Multiartista? Mago? Psicologo? Surrealista, profeta do absurdo? Quem é o chileno Jodorowsky e o que o torna um dos grandes nomes do cinema?

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Multiartista? Mago? Psicologo? Surrealista, profeta do absurdo? Quem é o chileno Jodorowsky e o que o torna um dos grandes nomes do cinema?
A matriarca da Nouvelle Vague, a dama dos ensaios pessoais? O que torna Agnès Varda um dos maiores nomes de todos os tempos no cinema?
O triunfo da técnica? Uma obra de arte em cada gênero? O que faz de Stanley Kubrick um dos melhores diretores de todos os tempos?
Sandman (primeira temporada)
Antes de tudo precisamos falar o básico. O que é uma adaptação?
Uma adaptação não é simplesmente pegar algo de um lugar e jogar em outro, apesar de os nerdolas adorarem que fosse. Tem uma coisa chamada linguagem, é isso que é preciso ser adaptado. No caso transformar algo que funciona em uma mídia e converte-la para que consiga fazê-la funcionar em outra. Traduzir. E isso, meus amigos, as vezes precisa deixar a fidelidade lado, porque, nem mesmo cópias, as tem.
A clássica graphic novel de Neil Gaiman, Sandman é algo que se fala em adaptação para o audiovisual desde a década de 1980. Não se encontrava formato, e convenhamos, ainda bem que não havia sido feita. O formato de série, com projeção de final, é o único formato que talvez consiga abarcar a obra. Dizendo isso, foi o que a primeira temporada, que estreou mais desacreditada que com hype, conseguiu.
Entenda aqui que é uma ela é uma grande primeira temporada, com certeza não está ainda à altura do que a obra original se tornou nem provavelmente chegará e falarei mais disso adiante, e com certeza não terá muito a ver sobre com o que se reclamou tanto (na verdade acompanhei os choramingos no processo, hoje em dia nem fui mais atrás).
É realmente uma tristeza que as graphic novels tenha ficado tão atreladas a um grupo de pessoas que em geral são adultos que se comportam como crianças. É lógico que estou generalizando, porque quando falamos de história em quadrinhos lembramos logo de heróis americanos coloridos agindo de maneira maniqueístas e ufanistas inflando personalidades que hoje a gente identifica muito bem inclusive na política. Mas quadrinhos tem muito mais que isso, e leitores de quadrinhos são muito mais que isso. A nona arte, como é conhecida, tem um vasto espectro, que vai muito além do universo comercial desses heróis se expandindo pelo globo criando um tipo de linguagem própria que se distancia tanto da literatura quanto do audiovisual apesar de se comunicar com ambos. Núcleos como na Ásia, a américa latina, o franco-belga, e mesmo o quadrinho independente nos EUA traz universos que disputam em pé de igualdade com qualquer arte, mas ainda continuam reservados a nichos que deixam transparecer ao público geral que tudo se resume aquilo de sempre.
Para isso foi muito importante dentro da DC Comics, o selo Vertigo, quando um pequeno departamento levou para os EUA nomes de peso dos roteiros da Inglaterra para começar a focar em narrativas mais adultas e reciclar personagens que estavam lá abandonados nas gavetas da editora. Foi assim que Alan Moore pegou O Monstro do Pântano e consequentemente Watchmen, e foi assim que Neil Gaiman pegou Orquídea Negra e consequentemente Sandman.
A liberdade que esses autores tiveram para criar nesta época dentro de uma grande editora do gênero talvez nunca mais fosse igualada. Não a toa Sandman que Neil Gaiman conseguiu fechar em uma obra completa de 72 volumes é até hoje considerada como um marco e um dos principais títulos no que tange esse tipo de linguagem.
Então finalmente em formato de série e com o próprio Neil Gaiman na produção executiva, temos a primeira temporada. A primeira temporada adapta os dois primeiros arcos da história (Prelúdios & Noturnos e Casa de Bonecas). E a sensação no geral foi muito boa. O lirismo do texto foi em boa parte conservado, os personagens estão bem personificados (Sim, Sandman parece muito mais jovem e um astro do rock, mas eu imagino que isso tenha sido feito para atrair público, e a gente sabe que nesse ponto nunca iremos nos tornar menos superficiais, mas ainda assim o ator está bem dentro do formato, assim como o elenco todo) e os universos criados apesar do CGI é convincente.
