraram. Leila foi recebida com alegria, todos a conheciam. Principalmente as crianças que pulavam em seu colo, a acariciavam e beijavam. Era um hospital de crianças com câncer. Ela mostrou várias alas para Toni, que ficou emocionado. Quando saíram dali e entraram no carro, ele não tinha coragem de encará-la.
Qualquer doação é bem vinda, ela disse. Eu senti que… eu queria fazer a diferença para essas crianças. Eu doei o que eu tinha. Ele já tinha entendido, mas ainda estava constrangido.
Eu… ele começou. Eu não te conheço muito bem, ele admitiu, e só então olhou para ela.
Mas não conte pra ninguém, ela pediu. Não me importo com o que os outros pensam. Ela só se importava com o que ele pensava.
Quando chegaram no bar, foram cuidar de seus afazeres, e quando Leila voltou para perto dele no caixa, ele a olhou e ficou hipnotizado. Ela tinha passado aquele batom de novo.
Que foi? Ela perguntou. Ele tomou coragem, hesitante.
A sua boca, ele disse e não conseguia desviar os olhos dela. Ela se incomodou.
O que tem? O batom manchou os dentes? Ela tentou limpar com os dedos.
Não.
O que é então?
Eu… penso nela o tempo todo, ele admitiu. Leila surpreendeu-se. Os dois ficaram se olhando, parados, por um bom tempo, até que Eduardo chegou.
Aí, gente boa! Desculpe interromper esse momento lindo, mas se vocês não vão se beijar, eu preciso trabalhar. Mesmo assim, eles continuaram ali, parados, até terem coragem de quebrar o contato visual e começarem a trabalhar.
No final da noite, ele a avisou que a levaria para casa. Aquele clima tinha rolado a noite toda entre eles, e quando entraram no carro, ela avisou.
Na minha casa não tem camisinha e a vizinhança é um pouco perigosa para deixar o carro na rua. Ele ficou imobilizado por alguns segundos: sua mente ficou em branco. Quando voltou ao normal, ele deu a partida no carro e sua primeira providência foi parar numa farmácia. Depois, quando estacionou o carro num posto perto do prédio dela, ele apenas deu de ombros.
Eu tenho seguro, ele disse. E os dois foram para o apartamento dela.
Nenhum dos dois tinha realmente planejado aquilo. Nenhum dos dois sabia exatamente o que fazer, como começar ou o que dizer. O coração de Leila estava disparado e ela sentiu um arrependimento profundo quando finalmente ele estava dentro de seu apartamento. Ele se aproximou, mas ela não conseguia olhar em seus olhos.
Você preferia ter ido para outro lugar? Ele perguntou. Ela não conseguia responder; sua respiração era rápida e ele via seu peito subir e descer.
Foi um erro. Acho melhor nós não… Ele segurou seu queixo e a fez olhar para ele. Acariciou seu cabelo, com calma, e depois passou o braço por seu ombro, aproximando-a de si.
Eu quero muito beijar sua boca, ele disse. Seus olhos eram ternos. Ela estava praticamente tendo um ataque cardíaco. Pensou por um momento que ia desmaiar. Não podiam, ele era seu chefe. Ele era filho de Natália, ele até pouco tempo pensava que ela era uma puta. Ele a tinha beijado à força uma vez, ele devia achar que ela dava pra todo mundo. Tava tudo errado, não podia acontecer.
Você está com medo? Ele perguntou sentindo as batidas de seu coração. Ela estava sofrendo, ela não sabia que também queria tanto aquilo. Sempre achara que sua implicância com Toni era ódio, mas agora, de repente, ela percebia que aquele sentimento era muito mais forte, era muito mais poderoso e por isso ela o afastava com tanto ardor. Ela fez que sim com a cabeça.
Por quê? Ela não sabia se devia dizer. Sua cabeça estava à mil por hora, não sabia mais nada. Ele a abraçou ternamente, olhou em seus olhos, e por fim, aproximou-se devagar e encostou seus lábios nos dela, suavemente. O medo e o remorso se desmancharam imediatamente dentro dela. O calor de seus lábios era irresistível e ela sentiu como se estivesse finalmente sendo honesta consigo mesma, e tudo o mais desapareceu de sua mente confusa. Ela enlaçou seu pescoço e aprofundou o beijo, partindo os lábios para que sua língua alcançasse a dele. E ela estava certa: aquele beijo era tudo.
De madrugada, ela estava dormindo em seu peito nu, quando ele a puxou e a beijou novamente.
Sabe que eu não posso ficar, né? Ele perguntou. Ela fez que sim.
No dia seguinte, logo cedo, um torpedo. “Você é linda mais que demais.” Ela se emocionou. Quando se encontraram no bar, eles tinham negócios para resolver e não tinham conversado sobre o que tinha acontecido. Num certo momento, sua mão estava no balcão e ele ficou acariciando-a devagar. Ela levantou os olhos lentamente das suas mãos para os olhos dele. Ela tinha milhões de coisas na cabeça que queria dizer a ele, mas ficou quieta.
Desculpe não ter ficado. Foi por causa da minha mãe.
Eu sei.
Tá tudo bem com você? Ela lembrou-se de como haviam se amado na noite anterior, de como tinha sido intenso e forte e sentiu um calafrio. Certamente que o jeito com que ele a olhava era muito terno e que não a estava tratando como um caso de uma noite só. Leila sentiu novamente aquela fúria que subia de seu mais íntimo ser, só que agora ela estava muito consciente de que não era um sentimento negativo, ou antagônico, de forma alguma. Era um furor, um frenesi, que a dominava e que, se antes tinha interpretado mal, agora ela sabia perfeitamente ser uma paixão, que pedia, não, que exigia que ela o tivesse em sua vida. Ela espirrou.
Saúde, ele respondeu. E enquanto ela coçava o nariz, viu que ele sorria, o que a fez ter uma vontade quase incontrolável de abraçá-lo ali mesmo, e beijar sua boca com força. Mas ao invés disso, ela riu.
Que foi? Ele perguntou.
Nada. É que lembrei de ontem à noite.
Lembrou de ontem à noite e espirrou? O que isso quer dizer? Que tem alergia à mim? Ela riu mais ainda.
É isso mesmo. Tenho. Alergia de ficar assim, perto de você e não te agarrar, te beijar, tirar sua roupa e te abusar! Ele arregalou os olhos e abriu a boca. Nunca realmente ela tinha sido tão descontraída e ousada antes, e aquilo provocou nele a mesma sensação de urgência em senti-la de novo.
Não seja por isso! Ele respondeu. Vamos curar essa alergia já! Ele ameaçou cutucá-la e ela se afastou, rindo e fugindo, pois sabia que se os dois se tocassem naquele momento, tudo que não podia ia acontecer. Não ali em público. Não tão rápido e sem terem conversado antes.
Ei, onde você vai? Ele perguntou.
Tô ocupada. Conferindo nota fiscal, ela respondeu, fazendo uma cara de séria e depois mostrando a língua. Meu chefe é muito exigente.
Toni & Leila 6
Ela chegou uma tarde com um novo penteado. Seu cabelo estava repicado, supercurto, super ousado. Toni não fez nenhum comentário. Os outros funcionários, no entanto, fizeram um estardalhaço. Queriam que ela desfilasse, passavam a mão, perguntavam se era promessa, como tinha tido coragem, quem tinha feito aquela maldade com ela. Ela só sorria e não falava nada. Passava a mão no pescoço e dizia que estava com calor. Eduardo, quando colocou os olhos nela, ficou embasbacado. Pegou-a pela mão e a rodou.
