Trovão deu um passo hesitante, esperando que eu saísse no meu pequeno devaneio. Respirei fundo enquanto digitada apressada uma resposta, inclino meu corpo para frente, o sinal que Trovão precisa para começar seu trajeto pela pista, guardo meu celular no bolso do culote e fecho o zíper. Não podemos montar com o celular, mas sinceramente hoje eu não ligo. Gabi voltou, ou está voltando, e sábado tem classificatória... E aquele bendito artigo... As vezes me pergunto porque me envolvo em tanta coisa se não sei se vou dar conta.
Mas agora não é hora disso, pego os pensamentos e enfio numa caixinha, tudo o que importa agora é o percurso a minha frente. Dou um leve toque e meu cavalo entra num trote curto, focada no caminho a minha frente permito que minhas pernas e braços enviem os sinais necessários e como sempre ele me escuta, o trote é alongado e em um segundo estou voando.
O vento varre os pensamentos da minha cabeça, mentalmente conto cada galope, garantindo uma distancia segura dos outros cavalos, meus olhos estão 100% focados na pista e eu sei que Trovão também está. Meu professor faz o sinal e os alunos se enfileiram com os cavalos aquecidos e prontos. A respiração pesada do cavalo acompanha a minha, os alunos fazem seus percursos e eu anoto os erros mentalmente.
Nico derrubou uma varinha, Lewis calculou a distancia errada, mas conseguiu contornar e tenho quase certeza que Kathleen abriu demais a ultima curva.
"Varinha, distancia, curva"
Um toque e lá vou eu, sigo o rastro dos cavalos, contando cada galope mentalmente, acerto os primeiros dois obstáculos, passo tranquilamente pela varinha antes derrubada, calculo a distancia do duplo, perfeito, mais dois, Trovão tenciona um pouco e a voz do treinador chega até mim.
"Ele ta refletindo a sua energia. Acalma, baixa a energia e concentra no triplo"
Uma. Duas. Tres.
Falta o final, fecho um pouco mais a curva, Trovão desacelera, precisamos de precisão agora e não de velocidade. Ultimo salto, olho para trás e o treinador está sorrindo, Hotch não sorri muito. Agrado Trovão, nossas respirações perfeitamente sincronizadas, volto ao passo para a fila, foi apenas a primeira rodada. Aproveito a bronca de Hotch nos outros para checar meu celular, a ultima tela de mensagens ainda está aberta.
Levanto os olhos rapidamente, e encontro um par azul olhando diretamente para mim. A égua tordilha perfeitamente escovada entra com graça na pista, tenho quase certeza que Hotch fez um comentário não muito educado, mas Christopher não tirou os olhos de mim, meu coração martela no peito e pela primeira vez aquela caixinha se abre e toma conta da minha mente.
Desvio o olhar quando meu cavalo escava a areia, um sinal de descontentamento que eu interpreto como "Foco Elizabeth". Empurro tudo de volta para onde não deveria ter saído e presto atenção no longo discurso de Hotch, os erros não foram meus, mas poderiam ter sido, e em um esporte como esse, em um cavalo como o meu, um erro pode significar a morte.
- Não sei porque as pessoas insistem em pegar uma matéria que elas não gostam porque acham que vai dar tudo certo no final!
- Talvez ele achou que fosse fácil... - Arriscou Kath, enquanto eu passava a sela e arreios do Trovão para o Cometa - Quer dizer, é literatura.
- Literatura na faculdade - Eu friso com uma careta, sorte minha que ainda tenho tempo para trabalhar o cavalo do Daniel, porque assim eu adio meu momento tutora.
- Que seja, eu ficaria feliz em passar um tempo com um gato daqueles - Kath se abana - Mesmo que no momento eu prefira algo mais delicado...
- Quem é ela? - Pergunto sorrindo, Kath é uma caloura na Universidade de Toronto, mas apesar de dividir o tempo entre a faculdade e o hipismo, de alguma forma ela consegue manter sempre um relacionamento.
- Não posso contar, mas é alguém da faculdade! Um dia você vai conhecer, ela vem me ver no sábado.
Monto em Cometa com facilidade, meu cavalo olha feio para nós dois, quase enciumado, mas eu sorrio para ele e para Kathleen. Uma leve brisa soprando alguns cachos nos meus olhos.
- Vou adorar conhece-la! Mais agora eu preciso ir, terminar logo isso...
