“Acho que não sirvo para o amor. Talvez tenha outra coisa na vida que me dê mais felicidade e que vá de encontro comigo, porque eu não fui feita pra esse negócio de amar, mas acho que sou boa em outras coisas... mas aprendi que, depois desse tempo todo, não é bom amar. Nunca ame na vida, porque amar é sofrer, é enlouquecedor, é perder o que não se tem”. Certamente poderia ser a voz que ecoa na minha cabeça ou um diálogo no espelho. Porém foi uma voz de fora, com olhos tão preto e branco quanto os meus. Os olhos da minha mãe. Não precisa de microscópio pra ver a desilusão em moléculas porque reconheço em mim mesma, talvez seja genético. Estou acostumada a discursar isso para as pessoas, mas não a ouvir. E ouvir uma parte dolorosa de si na boca de outra pessoa ressoa na mágoa feito vento forte batendo na janela. Talvez se escutar em alguém seja a forma mais primitiva de identificação. Simplista e sem muita profundidade emocional, eu respondo a ela que essas ideias sobre amor passam na minha cabeça todo o tempo e que penso em me dedicar ao meu futuro profissional. Observei mamãe com seus braços envolvendo as pernas dobradas como uma forma se abraçar, junto com as lágrimas e a cabeça baixa. Me perguntei se aquilo era um aviso do que eu posso vir a ser daqui a 30 anos e isso me deu medo. Medo das próprias crenças enraizadas, da solidão que não é passageira, da experiência materna tão devastadora quanto a minha, embora bastante diferente. Sei que concordo das sentenças, mas não quero bater o martelo e concluir minha vida toda em função delas. Sei que, no fundo, ela também não. Na estrada louca da vida, ninguém quer ter como destino uma rua sem saída, isolada, vazia. Vez ou outra é natural fazer um pit stop, mas não estagnar-se. Eu me conformei na solidão porque sinto que amar era sofrer, enlouquecer e perder o que não se tem. Aprendi isso nas minhas vivências. Como é que vou aprender o contrário? Eu não sei. Talvez amar seja tudo isso sim, mas não apenas isso. Acho que o grande problema é que o sofrer, enlouquecer e perder é sentido como se fosse uma martelada forte que fizesse o meu eu se despedaçar todinho. Mas é muito pelo contrário: acho que toda essa carga de afeto só vale a pena quando eu sei o que sou, o que o outro é e no que esse encontro pode resultar. Além do mais, minha psicóloga disse que as relações são vivas e que posso remodelar o que eu quero que elas sejam, de acordo com o meu momento. Me dei conta que ver somente o que trás dor é ter um olhar viciado, é ser determinista sem dar possibilidade para outras variáveis. Não existe nada pior no mundo do que se prender cegamente às convicções. Quero que exista tempo e espaço para me encontrar em alguém, mesmo correndo o risco de sofrer, enlouquecer e perder, porque posso dar sentido pra isso, porque o amor não exige requisitos além de estar disposto. Disposto a não dar amarras pra algo que é vivo, sem se ater exclusivamente nos próprios antecedentes, mas principalmente a dar rosto para as experiências como elas são e como eu posso recebê-las. Culpamos o amor por não ser algo bom, mas ao mesmo tempo nós não fomos boas o suficiente em ver a potência que o amor representa. Talvez eu sirva para o amor, sim. Talvez minha mãe também. Apesar de tudo, ela nunca parou de querer o novo, na esperança que aquilo se encaixe e faça algum sentido. Será que ela sabe disso? Contarei as descobertas desse novo mundo na próxima conversa.
















