"A Fonte está sempre aqui"
O livro Ás de Tridente - Opúsculo de Chaves para Adentrar a Noite Mariposa, escrito por Amanda Maia, foi lançado em pleno Solstício de Inverno de 2020, no olho do furacão da pandemia, em Ilhéus, no Sul da Bahia.
Aquele era um momento de tantas incertezas, o cenário ainda iria piorar muito mais. Sem dúvidas, aquela foi uma hora no mínimo oportuna para cultivar a Fé. E ler um livro.
Talvez seja difícil para nós, cujo tempo de existência na Terra é tão curto, compreender o tempo de uma árvore como a Sumaúma, o tempo de uma pedra esculpida pelo mar, o tempo de tudo que parece não ter fim, mas tem, a questão é só que a gente vai morrer antes. A globalização produziu essa ilusão de que nós podemos condensar o tempo. A divindade ri.
Esse tempo que não cabe na minha mão é também o tempo de uma episteme em expansão, como é o caso da Bruxaria Mariposa, que cresce nas frestas há menos de uma década, mas possui raízes de gerações. Alguns cruzos já são mapeáveis, outros talvez ainda se revelem ao longo dos próximos anos. O que saberemos da Bruxaria Mariposa em 2056? O que sabemos agora, 5 anos após a primeira leitura do Ás de Tridente?
No livro Amanda reúne fios fundamentais que sustentam a cosmovisão de um caminho aberto pelos aprendizados da sua própria existência no mundo, de filha a sacerdotisa e mestra. Talvez o primeiro brilho seja este: a autora é alguém que ousa inventar a vida conjurando o que deseja em tempos de manipulação absoluta: o dinheiro reina montado na herança cristã patriarcal, disseminando seu veneno em cálices midiáticos que bebemos sem pensar. Nem imaginamos recusar. E quando o enjoo vem, o mesmo sistema te oferece o remédio pra você parar de vomitar e voltar a servir. A pandemia parecia um grande vômito mundial, muitos tomaram o remédio pra essa loucura parar, quantos investigaram a causa da doença?
No ano passado revisitamos os primeiros postulados do Ás de Tridente durante o ciclo anual de Estudo Dirigido da Bruxaria Mariposa. Em roda, partilhamos e trocamos impressões, reflexões, perguntas, inquietações, contando com a raridade de ter a autora da obra presente na conversa.
Busquei costurar um breve ensaio a partir dos encontros deste ciclo. Com certeza haverão muitos fios soltos aqui - o que é, sinceramente, um respiro em tempos de textos consolidados por inteligência artificial.
Ao retornar às chaves que Amanda ofereceu, precisei reafirmar meu entendimento sobre palavras que ouvi desde o início - era preciso reconhecer que as palavras, se não são realmente praticadas na articulação e expressão, acabam perdendo sentido e virando somente palavras ao vento. Manter a vigilância é combater automatizações e esse é um aprendizado diário: no caminho da busca nada é automático.
Palavras são armas poderosas se prenhes de significado. Sem compreender o que realmente carregam, nenhuma tomada de decisão é livre. - Amanda Maia, Ás de Tridente, pg. 29
Busca do quê? Cada um na roda tem as suas próprias respostas - e todas elas acabam convergindo para a busca da saúde, ao meu ver. Ler o Ás de Tridente é assumir a doença do mundo e não dizer mais “é assim mesmo”. Não é, não precisa ser. A questão é que curar é verbo, demanda ação e aqui entra a Necessidade. A observação de que o mundo vai mal não é suficiente para mover alguém. “Você só procura por aquilo que você precisa”, Amanda comentou. Sabemos do que precisamos? Qual é a necessidade que faz a gente se mover? É tudo sobre movimento, não poderia ser diferente se a nossa própria casa está em constante movimento, girando, orbitando o Sol.
O horizonte também conta. Em um dos encontros de estudo perguntei sobre a Fonte, se esse seria um lugar para onde deveríamos retornar - é possível? - e o que exatamente nos distancia disso que é tão somente e simplesmente a Vida em toda a sua profusão. “A Fonte está sempre aqui”, Amanda respondeu.
Acho que é preciso se aproximar da nossa parte planta para que haja alguma compreensão sobre isso. Uma planta nasce, cresce e antes de morrer vive tantas transformações a cada estação do ano, sofre cortes, perdas, dá flores, frutos. Embaixo da terra - ou dentro d’água - sua raiz também expande silenciosamente, busca alimento, busca saúde. A Sumaúma pode subir até 50 metros de altura sustentada em suas raízes. Será que pra gente é mais difícil de entender porque nosso cordão umbilical é cortado logo de cara? O que faz a gente se perder da nossa própria raiz?
Todo Alimento nos é entregue sintetizado, mastigado e em pequenas porções. Bloquearam os nossos sentidos. Nos convenceram de que não conseguimos ‘prestar atenção’, que ‘somos dispersas’, que somos pequenas, que somos fracas, que somos pouco, que não podemos escolher. Estamos nos destruindo e levando junto toda a Natureza da qual fazemos parte. Não é uma hipótese. Sabemos disso na nossa própria carne. - Amanda Maia, Ás de Tridente, pg. 47
No início dos trabalhos da Bruxaria Mariposa, a primeira chave entregue por Amanda foi “Despertem suas Avós”. É também uma questão de sangue, portanto - o que pode ser mais nosso do que a nossa herança genética? A Fonte sempre estará aqui se eu souber o caminho que meu sangue fez até o instante em que respiro agora. E assim as nossas experiências de vida são a continuidade desse fio. Com isso em mente, quais escolhas eu faço?
Viver plenamente demanda muita energia, é preciso aceitar o trabalho, é preciso querer, buscar, saber onde está e partir daí. Parece algo óbvio e impossível ao mesmo tempo. É físico num nível que nenhuma máquina alcança, nenhum dinheiro compra. Acredito que compreender isso é entender qual é a verdadeira guerra que está sendo travada no mundo há séculos e qual é o nosso lugar nessa guerra.