Havia algo em Esperanza que parecia errado. Não, talvez errado fosse uma palavra muito forte - havia algo que parecia não pertencer a ela, uma sensação… Estranha. Alric não sabia ao que poderia atribuir aquela impressão que tinha da morena, afinal, ela nunca tinha o dado razão para tal. A questão é que Von Losch sempre tinha sido um ávido observador e talvez as órbitas da mais nova, sempre muito intensas, fizeram com que sentisse aquela singularidade na presença da jardineira. No momento em que Esperanza tomou o livro em suas mãos e começou a tateá-lo, Alric somente assistiu em silêncio, tentando captar todos os movimentos daquele mistério que era a jardineira. Não ousaria falar e interromper o momento que a mulher tinha, que parecia tão… Particular. Como se o livro já fosse familiar a ela e sua atitude em tê-lo trazido despertasse algo. Dessa forma, permaneceu por longos instantes, com os olhos azuis atentando-se a qualquer ação que Bouthillier tomasse. De repente, ela despertou de seja lá o que a ocupasse: fechou o volume e o entregou novamente para o alemão, que simplesmente preferiu deixá-lo ali na mesa. Não devia ter começado a falar de Lorelei, mas era inevitável - a informação simplesmente escapou de seus lábios como se fosse necessário contá-la. Assim, Von Losch suspirou pesadamente, tomando o assento ao lado de Esperanza. Talvez sua presença fosse indesejada, mas aquela preocupação não o incomodava. — Você já sentiu que algo ou alguém está sempre assombrando suas memórias? Que nunca conseguirá tirá-lo da cabeça? Lorelei sempre foi assim — novamente, iniciou a história, com o tom de voz carregado. — Lembro de tê-la visto ainda pequena, já trabalhando para a minha família. Os pais dela também eram empregados no palácio, o que a fez seguir o mesmo caminho, mas nunca vi nenhum deles como criados ou algo assim. Ela sempre foi minha amiga, talvez até um tipo de confidente — Alric parou, coçando a barba. As memórias vinham em sua mente, frescas, como se tudo tivesse acontecido no dia anterior. — Todas as vezes que penso nela, lembro-me de seu sorriso quando colhia as flores do nosso jardim. Ela gostava tanto delas… As azuis eram suas favoritas. E Lorelei sempre foi como uma flor: doce. Delicada. Vivaz. Linda, como se tivesse acabado de desabrochar. Era impossível tirar meus olhos dela quando nos cruzávamos nos corredores do palácio. — Seu coração se apertava mais a cada palavra que dizia. Alric chegou a fechar os olhos, a respiração mais difícil conforme se lembrava. — Bem, você já deve imaginar o que aconteceu. Me apaixonei por ela, uma das únicas pessoas que eu nunca poderia ter… Acho que ela gostava de mim também. Tivemos bons momentos juntos, longe da minha família e da supervisão de meu pai. O fato é que, eventualmente, ele descobriu — aí estava, a parte mais difícil de toda a história. A única que Alric odiava relembrar. A única que o fazia acreditar que nada que tinham vivido valia a pena. — Ele ficou furioso. Me mandou para cá, para que eu ficasse longe dela, mas é uma punição pequena perto da que Lorelei sofreria. Não é nada perto do que ele fez com ela. — E de repente, não havia só pesar. Havia raiva. O cenho do homem fechou-se, abandonando a ternura que demonstrara segundos antes, para que voltasse a falar - agora entredentes. — Meu pai condenou Lorelei e toda a sua família à morte, alegando que eram traidores. Ela conseguiu escapar. Seus pais não tiveram a mesma sorte — o último fio de sua voz desapareceu. Von Losch ficou quieto por muito tempo, acreditando que não era mais capaz de prosseguir, embora precisasse concluir o assunto. Só conseguiu fazê-lo depois de respirar fundo várias e longas vezes. — Ela veio trabalhar aqui agora, acho que você já a conhece. Ninguém sabe que ela é uma fugitiva: somente eu, você e minha irmã. Acho que agora entende melhor o motivo de me compadecer tanto com vocês. Sempre os vi com dignidade, mas pensar que eu destruí a vida de Lorelei… Que eu destruí a vida dos pais dela, me faz desejar que fosse eu no lugar deles.
