Antes que eles esqueçam do meu colo
Existe uma pergunta que cresce junto com os filhos.
Ela cresce enquanto eles crescem.
E talvez seja essa a única coisa que nunca deixe de caber dentro de uma mãe.
Quando eles olharem para trás…
Será que a memória guarda o amor?
Ou ela prefere as ausências?
Tenho medo de que um dia eles procurem por mim dentro da infância e encontrem apenas aquilo que não consegui ser.
As vezes em que eu já não tinha mais de onde tirar.
Porque havia dias em que eu precisava oferecer um pedaço de mim…
quando eu mesma já não sabia onde tinha me deixado.
Quem cuida daquela que passou a existir no mesmo instante em que um filho nasceu?
Eu também era recém-chegada.
Todos viram o nascimento deles.
E talvez eu tenha cometido o erro de acreditar que uma mãe nasce pronta.
Entre uma madrugada e outra.
Entre um choro que era deles…
e um que precisava continuar sendo meu.
Às vezes penso que eles mereciam uma mulher maior do que eu era.
Alguém que nunca se cansasse.
Que soubesse, antes mesmo da pergunta, qual era a resposta.
Alguém que tivesse recebido o suficiente para distribuir sem medo de acabar.
Mas quem foi que ensinou que o amor brota apenas de mãos cheias?
mesmo quando esse tudo parecia tão pequeno?
Será que o amor pode ser julgado pelo tamanho do que oferecemos?
Ou pelo tamanho do vazio que enfrentamos para continuar oferecendo?
Há lembranças que ainda não aconteceram e, mesmo assim, já me doem.
Imagino o dia em que eles seguirão adiante.
Construirão suas próprias casas.
Suas próprias lembranças.
será que, em algum lugar dentro deles, ainda existirá um caminho de volta para o meu colo?
Ou o tempo apaga até aquilo que um dia nos salvou?
voltaria para mudar ou voltaria apenas porque hoje enxergo o que naquela época meus olhos ainda não sabiam ver?
Será que o arrependimento é sabedoria…
ou apenas uma forma cruel de olhar para trás com a experiência que antes não existia?
Eu me condeno por não ter sido quem hoje imagino.
Mas quem era aquela mulher?
Ou fui eu quem a inventou para nunca conseguir alcançá-la?
Talvez eu continue pedindo perdão por coisas que meus filhos jamais me cobrarão.
Talvez a sentença sempre tenha partido de mim.
E talvez seja essa a parte mais difícil de ser mãe:
aceitar que o amor nunca deixou de existir…
mesmo quando eu não conseguia reconhecê-lo em mim.
Só desejo que, quando a infância deles couber inteira dentro de uma lembrança, alguma coisa permaneça.
Mas a estranha certeza de que, quando o mundo era grande demais…
existia um lugar pequeno onde eles sempre couberam.