Deixa eu ver! Meu Deus do céu, devia ser proibido uma mulher ser tão gata assim! Você não tem dó da população masculina? Toni ouvia tudo, de longe, sem se meter.
Sabe o que agora vai ficar super bem? Carregar mais na maquiagem do olho e colocar uma roupa de couro preto. As outras garçonetes vibraram. Toni estremeceu.
É verdade, porque você tá super parecendo uma roqueira, não tá, Ju? Ele perguntou para a outra garçonete. Leila sorriu pela primeira vez com sinceridade.
E hoje, depois do expediente, nós vamos todos comemorar! Eduardo disse, abrindo os braços como se abrangesse todo mundo. O pessoal bateu palmas.
Isso mesmo, vamos comemorar o novo visual! E enquanto se afastava, ele apontou para os olhos.
Deixa bem preto, ele disse. Mais tarde, Toni ouviu por acaso quando Gina comentou, quase num sussurro, com o cozinheiro, achando que ninguém os ouvia.
Tá na cara que ela vendeu. Os dois se olharam e concordaram com a cabeça. Toni levou um choque. Nem tinha passado por sua cabeça que tinha algum motivo por trás de um simples corte de cabelo.
Um cabelo bonito e liso daquele, deve ter dado uns mil reais.
Uns dois mil.
Por aí.
E como prometido, no final da noite, o pessoal ficou um pouco mais, para jogar um pouco de conversa fora e beber.
Quantos centímetros tinha?
Você mediu?
75 centímetros.
Uau!!!
Um brinde, um brinde! Eduardo levantou, chamando Toni, que não havia se juntado aos funcionários.
Anda, boss! Só tá faltando você. Ele olhou para o grupo e pareciam estar aguardando por ele, então, veio para perto, pegou um copo e levantou. Eduardo bateu no ombro dele.
Um brinde ao novo visual da nossa colega Leila, ele fez uma reverência. E todos brindaram.
Discurso, discurso! Ele puxou e todos o acompanharam. Ela ficou sem graça, mas levantou-se assim mesmo.
Na verdade eu tenho duas coisas muito importantes a dizer: primeiro, eu já me pesei e estou dois quilos mais leve! Todos riram.
Além disso, todo dinheiro que vou economizar em xampu vai pra poupança! E todos vibraram. Quando sentaram-se de novo, Toni estava ao seu lado e sentiu sua perna tocar a dela e teve o impulso de afastar, mas não o fez. Apenas aguardou, para ver se ela afastava primeiro. Na verdade, Eduardo era muito animado e fazia muitas palhaçadas, então o grupo estava solto e alegre. Leila não afastou sua perna e Toni ficou focado naqueles dois joelhos se esfregando, muito sutilmente, até o final da noite. Na saída, ele ofereceu carona de novo. Ela olhou para ele e concordou. Quando ele parou em frente ao seu prédio, ele olhou para ela e esticou a mão, tocando seu cabelo novo.
Não sente falta? Ele perguntou. Ela deu de ombros.
Não. Estou me sentindo levinha. Ele sorriu, mas sentia tristeza em seu íntimo. Ela focou seu olhar, tentando entendê-lo. De repente, ela tocou seu rosto, na bochecha, num afago, e ele fechou os olhos, permitindo. Mas depois ela agradeceu e saiu do carro, sem olhar para trás. E ele ficou ali, confuso. O que tinha acontecido? Eles tinham tido um momento de carinho? Primeiro ele tinha tido ciúme dela com o barman, depois ficara feliz com o seu toque. Ele mesmo não conseguia definir o que sentia.
Mãe, a senhora sabe de algum lugar que compra cabelo natural? Tipo, de um lugar que paga para você cortar seus cabelos? Natália estranhou a pergunta e sorriu, esticando a mão para tocar seu filho.
O seu não vai pagar muito, querido. Mas por que quer saber?
É que, ahn, tem uma pessoa que cortou o cabelo e fiquei só pensando se isso existia mesmo.
Existe. Fazem perucas com cabelos naturais, ainda mais se forem bem tratados, lisos, virgens.
Virgens?
Sem tintura. Ele não falou mais nada.
Você quer me dizer mais alguma coisa, meu filho? Ele hesitou.
Eu tô achando que a Leila vendeu o cabelo dela. Natália apertou as sobrancelhas.
Mas eu dei o aumento que a senhora mandou.
Eu sei. Ela me ligou agradecendo. Mas você tem certeza?
Não, só desconfiei. Não sei de nada, não estou afirmando.
Está supondo. Ele fez que sim.
O quanto ela cortou?
Praticamente tudo, ele pôs a mão na nuca para indicar o comprimento. Natália lembrou-se da ultima vez em que tinha trançado seus cabelos, eram muito longos. Ficou preocupada.
Pode ser que ela apenas tenha tido vontade de variar, não é? Sabe como mulher é. Sempre mudando de ideia, além do mais, cabelo cresce. E mesmo que ela o tenha vendido, vendeu algo que lhe pertencia.
Fiquei pensando se ela estava precisando de dinheiro, ele admitiu.
Entendi, disse Natália. E depois não disse mais nada.
Mas tudo parecia estar do mesmo jeito. Nada havia mudado, nem no bar nem em casa. Natália não parecia preocupada com a situação e Toni não ficou questionando. Algo que também não havia mudado era o fato de Toni e Leila brigarem por coisas corriqueiras.
Mas desde quando você tem autonomia para escolher onde o material de limpeza vai ser armazenado? Ele perdia a paciência.
Desde quando não tem aqui uma pessoa responsável que saiba que se a vigilância sanitária der uma incerta nós vamos ser multados se encontrarem os desinfetantes junto com nosso estoque!
Mas esse cubículo ia ser usado para guardar uma compra grande que eu fiz com um fornecedor!
Nossa, mas para economizar mixaria você vai preferir correr o risco de fechar? Pelo amor de deus, não dá nem pra conversar com você! Ela gesticulava e saía de perto. Ele ia atrás dela, reclamando.
Agora me fala onde é que eu vou estocar quinhentas caixas de Black Label?
Sei lá! Se vira! Aluga um galpão, coloca na sua casa! Ele levava as mãos à cabeça para se controlar e corria ao telefone, tentando resolver a situação.
Você pelo menos conferiu a nota?
Que nota?
A nota fiscal!
E quando foi que eu fui orientada sobre conferência de nota? Nem faz parte do meu serviço!
Pelo amor de deus, Leila! Como que você recebe mercadoria e não confere os dados da nota?
E por que você não deixou alguém orientado para receber a mercadoria? Onde é que o senhor estava que não podia ter chegado mais cedo?
Eu já falei que eles vieram adiantados! Eu não sabia que não ia estar aqui para receber!
Então confere agora a nota e depois liga pro seu fornecedor e reclama com ele, ok?
O que está acontecendo aqui?
O eletricista está trocando o chuveiro do nosso vestiário, Leila explicou.
Puta que pariu! Mas por que você chamou o eletricista? Eu mesmo podia ter trocado! Quanto vai ficar essa merda?
Se você podia ter trocado, por que faz três dias que a gente tá sem água quente?
Puxa vida, Leila, é fim de mês, eu tô com a corda no pescoço!
Se tá ruim pra você, imagina então pra nós!
Toni & Leila 5
No dia do pagamento, quando assinou seu contra-cheque, Leila ficou analisando por algum tempo antes de entender. Sempre estava preocupada com descontos, mas aquilo… era inesperado.
