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@comealongbones
[flashback] When the cat's away, the mice will come out and play — The Bones
Embora fosse pequeno demais para entender o real significado daquela palavra, Edgar Bones encontrava-se em um estado elevado de arrogância. Não fazia questão de ouvir a irmã gêmea e todas as suas reclamações por ele estar no comando, e não ela. Mesmo que ser comparado e diminuído em relação houvesse afetado um pouco a confiança elevada que havia surgido no momento em que Brandon o nomeara o homem da casa. Aquilo era comum entre a família, mas Dave apenas o fazia quando estava em casa. Como na vez que Amelia havia tido um pesadelo sobre algo que ele já nem se recordava mais e queria dormir com os pais, mas o homem insistia que ela precisava ficar em seu próprio quarto, e que se fosse necessário, o irmão e companheiro de quarto espantaria o que quer que fosse que a amedrontasse. Aquela fora a primeira vez que se sentira importante, se ao menos ligar para a pouca idade ou altura. E assim ele passou a noite até finalmente pegar no sono: protegendo Amelia do bicho papão que habitava seus pensamentos para que a sonolência tomasse conta do seu corpinho e a levasse para o mundo dos sonhos outra vez.
Considerava-se até um tanto maduro demais para os seus poucos oito anos de idade, mas quando os pensamentos anteriores finalmente deixaram sua mente, a única reação cabível fora mostrar a língua em deboche à irmã mais nova. Não se importaria com aquilo, já havia deixado claro para si mesmo. Algo que o fez se arrepender no minuto seguinte, quando a outra finalmente entrava no assunto que ele tanto esperava chegar desde que os país haviam saído de casa para o tal jantar que não o importava nem um pouco. Odiava vestir roupas formais, e odiava mais ainda todos os apertos nas bochechas das velhas senhoras e as bagunçadas nos cabelos e piscadas vindas dos senhores. Aquilo era tedioso e tudo o que Ed pensava era em comida, mas sendo repreendido prontamente antes mesmo que tentasse reclamar dos roncos produzidos pelo seu estômago. — Você sabe que eu mereço. Nem contei pra mamãe sobre aquele vaso que você quebrou. — Porém, Edgar era quem o havia quebrado enquanto brincava com uma imitação de balaço que havia sido enfeitiçado pobremente por conta do seu pouco conhecido em feitiços para voar como o original.
Algo o dizia que nada vindo da versão sorridente da irmã era uma boa ideia. Estava sorridente demais para ser. Mas, afinal, aquele era Edgar Bones! Em outras palavras: o filho que provavelmente tinha um parafuso a menos, que encontrava-se com Amelia e toda a sua sabedoria assustadora para alguém de seu pouco tamanho. Não poderia recusar a proposta da irmã nem mesmo que o quisesse. Isso faria com que ela o visse como um medroso e ele não aceitaria aquilo de maneira alguma. Principalmente não enquanto detentor do título de homem da casa. — Que condição? — Erguia uma de suas grossas sobrancelhas e coçava o queixo tentando aparentar uma versão bem mais pensativa de si mesmo. Esperava que fosse algo divertido, ou então desafiador. Qualquer coisa que causasse algum tipo de confusão naquela noite desacompanhados.
Ele estava excepcionalmente insuportável. Exatamente como imaginou que ficaria assim que Brandon partisse de encontro com a namorada que deixara de gostar um pouquinho depois de fazê-lo sair àquela noite. O irmão gêmeo tinha uma mania muito estranha de querer protegê-la de tudo e de todos, e agora com o aval não só do irmão mais velho como também do pai, ele certamente iria se exceder. Amie falou, reclamou, protestou, mas parecia que nenhuma palavra ultrapassava os ouvidos do rapazinho a ponto deste interpretar o que queria dizer com todo aquele discurso. Seus pais haviam saído não fazia uma hora. Amelia estava ansiosa com o retorno deles, porém. Pensou, apenas por um segundo, se não seria melhor ficar sozinha em seu quarto até a chegada de algum mais velho. A lembrança das histórias que ouvira de um de seus primos, entretanto, não permitiu que a menininha de cabelos enfeitados concluísse o desejo. Existiam bichos papão em qualquer lugar, afinal. Não deveria se arriscar quando não tinha nenhuma varinha para se defender. Era somente ela e Edgar.
A pose adotada pelo menino era idêntica a de alguém mais velho. Nem Bran se portava daquela maneira, tampouco seu pai. O chefe dele sim, muito provavelmente. Bufou cruzando novamente os bracinhos, enquanto batia um dos pés no chão repetidamente imitando a própria mãe quando estava nervosa com um dos filhos. Uma imitação não tão boa, já que pareceu surtir efeito algum. Por mais que falasse que era melhor do que o quatro-minutos-mais-velho, nada era capaz de abalar a confiança que o tomara por completo. — Você sabe que não fui eu que quebrei aquele vaso — exclamou ofendida, descruzando os braços somente para abri-los acima da própria cabeça. Tudo exageradamente. — É feio mentir. Não me faça contar para o papai, ele vai te castigar — juntou as sobrancelhas demonstrando em sua expressão o quão sério falava. Realmente não tinha quebrado vaso algum. Perguntava-se se Ed a culparia de suas travessuras para sempre.
O ponto a favor da pequena Amie viera com o sorriso que tomou conta de seu rosto assim que uma ótima ideia surgiu. Perderia alguns doces, mas poderia fazer qualquer coisa àquela altura para não ter o outro Bones em seu pé a noite inteirinha – considerando que se preparariam para dormir dali um par de horas. Além disso, teria a noite que esperava ter desde que soube do tal evento no Ministério. — É uma ideia simples, mas muito justa — o tom de autoridade que antes pertencia ao irmão fora assumido pela futura hufflepuff de vestido florido e meias trocadas. — Você vai ter que me ajudar a preparar um jantar igual ao que papai e mamãe foram — disse como se fosse algo natural, duas crianças na cozinha preparando-se para um jantar de gala. Quando se tratava de Edgar e Amelia Bones, tudo se tornava possível, de todo modo. — Meus doces podem ser a nossa sobremesa — sorriu animadamente, olhando para o rapazinho poucos centímetros mais alto que mantinha a expressão pensativa em sua face.
Let’s pause || Rosemarie & Amelia
Aquele fora um longo dia e Rosemarie estava cansada. Mas não era só isso que estava a deixando mais quieta que o costume naquele dia. Havia visto no Profeta Diário um anúncio de um evento beneficente que sua família, os Zimmer, iria promover naquele fim de semana. Ninguém se incomodara em avisá-la sobre isso ou em ao menos convidá-la. Mais do que nunca, a garota era isolada da família, que parecia vê-la como um estorvo.