- Arrasa garota e dá uns pegas naquele pedaço de mal caminho.
Balanço a cabeça fingindo irritação e volto para pista, Christopher e Lewis ainda estão aperfeiçoando alguns movimentos e eu paro para observar por alguns minutos antes de me infiltrar no treino.
Cometa é um bom cavalo, não tão forte e bem treinado quando Trovão, mas ele exige menos concentração e representa um risco muito menor, então me permito relaxar por alguns minutos e teto não me culpar demais quando erro algumas curvas ou derrubo uma varinha. Quando o dia é encerrado eu saio da pista, os meninos já desceram faz uns 15 minutos e não me surpreendo ao encontrar Chris escorado em um dos pilares do pavilhão. As roupas de hipismo rapidamente substituídas pelo visual motoqueiro de filme adolescente, desço do Cometa e após amarrá-lo começo a retirada dos arreios sobre o olhar penetrante da minha única companhia.
- Então, vamos fazer isso ou o que?
Reparo no tom de impaciência misturado com alguma coisa que não consigo discernir muito bem, tendo crescido com dois irmãos e uma irmã da mesma faixa etária e de personalidades completamente opostas, eu aprendi a identificar sentimentos diversos nas falas, mas Chris é particularmente difícil.
- Pode começar esclarecendo suas dificuldades...
- Dificuldades? - Ele pareceu pensativo - Poe.
- Ta de brincadeira comigo! - A parte mais fácil da matéria era a literatura macabra de Edgar Allan Poe, não havia grandes mistérios a serem decifrados, apenas o terror puro e simples. Repeti o pensamento em voz alta da forma mais educada que consegui.
- E você é a monitora de literatura? Como pode acreditar que um dos reis do terror é tão superficial? Todos os mistérios da mente humana, o lado cruel, heroico e investigativo jogados em contos e tudo o que você enxerga é um livro de dia chuvoso?
Ok, por essa eu não esperava. Então foi por isso que o professor me pediu para ajudar Baring? Não porque ele é um leigo em literatura, mas porque ele interpreta demais? Simplesmente não faz sentido. Ao mesmo tempo, talvez seja isso que falta no meu artigo, uma visão diferente da minha.
- Não - Respondo depois de um bom tempo pensando - Não é apenas isso, e não é apenas sobre a morte, é sobre a vida. Sobre o caso sombrio do ser humano, sobre os desejos mais obscuros do coração de alguém, sobre o monstro interior.
- Agora você acabou de citar uma frase clichê de Dexter
- Talvez os personagens de Poe também sejam uma espécie de Dexter - Contrapus e Christopher sorriu, aonde quer que aquela discussão levasse, seria interessante chegar lá.
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- Conseguiu uma carona?
Levanto os olhos do celular de volta para Christopher e sua moto, apesar de ainda não ter escurecido, esfriou bastante e ficamos muito mais tempo discutindo questões literárias do que eu esperava, Chris tem uma forma particular de enxergar as coisas, admito que não esperava aquela conversa profunda e sim explicar a matéria do zero ou solucionar dúvidas pontuais. Ao mesmo tempo estava inspirada para adicionar novas ideias na minha tese.
- A vantagem de se ter quatro irmãos - Ele sorriu de canto
- Podemos ter outra aula depois do treino de amanhã
Não foi uma pergunta, mas aceno com a cabeça em concordância e Chris veste o capacete.
- Te vejo por ai Summers
Minha despedida é ignorada quando uma nuvem de poeira sobre da guinada da moto e escuto a risada ao longe enquanto tusso fortemente.
"Babaca" Murmuro para mim mesma. Olho para o piquete e Trovão está lá, uma orelha voltada para mim e a outra para o barulho da moto que aos poucos desaparecem.
- Eu sei muito bem o que você está pensando - Ele volta a outra orelha para mim - Não, vocè continua um cavalo, não tem o direito de me julgar!
Trovão voltou a pastar, mas não sem antes bufar levemente em minha direção, grito um "eu ouvi isso" e saio batendo o pé, as vezes aquele cavalo sabia coisas que nem eu mesma poderia imaginar.
19 longos minutos depois, Gabe estacionou com uma manobra completamente desnecessária, ele podia ser um ótimo piloto no GTA, mas na vida real...