O que significa isso? Ela perguntou. Ele olhou, tranquilo.
Ahn, você teve um aumento, ele deu de ombros. Aquela raiva, aquilo que subia de dentro de suas entranhas a pegou de súbito, como um fogo.
A troco de quê? Ela estava agressiva. Ele ficou surpreso e calado.
Cê tá me zoando, né? Meu, fala que você tá me zoando! Ela falava cada vez mais alto. Ele estava boquiaberto, sem entender a reação dela, mas já sentindo aquele antigo ódio que por muito tempo fora a essência da relação deles.
E isso a troco de quê? Ela perguntou. Vou ter que chupar seu pau ou você vai querer me foder mesmo? E ao dizer isso, ela virou-se e saiu num rompante, indo para o vestiário. Ele saiu de trás do balcão e a seguiu. Quando a alcançou, segurou com força seus braços, com muito mais força do que pretendia, e a fez ficar de frente para ele, encostando-a na parede.
Escuta aqui: eu não sei o que você e minha mãe conversam, mas foi ela, é isso mesmo, minha mãe que mandou eu te dar um aumento! Ela tentou se soltar, mas ele a prendeu ainda um pouco.
Eu não quero nada de você! Nada! Ele gritou. Seus olhos estavam injetados e vermelhos. Ela tremia de ódio.
Entendeu? Ele disse bem perto dela. E a soltou.
Durante o expediente, os dois nem se falaram. Mal se olhavam quando ela ia buscar os pedidos. No final da noite, quando fechava, notou que as garçonetes ainda estavam no vestiário e ficou esperando. Só que demorou muito e ele ficou desconfiado e foi até a porta.
Ei, tudo bem? Cês vão dormir aí hoje? Ele perguntou. E então ele ouviu uma risadinha e alguns pedidos de silêncio. Ele entrou. As duas meninas seguravam Leila, que ria.
Ih! Não adiantou! Ele descobriu a gente aqui! Ela disse e caiu na gargalhada de novo. Ele estranhou, mas percebeu imediatamente que ela estava bêbada. Ela fez um esforço e depois tentou ficar séria.
Chefe, tá tudo bem, sua voz era arrastada. Já tamo saindo, né, fofas? Ninguém tava falando mal de ninguém aqui, não, viu? A gente ama todo mundo! A gente só fala bem das pessoas! E depois ela começou a rir de novo, descontrolada. Bravo, ele olhou para as outras duas e as dispensou.
Tudo bem, podem ir, eu levo ela pra casa, ele disse. Mais do que depressa as duas saíram. Leila não parava de rir.
Ó, não fica bravo não, chefe, não fica bravo não! Eu sei que você tem um monte de namoradas… Ela não conseguia completar as frases, porque ria.
Eu vou pagar tudinho que eu bebi, falou? Tudinho! Ela disse. Ela se levantou e colocou as mãos na cintura, empinando o peito.
Eu recebi um aumento! Eu recebi um aumento, ela repetia. Eu sou a melhor garçonete do mundo! Ele não sabia o que fazer. Pensou em talvez fazer um café ou lhe dar alguma coisa doce para ver se aumentava a glicose, mas ficou ali, só olhando.
O que você tá olhando? De repente ela ficou brava e gritou. Tá olhando o quê? Você sabia que eu passei no vestibular da USP? Aposto que não sabia! Você nunca sabe nada! Você só olha pro seu umbigo! Você e as suas namoradinhas, que devem ser todas loirinhas magrelas igual modelo de capa de revista! E quando vocês saem os dois ficam no celular porque não tem nada pra conversar um com o outro! Ela caminhou um pouco cambaleante e depois olhou para ele de novo.
E você não fica pensando que eu fico implorando dinheiro pra sua mãezinha, não, viu? Porque eu não fico! Ela se aproximou, zangada e apontou um dedo na cara dele.
A única coisa que eu já pedi na vida pra sua mãe foi este emprego! A única coisa! Droga, droga, droga!!!! Por que ninguém acredita em mim? Ela começou a chorar e foi abaixando até sentar-se e ficar como uma bola enrolada no chão frio. Ele ficou com dó e a pegou do chão. Ela resistiu.
Não! Me deixa! Me deixa! Ela chorava desconsolada.
Totalmente perdida e desorientada, Leila acordou num lugar diferente e percebeu que já era dia. Levantou-se e abriu a porta, tentando saber onde estava. Olhou para si mesma e viu que vestia um pijama e que não era dela.
Bom dia! A moça cumprimentou. Ela apertou os olhos.
Preciso de água, ela disse.
Sim, senhora. Mas quem voltou foi Toni com um jarra de água gelada e duas aspirinas.
Toma, vai se sentir melhor, ele disse, sentando-se ao lado dela na cama.
Aqui é sua casa? Ela perguntou. Ele fez que sim.
E esse pijama? Mesmo de ressaca ela estava brava.
Você se vomitou toda, lembra? Ele respondeu. Ela não lembrava. Ela torceu os lábios.
E te dei banho também, ele sorriu provocando-a. Ela olhou para o outro lado e colocou a mão na cabeça.
Não me fala que foi você que trançou meu cabelo.
Foi a mãe. Tá com fome? Ele perguntou.
Eca, ela respondeu.
Dorme mais um pouco, ele disse, saindo. Ela deitou-se.
Sua mãe viu toda a baixaria? Ele torceu os lábios e fechou a porta.
Quando finalmente se levantou, Toni já tinha ido para o bar. Ela abraçou Natália e ajoelhou-se aos seus pés.
Desculpe.
Não precisa se desculpar, querida. Quem é que nunca tomou um porre, não é?
O Toni deve estar bravo pra caramba.
Não está. Pare de se preocupar com isso. Ela deitou a cabeça no colo da amiga.
Eu queria tanto ser uma pessoa melhor… Natália afagou seus cabelos.
Pare de tentar se comparar com os outros, minha linda. Você precisa aceitar que é uma pessoa maravilhosa e relaxar. Ser você mesma é o melhor que você pode ser. Não fique entanto impressionar e agradar aos outros. No final das contas, vai ser entre você e Deus, e e não entre você e os outros.
Eu não sei… Acho que eu não mereço… Acho que eu não tenho o que é preciso para ser feliz…
Isso é uma besteira muito grande que você pôs na sua cabeça. Livre-se disso. Pare de se preocupar em controlar a vida! No final das contas, não há muito que possamos controlar, a não ser nossas próprias reações e atitudes frente aos problemas. Então, mude apenas o que está ao seu alcance – e depois relaxe e curta a vida. Se você é confiante e verdadeiro, você não precisa provar que está certo! Todos nós erramos, tentar ser perfeito é inútil e desgastante. Leila ouvia e sentia-se compreendida. Achava que ela tinha razão, mas não sabia ser tudo aquilo. Quando chegou ao trabalho, não trocou nenhuma palavra com Toni.
Nos dias que se seguiram, Leila ficou muito quieta, reservada, quase não falava. Estava instrospectiva e se lhe perguntavam o que tinha, ela sorria um pouco e dizia “nada”. Toni manteve a distância. Não a procurou nem perguntou nada. Mas ele a observava mais agora. Não tinha certeza se sentia pena, mas algumas vezes tinha vontade confortá-la, de conversar com ela, de conhecê-la um pouco mais. Mas não fez nada disso, apenas manteve a distância e a deixou em paz. Ele estava treinando um novo barman.
Leila, este aqui é o Eduardo, vai ser o novo barman. Ela esticou a mão.
