A questão com Ainé o atormentava faziam dias. O fato de que a garota mudou da água para o vinho consigo em determinado momento, apenas reforçava a ideia de inconstância que ela parecia demonstrar. Mesmo assim, não ofendeu-se pelo comentário irônico, dando de ombros como se não ligasse para o tom pejorativo em que fora chamado de ‘cavaleiro’. “Posso afirmar com convicção que sou muito mais cavaleiro do que alguns de seus pretendentes.” Assumiu com um sorrisinho convencido, pouco se importando se ela acreditaria ou não, seu humor já não estava dos melhores e piorava a cada nova palavra trocada. “Pedir permissão? Aposto que nenhum de seus pretendentes lhe pediu permissão, porém, faz disso uma prerrogativa quando se trata de mim.” Disse de forma irritada e virando-se para encará-la, cessando seus passos a poucos metros dela e retornando com passos largos em sua direção. A encarou por um longo momento esperando a resposta, mas desistiu em seguida. A realidade era que Martín não queria se irritar tão cedo, ainda que isto já tivesse lhe causado certo estresse. Retomou sua postura inicial e apressou os passos, voltando para onde tinha deixado a cesta que carregava e a apanhando novamente. Carregar a cesta pesada, era em si um ato de cavalheirismo, mas parecia que Ainé via isto como uma provocação e uma ofensa a sua figura como mulher, o ranuense por sua vez manteve o objeto firme em seus braços. “Nenhum interesse, apenas curiosidade.” Respondeu de forma neutra, dando de ombros e a espiando por cima dos ombros para ver se já o tinha alcançado. “É que você tinha opções melhores, mas optou por ele, isto causa uma certa estranheza.” Provocou, mas dessa vez limitou-se a prestar atenção onde ia, seguindo a trilha para o interior da mata e esperando que estivesse sendo seguido pela garota. Soltou um riso forçado, sem humor e lançou um olhar gélido em direção a ela, aquilo parecia estar saindo muito pior do que ele esperava e por isto ele cessou os passos para mais uma vez se voltar para ela e a encará-la. “Olha, eu sei que você preferia que seu namoradinho tivesse encontrado o lenço, mas fui eu e agora estamos presos um no outro por pelo menos 24 horas. Eu não sou nenhum tipo de psicopata, pelo contrário, me considero um dos poucos príncipes educados desse lugar, mas se a srta insistir, terei que deixá-la sozinha porque já estou de saco cheio de suas reclamações!” Explicou, tentando manter o tom natural e não alterá-lo durante a sua fala. Como da outra vez aguardou por um momento por uma resposta de Ainé, mas antes que ela pudesse lhe responder, Martin prostrou-se ao seu lado, dessa vez indicando para que começasse a andar que ele a acompanharia lado a lado.
৴ ✨ ˙ ˖ ¸ Mais cavaleiro do que. Ainé rolou os olhos com o comentário, homens sempre eram tão competitivos que a cansavam. Um tinha de ser sempre melhor do que o outro, nem que fosse em situações idiotas como “eu consigo comer mais pães do que você”, e para não respondê-lo com ironia outra vez, ela apenas dera de ombros. Diante o comentário seguinte do rapaz, porém, não podia ficar quieta — era um absurdo que pensasse instigar sentimentos exclusivos na irlandesa. ❝ —— Para deixar tudo claro, não tenho pretendentes. Tenho namorado, no singular. E ele, senhor Vallon, pediu permissão sim. Além disso... ❞ Tinha mais o que dizer, no entanto, interrompeu-se diante a aproximação do moreno, ficando inquieta com a distância imposta entre eles, coisa que não estava acostumada. O silêncio durou alguns segundos, até que respirou aliviada quando o viu se afastar, seguindo Martín nos mesmos passos apressados que o príncipe dava. O outro parecia ter uma necessidade de estar sempre à frente, como se demonstrasse assim sua superioridade — havia vivido em um castelo tempo o bastante para saber disso, a posição de cada um na caminhada dizia respeito também as posições na corte, e para ela, estava reservado sempre o final. Desta forma, Ainé dera uma corridinha para que ficasse ao lado dele, olhando-o de soslaio conforme sustentava um sorriso presunçoso. ❝ —— Ele faz bem para mim, senhor Vallon. Me escolheu como primeira opção, tal como eu fiz. Não entendo motivos para estranheza. ❞ Manteve o tom neutro, não caindo nas provocações de Martín. Sua resposta, porém, era uma afronta de alguma forma — o ranuense não havia a escolhido quando tivera a chance, tendo se recusado à tê-la como noiva até onde sabia, mas ainda que se sentisse ressentida pela rejeição, agradecia; não via como os dois poderiam ter dado certo, um dia. Parou diante dele, engolindo em seco ao perceber que sua brincadeira não havia sido bem aceita pelo Vallon, e restando à ela somente concordar com a cabeça. ❝ —— Me desculpe, Martín. ❞ Pediu em tom baixo, erguendo os olhos para ele, o braço envolvendo-se ao do príncipe com cautela quando este parou ao seu lado. ❝ —— Se importa? ❞ Peguntou com um leve sorriso nos lábios, tomando certo cuidado. A noite já tinha tudo para não ser a melhor, para nenhum dos dois, e ela não deveria fazer de tudo para que fosse ainda pior. ❝ —— Lamento pelo meu comportamento até aqui, e me comprometo em não tornar a noite ainda pior. ❞ Mordiscou o lábio inferior, conforme caminhava lado a lado com o ranuense. ❝ —— Gosta de bacon? Trouxe um prato que tem a carne como principal. Além disso as tradicionais mince pies, e uma garrafa de sidra. Eu não bebo, então poderá aproveitá-la sozinho. ❞