poesia é um lamento
não aguento
mais ouvir o meu chorar
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@27moonphases
poesia é um lamento
não aguento
mais ouvir o meu chorar
eu sei que a gente não ficou. eu sei que a gente foi embora. porque tínhamos que ir. porque foi o que sobrou pra nós. e eu sei que, nos seus últimos surtos e, pela sua insistência, pareceu que eu quis mesmo ir. ou que foi tão fácil quanto necessário. porque eu já venho me acostumando com a ideia de não ter você desde que achei que você era minha. e porque, em alguns dias, eu te odeio. não é como se eu ainda estivesse lutando contra você, mas sobre aquilo que eu não tenho onde colocar. eu não tenho onde enfiar todo o amor que eu sinto por você, ele não cabe em mais ninguém e eu te odeio por ter que carregar isso comigo como uma bagagem ancestral da qual eu não consigo me desfazer. como se eu fosse doente. como se eu fosse acumuladora compulsiva. e todo mundo pensa que você é a grande desequilibrada da história, porque o que nos difere é o fogo que te governa, enquanto eu faço chover todos os dias. eu odeio amar você.
seu nome me arde na pele.
e eu que sempre gostei de viver sozinho me vi querendo dividir a vida contigo.
quão fracos somos quando amamos tanto alguém.
é meio triste entender que já não tenho para onde voltar, ao mesmo tempo que é libertador saber todas as possibilidades e caminhos que eu tenho a partir de agora.
voarias
você sumiu, outra vez, como uma estrela cadente num céu nublado demais pra ser notada. e eu que nunca fui boa em matemática, já não sei mais contar quantas vezes isso aconteceu. desde que eu a conheci até aqui, eu posso dizer que nunca tive nem metade de você. não por muito tempo. e você deve ter seus motivos, como você sempre tem. e eu não vou ter ciência de nenhum deles, porque diferente de todas as outras vezes, eu não procurar incansavelmente por erros que eu não cometi. não vou procurar lacunas, repensar minhas falas, questionar minha importância. tudo que eu podia fazer por você, eu fiz, sol. inclusive ficar. ficar sem motivo, sem pedido, sem ter nem o básico em troca. porque aquele amor que eu tanto falava era capaz de me manter aqui ocupando qualquer posição na sua vida e, acredite, eu pensei mesmo, por um tempo, que você precisava de mim. ou que eu precisava de você. e eu mantive minhas portas abertas, meus ouvidos como berços e meu coração como lar para tudo que você quisesse de mim. e eu nunca fui a escolhida. eu nunca fui a consagrada. nunca fui a aceita ou admirada. nunca fui, nem como amiga, necessária. mas eu coloquei meu amor e meu cuidado acima de tantas coisas, que não pude notar outras. eu lamento, sol. já fomos irmãs. já fomos amantes. se houver próxima, talvez sejamos amigas. ou talvez não. sei que, por aqui, não é você. não sou eu. não somos nós.
você saberá quem eu fui
na sua vida, quando
ninguém fizer o que eu
fiz por você.
acho que meu problema é ser permanência para quem sempre foi ida.
Mentally I’m here.
na sua ausência, eu tinha todas as respostas para perguntas que você nem me fez. eu abri as janelas e deixei a luz do sol entrar até queimar minhas bochechas e fazer parecer que a palidez gélida da minha verdadeira expressão de vazio e saudade não estava mais aqui. me imaginei em outros cenários, num novo corte de cabelo, segurando mãos que não eram suas. tentei arrancar do céu as estrelas que, em constelação, mostravam um esboço dos seus olhos e fui atravessada por lembranças tão vívidas quanto um cometa. estranho pensar que, mesmo estando ausente, você sempre se faz tão presente. e embora isso não me assombre mais como antes, hoje eu digo, talvez com mais leveza e aceitação, que eu sinto sim a sua falta. e eu sei que haverá vida depois disso. sei que o céu ainda vai se pôr e nascer de novo como sempre, mas o céu era mais azul quando você acordava do meu lado. sei que o mar ainda revelará ondas arrebatadoras e cheias de cura, mas meu amor por você continuará oceânico em matéria de grandeza. sei que a lua continuará brilhante e presente no céu que eu encaro quando meus pensamentos quase fogem pela minha boca, mas ela ainda me escutará falar de você. sei que haverá amor, afeto e novas conexões e que o novo vai me colorir outra vez, mas eu explodi em cores e tons inimagináveis com você. e hoje eu digo estas verdades sem lamentações, abrindo portas que eu achava que só abriria novamente pra você voltar. porque sim, haverá vida depois de você.
o eterno lamentar de tudo que se desencantou no meio do caminho
Tudo aqui fica intenso quando te tenho por perto.
quando você me disse com todas as palavras que não queria viver com o peso da culpa pelo que você mesma me fez, eu tive, pela primeira vez, dimensão real do problema. você não sabe lidar com o reflexo dos seus próprios erros comigo. eu entrei na sua vida tendo plena certeza de que você erraria comigo. que me magoaria sem pudor. eu sabia que seria rascunho, que seria aprendizado. e até hoje, mesmo sentindo na pele, eu lido melhor com o que você me causou do que você mesma.
a verdade é que, não importa quantas vezes eu perdoe você. não importa quantas vezes eu contorne suas atitudes e suas palavras. não importa quantas vezes eu grite que eu aceito você dessa maneira, porque sei das suas imperfeições e abraço suas falhas. você é covarde comigo. é covarde com o seu amor por mim. e a sua covardia te leva pros braços de outras pessoas num piscar dos meus olhos, para que eu viva com a eterna certeza de que, se era pra ser ou não, eu nunca vou saber. você nunca vai saber. porque você passou tempo demais se esquivando de uma culpa que eu não te dei enquanto não soube compreender o espaço enorme que eu te dei para errar e tentar outra vez. eu queria que fôssemos melhores. e foi exatamente assim que você acabou não querendo mais nada.
Eu queria silenciar o mundo lá fora porque dentro de mim é tudo caótico.
Meu interior grita demais.
- Eu sou todas as poesias
Você esqueceu o café na mesa, pegou apenas o casaco e saiu para a rua chuvosa. Pensei que algo ali poderia te fazer voltar, nem que fosse um café quente recém-feito, entretanto, você não voltou nem por ele e nem por mim.
Confissões de Ananda Mattar