Prazer. Mas ele não deixou por menos. Puxou sua mão e, sem quebrar o contato visual, a beijou.
O prazer é todo meu, Leila, ele disse sedutor. Ela não se impressionou. Pegou seu pedido e saiu. Ele a acompanhou com o olhar.
Nossa! Essa gata é quente, hein? Ele comentou. Toni sentiu uma fisgada no estômago. Eduardo era alto, moreno e pelo que tinha percebido, fazia sucesso entre as mulheres. Talvez ele fosse o consolo que Leila esperava. Talvez fosse um homem assim que ela queria.
É, ahn, nada de namorar as garçonetes, ele disse num impulso. Eduardo fez um bico.
É, depois elas se magoam, pedem a conta, é difícil encontrar boas garçonetes, então… Eduardo assentiu.
Clientes não tem problema, Toni completou. E então o barman sorriu. Toni olhou para Leila. Era bonita, mesmo triste. E tinha uma boca muito sensual. Por trás de toda aquela raiva e tristeza, era provável que batesse um coração ardente e impetuoso. Ela devia ser uma amante estimulante e arrojada. Ele sentiu ciúmes. Ele não queria que alguém a conquistasse. Ele não queria que alguém a fizesse sorrir. Ele estava viciado em sua tristeza e não ia ser um barman bonitão que ia estragar aquilo. Se ele quissesse alguma das outras meninas, Toni até podia ter ignorado. Mas não. Só faltava essa: ele assistir de camarote o novo garoto do pedaço fazer Leila sorrir e ser feliz. Mesmo assustado com esses pensamentos, os escondeu dentro de si. Ninguém precisava saber. Ninguém.
Toni & Leila 4
No dia seguinte, no meio da tarde, Toni ligou para Leila.
Olha, eu contratei uma enfermeira para passar a noite de agora em diante, e conversei com a nossa empregada, e ela topou ficar até mais tarde para esperá-la chegar. Então, ahn, você pode voltar a cuidar da sua vida, ele disse.
OK, ela respondeu. Fez-se silêncio.
É, ahn, você pode folgar hoje, mas dá pra voltar pro bar amanhã no mesmo horário de antes? Ele pediu, menos autoritário.
OK, ela respondeu de novo. E desligaram.
Ele gesticulava descontroladamente.
Por que toda vez que a gente tá junto tem que rolar esse stress, hein?
Porque você é um ditador recalcado que acha que todo mundo tem que entender o sacrifício que é a sua vida! Até sua mãe sabe que você não transa com ninguém e fica aí todo nervosinho!
Puta que pariu! Você é uma encrenca, uma dor de cabeça todo dia!
A culpa é toda sua! Você que é um poço de tensão e fica descontando todos os seus erros na gente! Para de tratar as pessoas como se fossem seus escravos! Seja mais humano, cara!
A gente já trabalha junto há uns 3 anos! Com as outras meninas não tem esse enrosco, eu não suporto mais!
É porque todo mundo tem medo de falar na sua cara e eu não!
É porque você acha que eu não vou te mandar embora por causa da minha mãe!
Eu não tenho nada a perder! No dia em que você me mandar embora eu vou realizar um grande sonho: vou dar um soco nessa sua cara idiota! Ele ficou trêmulo de ódio. Ele também queria bater nela. Muito. Mais do que seria permitido. Ele devia dar uma surra nela para acalmar aquela arrogância e baixar a bola dela. Considerou até a possibilidade de dar apenas um tapa nela ali mesmo, naquele momento. Seria processado, ia ser um saco. E na sua ânsia de tomar uma atitude, ele a agarrou com força e a beijou. Surpresa, ela tentava afastá-lo, mas ele a segurava com ainda mais força, e ela acabou por amolecer em seus braços, sentindo a língua dele invadir sua boca, com uma segurança inesperada. Quando ele a largou, ela o encarava, muda e apavorada, com os olhos arregalados. Ele enxugou a boca nas costas da mão e desafiou seu olhar. Nenhum dos dois teve coragem de dizer nada, e por fim, ela se afastou, com passos não tão firmes como gostaria. Quando chegou ao vestiário, trancou-se e ficou tentando se acalmar, sem entender muito bem o que havia acabado de acontecer. Ele a tinha surpreeendido de uma forma inaceitável. Estava racionalmente com raiva, mas percebeu que seu corpo estava diferente, meio que amortecido, como se o aperto tivesse lhe dado algum conforto desconhecido, que ela veementemente refutava. Ele também ficou mais relaxado. A força com que a dominara tinha lhe dado uma descarga forte de adrenalina e ele respirava com mais calma agora. Pensou que se o efeito tivesse sido o mesmo nela, era exatamente do que ela precisava.
Nas noites seguintes, Leila evitou ao máximo o contato com Toni, e ele percebeu que sua forma de agir havia funcionado melhor do que se a tivesse espancado. Por vários dias, os dois não discutiram por nenhuma razão e ela estava se comportando aparentemente bem. Ela só começou a voltar ao normal numa das noites, quando, junto com os pedidos ela ordenou uma dose de tequila que não estava anotada. Ele percebeu e colocou duas doses. Ela olhou para ele, interrogativa, e ele pegou uma e levantou como num brinde. Sem dizer nada, ela pegou o copo dela e respondeu ao brinde, e os dois beberam seus shots. No final daquela noite, ele falou com ela.
Você não foi mais visitar minha mãe.
Eu falo com ela todo dia, ela disse, sem olhar direto para ele.
Ahn, só queria que soubesse que se quiser visitar, ahn, tudo bem. Ela virou o pescoço e olhou para ele.
OK.
E algo foi se modificando dentro de Leila em relação a Toni, e ela começou a perceber que, se ela não o tratasse com rejeição e desprezo, ele também não a tratava assim. Ele era apenas um reflexo de suas atitudes, ele a espelhava. E apesar de em alguns momentos ainda sentir raiva dele, uma raiva inexplicável, que subia de seu mais íntimo ser, ela decidiu que, toda vez que tivesse o ímpeto de dizer algo ruim a ele, ela ia segurar-se e ser controlada. Algumas vezes Toni era brusco com os funcionários, e dava ordens de forma grosseira. Mas ele mesmo se surpreendeu sentindo vergonha de si se Leila estivesse por perto ou se houvesse a possibilidade de ela ouvi-lo. Ele achava que precisava ser uma pessoa melhor, por alguma razão, se ela o estivesse observando.
Naquela noite, o bar tinha estado um pouco vazio, já que a chuva caía torrencial sem dar uma trégua desde a tarde. Quando estava fechando, Leila passou por Toni e despediu-se rapidamente.
Tchau! Ele nem teve tempo de responder, mas quando abriu a porta, a energia caiu. Ele procurou e acendeu uma grande lanterna.
Puxa, ainda bem que eu já tinha terminado, ele murmurou. Leila ficou observando a chuva e voltou para perto da luz.
Vou dar um tempo, tá muito forte. E os dois ficaram em silêncio. Toni acendeu algumas velas. Os trovões eram altos e o sinal de internet tinha caído.
Será que é apagão? Ela perguntou. Ele estava com o celular no ouvido.
Também tô tentando falar com minha mãe e não consigo. Depois de mais algum tempo em silêncio, Toni sentou-se na mesa em que ela estava com dois copos, a garrafa de tequila e uma Schweps. Ele a serviu e foi abrindo a Schweps. Ela tirou da mão dele.
Nã-nã-nã-não! Bebe comigo.