Neil Gaiman criou uma das visões da Morte mais intrigantes já concebidas. Doce, empática e afetuosa, que traz em si um debate sobre mortalidade no mínimo acalentador. E isso foi conservado também.
Aliás há diálogos na série que talvez como homenagem foram feitas palavra-por-palavra o que preserva a obra, mas mostra também o quão bom Gaiman era bom na escrita multimídia. Não só isso. Quem já leu a obra sabe o quanto ela cita músicas para te envolver pelo pela trilha (aliás transpus a playlist que fiz há alguns anos no Deezer para o Spotify, o link estará ali embaixo. É a playlist de músicas citadas na obra original, não a trilha da série, essa vocês acham por aí) funcionando como leitura sim, audiovisual.
Aí entramos no ponto que ao meu ver a série intencionalmente talvez, pecou um pouco. No tom.
A obra original se divide bem entre uma fábula para adultos com pinceladas de filosofia e o terror obscuro e decadente. Entre sonho e pesadelo, limpo e sujo.
E um dos grandes méritos de Neil Gaiman é conseguir equilibrar isso com maestria.
A série, mesmo sendo classificada para 18 anos, parece ter escolhido o tom de fábula somente, amenizando tudo e de certa maneira, infantilizando o espectador em certos momentos. Inclusive nos vilões, inclusive na trilha que nos faz parecer por vezes estar vendo um filme de Harry Potter (nada contra Harry Potter, aliás. Não me xinguem. Mas os públicos classificatórios são diferentes.) o que ao contrário da obra original, te dá muitas zonas de segurança, aquela sensação que tudo vai se resolver, que os personagens estão seguros. E é completamente o inverso da sensação que você tem lendo.
Mas enfim, pode ser algo da primeira temporada apenas, ou pode ser eu apenas torcendo. Eu realmente espero que haja mais coragem nesses pontos, pois onde a produção acertou, acertou bem. Se houve reclamações de nerdolas sobre questões de gênero, etnia, e coisas afim? Convenhamos, quem liga pra nerdolas?
Quem é David Lynch?
O diretor dos sonhos filmados? O mais popular dos surrealistas? Um louco que ultrapassa os cânones das estruturas cinematográficas? O que torna David Lynch ao mesmo tempo tão idolatrado e tão intransponível?
Não é bem sobre um filme, e talvez essa seja a última vez que fale por aqui sobre coisas tão pessoais. Pensei por demais hoje e creio que acreditem ou não, cheguei ao ponto de achar estar me expondo demais. Mas, na verdade esqueçam, é sobre um filme. Mas é também sobre agosto. Agosto me pega sempre de soslaio. Dia dos pais, seria aniversário dele, mas faz muito tempo que ele se foi.
Eu sei, um monte de gente tem esse mesmo problema, supere. E não é que não tenha superado. Algumas faltas teimam em se fazer presentes.
O filme em questão foi basicamente o único filme que consegui ver com ele. Quando eu tinha seis anos de idade, ele descobriu um problema no coração e desde lá ficou se tratando em hospitais até quando finalmente, cerca de dez anos depois, o vi partir em um desses frios quartos pintados de verde institucional.
O filme? Era obviamente um western, mas um bem escolhido, meu pai era um homem de gostos simples, mas tinha lá seu requinte: Três Homens em Conflito, obviamente. Eu era uma criança, o videocassete tinha duas cabeças, o controle remoto tinha fio e eu mal conseguia ler as legendas daquelas primordiais cópias VHS. Mas foi extremamente divertido, não teria como não ser. Foi o único momento de diversão que tive com ele na vida.
A música de Morricone que eu iria assoviar por semanas, as cenas operísticas que como um completo idiota sem amigos eu iria tentar recriar na praça na cidade, e nem conseguia mais conversar com ele sobre o quanto tinha gostado, do quantas vezes havia reassistido, (até porque era o único filme em casa) porque ele, obviamente estava cuidando de coisas mais importantes, longe dali, esperando um coração que eu não podia lhe dar.
Foi uma luta frívola, iria sofrer por uma década, seus últimos anos foram de privações cada vez piores até o momento em minutos antes de partir de verdade, ao ter a primeira parada cardíaca e ser reanimado, reclamou com os médicos que o tinham acordado justo quando tinha conseguido descansar. E então, minutos depois, descansou.
