Yu na (2017) by masha bogatova
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Yu na (2017) by masha bogatova
Oi ***,
Eu estava apagando arquivos antigos e me deparei com as cartas que fiz para você, então resolvi escrever uma última aqui. Dessa vez sem decorá-la toda para ficar bonitinha e cheia de coisas que eu sabia que você ia amar. Todos esses anos enfeitando cartas me deixaram com muitas cicatrizes e eu precisava de uma última que não fosse cortar os meus dedos.
Foi um sentimento muito específico sair daquele lugar, olhar para mim mesma no espelho e não me reconhecer. A última vez que eu senti isso foi em 2020, quando me mudei da casa da minha mãe e parecia que eu tinha sobrevivido a uma guerra. Dessa vez não foi tão emotivo, mas a sensação foi parecida. Isso fez eu perceber que eu tinha sobrevivido a mais um relacionamento tóxico.
E meu deus, que viagem doida.
Minha história sobre você se iniciou exatamente no momento mais frágil da minha vida, exatamente onde as últimas algemas tinham acabado de cair. Eu até diria que você deve saber bem, porque citei isso em muitas das cartas que escrevi para você, mas hoje eu não acredito mais que você tenha lido elas.
Eu já tinha acompanhado, ouvido falar e lido por ai sobre pessoas que saem de relacionamentos abusivos e pulam em outro, e depois outro e depois outro, mas por ter tido muita sorte no amor eu não achei que esse seria meu caso. Depois de cinco anos eu vejo que eu estava enganada.
Fiz muita terapia durante esse tempo e ao decorrer dela percebi o quanto eu procurava carinho, amor e compreensão que eu não conheci em casa em outros lugares. Eu achava que tinha parado com isso em 2019, mas hoje percebo que só parei porque o encontrei exatamente em você. Eu achei que estava segura, mas isso nunca foi verdade, porquê foi aí que os fantasmas começaram.
Fui entrando de pouquinho, tentando conferir a temperatura da água, tentando ser observadora, mas principalmente tentando não fazer barulho ou mexer demais para não incomodar ninguém. Eu tinha medo desde o início de ser jogada para fora, porque um lugar tão bom nunca me acolheria, eu nunca poderia merecer isso. Com o tempo fui nadando, mas sem sair do raso, com muita cautela para que nem sequer notassem que eu estava ali. Eu não estava acostumada a ser notada e achava que se fosse não iria ser bom. Mas ai você me viu. E sorriu. E eu me senti bem.
Fui pegando um pouco mais de confiança e andando mais pro fundo, sentindo você sempre me olhando. Os fantasmas ficaram cada vez mais perto e falando mais altos. Dizendo que você nunca iria gostar de mim, que eu não merecia estar ali, que não era seguro, que eu seria jogada para fora em qualquer momento. Tentei não perder a borda do lago de vista, até que um dia outra pessoa olhou para mim. Ela me estendeu a mão e me puxou para perto, e me puxou para outra pessoa e outra pessoa e mais outra. Primeiro eu me senti bem, mas logo percebi que éramos um grupo. Entrei em pânico por um momento e olhei de volta para a borda. Quis voltar para o raso. Quis sair de perto deles, principalmente porque eles me puxavam para longe de você. Quanto mais longe a gente ia, mais fundo ficava e eu não sentia mais terra firme nos meus pés, mas você me olhava as vezes e parecia estar tudo bem. Outras pessoas, mais perto de você começaram a me olhar também e me chamar pra perto. Eu fui, tentando ir para longe das primeiras pessoas que já tinham se distanciado umas das outras. Elas diziam coisas que eu não gostava de ouvir, porque eram verdades que eu não queria acreditar. A essa altura eu já estava bem longe da borda e já estava bem fundo. Fazia tempo que eu não andava e estava ficando cansada de nadar, então percebi que você e os outros usavam boias. Pedi uma também e me entregaram.
A boia estava furada, com muitos remendos que pareciam que iam sair a qualquer momento. Foi ai que eu percebi que apesar de ter ganhado uma boia eu não poderia parar de nadar. A primeira pessoa tentou me avisar, falou que a boia era muito frágil, que antes era de outra pessoa e estava remendada porque foi esfaqueada e a pessoa afundou. A ouvi. Fazia sentido. Acreditei nela. A ignorei. Ela então nadou para o raso.