Não era como se a loira fizesse questão de participar do evento, pois Rose sabia que tudo aquilo não passava de mera encenação dos pais, que na verdade não se importavam com nada além de si mesmos e da soberania dos purebloods. Porém, ter um pouco de atenção ou a mínima indicação de que eles se importavam com ela faria a menina se sentir menos indesejada. Mas não era essa a realidade e, por mais que Rosemarie já estivesse acostumada com a situação, às vezes isso a incomodava.
Quando chega o fim das aulas, tudo que ela queria era estar na companhia de amigos para poder relaxar um pouco. O problema é que Rose não tinha tantos amigos assim e os que tinha eram muito mais extrovertidos do que ela, que sempre foi muito tímida e reservada. Por isso que, durante o jantar, enquanto come em silêncio e fica mais na sua, a loirinha observa a conversa alheia, sem ter a capacidade ou a coragem de entrosar. Isso chega até ser engraçado, se considerar que em seu banco, em dois lugares após o seu, estava Amelia Bones, uma de suas melhores amigas. Ao contrário de Rosemarie, a morena era extremamente sociável e cheia de amigos. Mesmo assim, como de costume, a loirinha se sentia deslocada.
Após dois meses de aulas, Amie já se sentia habituada à rotina mais puxada do que os anos anteriores em disciplinas como Poções e Transfiguração. Sendo a aula da Professora McGonagall a última do dia, a setimanista estava compreensivelmente cansada. O cansaço, porém, não era o bastante para impedi-la de aproveitar o jantar com os colegas de sua casa. Aquela era uma ocasião que sempre apreciou, afinal. A mesa, como sempre, estava cheia e muito barulhenta. A menina dos Bones ajudava com a grande movimentação entre os estudantes da casa amarela.
Uma coisa, no entanto, estava incomodando a morena desde que se sentara entre Lucy Abbott e Edgar Bones, sendo uma espécie de coruja para a amiga e o irmão que insistiam em trocar recados. Ao lado de Lucy, Rosemarie, uma de suas melhores amigas, jazia muito mais quieta do que o normal para a menina demasiadamente tímida. Mais entristecida, também. Somando a irritação de sentir os dedos do gêmeo tocar seu ombro a cada um minuto à preocupação com a loira mais nova, Amelia se ofereceu para trocar de lugar com Lucille que aceitou a oferta de bom grado.
Rose não parecia ter notado a mudança ao seu lado. Mesmo assim, decidiu chamar a atenção da amiga para si. Quem sabe a mais nova não precisasse só de alguém para conversar, que a animasse? — Eu soube que teremos bolo de cenoura com cobertura de chocolate como sobremesa hoje. Chocolate! — puxou assunto animada, como se aquele anúncio fosse o suficiente para fazer a menina sorrir. Deveria, pelo menos. Quem não gosta de doces, afinal? E pelo que conhecia da garota cabisbaixa que observava com evidente preocupação, era uma de suas guloseimas favoritas. — Vamos lá, Rose! O que houve, meu bem? Por que essa carinha? — despejou inúmeras indagações depois de alguns instantes em silêncio. O cenho franzido e seu prato intocado.
A single soul dwelling in two bodies — Amelia & Xenophilius
O jovem Lovegood já estava fadado a ter um pouco de insônia, em muitas suspeitas a terem os simples pensamentos pipocando dentro da mente do loiro, entre outras mais suspeitas em visão dos outros. Grande parte disso era a certa influência dos zonóbulos dentro do rapaz, e sabia que alguns outros colegas de casa tinha problemas com eles. A existência ou a prova que essas criaturas eram mesmo reais ficava um pouco turva ao momento que nem todos entendiam o comportamento destes. Ao que as pesquisas do ravino tinha revelado que outros indivíduos estavam mais fadados a presença destes pequenos seres quando estavam sobe alguma provação ou apenas confusão momentânea. E isso era levado desde dos sentimentos que deixavam uma abertura maior, agindo como um túnel ou janela para invasão destes em cada poro de alguém afetado.
Xenophilius estava descansando o corpo em uma das poltronas do Salão Comunal observando o fraco movimento das chamas que irrompiam pela lareira em uma dança sobre a lenha. A atenção mudou em um leve sobressalto, ao descobrir um pequeno movimento a esquerda em direção a saída do recinto. Estava querendo aventura ou simplesmente ansiava ver o brilho das estrelas um pouco antes do toque de recolher. Certamente não teria maiores dúvidas que os passos lhe direcionariam para a Torre de Astronomia, talvez o segundo lugar favorito do ravino para pensar. Ainda que este fizesse isso com muita em qualquer lugar que estivesse, não importava se existiam outros a volta dele, e pudesse julgar por estar murmurando para si próprio.
Sabia que mesmo que desse o toque, e que seria contra as regras estar fora do dormitório naquela hora, Lovegood não se importou muito. No momento o bem estar dele era mais importante, além de que se não errasse os cálculos estaria para presenciar a troca de fase lunar que aconteceria. Lua crescente era uma das fases favoritas do rapaz, não tão obviamente era a Lua cheia para muitos. O pensamento interviu mudanças quando notou outra presença no local, não precisara de muito para descobrir de quem se tratara. Estava tão certo que nem mesmo anunciara a chegada de modo formal. Caso estaria cometendo um grande engano por deixar um beijo estalar no rosto da morena, perdida em atenção as estrelas. — Preparada para a mudança de fases? Aliás, o que faz aqui tão tarde? — Questionou em um tom levemente curioso.
Passar as noites sem conseguir descansar completamente havia se tornado uma espécie de rotina. Amelia não sabia dizer se era devido o nervosismo acerca de seus últimos meses na instituição que a acolheu durante sete anos, por conta das provas, ou se por causa da indecisão a respeito de qual carreira seguir após se formar. Talvez fosse a soma de todos os fatores. Virava-se sobre a cama cujos lençóis formavam um emaranhado bagunçado, falhando totalmente cada tentativa de relaxar a mente e finalmente cair no sono. Todas as suas amigas já dormiam. Deixando de tentar imaginar uma desculpa para sua insônia repentina (a qual ela sabia o nome e sobrenome do verdadeiro motivo, mas tinha medo de admitir), vestira um roupão sobre uma das camisetas grandes e largas de Bran ou Ed – não se importava realmente com a sua origem – e ultrapassou o portal circular em direção ao salão comunal provavelmente vazio àquela hora tentando fazer o mínimo de barulho.
Como havia imaginado, não tinha ninguém além de si própria na sala que lhe parecia muito maior do que o habitual. Desejou, por um instante, que estivesse errada. Gostaria de passar algumas horas trocando conversas com Rose, Lucy, ou até o irmão, que certamente brigaria por estar acordada tão tarde. Voltar para o dormitório não era uma opção, portanto, direcionou-se até a saída da sala comunal da Hufflepuff a fim de ir para ir até seu lugar favorito de todo o castelo. Encontraria em seu destino companhias tão agradáveis quanto seus amigos ou colegas de casa. Não era comumente vista quebrando regras, mas ter Brandon e Edgar Bones como irmãos dava-lhe boas vantagens e certa sabedoria sobre como escapar até o lado oposto de onde deveria estar. Não demorou dez minutos até chegar à Torre de Astronomia.