Apesar da dor aquela cena me fez perder todo e qualquer sentimento ruim que eu tinha com a morte. E desta vez não tinha sido a cena de um filme. A única coisa ruim da morte é a ausência. É não ter tido nenhum dos conselhos dele nem mesmo em vida, todos aqueles conselhos que acabei juntando em filmes e livros e se demonstraram tão ineficazes na vida real quanto uma enciclopédia em grego. Construíram meu caráter mas me deixaram coxo para lidar com gente aproveitadora no trabalho. Tive que me impor no laço embora ainda ingênuo.
Mas volta e meio ainda vejo e ele em meus sonhos. E engraçado como a cabeça das pessoas funciona, porque depois de um certo tempo, você tende a esquecer do rosto das pessoas, talvez para lembrar mais das coisas importantes. Então, quando ele aparece em meus sonhos ele ainda é calvo como Lee Van Cleef, ainda é engraçado como Elli Wallach e ainda tem os olhos extremamente azuis como Clint Eastwood, mas não é mais o mesmo. Parece outra pessoa, porém ainda lembra bem de mim, e tem a chance de me dar conselhos como:
“Eu sei que você vai duvidar bastante de você, mas lembre que todo mundo duvidou, todo mundo, e você não ligou. Continuou, e seja o que for conquistou, sem ajudas, sem dinheiro e nem mesmo incentivo moral, enquanto outros fingem, você está sendo. Do seu jeito, então nade até onde os braços aguentarem. E como no filme, quando cair, caia atirando.
Você vai amar pouco, e quando amar vai falar, e não será recíproco. Não deixe de fazê-lo. Se sincero, você não fez nada de errado, ninguém fez. Não se sinta culpado, você não tem nada de errado em específico. Eu sei que é bem difícil de ver, mas é o que é. Você é como toda pessoa que vale a pena dividir uma estrada: O Bom, o Mau e o Feio em uma pessoa só. Encilhe seu cavalo, vista seu poncho e seja forasteiro.
Cuida bem da sua velha, dos seus irmãos como você tem feito, embora caçula. Mantenha a harmonia, mas busque teus rumos onde tua alma chamar, pois faz muito tempo que teu cavalo não vê as estradas longínquas que prometes. Talvez seja hora de sentir a poeira em teus pulmões até sufocar. Você é daqueles que as armas e não daqueles que cavam. Lembra dessa cena?
Sei que nos veremos em breve, vaqueiro. Para conversar sobre a trilogia dos dólares toda. Sim, você não acredita em vida após a morte, mas Sérgio Leone está lá comendo macarrão e tomando vinho louco para contar detalhes de como foi o processo.
Eu vou indo, não tenha tanta pressa. Aproveite a jornada. Tem coisas bonitas para acontecer.”
Eu vi Deus e ele tinha minhas feições meio díspares, o nariz quebrado, a pele marcada do sol, os olhos da cor do céu mais azul que já vi.
E foi a chance que não tive em vida de dar um abraço e lhe dizer que estava tudo bem, que ele fez tudo o que pode mesmo doente.
E que foi talvez aquele filme e aquele momento de união que tive com ele naquele momento que me fizeram ter tanto amor e respeito pelo cinema. Como se simplesmente, o cinema desde então, tivesse assumido o papel de meu pai.
Até a última bala.
O diretor das imagens poéticas, dos detalhes. O que faz do polonês um dos grandes nomes do cinema mundial mesmo tendo uma carreira realtivamente curta?
Jogando com a Morte
Fui diagnosticado erroneamente com síndrome do pânico quando tinha 15 anos. Já falei aqui que morava em uma cidade de 3 mil habitantes. Por cinco anos tomei remédios errados, e durante todo esse tempo me questionava sobre a questão da existência, sobre o fardo dela mais especificamente.
Não é algo muito comum pra alguém de 15 anos se perguntar, ou ao menos não era, antes da geração Z, mas era constante. Havia uma grande dificuldade em fazer amigos, ou em se comportar como se comportavam aquelas pessoas para então me tornar amigo deles. O que me fez uma criança e um adolescente muito solitário. Apegado sobretudo nos livros e filmes.
Nesse processo óbvio que era mais fácil me ater a filmes que me divertissem por um instante, livros que fizessem rir ou me fizessem fugir do instante ruim. Não culpo aquele garoto que eu era, como não culpo ninguém em situação parecida. Mas confesso que uma capa de um VHS sempre me fascinou na locadora. E não, eu nunca tinha ouvido falar do filme.
