O tempo e o relojoeiro
Era entre uma á duas horas da tarde, seguindo o percurso de atravessar a cidade dentro do ônibus. Gostava sempre de estar ao lado da janela e embarcar na viagem dos pensamentos, adentrando em olhares atentos ao caminho. Levava o vento quente com as melhores sensações naquele momento; apreciava cada detalhe do que avistava e ouvia. Percebia que era um dos dias mais encantados e radiantes, estava aflorando e recebendo esperançosamente emoções do inesperado, das coisas (re)existentes ao seu redor. Deixou a condução e caminhou lento para a rua aonde seu velho amigo se encontrava: dentro de sua barraquinha de madeira cheia de pequenas peças e ferramentas. Aproximando-se lá estava ele, cabisbaixo concentrado em seu trabalho. Ao levantar o olhar em direção àquela sombra, abriu um leve sorriso singelo e pronunciou-se ao cumprimento:
- Como vai velho amigo?
- Ora, meu velho amigo relojoeiro, sabes que vou sempre indo. Estou agora aqui, mas logo logo eu vou indo. Me diz tu, quando vai me acompanhar sem controlar os ponteiros?
- O relojoeiro: Meu caro velho amigo tempo, o senhor é tempo sem dono! o meu ofício é sempre seu empregado. Tenho que contar cada segundo que estás a passar para que eu não me der por vencido e faça ser útil o que me resta de vida aqui.
- O tempo: Velho amigo relojoeiro, orgulha-se tanto deste ofício, mas não sabe quanto vale todo o tempo do mundo. alastro-me à luz do sol e à enfeitiçada luz da lua, pois estes sim me governam.
- O relojoeiro: Precioso velho amigo tempo, em verdade dizes e me espantas. Nada controlo além destas pequenas bugigangas de metais, tua visita é como o canto dos pássaros ao entardecer de agora, logo sei que é hora de me recolher.
- O tempo: Valioso grande amigo relojoeiro te digo somente mais isso e me despeço: Passo por entre todos os caminhos, consumo meu próprio tempo e vejo repetidas coisas. Aqui os apressados falam que não me tem e eu continuo a passar, os que dizem fazer bom uso de mim se contentam em conseguir tudo “á tempo” e eu continuo a passar, outros vivem em uma grande espera; dizem: “tudo no tempo certo”, “com o tempo tudo passa”. Agora tu, meu velho amigo relojoeiro, tu me é de grande valia, pois aprecia cada instante e me cumprimentas. Sabes que estou prestes a partir e em adeus acompanha ao canto dos pássaros sem me controlar.
- Atemporal