A Lua estava enorme sobre as árvores da Floresta Proibida. Conseguia ver as constelações pontilhando o céu como o teto do Salão Principal. Os pés cobertos apenas por meias coloridas sustentavam o corpo sentado sobre eles. Amelia viajava entre os astros como sempre fazia quando tinha oportunidades como aquela. Totalmente distraída, nem sequer percebeu alguém se aproximando até este depositar um beijo carinhoso em uma de suas bochechas. Virou-se um pouco assustada, reconhecendo o amigo ravenclaw que parecia estar na mesma situação. — Xeno, oi — sorriu-lhe sentindo-se cansada. A pergunta do rapaz, em sua cabeça, tinha inúmeros significados, fazendo-a pensar por alguns instantes antes de dar de ombros e manear a cabeça num aceno positivo. — Acho que o mesmo que você. Suponho que não tenha conseguido dormir — endireitou a postura esticando as pernas para que pudesse colocas ambas as mãos sobre os joelhos, ainda olhando para o rapaz.
I get by with a little help from my friends — Hufflepuff Common Room
ㅤㅤㅤㅤㅤNão era tarde o suficiente para que precisasse ou quisesse realmente dormir, mas a briga — discussão, na verdade, como prefiro tratar — de um pouco mais cedo com Anna tinha me deixado parcialmente elétrico.
ㅤㅤㅤㅤㅤPassei o fim da tarde lendo sobre plantas invernais e decidido a fazer algum experimento que me pudesse afastar o frio. Era horrível andar pelos corredores encasulado em casacos como sempre era obrigado a fazer por determinação do tutor mais superprotetor que alguém poderia ter, principalmente quando eu já tinha deixado de ser um garotinho. ㅤㅤㅤㅤㅤAs pessoas nunca esperavam que eu fosse parte do time de Quadribol, menos ainda que fosse um goleiro habilidoso como era, sem nenhuma modéstia a acrescentar. Não era mais tão magro quanto tinha sido em toda a vida, graças à prática do esporte bruxo, e minha altura estava mais para mediano-alta, mas ainda assim eu era tratado por alguns colegas como se fosse um dos mais frágeis e franzinos do meu ano. ㅤㅤㅤㅤㅤEnfim, como era terminantemente proibido o uso de bebidas alcoólicas nos limites de Hogwarts e principalmente por um menor de 17 como eu, decidi naquela noite ridiculamente fria tentar uma infusão de plantas alternativa com efeitos similares aos do firewhisky. ㅤㅤㅤㅤㅤMisturei umas folhas de salva, tomilho e poucos grãos de pimenta-da-guiné desidratadas que tinha na minha caixa de ervas numa chaleira com água e aqueci rapidamente com a varinha dentro do dormitório mesmo. Cheirava a tempero indiano e me questionei se conseguiria beber aquilo enquanto passava o líquido fumegante para uma das minhas canecas favoritas, pintada à mão por uma artesã trouxa espanhola, comprada em uma das viagens com Beck alguns anos antes. ㅤㅤㅤㅤㅤNão me atrevi a colocar um torrão sequer de açúcar naquilo antes de beber. Quase cuspi tudo — o gosto não era tão ruim quanto o cheiro, inesperadamente, mas era como se eu tivesse acabado de engolir fogo em estado líquido. Bastaram segundos para que eu começasse a suar sob os dois suéteres de lã e a camiseta que vestia. ㅤㅤㅤㅤㅤEu deveria ter pensado mais a respeito dos efeitos daquilo. ㅤㅤㅤㅤㅤSem os suéteres e com as mangas compridas da camiseta puxadas até os cotovelos, me dirigi ao banheiro masculino para me livrar daquele chá infernal antes que um colega tivesse a brilhante ideia de se servir e minha experiência extracurricular fosse descoberta e eu tivesse de me explicar. Não que fosse qualquer coisa ilegal ou sei lá, mas eu detesto dar explicações. ㅤㅤㅤㅤㅤQuando voltei, segurando os dois recipientes vazios pelas alças e agora com as pernas da calça de moletom também levantadas até a altura dos joelhos, além do rosto coberto por uma fina película de suor, ouvi uma movimentação vinda do Salão Comunal. ㅤㅤㅤㅤㅤNão sou do tipo mais social e menos ainda intrometido, mas aquele chá tinha me deixado ainda mais agitado do que o abalo com Anna, e a palavra “desafio” tinha feito com que minha rota mudasse imediatamente. ㅤㅤㅤㅤㅤMal passei pelo portal e já me sentia arrependido. ㅤㅤㅤㅤㅤAnna estava lá. ㅤㅤㅤㅤㅤE Edgar Bones. Revirei os olhos. ㅤㅤㅤㅤㅤEu teria feito meu caminho de volta sem pensar duas vezes, se meu olhar já não tivesse cruzado com o de Delilah Leatherby. Nós não nos falávamos muito, principalmente porque ela era uma das amigas mais próximas de Anna, mas o jeito retraído e ar meio deslocado que ela apresentava faziam com que eu nutrisse um misto de simpatia e empatia pela menina. Obriguei-me a sorrir em sua direção e fazer um breve aceno de cabeça, ainda que o tenha feito de forma sincera, mas permaneci parado à porta, apertando as alças da caneca e da chaleira com tanta força que achei que fossem partir quando Anna virou a cabeça de repente e também me viu.
Um jogo seria interessante. Naquele ano, nenhuma interação do tipo tinha sido feita entre as garotas ali presentes, e a possibilidade de passar a noite se divertindo com elas era tentadora. Anna trazia ideias brilhantes. Algumas delas insanas, outras arriscadas; ainda assim, não deixavam de ser brilhantes. Um sorriso animado moldou o rosto da setimanista de cabelos escuros enquanto se empertigava na poltrona confortável. Antes mesmo que Lucy verbalizasse a proposta, Amie previa qual seria o tipo de brincadeira que animaria aquela noite fria e insone. — Sim, perfeito! — exclamou ao mesmo tempo em que a tão calada Delilah tentava fugir. — Vamos lá, vai ser legal — esticou-se segurando o braço da morena que ameaçava se levantar trazendo-a de volta para seu lugar.
A aparição de Edgar não era menos do que prevista, já que o irmão quatro minutos mais velho parecia possuir uma espécie de radar que captava qualquer tipo de frase que lhe rendesse algum entretenimento. Revirou os olhos quando ouviu ser chamada pelo gêmeo que depositou um beijo carinhoso em sua testa. Em retribuição, empurrou-o para o lado ainda mostrando o sorriso que havia se formado antes. — Esse é um jogo diferente — direcionou-se à Rapunzel, por fim, dando de ombros. Pelo que conhecia as colegas de casa e o irmão mais velho, os estudantes presentes fariam o que fosse possível para se distanciar de qualquer jogo simples de tabuleiro. Ao olhar para Anna novamente, aguardando mais alguma de suas ideias, percebeu que a ruiva voltava sua atenção ao portal. Visualizou então a figura de Sam Roth. A proposta de uma noite só para meninas havia mudado. — Hey, Sam. Você quer jogar também?