A cópia era nitidamente ruim, mas a imagem de um cavaleiro jogando xadrez com uma figura que parecia ser a morte sempre me fascinou. Acho que inclusive vi antes uma paródia qualquer trazendo essa cena em uma comédia americana, o que me fez ficar ainda com mais curiosidade.
Já deu pra entender que o filme em questão era O Sétimo Selo do sueco Ingmar Bergman. Lembro bem que loquei o filme em um fim de semana e tentei vê-lo na sexta a noite. Não consegui. O ritmo lento, e o excesso de questionamentos não eram muito familiares para mim.
Não desisti.
No dia seguinte comecei cedo. É engraçado, eu sei, mas eu firmava os olhos nas legendas para tentar entender cada informação que era passada. Voltava quando não pegava tudo. E era como se aquilo fosse me preenchendo de algo que até então nada havia conseguido. Mais tarde eu ia entender como filosofia, como existencialismo. No momento era como se Deus falasse comigo através daqueles personagens (sim, naquela época eu era um moleque mais religioso).
O questionamento e a briga hercúlea porém vã, do cavaleiro querendo enganar a morte me traziam as primeiras e mais bonitas noções de alegorias que eu conseguia entender. Porque era algo que eu sentia. A sedução e a repulsa.
O que é possível fazer é esticar o jogo até onde conseguirmos, mas jamais iremos conseguir ganhar. Isso na cabeça de um adulto é lindo, no de um moleque de pouco mais de 15 anos isolado do mundo é transcendental.
No domingo eu fui atrás de outro videocassete e fucei, tentei e re-tentei até que finalmente consegui copiar aquele filme. Era preciso que eu o tivesse sempre comigo. Ele não poderia mais se livrar de mim. Por mais sozinho que eu estivesse, por mais sozinho que me deixassem, aquele filme sempre estaria comigo.
Foi o primeiro filme copiado que tive em minha coleção. Que seria bem seletiva.
A ideia da morte é algo que permeia a vida do artista assim como a de qualquer um, porém, transformar o jogo contra ela em arte, talvez fosse a maneira mais sagaz de estica-lo com certa elegância e até um tiquinho de sarcasmo.
Bagunçar o tabuleiro e misturar as peças como fez Bergman.
Trazer para si um motivo menos cruel para te deixarem fora de toda as brincadeiras, das festas e reuniões. Dane-se
Estou aqui peleando arduamente pela minha própria vida de uma maneira que ninguém jamais irá.
E sim se restava a dúvida, eu ainda tenho esse filme junto a mim para rever vez ou outra na busca de aprender novos movimentos.
Ruptura (Severance) - Série Apple TV
Assim como um forte lobby e investimento em marketing fazem um filme meia-boca ganhar oscar de melhor filme, um mau trabalho na área faz trabalhos ótimos passarem desapercebidos
A série "Ruptura" da Apple me parece ser uma dessa, uma premissa genial e um desenvolvimento no mínimo interessante, já que creio ser o primeiro trabalho fora da comédia de Ben Stiller atrás das câmeras. Ainda não terminei a temporada, mas desde já me soou com uma das mais interessantes dos ultimos anos.
Num estilo Brilho Eterno de RH, é interessante saber pouco para se divertir mais. Basta saber que parte da ideia que num presente alternativo, é possível via cirurgia separar as memórias do seu EU SOCIAL e seu EU PROFISSIONAL, sendo assim uma vida não interferiria na outra. A partir dessa ideia blackmirronesca, o debate sobre o trabalhismo corre solto disfarçado de ficção científica.
Isso sem deixar o entretenimento de lado, com uma trama de mistério interessante e bem desenvolvida.
Eu espero que não perca o folego ou parta pra soluções fáceis, pq em geral é só mais um exemplo que esta bem mais fácil achar boas histórias em Hollywood na TV que no cinema.
Depois do último Oscar ficou mais claro (...)
"A coisa boa do inferno é saber que ele é uma criação humana; A coisa ruim é saber que como toda criação humana, ele pode um dia ser fabricado"
Só pra dizer que terminando a primeira temporada de "Ruptura" ela manteve o ritmo e foco, num crescendo bem interessante.
Acerta onde muitas vezes o blequemirrô errou, e deixa uma expectativa que fazia tempo que nao sentia por uma segunda temporada.