Mas eu tô dirigindo! Ele argumentou. Ela serviu as duas doses assim mesmo. Ele riu meio sem jeito e acabou topando. Ela serviu de novo.
Você quer que eu fique bêbado! Ela riu. Mas as duas doses tinham conseguido fazer com que os dois ficassem menos tensos. Eles começaram a conversar sobre a chuva, depois sobre o que estava no freezer, sobre a recuperação de Natália.
Você está diferente, ele comentou. Ela ficou quieta.
Desculpe por aquele dia, ele disse.
É, eu não sei o que você está pensando, mas… Ela olhou para ele na penumbra. Ele se aproximou, mas ela desviou.
Foi tão ruim assim? Ele perguntou. Ela ficou olhando para o copo vazio.
Foi errado, ela disse. Mas tudo bem, no fundo eu entendi sua intenção. Ele subiu as sobrancelhas.
Eu precisava calar a boca e você conseguiu fazer isso. Na verdade foi bem eficiente, não? Ele riu alto.
Eu não sou sempre tão convincente! Ele se aprumou na mesa.
Ao contrário do que minha mãe acha, eu tenho tido algumas namoradas, ele disse. Não sou abstêmio e nem estava necessitado. Foi mais uma coisa de momento. Foi um impulso incontrolável. Mas por que você acha que foi errado?
Porque foi. Porque é. Não devemos ir por esse caminho. Não devemos ter esse tipo de relacionamento. Eu preciso desse emprego e eu nem tenho tantas habilidades assim, ela acabou confessando. A luz voltou nesse exato momento. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos, antes de se levantarem. Ela pegou os copos e levou para dentro, ele levou a garrafa, depois pegou sua carteira e chaves, e foi em direção ao alarme. Ela ficou aguardando.
Pra mim pareceu certo, ele disse, de longe. Ela olhou para ele.
Mas eu sei porque você achou errado: porque você não quer. Ela não respondeu. Ele ligou o alarme e os dois saíram.
Te dou carona, ele disse. Sem nenhuma intenção. Ela topou.
Toni & Leila 3
Uma das garçonetes avisou que ia faltar, e a única opção que ele tinha era pedir a Leila que a cobrisse em sua folga. Ele ficou terrivelmente contrariado de ter que pedir a ela um favor, mas no final, ele adotou sua posição de chefe e foi falar com ela. Ele tinha certeza de que ela ia xingá-lo e já se preparou para ter sangue frio suficiente para aguentar sem ofendê-la. Leila já tinha terminado de se trocar e estava de costas quando ele entrou, raspando a garganta para avisar de sua presença.
Hum-hum, ela murmurou, sem se mexer. Ele chegou perto.
É o seguinte: a Ju tá doente e não pode vir amanhã. Eu sei que é sua primeira folga em quinze dias, mas será que dá pra você cobrir? Porque senão eu vou ter que chamar uma daquelas extras… Nesse momento ela se virou. Ela segurava um espelho e tinha acabado de passar um batom muito vermelho, e terminou de esfregar os lábios, olhando direto para ele. Por um instante sua respiração ficou suspensa e ele não conseguia desviar os olhos da boca dela. O silêncio se prolongou até tornar-se constrangedor, e ela então respondeu:
Tudo bem. Ele parecia ter acordado de repente, surpreso.
Tudo bem mesmo? Ele olhou para os olhos dela, e ela não parecia brava, mas calma. Ela fez que sim e ele coçou a nuca, desviando o olhar.
Então, tá, ele respondeu e foi saindo. Mas antes de cruzar a porta, parou e, sem olhar para ela, agradeceu.
Obrigado. Depois ele foi para o seu posto e não pensou mais nisso. Enquanto ela servia, uma vez ou outra ele reparou no batom vermelho dela de novo e então percebeu que naquela noite ela não estava bebendo, não que ele tivesse visto. Estava até sentindo um pouco de simpatia por ela, quando percebeu que ela conversava com um dos clientes e sorria, com aquela boca vermelha cheia de dentes. Isso o irritou. Pensou que estava combinando com ele de sair ou algo assim. Ela chegou perto de Toni e, diferente de sua agressividade natural, ela pediu com jeitinho.
Já que vou cobrir a Ju amanhã, não tem problema eu sair um pouquinho antes hoje, né? Ela perguntou. Ele sentiu um tremor dentro de si que não conseguiu controlar e virou-se para ela com a cara fechada.
Será que dá pra você parar de ficar dando em cima dos clientes? Ela levou um susto e ficou imediatamente contrariada.
O quê?
Eu tô vendo você se oferecendo para aqueles caras da mesa 7! Vai sair com qual deles? Ou com todos? O ódio estampado no rosto dela era indisfarçável.
Seu cego retardado! Ela jogou na cara dele e saiu dali. Os dois não se falaram mais até o final da noite. Ela não saiu mais cedo. Quando estava fechando, Toni passou pelo vestiário e ouviu Gina perguntar para Leila.
Ué, você não foi ver sua irmã? Pensei que ia sair mais cedo!
Eu, ahn, mudei de ideia, ela respondeu, tentando soar natural.
Mas eu pensei que era o último dia dela na cidade!
Era, mas eu mandei uma mensagem e tudo bem.
Poxa, que pena! Tantos anos sem se ver e quando ela está aqui não dá certo.
É, ela disse. Ficou pra uma próxima ocasião. Toni afastou-se antes que o vissem, mas sentiu uma culpa que doeu em seu estômago. Quando Leila passou por ele na saída, ele tentou se desculpar.
Ahn, Leila, ele chamou. Ela não olhou para trás.
Vai se ferrar! Ela respondeu, batendo a porta.
No dia seguinte, ele conseguiu se aproximar dela.
Sobre ontem, eu não sabia da sua irmã. Ela só ficou ollhando, de braços cruzados.
Ahn, desculpe. Ela não respondeu nada.
Se você tivesse explicado… Ele começou, mas ela fez um gesto no ar e já foi gritando.
Se eu tivese tido tempo de explicar! Por que o senhor “certinho” sabe tudo, não? Já foi tirando suas conclusões logo de cara! Ela apontou o dedo bem no meio da cara dele.
Dá pra pôr na sua cabeça de uma vez por todas que eu sou uma garçonete e não uma puta? Ele engoliu seco e não conseguiu responder.
Idiota! Ela ainda xingou, antes de se virar e ir se trocar. Ele ficou ali, parado, repensando. Ele sempre tomava como certo que ela não prestava nem era coisa boa. Era verdade. Ele pensava isso dela. A mãe obviamente não. Aliás, ele nunca tinha visto nada que pudesse ser usado nesse sentido, mesmo quando ela bebia. Mas afinal de contas, os bares são feitos para beber, ele pensou. E isso, mesmo antes de começar o expediente, o fez colocar uma dose e virar. Fazia muito tempo que não bebia nada forte, e chacoalhou a cabeça num arrepio, antes de voltar para seus afazeres.
Agora quando ela queria, nem avisava, ia embora.
Ei! Ele a interpelou numa das noites.
Tchauzinho, ela respondeu.
Eu vou descontar cada minuto! Ele ameaçou.
Fique à vontade, monstro! E virou-se saindo, altiva.
Só que numa dessas vezes, ela saiu bem antes de terminar o expediente e ele a segurou pelo braço.
Onde você pensa que vai? Se você sair, não volte mais! Ela puxou o braço.
Você já olhou seu celular? Ela perguntou. Ele não entendeu, mas com a insistência do olhar dela, ele entrou no caixa e pegou-o.