But you see, there is a graveyard in my mouth filled with words that have died on my lips.
Emily Palermo, from Untitled
I get by with a little help from my friends — Hufflepuff Common Room
Fazia muito frio.
Por mais que todos os estudantes presentes se apertassem em frente à lareira do salão comunal da Hufflepuff, ainda era possível sentir a brisa gelada vinda de algum lugar desconhecido dentro do cômodo amplo e totalmente fechado. Amelia estava encolhida em uma poltrona, cercada das amigas e sentindo-se um tanto entediada. O último pacote de doces enviados por Molly acabara naquela noite, deixando a Bones mais nova com ainda mais vontade de degustar alguma invenção nova da ex-cunhada. O frio ameaçava ficar mais rigoroso, o que fez com que a maioria dos texugos deixasse o local e fossem por fim para seus dormitórios.
A intenção de Amie era fazer o mesmo, deitar sob um punhado de cobertas e dormir – se possível – até que a primavera desse algum indício de sua chegada. Uma ideia, no entanto, fez a setimanista mudar seus planos de deitar-se cedo e sorrir para as meninas distribuídas pelas outras poltronas e almofadas espalhadas pelo chão. — O que acham de fazermos alguma coisa? — indagou, assim, do nada. As sobrancelhas grossas estavam erguidas e a expressão desanimada fora substituída por empolgação. Conhecia as amigas tanto quanto a si mesma, e sabia que quando o assunto era distração, as hufflepuff eram as melhores.
Frédéric François Chopin - Nocturne No. 20, Op. Posth. in C-sharp minor
Owl mail — Amelia & Brandon
Amie,
Como vai, minha pequena? Edgar continua sendo tão louco quanto de costume ou está pior? Você acredita que ontem recebi uma coruja dele me pedindo sessenta sicles e delirando sobre uns tais cavalos de fogo? Por favor, não me diga que ele está fumando folhas de mandrágora.
Me fale como tem sido seus dias. Gosto de saber, porque assim posso fingir que estou aí com você e o Ed. Às vezes, acho que os encontros em Hogsmeade não bastam, então mal vejo a hora de vocês dois se formarem e voltarem para casa. Diga ao Fabian por mim que eu não permito que se casem até que eu mate as saudades.
Ah! Ontem, Shai e eu inventamos de descobrir como se anda em uma bicicleta, um objeto trouxa que as pessoas usam para se locomover. Se quiser, ensino a você depois. É divertido, mas requer equilíbrio. E bem, acho que não preciso dizer que levei uns tombos, certo? Vou te mostrar uma fotografia que tirei enquanto Shai ria de mim.
Aguardo sua resposta. Take care of yourself.
Com amor,
Bran.
P.s.: a foto!
Braaaan!
Em primeiro lugar: eu digo, não. Eu prometo, não. Eu juro que se você não mandar notícias semanalmente, te deixo sem as orelhas por um mês. E isso não é apenas uma ameaça de boca para fora de uma irmã morta de saudades.
Voltando à carta, eu estou bem! Edgar... Na verdade, eu acho que ele está de ressaca. Você acredita que ele comprou mais uma invenção dos Prewett? Ele me enviou um berrador no meio da noite me perguntando como se escrevia "sessenta", e claro, comentou sobre os cavalos também. O vovô nunca devia ter falado sobre cavalos em chamas para ele quando éramos mais novos. Ed sempre foi sensível demais para algumas coisas. Enfim, fique tranquilo, pedi para os meninos do dormitório dele ficarem de olho em qualquer movimentação incomum vinda da cama dele. Mas e você? Como andam as coisas? Shai, o trabalho? As viagens?!
Meus dias estão muito agitados, parece que os professores querem que nós aprendamos o correspondente aos sete anos inteiros num só! E os N.E.W.T.s ainda nem sequer estão próximos. Foi assim com você também, não foi? Tenho conversado mais com Delilah, você se lembra dela? Aquela garota tímida meu ano? Ela é muito legal para ser tão quieta. Enfim, não vejo a hora de me formar também, papai tem me falado muito sobre as vagas disponíveis no Ministério, mas continuo em dúvida entre algumas. Quando eu voltar para casa, depois da formatura, vou me agarrar em você e te proibir de sair por... Sei lá, uns seis meses. Por Helga, Bran! Fab e eu não iremos nos casar, que absurdo.
Ouvi falar sobre esse objeto trouxa, ele parece ser muito divertido. E perigoso. Mas não é como se as vassouras também não fossem. Eu quero aprender, podemos apostar corridas nas próximas férias! E não diga nada, eu sei que não voltarei para Hogwarts no próximo ano letivo. É férias para mim ainda assim. Você não se machucou muito, machucou? Como Shai está? Mande um beijo e um abraço apertado, e diga que sinto falta de quando podia encontrá-la pelos corredores entre as aulas.
Com amor,
Amie.
P.s.: Suponho que ela foi tirada após uma queda, estou certa? ... Você precisa tirar toda essa barba... Espero que esteja tomando banho direitinho. E se alimentando. E dormindo. Hum, acho que isso está ficando grande demais. ♥
[flashback] When the cat's away, the mice will come out and play — The Bones
Não passavam das seis e meia da noite quando Dave e Susan Bones deixaram a residência da família para dirigir-se em direção ao Ministério da Magia. Como em qualquer outro ano e desde o primeiro do senhor Bones no trabalho, as comemorações de fim de ano eram quase que obrigatórias a qualquer um e em qualquer cargo. Para muitos, era apenas mais uma forma de exibir as contias exorbitantes ganhas em todo o ano em forma de trajes e joias caras. Para outros, em exemplo o casal escocês, uma forma de diversão entre adultos. Principalmente quando se é pai de gêmeos muito agitados e sempre à procura de diversão, não importando o fato “perigo” envolvido nas brincadeiras pueris esperadas de crianças em seus muito poucos oito anos de idade. Mas é claro que crianças nessa idade não são deixadas sozinhas, e é para isso que Brandon Bones estava ali. Em seu recesso do último ano escolar, era encarregado de cuidar dos irmãos mais novos enquanto os pais compareciam à tão falada comemoração ministral.