Vale e muito
Um dos diretores mais controversos, que desperta ao mesmo tempo fascinação e repulsa. O que o cinema de Greenaway tem a dizer?
Acho que eu devia ter mal completado 17 anos, estava em São Paulo. Trancado em um apartamento porque não conhecia a cidade; Fazia um ano que meu pai tinha falecido.
Anos antes naquela cidade mesmo, sai com ele até o famoso mercado público da Lapa, ele me falava: olha bem onde estamos porque se você se perder, sabe voltar. Fixei uma padaria e uma banca na esquina. Fui até a banca e comprei uma revista de letras de músicas que estava namorando desde o dia anterior. Mal sabia eu, que praticamente todas as esquinas de São Paulo ou pelo menos daquele bairro tinham uma padaria e uma banca.
Não deu outra, enquanto meu pai fazia as compras eu o seguia lendo a revista. Na terceira vez que levantei os olhos, não o achei mais. Até pensei em procura-lo, mas não sabia se ia pra frente ou pra trás. Se ia para um dos lados. E as pessoas apressadas esbarravam naquele moleque caipira de uns 10 anos como se fosse uma caixa no chão.
Nenhum dos meus terapeutas nunca me disse isso, mas suspeito que foi ali que nasceu minha agorafobia. Acabei depois de horas andando pelas ruas da Lapa, encontrando o endereço onde morava minha irmã, acabei me baseando mais por uma feira de rua do que pela banca/padaria.
Nunca tinha me sentido tão perdido.
Isso tudo pra explicar o porque agora, enquanto esperava para fazer o vestibular da USP para cinema, eu acabei ficando trancado por duas semanas.
Eu sempre quis fazer cinema, é bom dizer.
Talvez já quisesse aquela vez que estava lá perdido achando que ia virar um mendigo juvenil sem nunca mais achar o caminho de casa.
Mas a certeza é que era isso que eu queria. E não haviam cursos superiores disponíveis. Apenas um em Porto Alegre e esse da USP.
Assistia muitos filmes, mas os que estavam disponíveis nas locadoras do meio oeste catarinense (que era eu morava) não me dava assim tantas opções.
Então aproveitando que estava na maior cidade do país, e iria ficar trancado em casa, decidi ir a uma vídeo-locadora, pegar uns filmes diferentes e pelo menos ter a opção de não estudar até meus olhos caírem.
Entre eles estava o tal Laranja Mecânica. Lembro até hoje da capa branca com o Malcolm McDowell saindo do triangulo com a faca e o globo ocular preso ao pulso. Não que eu soubesse quem ele era. Aliás conhecia o Kubrick por orelhada. Já tinha visto O Iluminado ainda bem jovem porque o VHS estava por algum motivo na minha casa. Associei aquela capa a um filme de terror ou algo assim. Tinha lido pouquíssimas coisas a respeito e a internet ainda engatinhava e babava naquela época.
Estava sozinho no apartamento, minha irmã trabalhava a noite toda no hospital.
Fiz a janta, tomei banho, comi e sentei no sofá e pouco mais de duas horas depois, minha vida mudaria completamente. Então aquilo era cinema... eu já queria fazer isso, mas não esperava que tivesse o poder questionador e a força de romper barreiras como aquilo. Eu tinha visto um filme onde a pessoa mais canalha do universo era protagonista e dialogava diretamente comigo, me fazendo conseguir ver seu lado, por pior que fosse. Sem maniqueísmos, me fazendo pensar por dias.
Acabei ficando em 35º no vestibular, mas só haviam 15 vagas. Iria cursar publicidade contra minha vontade, até finalmente conseguir um curso de cinema em Florianópolis.
Estudei Laranja Mecânica de cabo a rabo em todas as matérias. Ainda assim, ele é capaz de ainda me despertar sentimentos novos e complexos se o reassistir. Se isso não é arte, eu não sei dizer o que seria.
Talvez tenha sido não só minha primeira percepção para a plenitude do cinema, mas para o poder da arte como um todo. Nada mais seria igual. Eu iria ficar mais chato nas leituras, nas audições musicais, nos filmes que já via, e nunca mais iria elogiar algo que não me tocasse.
A agonia e o êxtase de despertar.
Nunca tinha me sentido tão perdido. Nem mesmo nos mercados da Lapa.
Quem é Yorgos Lanthimos? Como funciona seu cinema? Por que desperta tanta curiosidade, estranhamento e fascinação. Primeiro vídeo da série "diretores".
