( Dois meses atrás, com @after-namgi )
Depois de tanto tempo ali, era natural que conhecesse todos os caminhos daquela cidade maldita. Precisou aprender, já que não tinha motorista e carro para lhe levar aos lugares. De roupas sempre escuras, alto que só é todo tatuado, mais se assemelhava à Morte procurando sua próxima vítima. Mas na verdade, o russo só caminhava sem destino como muitas almas ali, ele não tinha mais o que fazer. As vezes, usar algum escravo de tiro ao alvo se tornava uma atividade bem tediosa quando repetida por tantos anos. Mas nem mesmo os anos ali lhe fizeram esquecer aquele som maravilhoso de ossos sendo quebrados. Um sorriso mínimo se formou no canto dos lábios, se deixando levar pelo som cada vez mais alto, impiedoso, aquilo era quase excitante.
Mas perdeu totalmente o tesão quando se deparou com a cena e o garoto que apanhava já não deveria nem ter mais alma naquele corpo. Se aproximou de forma sorrateira, tirando a arma da cintura com toda lentidão possível. Sabia que todos ali já estavam mortos, mas um tiro de desert eagle ainda era dolorido. Apenas uma bala atravessou a cabeça do agressor e só precisou de um breve impulso do pé contra o corpo para livrar o coitado quase inerte ali. — No que você se meteu, garoto? — A pergunta foi retórica. Guardou a arma no mesmo lugar e então apanhou o rapaz em seus braços, refazendo todo o caminho de volta até seu apartamento. Para alguém sem emoções, aquilo era algo surpreendente.
A frustração ainda consumia o corpo do jovem Seo. Embora tentasse ocupar sua mente com a música, notas se repetindo de maneira incessante por noites a fio, ainda sentia raiva. Tentara ser bom. Teria culpa pelo que os outros haviam feito consigo? Era tão desprezível quanto imaginava ser? Não tinha respostas, apenas o ódio crescente por si mesmo. Tinha de viver suas dores mais uma vez, e era por isso que preferia enfiar-se em qualquer briga que fosse. Hematomas doloridos, ossos quebrados. Tudo aquilo doía muito menos do que o que se passava em sua mente. Nem sequer lembrava do que havia acontecido para que estivesse apanhando tanto, porém não ligava. Logo apagaria, e ao menos aquilo faria sua mente parar de gritar. Entretanto, abriu seus olhos ao ouvir um tiro, observando o corpo caído ao seu lado, surpresa clara em seus traços delicados manchados por sangue. — No que você se meteu? — rebateu, voz rouca saindo arranhada por sua garganta. Não era um anjo, como havia pensado inicialmente (ou talvez fosse. Em seus olhos, o era). Um pequeno grunhido escapou por seus lábios ao ser carregado, as dores se espalhando por seu corpo. Em alguma altura, havia apagado por completo, acordando em um apartamento estranho. Certo desespero havia tomado seu peito, mas, afinal, o que de pior poderia acontecer consigo? Encarou o estranho que havia o ajudado, pela primeira vez observando-o com cautela: era um homem bonito, tinha de ser sincero, e muito mais alto do que si. Tentou mover-se, apenas para notar que sua perna doía muito mais do que seria normal. Não conseguiria sair andando dali.