E Brandon, como qualquer adolescente, logou arrumou um jeito de livrar-se das responsabilidades que julgava não caberem a ele. Não que não gostasse do tempo que passava com os irmãos mais novos – os adorava, em fato –, mas quando sua namorada o chama para comemorar enquanto os pais de ambos estão fora, você atende prontamente. E foi isso que o mais velho fez. Não antes de deixar instruções aos gêmeos, encarregando Edgar de cuidar da irmã mais nova. “Enquanto eu estiver fora, você será o homem da casa, entendido? Cuidará da Amie assim como eu cuido, afastando de todo e qualquer perigo. É seu dever mantê-la inteira, rapazinho. Confio em você assim como papai confiou em mim. E você sabe bem como isso é importante”, dissera ao filho do meio entre os três e mais velhos dos gêmeos. E assim os deixou. Mas não antes de dar as mesmas instruções à Amelia, sabendo que, embora fosse a mais nova dos Bones, havia em si mais responsabilidade do que os dois irmãos juntos.
— Ouviu o que o Bran disse, não ouviu, Amie? Eu sou o homem da família agora, então você tem que me trazer os doces que papai te deu ontem. Sei que ainda tem. — A criança pequena demais até mesmo para alguém de sua idade dizia assumindo um ar grandioso, crendo que, diferente de si, a irmã não teria comido todos os doces dados pelo pai na noite anterior. Embora Susan fosse contra tal ato pelo simples fato de ser açúcar demais para crianças daquela idade, Dave trazia consigo toda sexta-feira dois generosos sacos recheados dos mais variados e deliciosos doces. E a mesma cena ocorria toda sexta-feira: Edgar acabava com os seus no primeiro dia, enquanto Amelia guardava e distribuía na conta certa até a semana seguinte. Como o assumido pelo irmãos mais velho, a caçula dos Bones era, sim, a mais sensata entre os progênitos.
Um vestido branco repleto de flores amarelas um pouco acima dos joelhos ossudos, uma meia de par diferente sem qualquer outra proteção nos pés pequenos, uma tiara de rosas conjuradas pelo pai sobre os cabelos compridos e ondulados idênticos ao da mãe. Produzida dessa forma, Amelia formava um pequeno bico com os lábios, que combinavam perfeitamente com o cenho franzido de maneira exagerada. Havia sido contrariada. Duas vezes. Tinha se arrumado em uma velocidade não usual sua para que pudesse acompanhar os pais no tal jantar chique que Brandon havia comentado minutos antes do casal Bones aparatar com destino ao Ministério. Somente os dois, deixando a única filha sob os cuidados do irmão mais velho supracitado. Não via problema em passar um tempo com o Hufflepuff quase formado, pelo contrário, sentia muito sua falta quando este estava em seu período letivo. A fuga dos pais seria ignorada, se Bran não colocasse seu plano em prática.
“Enquanto eu estiver fora, você será o homem da casa, entendido? Cuidará da Amie assim como eu cuido, afastando de todo e qualquer perigo. É seu dever mantê-la inteira, rapazinho. Confio em você assim como papai confiou em mim. E você sabe bem como isso é importante.”
Um absurdo enorme, a Amie de oito anos pensou enquanto via o rapaz sair animado indo de encontro com a namorada que ela decidiu não gostar mais por fazê-la passar a noite inteirinha tendo Edgar como seu protetor. “Posso cuidar de mim sozinha, Bran!” tentou exclamar durante o discurso direcionado ao irmão do meio. “Sou apenas quatro minutos e meio mais nova, não é tanta diferença assim…” bateu os pezinhos teimosamente enquanto cruzava os braços teatralmente. “Isso não é justo, Edgar Bones.” apontou aparentando estar bastante nervosa. Decidiu aceitar, por fim, quando fora levada para uma conversa em particular com Brandon enquanto o outro Bones parecia distraído demais com o próprio ego. “Não fique assim, Amie, colocar Ed no comando foi necessário. Você acha que ele se comportaria caso você estivesse cuidando da casa? … Eu sei que ele não pode se comportar mesmo ele sendo o chefe, mas o poder em suas mãos o faz mais responsável.” A menina deu de ombros simulando desinteresse, mas não conseguiu esconder o sorriso pequeno que brotou de seus lábios quando foi beijada na testa.
O fato é que Amelia Bones estava sozinha em casa com Edgar Bones, o Edgar Bones “homem da casa”, o Edgar Bones que tinha a confiança não só de Bran, mas como a do papai também. — Você sabe que Bran só escolheu você porque você é homem, não sabe? Aposto que, se você fosse uma garota, ele iria preferir… Iria preferir nosso gato a você — disse olhando para o gêmeo de soslaio. Havia uma pontinha de chateação em sua voz, uma chateação que não deveria ser notada, mas que provavelmente foi. — Não sei se você merece… — respondeu após alguns segundos, um pouco desconfiada. Referia-se aos doces que o menino mencionara. Todos haviam ganhado a mesma quantidade de doces, mas conhecendo os irmãos como conhecia, tinha a absoluta certeza que nada sobrara de seus pacotes. — Posso dividir os doces que restam sim, mas com uma condição — e o sorriso voltou a estampar a face delicada da mais nova. Tivera uma ideia.
Claude Debussy - Rêverie, L. 68 - Francois-Joël Thiollier
A white blank page, summer 1977. Amie & Fabian.
O conceito de resguardo era algo completamente novo no acervo do Prewett mais novo, cuja inquietação ultrapassava todos os limites da racionalidade. Desde a infância, ele e seu irmão sempre foram conhecidos pela personalidade arredia - tentar dominar um dos gêmeos era simplesmente a tarefa mais incabível do mundo, de acordo com relatos de parentes e amigos dos mais próximos. Sem contar que ambos possuíam essa mesma "fama"pelos corredores de Hogwarts, sendo conhecidos pela assinatura de diversas peças e acontecimentos hilários. Depois dos Marauders, possível que Fabian e Gideon fossem as duas pessoas de maior notoriedade em Gryffindor. Bom, havia ainda Lily Evans mas essa era conhecida por coisas totalmente antagônicas dos motivos desencadeadores da fama deles. E a despeito de tanta aparente falta de juízo, Fabian conseguira encantar a garota mais responsável, bonita e capaz de fazê-lo permanecer encantado por anos à fio. Não obstante, seu sorriso pareceu ganhar proporções duplas desde a entrada surpresa feminina, que viera disposta a ajudar em sua recuperação.
"Eu poderia estar morto, já imaginou?" Foi tomado pela necessidade gritante de abrir essa conjuntura de pensamentos negativos, e nem sequer se fez de rogado antes de aproximar-se mais um pouco, levando consigo a colcha grossa costurada pela própria mãe. "Talvez eu fique bem, talvez não. Imagina se não me recupero em tempo do nosso desaniversário?" A pergunta acompanhou o torcer dos lábios num pequeno desafio, ele a provocava pela consciência de que tal data nascida de seu imaginário criativo por vezes causava aparente constrangimento na lufana. O ruivo tinha lá suas especulações de que metade das cenas não passavam de teatro e uma negação absurda, no entanto, sempre guardava tais constatações na ponta da língua. Melhor guardá-las para depois, era algo recorrente em sua lógica pessoal. Possível que um dia tivesse oportunidade de falar melhor sobre suas ideias não muito convencionais, como no suposto caso de algum dia interromper essa festividade em prol de outro assunto. Talvez… Apenas talvez, Mia merecesse experimentar o gosto amargo das saudades.
