Olá! Aqui Quem Fala É A Tristeza. Tudo Bem?
Olá! Aqui quem fala é a Tristeza. Tudo bem? Bom… se estamos nos falando… creio que não, né?
Me desculpe por mandar esse e-mail assim, meio que do nada. Mas é que eu, assim, meio que do nada, tive que aparecer por agora e cobrar algumas “respostas” de perguntas feitas há alguns anos. Você sempre tenta me ignorar, mas agora não vai ter saída. Ou você me responde, ou eu nunca mais apareço. E não pense que isso é “legal”, tá? Não ter um equilíbrio dentro de si é a pior tristeza que alguém pode sofrer. E não é nem culpa minha. São vocês que escolhem isso.
Eu também não gosto de me sentir. Vocês acham que é legal chorar pelos meus parentes que se foram, pelas merdas que aconteceram, pelos foras que eu tomei e pelas dificuldades que eu encontrei? Vocês se esquecem que, mesmo que alguém seja um “vilão” (idealizado por vocês, diga-se de passagem), existe ali um coração. Eu não gosto da minha função. É horrível. Eu me sinto muito pior quando vejo o que causo nos outros. Mas vocês precisam me valorizar também, poxa!
Quando eu chego na vida de vocês, vocês sempre me recebem de maneira mal educada. São incapazes de dizer um mísero “olá, senhora Tristeza”. Nem fazem questão de perguntar “se eu estou bem”, “como estão as coisas”, “como foi de ano novo”, etc. Já me recebem pensando na hora em que eu irei embora. Que tal aprenderem a ser um pouco mais educados? Que tal aprenderem mais comigo?
Eu, ao contrário de vocês, valorizo as pequenas atitudes (honoráveis e admiráveis). Quando ando sozinha pelas ruas e vejo um casal (heterossexual ou homossexual) dando as mãos, começo a chorar. Eu guardo aquela imagem como se fosse um quadro na minha cabeça. É como se, por mais que eu tenha que fazer o meu trabalho, ainda há pessoas que são felizes à cima de qualquer coisa. Ou que, pelo menos, tentam. E isso, na minha opinião, é maravilhoso.
Vocês tentam? Ou vocês só reclamam de mim? Cês têm cara de que reclamam mais do que tentam. É bem coisa do “tipinho” de vocês. “Ah, vamos por a culpa na tristeza”. Claro. Pode por. Mas, e a solução? Vai ser de quem? De mim também, é claro! Eu sou a forma mais otimista de se ver o mundo. Quando eu apareço, todos vocês tratam de arranjar algo bom para se agarrar. Até os mais pessimistas fazem isso. Todos vocês, automaticamente, se agarram à uma lembrança/pessoa/coisa querida para que eu passe mais depressa. Me tratam como se eu fosse um furacão dos EUA.
Calma, gente. Eu, graças a Deus, não sou a Depressão (minha irmã gêmea má). Eu sou a Tristeza (vizinha da Solidão e prima da Consolação). Eu sou o por do sol. O desfecho de uma grande (ou pequena) felicidade. Mas, depois de mim, vem a lua (Esperança). Quando o sol se põe, levando toda a Felicidade, vem o breu da (pseudo) escuridão. Mas por pouco tempo, é claro. Eu sou apenas um fio condutor para o próximo nascer do sol. Parem de se importar comigo. Me aproveitem para pensar no que fizeram. É para isso que eu sirvo. Quando eu estou somente com você, sou melhor que qualquer psicólogo. Eu que aturo o choro pelo seu ex namorado, o choro do final da novela, o choro do filme “Marley E Eu”…
Pense em mim como um desvio para um outro caminho. Se o outro caminho vai ser melhor, só você poderá me dizer. Minha função é indagar, questionar e, até o último momento, testar seu limite. Afinal, um homem só se conhece profundamente ao chegar, sozinho, no máximo do seu próprio limite.
Eu posso não amar o que faço, mas amo muito o resultado daquilo que faço. Eu vejo milhões de pessoas se unindo por um motivo bom, vejo familiares se reencontrando, vejo casais voltando, casais nascendo, casais crescendo (juntos ou separados, tanto faz), vejo vidas partindo e vidas chegando. Eu vejo fé. Todo santo dia. Muita fé. Vejo pessoas tirando o que não tem para conquistar tudo aquilo que fará o outro feliz. Seja uma casa, uma roupa, um brinquedo ou até mesmo um coração (o órgão também se encaixa). Vocês deveriam se ver. São tão lindos quando começam a valorizar os outros (bons) sentimentos…
A verdade é que vocês se tornam cada vez mais únicos e importantes para mim. Obrigado por, ironicamente, deixarem o meu dia mais “feliz”.
P.s.: Nunca existiu dúvida vindo da minha parte. Sempre tive certeza. Certeza de que vocês são especiais.