a kick to the teeth is good for some // rowena r. & arabella m.
rowenarosland:
A cabeça de Rowena parecia que iria explodir a qualquer momento, e a cada rua percorrida ela parecia ter ainda mais certeza. Por alguma conspiração do destino, ela havia acordado trinta minutos depois do usual e a falta dessa meia hora complicou todo o restante do seu dia. Teve que lidar com reclamações da parte do pai, e também o irmão, que precisava de uma carona. E enquanto ela tentava recolher os itens necessários para passar dois dias seguidos no hospital, repassava mentalmente o caminho que teria que seguir. Iria passar nos Correios e colocar a carta que o pai tanto queria e falava. Deixaria o irmão na escola e apenas depois iria para o trabalho. Em sua mente parecia tudo muito simples, porém à medida que dirigia, podia ver que iria chegar atrasada. Nos Correios, enfrentou uma fila de 10 minutos; para deixar o irmão, enfrentou um engarrafamento na saída da rua, e agora, ela estava tendo que esperar mais do que o necessário no sinal.
A morena não era cabeça quente. De forma alguma. Ela era do tipo que sentia as chamas dentro de si a consumirem antes de realmente falar alguma coisa. É claro que o processo das chamas normalmente durava apenas alguns segundos, então ela raramente era a mais sensata na briga. E o humor oscilante da enfermeira apenas ficava ainda pior quando ela se atrasava para compromissos, em especial o trabalho. A carranca no rosto da garota apenas aumentava à medida que ela continuava ali, parada esperando o sinal ficar verde.
Aconteceu em apenas alguns segundos, mas foi o bastante para que a jovem Rosland congelasse no volante. A figura que passou na sua frente, ela tinha certeza, fora o Cavaleiro Sem Cabeça. O vilão das fofocas das senhoras de idade e o monstro no pesadelos das crianças. Não apenas nos das crianças, mas também nos dela, talvez de também metade da população adulta da cidade. Sequer percebeu quando afundou o pé no acelerador, porém trocou o comando a tempo de não ultrapassar o sinal totalmente. Respirou aliviada, sorrindo levemente ao ver o sinal ficar verde, voltando a acelerar, porém foi no exato momento que um carro vinha numa rua à direita, batendo do cheio no veículo que ela estava.
Rowena passou apenas por alguns segundos de desorientação, porém quando voltou a realidade, já saia do carro, pisando forte. Quando em Greenburgh, ela não tinha carro, se locomovia de bicicleta, porém ali, achava necessário usar o carro do pai. Não apenas por ser mais rápido, como também para evitar de dar maior preocupação ao mais velho. Ver a lataria do carro amassada fazia o coração da enfermeira apertar, pois sabia o valor sentimental que o veículo carregava. – Você é idiota?! Não viu a merda do sinal fechado? Ei! Estou falando com você, mocinha. – a mulher já estava de frente ao carro que havia lhe atingido, batendo no capô do mesmo em impaciência.
A insônia parecia ter se tornado algo comum na vida de Arabella Merteuil. Não que a morena estivesse passando por qualquer problema pessoal ou algo do tipo, entretanto, nos últimos dias, a moça estava tendo muita dificuldade para escrever algo. Primeiramente, o jornal da cidade só queria saber que diabos estava acontecendo, colocando o espirito do cavaleiro alado como explicação para quase tudo. Segundo que, aparentemente o The New York Times estava interessado no assunto, entretanto em uma outra perspectiva, um pouco mais racional. O que não tinha colaboração nenhuma por parte das autoridades que pareciam justificar apenas como “estamos investigando” qualquer tentativa de alguma informação menos rasa que a moça tentava descobrir. Já havia até dado uma de espiã inclusive. Entretanto descobrir coisas parecia uma tarefa mais difícil do que em livros e filmes. Um dos motivos para que Arabella perdesse horas preciosas de sono. Em ocasiões assim precisava recorrer ao dobro de terapia que costumava fazer. E as vezes acabar por consumir um pouco mais do remédio, fazendo o mesmo acabar bem mais rápido, e precisando novamente de receitas pois esse tipo de medicamento só era fornecido mediante a assinatura de um médico. Naquela manhã não foi muito diferente. Acordou (depois das poucas três horas de sono), fez o ritual matinal que incluía comer alguma coisa e se trocar para assim pegar o carro para ir ao hospital. Na ocasião havia perdido algum tempo procurando as próprias chaves, encontrando-as depois em cima da mesinha da sala. Saíra as pressas fechando as portas atrás de si. E se dirigindo ao New Beetle preto estacionado na garagem da casa maior. Havia comprado o automóvel no primeiro ano da faculdade com a parte que lhe fora cedida na herança dos avós. E apesar das multas, sempre se considerara uma motorista razoável. O caminhos se dera de forma comum e bastante normal, o trânsito estava razoável, em virtude do horário de rush, ainda que a cidade não fosse grande, a maioria dos habitantes parecia se dirigir ao centro comercial da mesma. My days end best when this sunset gets itself behind... Cantarolava enquanto passava a marcha. Virou numa esquina chegando a uma das avenidas principais. Sempre gostava de dirigir ao som de alguma música, parecia tornar o trajeto melhor. E ainda que uma ligeira neblina cobria a cidade naquela manhã, a moça dirigia com cautela. It's much less picturesque without her catching th... Um baque pareceu interromper o trajeto da garota. Arabella não tivera muito tempo de processar. O corpo fora pra frente. E por sorte o cinto de segurança impediu que algo pior acontecesse. O carro parou de vez. Costumava em algumas ocasiões passar no sinal laranja, afinal ainda dava tempo. Entretanto naquela ocasião alguém aparentemente ultrapassara o sinal vermelho do cruzamento. Aparentemente não, alguém ultrapassara. Mal se recompôs e ouviu baterem no seu vidro. Abaixou-o rapidamente, agora olhando para a moça parada diante do mesmo. - Desculpe mas, o sinal que estava fechado era o da sua via. - Apontou para o sinal do cruzamento que dava acesso a rua pela qual a moça havia passado. Vários carros buzinavam e desviavam de onde ambos estavam. - E sinto lhe informar mas quem estava errada era a senhorita, não se atravessa o sinal antes dele se abrir novamente. Ensinam isso na auto escola. - Completou, tentando manter a paciência. Afinal não entendia como alguém que estava errada ia lhe acusar de algo. Não foi ela quem ultrapassou o semáforo vermelho. Quando atravessava o cruzamento tinha certeza que o sinal havia acabado de ficar laranja. O que, logicamente, demorava um tempo para que o oposto se abrisse.