Mas isso seria depois, bem depois. No exato momento tudo que ele precisava era uma boa dose de Amelia em sua vida.
"H-hm…" Iniciou um resmungo persistente em réplica ao pedido para se levantar. Tinha lá suas dúvidas quanto ao desgaste do seu corpo, mas logo se viu perdido no carinho recebido entre seus fios que resplandeciam na cor do fogo. Deixou-se aquietar e aos poucos descansou as pálpebras, cenário onde até mesmo um suspiro de alívio escapou sem que ele tivesse controle do mesmo. "Eu… Eu devo ter pego no dia onde decidi perseguir uns duendes que apareceram lá na Toca." Sua respiração intercalou-se com um calafrio percorrendo lentamente sua espinha, reflexo da doença ainda persistente. Com sorte e a companhia da ex-namorada, sua recuperação ia ser acelerada, ou pelo menos foi nisso que se apegou ao relaxar os ombros e conceder poética permissão à si mesmo de descansar a lateral do corpo contra a silhueta esbelta feminina. "Antes que reclame, prometo como não é nada contagioso." Ele proclamou em timbre ligeiramente manhoso, que logo se recuperou numa voz mais grave e vívida. O chaser lutava arduamente contra a fraqueza, sendo esse um óbvio sinal dos seus hábitos de inquietude e impaciência. "Minha enfermeira particular pode muitíssimo bem me ajudar com coisas simples." Depositou ali uma breve pausa, pois nada do que vinha de um Prewett poderia ser completamente simples.
"Acho que deveria… Servir minha comida, me ajudar descendo para o pomar, treinar quidditch comigo. Ignorar as piadinhas do Gideon é sempre uma coisa boa, também." Na medida que ia falando, parecia reanimar-se da quase morbidez antes instaurada no cômodo. "Podemos assistir um jogo dos Montrose Magpies nessa semana! Eu te pago as entradas se me ajudar a estar perfeito até lá. Garanto que com sua tara pelos jogadores vou me recuperar bem rápido." Aqui ele ergueu a lateral dos lábios ao literalmente grunhir desaprovando a conduta feminina de agir como um bando de fãs histéricas quanto à meros jogadores. Ainda que fossem ótimos jogadores. Incríveis. Os melhores. Veja bem, a moral de Fabian não poderia ser considerada muito grande para falar mal do comportamento apaixonado dos fãs, visto que ele mesmo estava inserido no grupo. "Será que a gente pode ir lá fora de noite e fazer uma… Fogueira?! Eu usaria as colchas, claro. Daí você faz estilo muggle, e assamos marsh-… Aquelas coisinhas brancas que já vi nossos amigos comendo uma vez ou outra." Finalizou a proposta erguendo um tantinho o rosto, no propósito de enviar o melhor dos seus olhares de falso pedido por piedade. Deleitando-se no fato de poder se comportar como bem queria na presença da mais bela garota já registrada por seus olhos.
Por mais que gostasse dos meses que passava dentro de Hogwarts alheia a todos os problemas de fora, com a oportunidade de conviver integralmente com seus amigos e saciar a sede que possuía em aprender e tornar-se uma grande bruxa em um futuro não tão distante, Amelia Bones tinha as férias como sua época favorita. Fossem os pequenos recessos durante o Natal, onde poderia ficar frente à lareira tomando xícaras de chás de vários sabores ou chocolates derretidos por sua mãe ao lado de seus irmãos, o simples carinho em seus cabelos que o Dave costumava fazer quando se deitava sobre as pernas do patriarca; ou fossem nas férias de verão, mais extensas e bem aproveitadas em viagens e com a presença de Brandon mais frequente e muito desejada. No entanto, uma carta entregue por sua ex-sogra fez com que a mais nova dos Bones alterasse toda sua rotina e planos para que pudesse passar os poucos dias que lhe sobraram se dedicando ao Prewett enfermo. E ainda que estivesse abrindo mão de algo que apreciava muito, a visita inesperada por Fabian teve seu valor no instante em que ele sorriu genuinamente para sua imagem aproximando-se da cama.
— Não, Fabian, não imaginei. Isso nem sequer seria possível — o revirar de olhos foi um gesto espontâneo em resposta à indagação do rapaz que demonstrava um inconformismo que ela já havia se familiarizado. Ele provavelmente já havia se habituado àquela mania dela também. — A sua mãe me disse que a pior fase da gripe já havia passado — deu de ombros, juntando os lábios em uma linha fina. — E ainda faltam alguns meses para o nosso desaniversário — concluiu fingindo descaso. Fingindo, porque embora se sentisse muito constrangida com as invenções do ex-namorado, não conseguiria lidar com a doença do gryffindor por mais tempo que a mãe deste havia previsto. O fato era que Amie gostava daquela comemoração que nas vistas de outros poderia ser constituída de uma mente criativa e carecida de um tempo especial com ela, e não queria que ela fosse cancelada devido a uma gripe que havia deixado o rapaz de cama por mais tempo que deveria. — Vamos parar de falar nisso, sim? — indagou franzindo o cenho após alguns segundos em silêncio. Se a intenção do ruivo fosse deixá-la desconfortável, havia realizado o intento com mérito.
Decidiu por ora ignorar o caminho para onde seus pensamentos a levavam e se concentrou nos dedos que passeavam distraídos pelos frios rubros do rapaz pintado com sardas douradas e nas palavras que o dono de sua atenção proferia. Talvez Amelia, Emma, Marlene McKinnon e até Gideon enchessem-no de mimos além da conta, mas se tratando de Fabian Prewett, aquilo era natural. — Um-hum... E como o Gid não foi pego? — questionou curiosa. — Vocês sempre estão juntos. O normal seria ele ter adoecido também — justificou-se passando os dedos pela testa alheia certificando-se de que a febre não havia se agravado. A pele de Fabian estava muito quente, e se ele não tivesse se pronunciado novamente, a garota certamente consideraria buscar Emma para que o examinasse como apenas uma mãe sabe fazer com o filho. Ainda sentia pequenos tremores sob seus dígitos, mas tentou ignorá-los e imaginar que aquele era apenas um sintoma comum da doença. — Eu sei que não é! Você acha que eu me arriscaria a entrar no seu quarto sabendo que poderia pegar essa doença que poderia me encolher mais ainda? — brincou em tom provocativo. Sabia que a maior preocupação do rapaz era alguma deformação em sua aparência. Imagine só, Fabian se transformando em um duende! Contudo, o início da risada que prometia durar alguns minutos foi interrompida pelas condições ditas por ele.