Tentei me aproximas devagar. Diferente das primeiras pessoas vocês me chamaram, mas não falavam comigo. De vez em quando eu ganhava um olhar, um sorriso e até mesmo uma mão, mas sempre era por pouco tempo e eu achava que não estava fazendo o suficiente. Os fantasmas começaram a gritar muito. ''Eles nunca vão gostar de você'', ''você não entende que não merece estar ai'', ''tá falando demais, só fica quieta'' eles gritavam. Mas você me olhava e sorria e tudo parecia estar bem. Para mim o importante era esse sorriso. Mas eu ficava cansada, parava um pouco as pernas e a boia afundava, então eu voltava a nadar. Tentava consertar um remendo que saia um pouco de ar e me olhavam de canto de olho. Eu sentia que estava fazendo algo errado e parava. Eu falava e ninguém olhava para mim. Queria gritar mais alto, mas os fantasmas diziam que não era uma boa ideia. Tentava pedir para falar, diziam que eu podia, eu tentava falar, os fantasmas gritavam na minha cabeça e eu mudava as palavras um pouco. Não recebia sorrisos de volta, nem expressões boas. Parecia que tudo o que eu fazia era errado e me lembrei do raso. Olhei de volta para a borda. Parecia tão longe agora, mas era um caminho. Eu podia voltar para o raso, eu podia inclusive sair do lago. Parecia tão melhor, era o que os fantasmas diziam, que era melhor. Cheguei a me virar e traçar caminho, mas então avistei outras pessoas ao longe, que estavam muito longes das primeiras pessoas, longe de você. Algumas estavam com os pés no raso e outras não, mas sorriam uns para os outros.
Cheguei mais perto delas, mas não muito. Eu não queria correr o risco de ser um grupo, mas quando pisquei já era. Outras pessoas sorriram para mim e se juntaram também. Fui percebendo que podia estar entre alguns grupos. Mas uma pessoa tentou subir na minha boia e eu me assustei porque ela era muito frágil e eu precisava dela para ficar no fundo, então afastei ela com os pés. Eu sei que posso ter machucado ela, mas era pra me proteger. Tudo ali me assustava, eu estava cansada de nadar. Eu sabia que precisava de outra boia para conseguir chegar mais perto de você, porque você estava muito fundo. Tentei ignorar os fantasmas, ignorar os olhares de canto de olho, consertei um remendo e fui para mais fundo, para chegar em você.
Você me olhou, sorriu e estendeu a mão. Parecia que tudo tinha valido a pena. Mesmo eu estando exausta, mesmo tendo que remendar a boia mais vezes. Mesmo que depois de me ver com as mãos nas suas a primeira pessoa tenha saído de vez do lago. Outras pessoas com boias se aproximaram e outras ainda ganharam boias novas, melhores que a minha, mas tentei não reparar. Muitas me deram as mãos e até me ofereceram para segurar um pouco na boia delas, então descansei. Mas não durou muito, elas foram boiar para outros lados e eu continuei nadando e ficando cada vez mais cansada. Recebia sua mão de vez em quando, o que era suficiente para descansar por 2 segundos. Até que você me ofereceu para descansar na sua boia.
Parecia que eu tinha finalmente conseguido. Eu teria então o amor, eu participaria então do grupo que tanto vi de longe, o grupo certo a se estar, eu teria uma boia nova e não precisaria mais nadar tanto. Todos os fantasmas estariam errados e eu estava bem. Até que ouvi pessoas cochichando e seu sorriso sumiu. Uma das pessoas que me deixou descansar um pouco me olhou feio e cochichou com as outras. Todos me olharam feio. Você nadou para longe e pessoa que cochichou chegou perto e disse ''você é horrível, você não pode ter uma boia'' e sem que eu pudesse tomar fôlego esfaqueou a minha boia.
E eu afundei.
Bem rápido, percebendo que tinha pedras amarradas no pé, que eu não percebi que quem me deixava descansar amarrava. Duvidei se forem eles que amarram ou se eu as sempre tive, mas estava muito cansada para chegar a qualquer conclusão. Vi outras pessoas no fundo, algumas longe, que nem conheci, outras mais perto tentando nadar para cima, tentando voltar para a superfície. Pensei que a culpa era minha, eu não nadei o suficiente, eu não fiz remendos o suficiente. Olhei para cima e vi pessoas que não tinham boias ganhando melhores do que a que eu tinha. Vi elas jogando pedras, para ter certeza que eu afundaria. Olhei para baixo, vi o chão. Vi pedras e outras pessoas. Os fantasmas falavam ainda mais alto agora e tinhas novas vozes. Pensei que tive tanto medo de ser jogada para fora que não pensei nem por um segundo que eu poderia afundar. Foi então que dei um grito.
Decidi que bastava, que isso tudo era patético, eu estava cansada e molhada para absolutamente nada, só porque escolhi estar. Desescolhi então. Arranquei as pedras do pé, desviei das novas e usei o fundo do lago para dar um impulso. Nadei em direção ao raso e só parei quando cheguei lá. Sentei, respirei e olhei para você. Você não tinha mais o sorriso e disse ''vai embora''. Então eu fui. Levantei e sai do lago.