- SIS!!! - Gabi pulou do banco do carona e correu em minha direção, estava com os cabelos loiros presos em duas tranças boxeadoras, usava um top pink com um cropped cinza e uma calça combinando, o tipo de roupa que só ficava bem nela. Claro que estava maquiada, e por algum milagre o avião não tinha detonado o visual - Graças a Deus eu vim de tênis
Ela olhou para o chão de terra e franziu o nariz, após um abraço longo e muito perfumado. Disfarcei a coceira no nariz.
- Adivinha o que eu comprei pra Katrina? - Ela deu pulinhos enquanto abria o porta-malas e remexia numa mala muito, mais muito grande - Tcharam!
- Uma manta personalizada - Eu disse sorrindo, só minha irmã para mandar fazer uma manta bordada com o as inicias dela e da égua.
- É uma pena que não temos tempo pra isso hoje - Gabe gritou do carro - Minha live começa em 45 minutos. Entrem no carro.
Gabi demorou uns minutos reorganizando as malas e em seguida se jogou no banco de passageiros com Daniel. Me ajeitei ao lado de Gabe e ele deu partida no carro, enquanto ele fazia o percurso até nossa casa em tempo recorde, tudo o que conseguia pensar era que seria muito bom sentir o vento no cabelo naquela velocidade.
Suspiro profundamente enquanto espero o trem chegar, pegar o metro em Toronto era algo que eu estava acostumada a fazer, mesmo que meus pais não aprovassem a ideia. A maior vantagem era a linha amarela, quase unicamente universitária, permitia o deslocamento entre os campus sem nenhum esforço, sorri com essa constatação, enquanto o cheiro familiar do trem e o vento me atingiam. Mais algumas horas apenas, Gabriela vai estar em casa, Gabe finalmente vai sair daquele bendito quarto e Dan e eu teremos um pouco de paz!
Embarco no metro e consigo um assento vago, não é um horário muito lotado, a maioria dos estudantes já estão no campus ou já saíram de lá, mas o professor de literatura marcou uma reunião comigo, sinceramente não sei o porquê, provavelmente algum comentário sobre o meu trabalho.
Assim que desembarco do metro ando calmamente pela estação, fazendo questão de respirar fundo quando saiu do buraco no chão, é um dia típico de verão, um vendo frio faz cócegas no meu rosto bagunçando, o sol é presente o suficiente para contrabalancear o ar frio da cidade, alguns esquilos andam pelas calçadas na esperança de conseguir alguma sobra.
- Lizzie! - Sinto alguém tocar meu ombro e me sobressalto, me acostumei durante os anos com as pessoas me confundirem com Gabriela, ficando muito decepcionados quando descobriram que era a irmão sem graça, por isso comecei a pintar meus cabelos de ruivo. Mas não é nenhuma fã louca, apenas Camila Stevens, a filha do professor de Economia e minha melhor amiga.
- Camis - Sorrio - Indo ou voltando?
- Indo - Ela engancha o braço no meu e seguimos em direção aos prédios - Sua irmã não chegou ainda?
- Não, só a noite...
- Aproveita os momentos de paz - Ela sorri torto - Desculpa, mas sabe que eu não sou fã da Gabi.
- Sei disso, nem você nem a Lex, as vezes nem eu mesma. Gabriela pode ser um pouco demais as vezes.
- Para o nosso bem, Gabe pode grudar nela.
Aceno positivamente com a cabeça, Gabis e Gabe são gêmeos univitelinos, o que significa que são idênticos, Dani e eu somos os que sobraram na barriga, apesar de termos todos uma conexão forte, Daniel e eu temos algo a mais, o mesmo diferencial dos outros dois.
- De toda forma, eu tenho muito o que fazer, com o trabalho com o Sr. Morgan e os treinos com o Trovão...
- Mal posso esperar para ver você nas semifinais! Vai ser a melhor amazona da geração, tenho certeza!
- Não exagera Camis - Sinto minhas bochechas corarem e agradeço a Deus por ter chegado na sala dos professores - Sou apenas eu... E eu tenho que ir!
Ela estala um beijo na minha bochecha e murmura algo em francês que eu entendo como "boa sorte", enquanto se afasta saltitante pelo corredor, as madeixas pretas com listras azuladas balançando em um lindo rabo de cavalo. Camila é especial, penso comigo mesma enquanto bato na porta.