— Você está querendo é se aproveitar da minha boa vontade! — afirmou dando um tapinha em sua testa, percebendo satisfeita o ânimo alheio aumentar. — Se bem que hmm... Se após todo esse trabalho eu for recompensada com um encontro com Hamish na arquibancada, por mim está tudo bem — admitiu, voltando a entremear seus dedos pelos fios curtos mais vagarosamente. Ignorou a última frase impedindo um risinho escapar por entre seus lábios. Achava hilária a contradição que o ex-namorado demonstrava a respeito de jogadores de quadribol, um gosto que ambos compartilhavam com fervor. Os Montrose Magpies eram o time favorito da hufflepuff, e a ideia de poder assistir a um jogo deles de perto a animava tanto quanto ver o amigo bem, enfim. Fabian era irresistível, o tipo de pessoa que não era capaz de fazer qualquer recusa. Olhando para aquela expressão pedinte seguida de uma proposta que muito lhe agradava, Amie não era capaz de fazer qualquer coisa além de lhe lançar um sorriso cúmplice. Ele havia ganhado, novamente. — Mas você consegue ir até lá sem ter algum ataque no caminho? Acabei de chegar, não quero levar broncas da senhora Prewett — ralhou, mesmo sabendo que Emma não só aprovaria a ideia, mas também os ajudaria a aprontar as coisas.
as mil faces de fabian prewett.
It's my feeling we'll win in the end — Amie & Matt
A notícia de que teria Septima Vector, a “capitã brutamontes” do time de quadribol da Ravenclaw como adversária no torneio de Duelos não deixou Amelia nem um pouco feliz. Pelo contrário, estava incomodada. Com base nas inúmeras vezes em que estavam uma contra a outra, fosse em algumas aulas de poções ou no próprio campo de quadribol, sabia que a outra era competitiva de maneira não muito saudável. Faltava exatamente uma semana para o início das competições, e mais alguns dias para que a sua vez de enfrentar os olhares duvidosos e zombeteiros chegasse. O fato era que ela estava determinada a superar a ravina, e faria o que pudesse para que isso fosse possível. Tinha ideia de que “vencer não é o mais importante” e que “o que vale mesmo é competir”. Afinal, era uma Hufflepuff e essas frases eram frequentes no fim de qualquer competição. No entanto, Mia não se perdoaria caso falhasse daquela vez em especial. A reunião do Clube de Duelos daquela tarde havia terminado há algumas horas, mesmo assim, os competidores permaneciam no lugar preparando-se para o evento supracitado. Amelia sentara no chão, após um Fabian Prewett seguido de um Edgar Bones saírem aparentemente cansados. Talvez ela devesse ter pegado mais leve com os meninos.
Os estudantes que ainda restavam estavam se dispersando, e conformada com seu futuro naquele lugar dali alguns poucos dias, a única representante dos texugos restante se levantou e passou a caminhar em direção a sua sala comunal. Talvez encontrasse seu irmão em quem poderia extravasar sua pontinha de frustração, ou quem sabe Harriet com quem comentaria a respeito dos foras que a ravina supracitada costumava dar no campo de quadribol e assim diminuir o nervosismo que sentia crescendo em seu estômago. Deu de ombros pensando que seria melhor engatar uma conversa com Vincent Williams que certamente a acalmaria e lhe tiraria de toda aquela paranoia e deu continuidade a sua marcha distraída enquanto encarava os próprios pés cujos tênis não combinavam em nada com o uniforme polido que vestia. E foi ainda olhando para o chão que Amie pode observar a grande sombra que cobriu parte do caminho que dava acesso ao portal de sua sala comunal, fazendo-a erguer a cabeça e procurar pelo causador dela. Matthew Finkleton era o garoto mais alto que conhecia, e não conseguiu segurar o riso leve quando percebeu que era ele o causador da escuridão repentina.
— Matt! — exclamou com resquícios da risada na voz. Caminhou na direção do rapaz e quando atingiu uma distância aceitável para que conversassem, ergueu a cabeça procurando pelos olhos alheios. — Você anda muito sumido, Matt. Não deveria se importar tanto com os NIEMs, ainda está cedo — brincou, notando apenas depois de ter dito o quão irônico foram suas palavras diante do que estava vivendo. — Eu não deveria estar dizendo isso, a propósito. Afinal, estou uma pilha de nervos com esse torneio. Você viu quem é minha adversária? Septima Vector. Isso mesmo, Matt, a Vector! — verbalizou gesticulando e tentando mostrar seu inconformismo. Mia falava depressa, impedindo o amigo de responder imediatamente. O que precisava não era de mais treinos ou qualquer tipo de habilidade especial. Pelo contrário, seu corpo suplicava por descanso, assim como sua mente. A menina esperava que o tivesse na conversa com o amigo que surgira apropriadamente.
A white blank page, summer 1977. Amie & Fabian.
Estava morrendo.
Fabian Prewett tinha enfrentado muitas adversidades ao longo da vida, mas nenhuma delas sequer chegava aos pés daquela maldita gripe que mais parecia ter sido obra de Lúcifer e não dos duendes. Possuía conhecimento trouxa o suficiente para saber que o tal homem era algo como o Rei do submundo, uma criatura cruel que gostava de brincar com a alma dos pobres inocentes. Provavelmente ele tinha sido Slytherin quando vivo, tinha quase cem por cento de certeza sobre isso. Mas a despeito do tal demônio e sua malevolência, aquela indisposição projetada para dar cabo de suas férias parecia levar embora todo seu espírito agitado e capacidade de elaborar boas sentenças sem que a cabeça estivesse a ponto de explodir por conta disso. Ainda pior quando teoricamente doença alguma o mantinha convalescente na cama por um período prolongado de tempo. Em suas veias corria a urgência de infringir as regras do repouso e sair treinando duelos ou quidditch ainda enfermo.
Era evidente em toda sua falta de lucidez, que aquilo só podia ser obra de River Song, sua ex-cunhada, propagadora do caos. Decerto a jovem de mechas douradas como o nascer do sol possuía algum pacto malicioso com os duendes - ou seja lá qual fosse a razão ou criatura mágica responsável por ter contraído aquela anomalia. Tinha a leve desconfiança que a tal "gripe dos duendes" sequer tinha sua origem em algum daqueles ranzinzas de meio metro. Possível ser mais um daqueles sorteios feitos às cegas que decidem o título dos produtos, o rumo das propagandas, o futuro dos filmes de ficção científica que seus colegas nascidos trouxa tentavam-no convencer de serem bons. Estava tão entediado que chegou à pedir para Emma Prewett o conseguir uma “caixa preta que reproduz imagens”, sendo sucintamente corrigido por ela ao afirmar que se tratavam de aparelhos televisivos. Só Merlin para esclarecer o motivo de uma caixa ser chamada de televisão, mas achou melhor não discutir muito sobre.