Minha mãe? Eles mandaram uma mensagem pra você? Ele perguntou, entre assustado e surpreso.
Eu tô indo lá agora. Você pode sair já? Ela perguntou levantando a sobrancelha. Ele olhou para o bar cheio
Eu, ahn, eu preciso… Ele não sabia quem chamar para resolver a situação.
Eu vou lá, e mando mensagem. Quando você puder você vai, ela respodeu. E ele apenas fez um sinal com a cabeça, sem ter alternativa. Ia ligar para os irmãos, mas de imediato, era Leila que ia ajudar. Assim que chegou ao hospital, ela ligou para Toni.
Eu estou com ela. Ela está consciente, mas com muita dor. Ela deu pisão errado e o chinelo atrapalhou, vão fazer uma tomografia agora, depois eu ligo de novo.
Tá, tá bom. Ele nem se lembrou de agradecer. E era essa mulher, com quem ele brigava quase todo dia que estava ajudando, já que ainda não tinha conseguido falar com nenhum dos irmãos. Quando na madrugada ele chegou ao hospital, ela já estava de alta. Havia fraturado o braço, mas não havia nenhuma hemorragia interna ou lesão em outros ossos. Ela estava um pouco grogue por causa da medicação, numa cadeira de rodas. Ele ajoelhou-se.
Mãe, que susto! Ela afagou seu cabelo com dificuldade.
Vamos pra casa, ela pediu num fiozinho de voz. Leila estava junto, com todas as indicações do médico. Quando chegaram, os dois a colocaram na cama. Sem dizer nada, Leila tirou os sapatos e o casaco, foi se ajeitando e deitou-se ao lado de Natália, que dormiu rápido. Antes de sair do quarto, Toni olhou para ela.
Obrigado. E depois saiu. Quando se levantou no dia seguinte, Leila já estava na cozinha, e tomando várias providências.
Olha, vamos precisar comprar mais uma caixa deste remédio, esses equipamentos e tambem olhei na geladeira e fiz uma lista de compras. Ele ficou um pouco confuso, e bocejou.
Tem café? Ele pediu. Ela o serviu e ele ficou olhando para a lista.
Ah, e tem outra coisa. Seria aconselhável ter uma acompanhante para ela, pelo menos por enquanto, uma enfermeira ou um parente. Toni sentou-se e colocou a mão na testa. Era muita coisa pra pensar, pra fazer. Se ao menos tivesse alguém de confiança para tomar conta do bar…
Seus irmãos não apareceram, né? Ela perguntou, sentando-se ao seu lado. Ele fez que não.
Tudo bem, ela disse. Agora no começo eu fico aqui, ok? Ele a olhou surpreso.
Vamos fazer assim: eu vou em casa pegar umas roupas. Você me dá uma grana e na volta eu faço as compras. Tá bom assim? Ele torceu os lábios, mas não tinha muita escolha. Fez o que ela falou e quando ela estava saindo, ele lhe entregou a chave e o documento do carro. Ela olhou, em dúvida.
Tem certeza? Ele deu de ombros e ela saiu.
E nos primeiros dias, Toni ficava com a mãe de dia e, à tardinha, Leila vinha e ficava com ela até a manhã seguinte. Eles não se cruzavam muito, então não houve atritos. Leila deixava tudo arrumadinho e Toni quase não tinha tempo algum para mais nada. Até que uma das irmãs veio visitar a mãe, junto com uma neta de 16 anos que passava o tempo todo no celular, com cara de entediada. Naquela noite, Leila não dormiu lá, mas também não foi trabalhar. Quando chegou lá por volta das 4 da tarde no dia seguinte, Toni estava bravo.
Você nunca mais vai trabalhar, é? Ela colocou as duas mãos na cintura e o enfrentou.
Claro que vou! Ficarei muito tranquila deixando a sua mãe sozinha! Seu lábio tremeu, porque ele queria responder, mas não sabia o que dizer.
Cadê sua irmã e sua sobrinha? Ela perguntou.
Ela foram embora, só voltam no sábado.
Você é bem mal agradecido, não? Até parece que eu não tô indo trabalhar pra ficar de folga!
Você podia ter avisado que não ia ontem! Eu fiquei desfalcado!
E ainda fala como se a culpa fosse minha! Quem não tá dando conta é você, monstro! É a sua família, o seu negócio! Ele virou-se de costas e deu um murro na mesa, com raiva.
Você tem toda razão. A culpa é minha mesmo.
Crianças, não precisam brigar. Eu estou bem. Natália apareceu na porta da cozinha. Os dois se assustaram.
Mãe, a senhora não devia ter se levantado.
Mas é verdade, eu estou bem. E não quero que vocês dois fiquem discutindo por minha causa. Podem voltar aos seus afazeres que eu não vou abusar nem me colocar em perigo. Leila olhou brava para Toni, abraçou Natália pelo braço e foi com ela para o outro cômodo. Toni saiu.
Toni & Leila 2
Toni entrou pelos fundos carregando uma das caixas, e viu Leila mostrando um video no seu celular para outras duas colegas e um ajudante.
Olha, olha, olha! Ela soava alegre. Todos riram. Toni ficou com raiva. Queria que os outros também a odiassem, como ele.
Será que dá pra alguém ajudar aqui? Ele perguntou, meio bravo. O grupo se disperçou. Zé Luis foi pegar a última caixa e as outras duas meninas foram fazer seus serviços. Leila olhou para ele e fez uma careta, revirando os olhos.
Desagradável! Ele disse baixinho. Mas ela ouviu.
Desagradável é você! Ela respondeu. Não sabe nem pedir por favor. Depois ela passou por ele, abriu uma das caixas que ele tinha colocado no balcão e começou a limpar e arrumar as garrafas dentro do freezer, em silêncio. Ele bufou e virou-se saindo dali. Era dia de pagamento. Quando ela pegou seu contracheque examinou muito bem e depois assentiu com a cabeça, olhando para ele.
Eu devia descontar cada garrafa que você tomou! Ele disse. Ela sorriu, debochada. Ele se conteve, mas sua vontade era xingá-la. Quando se virou, Leila deu de cara com Natália e sorriu.
Dona Natália! Como a senhora está bem! E depois abraçou-a e a beijou no rosto. Natália sorriu e segurou seu rosto com as duas mãos.
Obrigada, querida! Sempre tão gentil! Eu sei que estou um trapo.
Imagina! Se essa é sua definição de trapo, então é assim que eu quero ser!
E você minha bonita, como está? Sente-se aqui comigo. Vamos esperar o Toni fechar e lhe damos uma carona. As duas ficaram conversando. Toni revirou os olhos; tudo o que ele “queria” era ter que ser gentil com Leila. As duas pareciam ter muita intimidade, ele observou, curioso, chegando à conclusão que ela não era uma funcionária qualquer para a mãe. Ele ouvia algumas frases da conversa.
Quando eu tinha a sua idade, ele me levou para conhecer Fernando de Noronha… Ele supunha que falavam de seu pai.
Imagina o meu medo de mergulhar! Leila sorria.
Como sempre, ele tinha esse poder de persuasão e eu vou te dizer que foi uma das experiências mais libertadoras que eu tive na minha vida. Ele me ensinou muito sobre como viver o dia presente e não deixar que o passado nos controle, porque senão, querida… Na verdade ele ficou se demorando um pouco de propósito, pois estava de olho na forma como Leila tratava a mãe; queria por algum descuido perceber que ela só estava puxando o saco, e pegar algum lance de falsidade. Mas não foi isso que ele viu, mesmo de esguelha. Leila tinha se ajoelhado e colocado a cabeça no colo dela, enquanto era afagada pela senhora. Pareciam trocar confidências. Leila não falava muito, mais ouvia. Às vezes concordava com a cabeça e assentia, como se estivesse ouvindo conselhos. Ela beijou as mãos de dona Natália. Por fim, ele se cansou e fechou rapidamente.
