danxeckhart:
Daniel definitivamente não se agrada quando fica de fora de qualquer que seja o assunto que está sendo tratado em uma conversa; considera esta uma posição de fragilidade, coisa que não admite e evita a todo custo, por mais que nunca chegue a sentir sua energia se esgotar nas práticas diárias de socialização. De todo modo, foi bem adequado para o casal que o loiro tenha compreendido a piada de Cora rapidamente e caído em uma gargalhada sincera decorrente desta compreensão. Sim, sincera, porque grande parte dos sorrisos e risadas que o Eckhart distribui acaba sendo muito mais um componente do papel social que entende que desempenha do que propriamente uma reação espontânea. Os sorrisos e gargalhadas sinceros são bem escassos, dirigidos a poucas pessoas que sabem de alguma forma como extraí-los do loiro. “Certo. Vinte e cinco minutos podem ser suficientes, sim.” Dan balançou a cabeça de um lado para outro enquanto falava, dando seu braço a torcer e voltando atrás no pensamento, afinal, o argumento-não-dito de Slater era totalmente convincente. Por mais que não seja comum ouvir de Daniel frases e anedotas de cunho sexual, é um homem de apetites inflamados, e seu tipo favorito de mulher é justamente este que agora Cora anunciava ser com sutileza: feminina, meiga, mas nada inocente para quem consegue acessá-la nos bastidores. “Eu não tomaria você por uma mulher do tipo ‘sem-açúcar’. Parece que você é cheia de surpresas, afinal, Slater…” Observou ele com os olhos azuis nas costas do garçom que agora se retirava. O pedido feito o agradou em demasia, Dan aprecia para si tudo que caracteriza de forma caricata o universo masculino, seja tomar a dianteira das situações, seja beber coisas mais fortes. Cora fora aprovada neste aspecto também. Bem como na resposta à falsa ameaça feita pelo Alpha. “Ok, then. Your choice.” Repousou os dois braços sobre a mesa e uniu as próprias mãos entrelaçando os dedos. Dan franziu o nariz antes de começar, demorando alguns segundos em seu pensamento até achar as palavras corretas. “Você deve conhecer a Editora Eckhart…”, começou por ali, sabendo que não precisava fornecer detalhes sobre os negócios de sua família, a maior e mais conhecida editora do país, alvo e orgulho dos maiores escritores que almejavam que sua obra alcançasse o território americano. “Meu avô provavelmente foi o Eckhart mais coerente de todos na família. Ele vivia sempre cercado por livros e me ensinou a ser como ele, desde pequeno, começando pelos livros infantis.” Esboçou um sorriso torto, tirando os olhos de um ponto randômico na parede atrás de Cora para poder encará-la. Evitou contar que tinha os mesmos hábitos de seu avô, tudo que relacionava-se com o universo da literatura. “Vai soar bem ridículo e eu espero que você não ache tão ridículo quanto eu acho que vai soar… mas eu gostaria de ter optado por Literatura Inglesa. O nome completo é Literatura Inglesa e Estudos Culturais, não sei se você conhece.”
A timidez ameaçou a tomar por uma fração de segundo, quando percebeu que Daniel havia entendido perfeitamente a piada que havia deixado nas entrelinhas, mas o som de risada que veio a seguir a dissuadiu da hipótese e colocou um sorriso em seu rosto no exato momento em que desviou o olhar, fugindo do dele ao fingir achar o próprio colo mais interessante. Cora era uma dicotomia materializada em tudo aquilo que se prestava a fazer: tanto temia o que estava fora de sua zona de conforto quanto se desafiava a ousar, e o embate das duas facetas de sua personalidade frequentemente podia ser percebido nas sutis diferenças entre suas palavras e expressões, que só faziam se amenizar quando por fim se sentia confortável na presença de um outro alguém. Ao pensar a respeito, seu polegar insistente encontrou o familiar caminho que o levava até os lábios. Mordiscou a própria unha, o rosto ainda voltado para baixo quando ergueu não mais que os olhos para o fitar, parecendo quase inocente ao fazê-lo. Ao perceber que o havia convencido a dar uma resposta que saciasse sua curiosidade, porém, o que fez foi apoiar um dos cotovelos sobre a mesa, repousando a face contra a mão enquanto o fitava, prestando atenção em cada palavra do que lhe era dito. O negócio familiar dos Eckhart lhe era conhecido, sim – era impossível que uma leitora regular como ela não conhecesse o nome da editora impresso em muitos dos volumes que tinha em sua coleção. O amor pelos livros corria em sua família, afinal: fora o pai quem lhe incutira o hábito ao lhe mostrar sua coleção de primeiras edições de clássicos quando tinha não mais que dez anos. Conforme Daniel dividia sua história, não pode evitar um peculiar senso de identificação que sobre ela pareceu se assentar. Era estranha, a ideia de encontrar um semelhante em alguém que certa vez julgara tão diferente de si e inalcançável – estranho porque Cora havia, quando nova, considerado a Literatura como major antes de ter sua primeira câmera em mãos. O fitou quase embasbacada, incapaz de dizer uma palavra sequer até que ele houvesse terminado. Foi só quando reorganizou seus pensamentos, tomados pela surpresa, que conseguiu emitir uma resposta semi-coerente. “Find what you love and let it kill you.” Foram as primeiras palavras que foi capaz de enunciar. “Bukowski. Quer dizer, supostamente. A citação é atribuída a ele, mas não há nada material que o conecte a ela. That’s beside the point.” Mordeu o próprio polegar com força então, tentando se impedir de falar como uma matraca. “Não há nada de ridículo nisso. Você ainda tem tempo de mudar, sabe. Não é tarde demais. Dinheiro, um diploma imponente sobre a parede, nada disso importa realmente. Você devia se permitir fazer o que gosta, e se o que você gosta tem o poder de tocar corações de crianças como você e eu, isso é algo a ser celebrado.”