Vortex (2022)
“Para todos aqueles cujos cérebros se decomporão antes de seus corações”
Essa é a dedicatória ao início do filme
Seguido pouco depois de um vídeo antigo quase na íntegra de Françoise Hardy cantando Mon Amie La Rose. Estaria nesse momento eu bem animado, não fosse o diretor.
Quem me conhece sabe que eu não tenho lá muita boa vontade com o diretor Franco-argentino Gaspar Noé.
Sempre me pareceu um esteta da violência e da violência sexual por si só. Os filmes normalmente visam te deixar mal e… e nada, é isso.
Sei que vou chatear alguns fãs do cara que por ventura lerem isso, mas eu aceito de boa vontade.
O porquê então estou escrevendo sobre Vortex, o novo filme do cara? Para falar as mesmas coisas que falei dos outros? Não. Para dar meu braço a torcer, um pouquinho que seja.
Em Vortex temos a história de um casal idoso em franca decadência física. A mulher (Françoise Lebrun, de ‘Le Maman et la putain’) ex-psiquiatra, enfrenta os males da fase final do Alzheimer enquanto o marido interpretado pelo legendário diretor de gialli italianos Dario Argento um escritor cardíaco, tenta finalizar seu livro sobre a relação de cinema e sonhos enquanto lida com o esvaecimento da esposa.
O filme todo é exposto em duas telas de 4:3 ora representando dois ângulos da mesma cena, ora emulando dois lugares ao mesmo tempo. Os cortes são secos e por vezes trazem um efeito de fechamento de obturador, dando a sensação de ver slides naquelas velhas máquinas de projeção de fotos. Podia ser gratuito como quase tudo nos filmes do cara, mas voltarei a falar disso mais tarde.
Tudo acontece de maneira lacônica, na velocidade dos movimentos dos dois anciãos.
E é aqui onde Gaspar Noé se obriga a deixar seus maneirismos de videoclipe, para se concentrar em contar uma história, em criar empatia e finalmente mostrar um pouco de maturidade.
Eu tenho por princípio que o diretor de um filme é como um árbitro de futebol, ele faz bem seu trabalho quando parece invisível, quando por um instante você se perde no mundo da história e se faz crer pertencer aquele mundo. Acredite que isso é um tanto difícil quando a pessoa atrás da câmera fica fazendo rodopios, piscando luzes e inserindo trilhas com frequência para tentar te fazer vomitar a cada minuto.
Aqui finalmente Noe deixa isso de lado e centra-se no drama humano, na concepção de finitude. Abarrota a direção de arte com objetos entulhados em lugares claustrofóbicos na intenção de mostrar o quanto vale e incomoda o acúmulo de memórias que no final é o que nos resta.
Não tem como não envolver no drama, fatalmente os personagens irão lembrar seus avós, seus pais, ou fazê-lo pensar sobre a própria finitude. A mensagem de Noé é a mesma de sempre, “o tempo destrói tudo”, mas ao contrário do pessimismo vazio de seus filmes anteriores, aqui há a imortalidade das ações e pensamentos que mesmo que possam não ser a intenção do cara, irão sobreviver ao tempo. Não é o que você tem, é o que você é, é o que você deixa, é essa deveria ser a fonte da força e da pressa contra o fim.
É aqui onde a ideia dos slides que falei acima cabe como luva, como trem que carrega as memórias dessa geração. Fotos, livros, filmes, músicas. Toda a lembrança se torna física e pode ser exibida como numa sessão cronológica de períodos vividos. Um vórtice de memórias.
Difícil não derramar algumas lágrimas.
Isso faz de Vortex um filme perfeito?
Não. Longe disso.
“Amour” de Michael Haneke e “Meu Pai” de Florian Zellar tratam sobre a doença e a finitude de maneira bem sensível e profunda. Inclusive Noé acaba usando algumas das ideias de ambos aqui.
Mas ainda assim deixa um gostinho de que o diretor pode mais, pode trazer filmes fortes e chocantes sem ficar recorrendo a técnicas de estudantes adolescentes para causar isso. A vida por si só pode ser chocante, mesmo quando sem gore e violência sexual explícita. Coisas que Noe abandona aqui.
E uma das ideias da arte em si, poderia ser trazer à tona no próprio pathos, o sentimento a respeito desse choque, causar o debate, fazer repensar atitudes e desfazer aos poucos comportamentos arraigados na sociedade.