Vamos, ele disse, oferecendo a mão à mãe.
Pode deixar, Leila respondeu, ajudando-a a se levantar. E Leila deu o braço a Natália e a acompanhou até o carro.
O Toni vai te levar, ela disse, vendo-a parada.
Não precisa, dona Natália, vai desviar vocês e eu já estou acostumada.
Entre, ela insistiu. Leila e Toni trocaram um rápido olhar, e ela entrou. A própria mãe orientou o filho para onde deveriam ir, e durante o trajeto, Natália foi falando com ela.
Meu caçula é muito sério, não Leila? Ela não esperou a resposta. Não é igual ao pai dele, a não ser fisicamente, que nesse caso dizem que eu fui barriga de aluguel! As duas riram.
Mas é um menino de ouro. E a culpa de ser assim deve ser minha, porque afinal os outros irmãos deixaram toda a responsabilidade de cuidar de mim para ele. Toni torceu os lábios e olhou para ela, que tocou seu rosto de leve.
Faz tempo que ele não namora, só cuida de mim e do bar…
Mãe! Ele disse, na tentativa de impedir que continuasse.
Precisa se divertir mais, meu amor. Carpe diem, ninguém sabe quando tudo vai acabar. Leila sorriu para ela pelo retrovisor, mas depois olhou para Toni que estava zangado.
Ele a deixou na porta de um prédio na região central e pensou para si mesmo que aquilo devia ser uma espelunca de quinta categoria e que não podia esperar de alguém tão mal educada que morasse num lugar melhor.
Quanto ela tirou esse mês? Natália perguntou ao filho. Ele assustou.
O mesmo, mãe. Salário, mais alimentação e transporte, mil e alguma coisa.
Dá um aumento pra ela. Ele olhou surpreso.
Um pequeno. Arredonda para mil e quinhentos.
Mas, mãe… ele começou a retrucar. Ela também tira as gorgetas! Ela o olhou de forma muito severa e ele não continuou.
Carpe diem. Ela também precisa aproveitar. Ele ficou bravo, mas afinal calou-se.
Toni & Leila
A mulher era alta e morena e estava vestida de forma sensual. Toni já tinha visto que ela estava com um grupo de amigos, mas mesmo assim, não tinha perdido a oportunidade de jogar seu charme quando ela veio até o balcão. Podia ser que até rolasse alguma coisa ali, e os dois engajaram numa conversa mole sobre qual o drink mais descolado do cardápio, já que além de caixa, ele também servia. Ele sorria comedidamente, ao contrário dela, que mostrava todos os dentes. Seu olhar estava apertado, como uma raposa focando a presa. Leila aproximou-se do balcão e colocou a bandeja com estardalhaço ao seu lado.
Mesas quatro e cinco, ela gritou, interrompendo o interlúdio dos dois. Toni virou-se sério, olhou as comandas e abasteceu a bandeja com um black, dois chopes, três Stellas e uma Schwepps. Leila olhou e disse:
Tá faltando duas tequilas. Ele olhou de novo a comanda.
Não tá anotado.
Bom, eu tô pedindo agora, ela retrucou. Sem pensar, ele colocou os copos e serviu. Mais do que depressa, ela pegou o primeiro copo e virou. Toni a fuzilou com o olhar. Ela virou o segundo copo, o bateu no balcão e depois pegou a bandeja.
Você não é paga para ficar bêbada! Ele a repreendeu, falando baixo.
E você não é pago para ficar cantando as clientes! Ela devolveu, num tom de voz bem mais alto. A morena ficou ofendida e saiu. Toni observou a garçonete bravo, enquanto ela se afastava e servia as mesas. No final daquela noite, ao despedir-se, Leila foi chamada por ele para perto do caixa. Ela aproximou-se contra a vontade e encostou no balcão. Ele lhe entregou uma nota.
Que é isso? Ela perguntou, sem olhar.
Sua conta, ele respondeu. Consumiu tem que pagar. Ela nem olhou para o pedaço de papel. Sem desviar os olhos, ela amassou a nota com raiva e a atirou no rosto dele, enquanto se afastava.
Eu vou descontar do seu pagamento! Ele gritou.
Vai se ferrar! Ela respondeu, saindo.
Desde sempre Toni e Leila se estranhavam. Ele tomava conta do bar, único negócio da mãe, idosa, que já não podia mais dirigir tudo sozinha. Ele não tinha tido muita escolha, mas enfim, ali era o ganha-pão dos dois, e na verdade, era um bom negócio. Já Leila não abria muito sobre sua vida para ninguém; apenas sabia-se que tinha vindo de uma cidade do interior para estudar e que, por ora, havia abandonado os estudos e ninguém sabia por quê. Ele já tinha pensado uma ou duas vezes em despedi-la, mais por sua falta de respeito e educação do que por outra coisa, mas ultimamente ele tinha notado que ela andava pior do que antes.
Acho que vou dispensar uma das garçonetes este mês, ele comentou casualmente com a mãe, dona Natália, em casa. A senhora estranhou.
Você pegou a moça roubando, é? Qual delas?
Não, mãe, não tava roubando.
Tomando drogas no banheiro, hein? Era maconha ou injetável?
Também não, ele respondeu. Ela ficou aguardando.
É a Leila.
A Leila? Ela surpreendeu-se, abrindo muito os olhos. Mas se não roubou nem tomou drogas, o que foi então?
Ela bebe, mãe. Ela deu de ombros, como se aquilo não fosse nada.
Quem não bebe?
Durante o expediente! Enquanto serve os clientes, ele disse. Ela pensou por um instante.
Engraçado, ela me parece muito hábil com as bandejas. Não estou me recordando de ter derrubado muitas… Na verdade, nenhuma. De quanto foi o prejuízo? Ela perguntou. Toni respirou fundo.
Ela não derrubou nada, não quebrou nada.
Ofendeu os clientes, então? Bateu em alguém? Ele negou com a cabeça.
Bem, não vejo uma justificativa muito convincente para despedi-la. É uma moça que não teve sorte na cidade, como muitas. Beber não faz dela uma má pessoa. Ele bufou, contrariado, mas calou-se. Natália sempre defendia Leila. Parecia gostar dela por alguma razão. E por fim, ele não insistiu.
Like a zombie
How can you go on when you feel like dying? Having your heart broken relentlessly is to live like a zombie. You walk, see, listen, eat. But you’re not a real person anymore. You’re just a shadow of whom you once were. You’re just there and the reason you need to be whole again is completely out of reach. Crying doesn’t help, though you still cry sometimes. So you just keep on. Every day. One after the other. Like a sober addict living by the hour. You. Just. Go. On. Like a zombie.
Skip and Liz
Liz? Ele a abordou. Ela sorriu e o abraçou. Nem imaginava que ele sabia seu nome. Ele estava aparentemente sóbrio e mesmo assim ela o abraçou.
Seu carro está aqui perto? Os dois entraram no carro e deram um intenso beijo na boca. Mas ele parou, sorriu para ela e a sentou no banco do passageiro.
Vamos fazer algo diferente hoje? Ela ficou incerta sobre o que ele poderia estar considerando diferente e abriu os olhos. Ele deu a partida no carro.