Entrar em debate sobre qualquer tópico apenas o mantinha mais cansado, e depois do terceiro dia tentando se erguer do acolchoado sem obter muito êxito, teve ímpetos de tentar suicídio engolindo o próprio travesseiro. Não que fosse tentar coisa estúpida do gênero, visto seu inegável e apaixonante amor pela vida. Cultivava cada segundo numa energia ímpar, vista claramente por qualquer pessoa. Destarte, perder essa fonte de disposição o deixava ligeiramente exaltado. Algo que dificultava ainda mais sua recuperação, que apesar de lenta, fazia alguns progressos. Naquele dia em particular, nem se deu ao trabalho de fazer muito além de tomar um longo e demorado banho, no propósito de afastar o cheiro de quem estava definhando há dias. Os trajes simplistas o mantinham em plena identidade de um estudante em seu período de férias, ainda que o moletom antigo o mantivesse protegido dos severos calafrios que vitimizavam seu corpo de hora em hora. Precisava de distração, de algo. Alguém. Chegou a fechar os olhos e implorar para Merlin que algo de novo acontecesse, e foi aí então que…
Que seu pequeno milagre aconteceu. Ou melhor ainda, que Amelia Bones apareceu em sua porta.
Pensou ser algum delírio reproduzido pela febre, tanto que o jovem de mechas flamejantes pressionou bem as pálpebras repetidas vezes para acreditar que ela realmente estava por ali. "Merlin ouviu minhas preces, ou eu finalmente morri e isso é algum tipo de delírio?" Verbalizou seus pensamentos mais desprovidos de lucidez enquanto o sorriso impressionado pela surpresa denunciava o quanto a presença feminina era bem vinda. Amelia tinha o melhor sorriso que o âmbar predatório dos seus olhos já haviam presenciado, e as melhores palavras para confortar seu comportamento inconstante. “Amie, minha heroína.” Rebateu a colocação anterior dela noutro riso atravessado. Afastou-se um pouco no colchão, cedendo espaço para a grifana sentar no espaço desocupado. "Eu sinto a morte me abraçando." Comentou, o timbre de voz saindo propositalmente mais fraco. "Sinto também que você não deve me encarar muito, eu devo estar péssimo. Não sei o que é andar por aí tem dias. Aliás… Veio apenas visitar, ou ganhei uma enfermeira por tempo indeterminado?" Perguntou, e em seus olhos morava a esperança de que a última suposição fosse a correta.
Amelia, sinceramente, não sabia o que poderia fazer para ajudar Emma no cuidado de seu filho, tampouco conhecia alguma coisa a respeito do tratamento virose rara. Por alguns segundos antes de se preparar para ir até a casa da família ruiva até considerou pedir alguma ajuda de Vincent, seu amigo texugo que conhecia muito sobre doenças e suas curas. Entretanto, concluiu que não seria uma boa ideia interromper as férias do amigo cujo paradeiro desconhecia. De acordo com o que a matriarca disse antes de a morena subir até o quarto do gryffindor, a doença era inofensiva e provocava apenas alguns sintomas de uma gripe trouxa, mas um tanto mais fortes. Em seu estágio avançado, não mais apresentava risco de contágio, o que fez a menina soltar um suspiro aliviado e a mãe dos gêmeos sorrir compreensiva. Sentia uma preocupação genuína a respeito do bem estar e saúde de todos os seus amigos. Porém, essa preocupação era maior quando se tratava de Fabian Prewett. Bones tentava se justificar com o fato de já terem namorado quando mais jovens.
Ele estava morrendo.
A Gripe de Duendes era uma doença categoricamente infrequente e, analisando a expressão inconsolável no rosto do ex-namorado, Amelia Bones compreendeu a causa de ela ser tão evitada e temida. Conseguia imaginar perfeitamente cada pensamento que transcorria pela cabeça arruivada que jazia afundada no meio dos travesseiros, e se não estivesse sentindo tanta compaixão, certamente riria do desespero silencioso que Fabian demonstrava. Ele estava absurdamente fofo sob o amontoado de cobertas e ainda assim encolhido sobre o colchão. O conhecia suficientemente bem para saber que detestava ficar parado, ainda mais com uma doença que não tinha previsão de cura. Em uma análise rápida, notou os olhos cerrados e lacrimosos, o rosto pálido e a expressão de completo desagrado. Amie perguntou-se como a senhora Prewett estava dando conta dos irmãos gêmeos naquela situação; um enfermo e outro perfeitamente saudável. Ser mãe das duas pessoas mais elétricas e hiperativas que conhecia não parecia ser uma tarefa nada fácil. Contudo, a mulher ruiva evidenciava um amor muito grande e arrependimento algum por tê-los.
Quando os olhos cor de âmbar a encontraram, Amie soube a razão de estar ali.
A expressão de claro alívio que percorreu a face alheia fez a hufflepuff sorrir contente com a recepção. — Apesar de você estar tão pálido quanto um defunto, não Fabian, você não está morto. E nem é nenhuma alucinação — contrapôs revirando os olhos diante do exagero do ex-namorado. Antes de obter qualquer resposta ao seu questionamento, soube que Fabian estava bem sim só em ver o sorriso largo e os olhos com um brilho vivo. — É só uma gripe, e sua mãe disse que não falta muito para que você esteja bem. Não seja exagerado — uniu as sobrancelhas, característica que mais chamava atenção em seu rosto visto que eram mais grossas do que o habitual, e maneou a cabeça para os lados em réplica a afirmação dramática. Sentou-se por fim no local vago pelo rapaz e descansou as mãos sobre o próprio colo. — Você continua o mesmo de sempre, eu juro — disse sorrindo, sincera. — Um-hum, você ganhou uma enfermeira por tempo indeterminado — continuou encolhendo os ombros. — Só acho que mereço uma recompensa por todo esse trabalho. Como o meu paciente se levantando e ficando cem por cento o mais rápido possível.
Apoiou a cabeça no encosto da cama e virou-se para o amigo. Odiava ver o Prewett sempre tão forte e enérgico com uma aparência tão frágil e vulnerável. Aquilo não era ele. Passou os dedos entre os fios afogueados inconscientemente, um hábito que adquirira há anos e que mesmo após o término, não conseguiu largar. — Como foi que você pegou essa gripe, hein, Fab? — indagou de modo carinhoso como sempre fazia quando se voltava ao supracitado. — Aposto que você estava aprontando alguma. E aposto também que sua mãe chamou sua atenção inúmeras vezes e você não a ouviu — a pele onde sua mão tocava estava quente, o que contradizia com os pequenos tremores que tomavam o corpo deitado de tempos em tempos. Fazia muito calor, mas Fabian parecia não dar conta daquilo. — Me diz. O que eu, como sua enfermeira particular, posso fazer para ajudar no tratamento dessa gripe que te derrubou, hum? — ofereceu afinal, sem tirar a mão das madeixas naturalmente ruivas por nenhum instante.