De algum jeito, Chelsea o lembrava muito de Alice, sua antiga amiga. Anos atrás, logo quando o acidente aconteceu, Spencer entrou em uma onda horrível de pessimismo, que durou até que ele encontrou Alice. Alice, que já havia sido abusada pelo namorado, abandonada pela mãe, e havia perdido o irmão para o câncer. E mesmo assim, ninguém tinha mais vontade de viver do que aquela garota e seu pai. Ela ajudou muito Spence naquela época, assim como Chelsee estava tentando fazer agora.
Ele ouviu a mini bronca da amiga em silêncio, rindo baixo internamente. Mentalmente, ele fazia um lembrete que um dia, precisava apresentar Chelsee para Frank, o seu melhor amigo de infância -que na verdade prevalecia até hoje. Frank era ótimo em colocar as pessoas para cima também. O garoto tinha um carro Eclipse verde neon, e também corria nas corridas, mas de carro. Era um péssimo comediante e também colocava o ‘Tá?’ no final de todas as frases. “Chelsea, eu não…”
Ao escutar o que ela tinha para dizer ao final, os olhos azuis dele desviaram-se dos dela. Só a menção do acidente já era suficiente para lhe causar arrepios. Principalmente porque ele sempre achara que não havia sido um acidente. E foi exatamente isso que ele comentou em voz alta, antes de poder se frear. “Não foi um acidente.” Spencer nunca havia realmente contato a alguém que não fosse Frank sobre aquilo. Não queria criar polêmicas no mundo das corridas, porque no geral acaba sendo uma coisa ruim para ambos os lados. “Você lembra… Daquele Pete que eu te falei? O loiro? Que beijou a minha ex-namorada na minha frente?” Apesar de parecer calmo, só de pensar em Pete, Spencer queimava por dentro. “Ele entrou nos meus boxes antes da corrida. Eu tinha feito a verificação na moto antes de correr. Chequei os freios. Mas ele entrou lá, e aí pararam de funcionar. Assim como tinha vários parafusos soltos na toda da frente.” Spencer pegou a sua moto laranja que estava parada num canto, e levou-a para mais perto da pista. “Não foi um acidente.”
Um dos maiores defeitos de Chelsea era sua teimosia, coisa que herdara de sua mãe segundo fatos que seu pai lhe contava. Porém, segundo seu pai aquela teimosia poderia não ser considerada como um defeito, mas sim como uma qualidade. Afinal, teimosia não passava de mera insistência para se conseguir atingir os verdadeiros sonhos e objectivos traçados. A Swan era assim. Lutadora. Insistente. Contudo, aos seus olhos, ela era apenas uma garotinha teimosa que sempre teimava com o mundo apenas para ter razão e ter o que quisesse e desejasse. E de fato, a ex-grifana queria e desejava o melhor para aquele garoto, afinal aquele garoto era seu melhor amigo, seu porto de abrigo. Spencer sempre fora um dos pilares mais importantes na vida da morena. Fora aquele menino que a amparou diversas vezes quando ela se ia abaixo por conta da morte de sua mãe. Era quase sempre Spencer que escutava seus medos, suas frustrações. Assim como ele era seu porto de abrigo, Chelsea era o porto de abrigo dele. Eles sempre assim foram, e com o tempo, essa união simplesmente aumentava.
Aos olhos da Swan, o verdadeiro amigo era aquele que dava bronca quando via que algo estava errado. Sempre fora isso que ela fizera com Spencer, afinal, ela o via como alguém bastante especial. Porém, Chelsea não achava que incentivar seu melhor amigo a correr novamente fosse algum tipo de bronca, afinal ela apenas estava tentando lhe abrindo aos olhos para aquilo que o fazia realmente feliz, ou seja, as corridas. --- Você não o quê, hum? --- ela perguntou lançando um olhar um tanto severo. A Swan odiava quando aquele garoto era teimoso demais.
Ao observar Spencer desviar o olhar de seus olhos, a morena tivera certezas que não deveria ter mencionado o acidente. Ela mordiscou o seu próprio lábio inferior, arrependida por ter feito tal coisa. Seu olhar se tornou um tanto confuso ao escutar o menino falar que não fora um acidente. --- Como assim não foi um acidente, Spencie? --- ela perguntou, se notando claramente no tom da sua voz a preocupação para com aquele garoto. Quando ele mencionou o nome de Pete, a raiva começou a irradiar por cada pequeno pedaço do corpo da ex-grifana. Uma coisa que ela jamais admitira era que tocassem nos seus. --- Eu lembro perfeitamente. --- respondeu, seus dentes rangendo suavemente. Era visível em seu olhar a raiva que ela nutria pelo tal garoto loiro. Seus olhos se arregalaram quando ela escutou a história alheia. --- Ele o quê?! --- sua voz saiu um tanto alta demais, seus olhos estavam ligeiramente semicerrados --- Eu juro que mato essa criatura imunda!