Sorrio para mim mesma ao constatar as mensagens no twitter, por algum motivo os últimos 15 minutos parecem ter saído de algum romance clichê do tipo que se lê em aviões. Fiquei muito surpresa ao constatar que o Sr. Morgan não era o único na sala de aula, e que todo aquele suspense era na verdade um pedido de ajuda. Um que fiquei feliz em atender. Meu celular vibra no bolso, mas ignoro enquanto o ônibus percorre as ruas de Toronto em direção a periferia, a hípica não é muito longe, mas não é perto também e eu tenho muito trabalho a fazer hoje.
Essa ultima mensagem me irritou mais do que deveria e minha distração é suficiente para Cometa roubar uma cenoura do meu bolso quase levando minha calça junto. Thomas e Lexie estão juntos desde o Ensino Médio e ela sempre detestou o irmão mais novo dele, não que eu goste de Christopher, se eu acreditasse em gêmeos malignos e se Chris e Thomas fossem irmãos, então Thomas seria o anjinho e Chris o próprio demônio, mas apesar da atitude, Baring é incrível com os cavalos e talvez o melhor cavaleiro da geração. Claro que isso afetou um pouco o que eu penso sobre ele e eu talvez tivesse um crush quando éramos adolescentes, mas agora ele é apenas o cara que vai perder a bolsa de estudos se não passar em literatura e se ele perder a bolsa...
"Adeus semifinais - Christopher disse simplesmente, enquanto inclinava a cadeira num angulo perigoso.
- Você quer dizer que seu eu não ajudar, você não compete?
- Não, o que estou dizendo é que eu preciso dessa nota e o Sr. Morgan disse que você é a melhor aluna.
- E o que eu ganho com isso?
- Crédito extra - Interrompeu o professor ajeitando algumas pastas na mesa - E eu gostaria muito que a senhorita publicasse seu trabalho e isso contaria pontos na bancada de orientação.
Baring passou os olhos de mim para o professor como se tentasse entender nosso dilema pessoal, a publicação de um trabalho acadêmico demandava um certo apoio, e transformar o irmão delinquente de Thomas Baring em um aluno dedicado seria um belo feito, sorri para mim mesma.
Não havia o risco de me apaixonar por Chris, eu o conhecia bem demais, mesmo que mal tenhamos nos falado ao longo dos anos, era Christopher, o badboy, o cunhado da Lexie, o cavaleiro talentoso, o último rapaz que eu poderia me interessar.
- Feito"
Terminei de passar a sela do Cometa para o Trovão e fui em direção a pista, precisava treinar cada segundo se tivesse uma chance de vencer as regionais. Senti meu celular vibrar e espiei rapidamente, um formigamento percorreu meu corpo, montei em Trovão e concentrei todo meu ser naquele treino, mesmo sentindo os olhos de alguém me observando.
Quando Ellen Summers optou pela inseminação artificial para realizar o sonho de ter filhos, ela não esperava que a gravidez resultaria em quatro crianças. Lizzie sempre se sentiu diferente dos irmãos, ofuscada pela irmã modelo e o irmão YouTuber, a única pessoa que a entende é Daniel, o quarto quadruplo, e suas melhores amigas Lexie e Camis. Porém quando a garota se envolve com a única pessoa que não deveria, segredos começam a surgir, aos poucos o mundo que ela conhece ira desmoronar.
Cada minuto é contado no relogio, aquele tic tac tão familiar que poderia ser tangível...
12:50
12:51
12:52
Cada minuto uma pequena eternidade, se estendendo pelo ar com sua névoa sombria, se enroscando em sua mente, em seu corpo, seu pescoço...
Tic Tac
O professor nunca para de falar, a classe relativamente atenta, mensagens sendo trocadas e material sendo guardado. O barulho de cadernos, folhas e ziperes e o olhar do professor de quem ainda tem 10 minutos de aula e vai usar cada um deles.
Na primeira carteira, de cabeça baixa, cabelos escorrendo pelos ombros como cascatas douradas, o olhar vaziu, perdido, sem foco... A garota se encolhe cada vez mais, procurando algum conforto, longe dos olhares curiosos, dos comentários maldosos, do olhar predatório de um professor que não hesita em dar um beijinho de despedida em suas alunas.
Com a mão dolorida, o cérebro cansado e os olhos querendo marejar, ela finalmente fecha o caderno, respira fundo e guarda suas coisas. Observa o ritual diário, as meninas populares arrumando o cabelo e dando piscadelas para o professor, as nerds caindo na sua armadilha macabra, os bagunceiros praticamente pulam a janela para a liberdade.