Olhei para trás e tacaram mais pedras que não chegaram nem perto de encostar em mim, só afundaram no lago. Olhei com mais atenção dessa vez e percebi que, diferente do que eu tinha achado, muitas pessoas saiam constantemente do lago. Muitas outras nem iam pro fundo. Mas o que mais me surpreendeu foi que você não estava em um grupo. Te vi bem longe e percebi que não estava molhada. Você tinha uma boia na cintura e um spray de água, o que dava a impressão de estar no lago, mas você estava sentada em um pedestal de vidro, com várias pessoas em volta tentando te alcançar a todo custo.
Percebi que outras pessoas, as com as melhores boias, também não estavam na água, só em pedestais menores. Percebi também que as pessoas que tinham acabado de ganhar boias tinham muitas pedras na mão, e por isso tinham que ficar nadando para não afundar. Jogaram em mim para tirar o peso, mas elas sempre teriam as pedras.
No final, só estava na água nadando quem acreditava que poderia sentar ao seu lado, mas eles nunca chegariam ali, porque você só prometia muito, entendia a mão de vez em quando causando uma ilusão, mas nunca seria tempo o suficiente e eles juntariam muitas pedras na mão até conseguir uma boia. Andei para longe, em terra firme, achando que doeria cada gota do meu ser ir para longe, mas senti um vento quentinho e aconchegante e agora olhando ainda mais de longe percebi que aquilo tudo era um oasis. Uma miragem no deserto. Olhei em volta e existia muito mais vida pra além daquele lago, para longe.
Sei que vou demorar um pouco mais para que não haja mais nenhuma gota de água em mim ou para que minhas pernas parem de doer com o cansaço. Mas sei que aqui é quentinho e seco. Sei que estou deitada, cercada de pessoas que não me dão boias, mas sim chão firme. E sei que você vai continuar ai, se molhando um pouco para fingir que está enxarcada, enquanto todo mundo luta para ter um pedacinho de tempo com você.
Eu poderia te desejar todas as piores coisas do mundo, que nem você fez comigo na sua última mensagem, mas saber que você nunca vai sair daí desse lugar frio já é o suficiente para mim.
Com paz,
Bea.
Vocês ficam presos nos próprios espinhos e não entendem o porquê. Dá pra ver de longe e dá uma pena danada. Não é nem necessário um binóculo, dá pra ver a olho nu. Dá uma pena danada mesmo. Quando eu cheguei os espinhos já estavam até a cabeça, mas eu observei bem e vi um regador, vi uma pazinha que arava a terra, vi vocês fingindo que não cuidavam do jardim. Eu tentei entrar, mas me arranhei. Sangrou, doeu. Fiquei sem entender como vocês conseguiam viver ali dentro, no meio de tanto espinho, então observei melhor e vi algo que não dá para ver de longe, nem a olho nu, nem com binóculo. Vocês não eram plural, eram singular. Sozinhos entre os espinhos, mesmo que tenham o criado juntos. Eu falei em voz alta: "eles tem espinhos, e esses espinhos me machucam, eu não quero entrar ali" e foi quando tudo ruiu. Vocês ouviram, mesmo que de fora. Tentaram jogar espinhos em mim, mesmo que de longe. Não me acertaram. Eu senti pena. Dá uma pena danada na verdade.
Sai andando sozinha. Prefiro ser singular onde não dói.
porque você fala de um mundo mais azul e eu quero acreditar que a luz não cega e a vida não devora
Incompreendida
É assim que me sinto, muitas vezes.
Quando escolho não oferecer o meu mínimo
porque conheço o tamanho do meu máximo.
Não é ausência.
É cuidado.
Eu poderia aparecer de qualquer jeito,
responder por responder,
estar por obrigação.
Mas eu não sei amar pela metade.
Prefiro o silêncio à presença vazia.
Prefiro o tempo ao improviso emocional.
Prefiro chegar inteira
do que me oferecer em pedaços.
Quero ser presente, sim.
Mas só quando eu estiver bem.
Porque quem já aprendeu a se reconstruir tantas vezes
sabe que presença de verdade
não é frequência.
É qualidade.
E nem todo mundo entende isso.
Mas, ainda assim,
eu continuo escolhendo
não me entregar pela metade.
via weheartit
Durante muito tempo, meus sonhos foram adiados porque eu estava ocupada demais sustentando o mundo dos outros. Hoje, sonho com algo radicalmente simples: acordar sem peso no peito e dormir sem precisar me defender de nada.
Escriturias
eu não sou mais a pessoa que costumava ser porque ela não sobreviveu. eu sou o que veio depois.
Uma vez implorei pra que o outro prestasse a atenção no que falava, pedi para que considerasse o que eu sentia. E pedir as mesmas coisas me cansava. Foi aí que eu percebi, implorar por qualquer coisa que deveria ser recíproco, é um erro do caralho!
Eu só quero seguir por um rumo que não envolva o seu caos.
Com ardor, John
coisas pelas quais eu devo me orgulhar; a coragem para ir embora mesmo sabendo que iria ficar sozinho.