Afinal, se for simplesmente para mostrá-los da maneira mais grotesca possível, já temos toneladas de sites de jornalismo marrom.
É um caminho, há esperança, aguardemos os próximos capítulos se houverem.
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo
Não me interessa o que vão dizer, se tem hype ou não.
Vou dizer com todas as letras pra não voltar atrás:
"Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" é um clássico instantâneo.
Ponto
Não tem muito com classificar, já aviso. É nitidamente uma comédia, mas se vc não for uma pessoa amarga demais, vai chorar
Acho que eu poderia chamar de "um filme psicossomático" mas eu ia parecer um maluco querendo me meter a Zizek.
Então vou evitar.
É um filme de kung fu em certas horas, mas também é um filme extremamente fofo.
É uma ficção científica mas seu foco são relações cotidianas.
É um filme predominantemente de família, mas tem pessoas usando plug anal para abrir portais interdimensionais.
Tem Michelle Yeoh e Jamie Lee Curtis em papeis maravilhosos, aliás o elenco todo está perfeito juntando filosofia oriental com cultura pop e episódios de Rick and Morty e... Ratatouille.
Difícil explicar, já falei aqui anteriormente que tem filmes que você tem que deixar te levar e ele vai te pegar pelas sensações que causa.
Vale lembrar que o roteiro e a direção são de Dan Kwan e Daniel Scheinert, autonominados The Daniels, cujo filme anterior era Swiss Army Man sobre a amizade de um garoto tímido e problemático, metaforicamente isolado em uma ilha com um cadáver interpretado por Daniel Radcliffe que se demostra extremamente util através de seus gases, a faze-lo sair daquele ambiente (ou estado mental)
Tinha como imaginar que o novo filme seria "Normal"?
Se conseguir veja, por favor, no cinema, com certeza deve ser uma experiência única que as cidades do interior infelizmente não nos proporciona
Lembro de quando cheguei em Cascavel, era a época que as videolocadoras estavam se livrando dos VHS e substituindo o acervo inteiramente por DVD. Então basicamente você locava o filme e não precisava devolver. Logicamente era difícil achar bons títulos, então eu passava algumas horas catando algo para a coleção. Perdido embaixo de uma pilha encontrei algo que me abriu um sorriso largo entre as orelhas. Corri para a atendente todo feliz. "Esse eu vou levar. Que sorte ter encontrado esse filme, sequer foi lançado (e até hoje não sei se foi) em DVD no país. A atendente me lançou um olhar com misto de desprezo e nojo "Difícil alguém levar isso. Nem é um filme. É uma nojeira"
Era "Crash - Estranhos Prazeres" de David Cronenberg Baseado no livro de J G Ballard contava a história de um casal que após ficar com sequelas por um acidente de trânsito, descobre um submundo de pessoas que divide o estranho prazer sexual pelas cicatrizes causadas pelas ferragens em uma colisão;
Logicamente que a minha paciência em debater temas assim com pessoas que partem de um ponto de vista moral era tão pequena quanto hoje. Só paguei e levei orgulhoso aquele filme que ficou em minha prateleira enquanto tive coleção física de filmes.
Acho que o sentimento vendo o filme de retorno de Cronenberg após 8 anos sem filmar, me remeteu aquela carolice. Cronenberg nunca tentou ser muito normal. Ele chafurda nos pântanos mais escuros da psiquê humana trazendo leituras de suas taras e obsessões mais absurdas. Parecia ter dado um tempo desde o ótimo "eXistenZ" em 1999 quando se envolveu em diversos projetos mais metafóricos em cima dos temas que tanto venera.
Agora aparentemente voltou, com um remake livre de seu primeiro filme Crimes do Futuro. E volta com tudo, desde o Body Horror o qual ele é mestre até os elemententos de transformação corporal, anomalias sexuais e biotecnologia cyberpunk e arte contemporânea levada as últimas instâncias. Olhando assim parece se tratar de um filme feito exclusivamente para chocar, mas a elegância do senhor canadense em contar a história é o que envolve tudo num pacote que tranquilamente poderia ser usado em aulas de psicologia.
Não só. Cronenberg parece envolver tratados acadêmicos em uma embalagem de filme de ficção científica com tamanha maestria que mesmo que você escolha ignorar toda a profundidade dos temas, ainda terá um filme no mínimo interessante dentro de sua bizarrice. Não é a toa que a Antropologia visual se delicia tanto em seus filmes para tratar de temas como modificação corporal, urbanidades, tribos etc.