Tá com fome? Vamos comer alguma coisa? Ela concordou com a cabeça, e ele se dirigiu para o Subway.
Tudo bem aqui? Ela fez que sim e os dois entraram, pediram seus sanduíches.
Sem cebola, nada de cebola, ele dizia. E sentaram-se numa mesinha ao ar livre. Ele estava sendo muito simpático e conversaram sobre amenidades sem stress.
Quer conhecer meu apartamento? Ele perguntou, levantando uma sobrancelha, quando terminaram. Ainda um pouco confusa e tentando esconder seu entusiasmo, ela concordou.
Na verdade, era a primeira vez em que não estavam dentro de um carro, e a noite foi muito bem aproveitada, em todos os sentidos. Skip estava bem carinhoso e não como nas outras vezes, em que nem sequer se despedia. Liz levantou-se para colocar a roupa.
Você não pode ficar? Ele perguntou. Ela apertou os lábios.
Não vai dar. Ele pareceu um pouco chateado, mas não bravo.
Eu te levo.
Não precisa! Ela imediatamente disse. Ele continuou a se vestir.
Não custa nada. E então ele a encarou, como havia planejado desde o início da noite.
Você está saindo com alguém? Tipo fixo? Liz nunca esperara que Skip fosse ser tão direto. Fora ele, ela pensou, porque se ele não tinha percebido, ela o procurava praticamente todo fim de semana.
Não. Ele continuou olhando-a.
Nem eu, ele disse. Quer tentar algo mais estável? Ele finalmente propôs.
Você quer? Ela devolveu a pergunta. Ele abriu os braços, como se sugerisse que a ideia tinha sido dele.
Estou disposto a tentar.
Ok, ela respondeu, não conseguindo evitar um sorriso.
No fundo Liz sabia que estava se envolvendo com problemas. Desde a primeira vez que vira Skip no barzinho, ele estava sempre chapado e na verdade já o vira ser desagradável com outras pessoas e envolver-se em brigas com caras com resultados bem ruins, e geralmente sangue. E apesar de saber que ele era incorrigível, ele havia mexido com ela num nível muito primal, de instinto mesmo, havia despertado nela uma revolução que começava no meio do estômago e se estendia por todas as suas células. Ela ficava quente e suava quando o via, mesmo de longe, e ouvia seu coração pular tão forte que ensurdecia. Ele tinha o poder de fazê-la parar de raciocinar, tudo era em função dele. Quando ia ao barzinho já ficava procurando o carro dele no estacionamento e caso não o visse, entrava e rastreava o bar todinho, inclusive os banheiros, para achá-lo. Seus fins de semana eram arruinados se ela não o encontrava e, um dia, cansada de chorar uma emoção que a fazia sentir-se doente, ela o agarrou, extremamente bêbado, e o arrastou para o banco de trás do carro dele. E apesar de ter agido como se aquilo fosse algo cotidiano, tipo, “todas as meninas querem dar pra mim, eu como mesmo”, ela não se arrependeu. Usava a mesma tática todas as vezes: aguardava o momento em que estava mais chapado e transava com ele, geralmente sem conversarem muito, no banco de trás ou da frente, com ou sem orgasmo, sabendo ele ou não com quem estava. Isso não importava: ela tinha se viciado naquele doido e precisava de sua droga. Aquilo geralmente a segurava bem por uma semana, e assim havia sido por pelo menos o último ano e meio.
Liz nem imaginou que pudesse ser feliz. Pelo contrário, achava que o fato dele não dar a mínima para ela fazia parte da atração irresistível, mas estava enganada. Quando ele a amava em sua cama macia, a levava para jantar ou ao cinema, ela atingia o máximo de felicidade que já havia conhecido em toda sua vida. Seu mundo agora era uma coisa louca, psicodélica, parecia que se passava num nível etéreo, ela não queria pensar muito, ela não queria analisar ou racionalizar. Era uma viagem de LSD, que fosse. Não queria mais acordar.
Ele a havia amado e ela estava sentada em seu colo, os dois suados e felizes.
Fala. Ela olhou para ele.
O quê?
Por que estamos aqui.
Porque você é um garanhão e come todas. Ele riu, mas não era o que queria ouvir.
O rei do pedaço, ela continuou. Todas as menininhas te querem. Ela mordeu seu pescoço devagar, numa provocação. Ele a segurou mais forte e olhou direto pro rosto dela.
Não. Ela prestou atenção.
Por que estamos aqui. Fala. Eu e você. Principalmente você. Ele estava sendo mandão, ela pensou. Macho, dominante, estava exigindo algo dela e aquela dominância a excitou de uma forma que a fez sentir-se submissa por um momento e as bochechas queimaram. Então ela sentiu pela primeira vez, em todo aquele tempo, que eles se olhavam de verdade. Um olhar para dentro da alma do outro. Ele estava olhando para ela, Liz, e não para um corpo qualquer, um ser humano qualquer, que ele sequer sabia o nome, e que não faria diferença no dia seguinte. E ela se entregou. Abriu-se como uma flor ao sol, definitivamente não havia como voltar atrás; se ele fosse machucá-la, ela não tinha mais nenhuma proteção. Todos os disfarces já tinham desaparecido, ela estava ali, nua, em carne viva e não tinha como escapar ilesa. Não mais.
Porque eu sou louca por você, ela disse. Totalmente, insanamente, de todas as formas estranhas e errôneas possíveis. Eu te persegui e te cerquei para que pudesse ter uma migalha desse seu corpo, desse seu cheiro, dessa sua pele bronzeada e estragada pelo sol.
Então você que quis, né? Você que me seduziu, né? Eu sou só um brinquedinho sexual para você, né? Ela o beijou intensamente, deitando-se sobre ele e segurando suas mãos de forma que ficasse imóvel.
É. E você fala muito né, né? Ele riu com gosto.
Você gosta? Ela perguntou. Você quer ser meu brinquedinho sexual? Quer? Te excita?
Não, ele disse, ao mesmo tempo em que fazia movimentos com seu abdômen para que ela sentisse a dureza de sua ereção.
Quero tomar o controle, quero eu mandar em você, quero ser seu dono! Liz ficou tão excitada com aquilo que nem conseguiu responder: fizeram amor selvagem mais uma vez, e sua mente continuou entorpecida pelos hormônios de prazer que a inundavam desde que haviam se tornado um casal.
Vamos este fim de semana no torneio de Bradbury. Ela olhou-o surpresa. Ele afastou seus cabelos e depois segurou-a pela cabeça.
Você dorme aqui na sexta-feira, e logo cedinho a gente pega os meninos e vai. Ele sorria, leve, e ela sentia até dificuldade de acreditar que aquele menino-homem estava na dela.
Que foi? Ele perguntou vendo-a, paralisada, de boca aberta. Não quer ir não?
Não é isso… Ele fez cara de interrogação.
É que eu nunca pensei, Skip, que eu…
Que você o quê?
Que eu fosse fazer parte do seu dia-a-dia, da sua vida… Ele se acomodou e a puxou para mais perto.
Namorada é assim, ele disse. Tem que participar. E em seguida, sorriu. Como sempre, aquele sorriso era praticamente um nocaute em Liz. Ela ficava tonta só de vê-lo, a qualquer distância, quanto mais assim de perto. Ela acariciou devagar seu rosto, e uma lágrima escapou pelo canto de fora de seu olho. Ele beijou a lágrima, lambendo-a.
Que foi isso? Ele perguntou.
Felicidade, ela respondeu.
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