A vermelha dedicou-se em esperar pacientemente pelo tempo do loiro, os dedos longilíneos tocando em cada capa de um exemplar novo que passava por si, separando-os por gêneros e volumes para ter uma organização adequada. Lloris era deveras metódica em seus afazeres e, bem, organização a ajudava a acalmar. Era estranho, mas aprendera com sua mãe. Ela sempre arrumava quando estava nervosa e, depois de algum tempo, descobrira que, de fato, era funcional. Logicamente, à medida que o silêncio se estendia entre ambos, o incômodo crescia na mulher. Sempre fora um ser deveras curioso, desejando saber o que não deveria. Em sua infância, acabara cheia de cicatrizes já não existentes em virtude de sua curiosidade. No entanto, não demorou a que Alric expressasse o que o incomodava, ou melhor, o que o enchia o peito a ponto de transtorná-lo. Era como o homem soava para si: completamente transtornado; pelo seu passado, pelo seu presente e, bem, pelo seu futuro. Não obstante, parou de organizar os livros, observando-o enquanto contava a própria história, sanando suas próprias dúvidas. Por que Alric apoiava tão cegamente os vermelhos? Por que ele parecia tão preocupado com a saúde da base social? Por que estava naquele ambiente quando, bem, logo mais ascenderia a um cargo de poder — e desejado por muitos; o bastante para que vários assassinatos ocorressem ao longo da história em virtude desse desejo? O questionamento inicial do homem, muito embora não fosse passível de resposta por ser retórico, recebera um aceno de cabeça da vermelha, indicando que de fato ela sabia o que era ser perseguida por seu passado. Ora, não era a razão de estar ali, afinal? Seu passado guiando cada passo e cada ação, disposta a tudo para amenizá-lo de alguma forma. Para ela, não havia outra possibilidade capaz de trazer-lhe paz senão a destruição daqueles que destruíram sua vida. Jamais parara para refletir se, de fato, isso poderia ajudá-la, mas cria nos seus fantasmas para guiá-la até o que achavam justo. Assim sendo, esperou enquanto prosseguia, avançando a própria angústia. Com o passar do tempo, à medida que a exposição do homem se tornava maior, o incômodo no cerne da vermelha também crescia, fazendo-a apertar os dentes, rangendo-o diante da tensão estabelecida naquela conversa. Não era ela quem estava se expondo, contudo, o fato do outro confiar suas memórias e segredos para com ela a fazia mal. Confiança de si para com alguém era algo raríssimo, pois, para Anya, confiar era difícil. Havia sido traída diversas vezes, aprendera das piores formas a como crescer, tornar-se o suficiente para sobreviver, portanto, não era fácil adquirir a confiança da morena — assim como era passível de fazê-la sentir ligeiramente enjoada quando o outro demonstrara tamanha confiança. E, bem, ela não merecia essa confiança. Céus, sequer seu nome ele sabia! Os dedos deixaram com que um exemplar escorresse por eles, encarando-o com as íris negras denotando uma ferida. Com um aceno de sua cabeça, Anya deixou-o, passando pela mesa sem colocar os olhos sobre o outro. Havia algo em Von Losch que lhe desarmava sempre que ambos entravam em contato e ela não sabia exatamente o quê, mas estava lá, presente. Talvez fosse seu cuidado para com seu povo, suas promessas para um futuro melhor ou, bem, a própria mansidão do outro que sempre repelia a chama de Zyanya. Fosse o que fosse, era perigoso; o bastante a repelir, um tanto confusa e, bem, assustada.