No filme, temos um futuro caótico e burocrático, escuro, com uma textura constante de sujeira e ferrugem. O ser humano atingiu ainda assim um degrau da evolução que começa a produzir novos orgãos, que julgando-se inuteis, são registrados e colhidos pelo Estado.
O conceito de arte desse futuro se funde nessa questão. Há performances artísticas onde esses orgãos são tatuados e removidos em frente a uma plateia, e essas inserções, cortes e toques internos se tornam conceitos sexuais trazendo elementos que você espectador, desde que não um completo conservador, vai no mínimo entender.
É isso que torna os filmes de Cronenberg tão geniais. Por mais absurdos que sejam seus temas, ele consegue se aproximar do espectador de uma maneira demasiadamente humana de empatia.
Depois desse vácuo, Cronenberg já anunciou um próximo filme Seu filho Brandon Cronenberg e especialmente a cineasta francesa Julia Ducournau tem mantido o nível nesse tempo, mas é muito bom ver o velhinho voltando com todo gás Foi um ótimo retorno, mas como é ele eu ainda espero o que virá depois de ele estar aquecido.
Men (2021)
Depois de uma sequência de atrocidades perpetradas contra mulheres de diversas idades e classes no Brasil, uma tag foi levantada e faz todo sentido:
"Nem todos os homens, mas sempre um homem"
É curta, potente e não poderia estar mais certa.
Alguns homens ainda se colocam em defensiva quando confrontam essas verdades, mas é preciso que todos tenhamos a consciência de que isso não é um problema personalizado em cada um, mas estrutural. De gerações, de cultura, institucional. E que cuja culpa e solução deveria partir de nós. Mas acaba partindo fortemente das vítimas. Deixando claro que isso não é um problema de um ou outro maníaco, doente ou pessoa violenta, mas de gênero, está irrigado de tal forma, que sem uma mudança forte de postura simplesmente perpetua e continua crescendo como as ervas daninhas cobrem a terra.
Dito isso, confesso que acabei vendo o novo filme de Alex Garland em um momento que eu estava bem destruído ontem.
O que desde já não aconselho. É um filme psicologicamente pesado que precisa de um certo distanciamento imagino eu, para que ele não só ajude a te derrubar.
Deixando claro, que algo que aprendi acompanhando filmes da A24 é: EVITE OS TRAILERS.
Apesar de normalmente te darem muita vontade de ver, normalmente acabam estragando experiências e fazendo o filme parecer algo que não é.
Assim como o filme "Mother!" de Darren Aronofsky, "Men" constrói sua estrutura quase que 100% em alegorias. Digo mais, até alegorias semelhantes o que fica claro quando a protagonista chegando em uma casa de campo onde fora se isolar após uma terrível tragédia, adentra o ambiente sacando e comendo uma das frutas do pomar.
Seu primeiro contato é o proprietário, um senhor solícito e paternalista, o que a princípio parece confortável embora um tanto estranho, já que insiste em chamá-la pelo nome de casada, mesmo ela já tendo dito que não é mais.
O filme vai acabar mostranho que esta seria apenas a mais tênue das facetas desse patriarcado simbólico. E Alex Garlard escolhe estéticamente representar todas essas facetas no mesmo ator, Rory Kinnear interpretando diversos papéis com ajuda de ótimas maquiagens ou simplesmente um deep fake bizarríssimo que estranhamente combina com o todo o filme.
Explicar esses personagens seria um exercício de futilidade, cada pessoa que ver o filme facilmente reconhecerá elementos como a visão judaíco-cristã, a criança que acha que a mãe deve estar disponível a cada momento, o policial que culpa a vítima, até ex-marido que faz violentas chantagens emocionais por não aceitar o fim do casamento.
Tudo no filme é passível de uma interpretação semiotica mais apurada. O túnel, as figuras gregas e indianas dentro do templo católico, as folhas que crescem forjando uma natureza artificial em um dos primeiros personagens, o nascimento visceral e constante de homens com os mesmos defeitos; Mas aqui, é com cada um, algumas serão bem simples outras vão se mesclar com o que você sabe ou viveu.
O que sinceramente para mim já é alento em meio a centenas de filmes mastigados que o tratam como uma pessoa incapaz de preencher lacunas.
Até a maneira como te destrói, ironicamente, é construtiva