pov: funny how true colours shine in darkness and in secrecy
avisos: um pouco angsty e face reveal no final finalmente!!!!!
a maquiagem escorria pelo rosto de capitu, junto com as lágrimas que já rolavam pela pele negra desde que deixara o baile. a noite que havia começado como um sonho, com ela sendo apenas mais uma entre inúmeros rostos desconhecidos, acabou em um pesadelo. o homem havia arrancado o seu véu sem a menor cerimônia. o véu que era sua armadura. o véu que era a sua prisão.
capitolina se lembrava claramente do momento em que o tecido passou a fazer parte de sua vida. tinha apenas onze anos, e havia acabado de retornar dos jardins, onde brincava com outras crianças que moravam no palácio real de angola. filhas de servos ou de outros líderes políticos, capitolina não fazia qualquer distinção, desde que seguissem as regras inventadas pela cabeça da menina, todos eram bem vindos na diversão. e ninguém jamais contrariava a princesinha.
fosse entre seus pares, familiares ou mesmo completos desconhecidos, qualquer palavra saída dos lábios da menina eram lei, dentro e fora dos muros do palácio. e a garota sabia bem aproveitar o efeito que tinha. se era fruto de seus profundos e encantadores olhos castanhos ou o sorriso angelical que conquistava os favores, ela não sabia, mas suas vontades eram atendidas e aquilo era tudo que importava.
aquele dia no entanto, a brincadeira havia aborrecido a princesa. por causa do desconforto na base da coluna, ou talvez a personalidade dos amigos que causou a irritação, de qualquer forma capitu abandonou os jogos mais cedo do que de costume, surpreendendo dona glória, que ergueu os olhos, e as sobrancelhas, ao ver a filha mais nova passando pela sala com passos pesados, resmungando sobre como garotos eram completos selvagens, com uma mancha de lama nos tecidos finos da saia.
ao se despir para um banho quente, que desde aquela época era para ela a única forma de limpar o corpo e mente, o dia de capitu apenas piorou. o grito ecoou pelas paredes do palácio, chamando a atenção de todos nas redondezas dos aposentos luxuosos da princesa. a rainha invadiu afobada a sala de banho, e a cena que encontrou partiu seu coração e o encheu de orgulho ao mesmo tempo.
capitu olhava, horrorizada, suas vestes íntimas manchadas do próprio sangue.
a mãe a ajudou entrar na banheira, com água escaldante como ela preferia, e com a mesma delicadeza que a banhava quando era apenas um bebê, ajudou a filha a se lavar. — você é uma mulher agora, capitu. — sua voz era suave, enquanto os dedos habilidosos desmanchavam as tranças dos cabelos da garota. — muita coisa vai mudar a partir de agora.
e sem maiores explicações o véu passou a ser parte do vestuário da princesa. assim nasceu a promessa, conhecida por todos: o rosto de capitolina só voltaria a ser visto quando ela subisse ao altar.
e assim foi. até aquela noite, quando um homem armado de audácia e nada mais havia arrancado o véu em meio a festa, na frente de todos. capitolina se encarava em frente ao espelho, olhando no fundo dos olhos, que apenas ela tinha a permissão de ver. a raiva aquecia suas veias, o sangue que corria por elas fervendo.
era irracional, e parte de sua consciência sabia disso, mas alguns sentimentos são viscerais demais para serem experienciados de forma polida. e dando vazão ao que sentia, capitu rasgou o véu que por tanto tempo a manteve enjaulada. o tecido delicado parecia gritar cada vez que ela o dilacerava. quando não tinha mais como destruir em sua coleção de véus, capitu começou a arrancar, com violência as roupas, sua respiração pesada, como se cada uma das peças de roupa fossem uma prisão.
o sentimento de claustrofobia só aumentava, até que nenhum pedaço de tecido prendesse o seu corpo. só quando estava nua, sobre uma pilha de trapos, que antes eram belíssimas peças, tesouros em forma de vestimenta, só então a respiração de capitu começou a se regular novamente. a exaustão instaurou em seus ossos, deixando os olhos da princesa pesados.
com apenas a lua como testemunha, capitu adormeceu sobre o seu ninho de tecidos finos. antes de se entregar completamente ao topor do sono, a princesa imaginou se era assim que lagartas se sentiam ao se despir de sua própria pele, destruindo cada célula de seus corpos dentro de seus casulos antes de se transformarem em borboletas.