Ela se levante, abaixa o moletom, se despede de alguém que não ouviu ou não se importou em responder, anda pelos corredo lentamente, esperando o fluxo absurdo de alunos se disperçar, cada degrau uma tortura, cada rosto marcado em sua mente, ela sabe quem eles são, mas será que alguém sabe quem ela é?
O desvanei dessaparece, ela suspira e levanta os olhos, a bebida pela metade, mas ela não quer arriscar perder o controle. O casal a sua frente fazendo alguma piada, a menina ao seu lado rindo e então ele passa a mão pelo ombro dela e de repente ela percebe que ele veio para ficar com a outra, não com ela.
Ela quer aquele toque, aquele sorriso maroto, aquele flerte inocente, mas não. Tomando outro gole da bebida, ela tenta rir das piadas, se sentir parte daquelas memórias dá epoca de colégio, se apegar ao um unico momento de felicidade, mas a sensação que lhe sobe pela garganta é outra, uma névoa familiar que preenche seus pulmoes, dessacelera seu coração, se enrrosca em sua garganta como numa dança macabra, porém bela.
Quando finalmente a névoa se instala em seu cérebro os comentários surgem, crueis e doentios, o medo, a decepção, o desespero... Ela tenta sorrir, empurrar os traumas para o baú do qual nunca deveriam ter saído, mas não, ela força o sorriso, de novo e de novo.
Finalmente eles entram no carro, ela não quer aquela carona, mas não tem escolha, as memórias sendo ditas em alta voz, com risos e piadas que ela jurou nunca mais pensar, finalmente o apelido familiar e a névoa a consume.
Ela estava se afogando, se afogando durante anos, sofrendo para chegar a superficie e encher os pulmoes de ar, esperando a sensação de alivio, sem a pressão esmagadora da água sobre seu corpo, a dor indescritivel no peito. Toda vez que chegava perto da superficie ao inves de uma boia, ela recebia um empurrão de volta ao fundo escuro e deprimente, a névoa brilhando na superficie da água, sempre um alerta de que lutar era inutil.
Ninguém viu quando ela se afogou, ninguém viu quando ela saiu da água. Então ela abre os olhos e sorri, sai do carro educadamente, chega em casa e acende um cigarro, permite que a fumaça ocupe o lugar da névoa, disca o primeiro número de telefone que encontra na lista de emergencia. Uma voz familiar atente, o vizinho do andar de cima, uma hora depois ela repousa a cabeça no ombro dele, o suor ainda escorrendo pela testa, o cheiro de fumaça, sexo e bebida se arrastando pelo apartamento.
Ela fecha os olhos por um longo minuto, a névoa não vem dessa vez. Com um sorriso zombeteiro ela entra no mundo dos sonhos, talvez esta noite seja sem pesadelos.
Eu cresci aqui, é engraçado pensar sobre isso, o tempo em que tudo parecia tão fácil...
Mas será que era fácil? Será que o fato de sermos crianças impede o sofrimento? Ou apenas o camufla, impedindo que tenhamos uma imagem completa do que está acontecendo conosco.
Andando por essas ruas, eu me lembro dos pedregulhos, de cair e ralar o joelho, de me divertir nos brinquedos da praça, sempre sozinha, balançar durante toda a tarde, em alguns momentos eu talvez pudesse voar...
As vizinhas da frente batendo na porta, bicicletas na mão, esperando, sempre esperando...
Em algum momento tudo muda, um dia alguém deixou de bater, alguém deixou de procurar, de querer...
Aquelas amigas da rua de baixo, mais amigas entre si, elas te toleram, tentam ser legais, esperando o momento certo para comentar sua roupa, cabelo, jeito...
Um dia vocês não se veem mais, simples assim, o mundo ruindo ao seu redor e tudo o que você faz é assistir.
Anos passam, eu me lembro, cada tombo, cada piada, cada aniversário e cada risada, e de longe uma figura conhecida, ela te encara e sorri, provavelmente algum comentário com as amigas e é só. Dias passam e ela fala, primeiro erra o nome, depois erra as menoridade, eu sou apenas mais um rosto fundido em outros rostos pelo tempo, cinco ou dez anos?!
Talvez mais, ou menos, eu me lembro de você, mas você não se lembra de mim...
Ninguém se lembra, ninguém quer se lembrar, não é necessário uma briga para uma amizade acabar...