Me pego sempre pensando em como viajar é bom, em como eu gosto de viajar. Viajo muito mais nas minhas ideias e pensamentos do que na realidade. Talvez por falta de dinheiro - isso infelizmente é um fator limitante importante. Mas o desejo de sair conhecendo o mundo ainda vive dentro de mim.
Tiveram três viagens até aqui que talvez foram as mais tristes que eu já fiz.
A primeira, a ida pra Cafelândia em 2010 quando minha avó faleceu.
A segunda, a ida novamente pra Cafelândia em 2016 quando meu avô faleceu.
E a terceira, a ida pra São Carlos em 2019 quando a cachorrinha da nossa família faleceu.
Das demais, viajar pra mim sempre foi motivo de entusiasmo.
Que eu me lembre, as primeiras viagens que fiz foi pra Cafelândia, terra natal do meu pai, e morada dos meus avós paternos e tio. Desde pequenininha fazíamos essa viagem em família. Lembro que eu, na inocência de uma criança que desconhece a imensidão do mundo, dizia pras pessoas que eram próximas a mim que as luzes vermelhas iam pra Cafelândia, e as luzes brancas iam pra São Carlos. Poucas pessoas sabem dessa história.
Acho tão linda essa minha memória. Eu criei essa ideia porque na ida pra lá, o que eu via indo pra lá eram as luzes vermelhas traseiras dos carros na estrada, e o que eu via na pista contrária, voltando pro sentido em que eu havia saído, eram os faróis brancos dos carros no lado oposto. Naquela época o meu mundo era esses dois lugares.
Conforme fui crescendo, tive o privilégio de poder viajar pra outros lugares também. Conheci praias lindíssimas, que inclusive, eu amo praias. Conheci pessoas maravilhosas, partilhei experiências sensacionais, vivi coisas indescritíveis. Pude até ir pro Uruguai, que doideira. Esse foi o destino mais longe que eu já fui até hoje. A filha da doméstica e do porteiro tem viajado tanto que até fez uma viagem internacional. O proletariado ainda vence às vezes. Me inspirei com as histórias de viagens dos meus amigos que moraram em Londres, na França, no Canadá, na Alemanha; me inspirei também com os sonhos deles.
Quando morei em Marília, tive que aprender a perder o medo de estrada (um traumazinho pelo acidente de carro que sofri com minha família em 2002), e principalmente o medo de viajar com estranhos, porque se eu queria voltar pra ver minha família com frequência, eu tinha que pegar caronas com desconhecidos.
Essa prática também seguiu agora que moro em Limeira, e ainda as caronas ficaram uma aventura ainda mais intensa, porque viajo com minha cachorrinha Gaia.
Nessas caronas todas, eu pude conhecer gente de tudo quanto é tipo, jeito, pensamento. Essas caronas também são viagens pra mim, não só porque me transportam de um lugar para o outro, mas porque me fazem conhecer outras pessoas, conversar, descobrir, sair, chegar.
Tem tantos tópicos no meio desse tema que eu ainda quero poder escrever sobre, mas o foco desse texto aqui, é sobre a viagem que eu fiz no último final de semana.
Depois de quase 2 anos fazem apenas o trajeto de viagem de onde eu morava, pra minha cidade natal - covid feelings - , eu tinha agendado uma viagem pra Cafelândia, na formatura de graduação da minha prima.
Na primeira parte do trajeto, senti aquele medinho de ansiedade de como seria o final de semana, e por alguns instantes até esquecia que ainda estávamos em uma pandemia. Na estrada, nem senti tanto medo da chuva forte. Foi tão bom chegar na casa do meu tio e sentir o cheirinho da casa dos meus avós (pela dama da noite que tanto tinha lá e que meu tio replantou na casa dele), rever meus primeiros, me animar pra formatura, me sentir querida e acolhida. Foi um ótimo final de semana que se encerrou com uma surpresa tão boa quanto.
Na volta pra casa, peguei outra carona. Um casal muito simpático que saia de Lins e ia para Campinas. Nesse trajeto, eu fiz uma parte com eles. Em Bauru pegaríamos outra pessoa, que até entrar no carro, eu não sabia quem era. Conforme fomos viajando, Thiago me disse que junto conosco embarcaria Dona Mariana, uma senhora de 80 anos, que iria pra casa do filho em Campinas.
A primeira coisa que pensei: nossa! Que senhorinha mais jovem! E eu nunca conheci uma Mariana idosa.
Mariana me lembra a minha amiga Mariana, que hoje tem a minha idade.
Me lembrei das outras senhorinhas jovens que eu já conheci na vida, contei histórias do meu vô, que pra mim também foi um senhorzinho jovem, e estava curiosa pra conhecer Dona Mariana.
Quando ela entrou no carro, eu só conseguia pensar em como não parecia que ela tinha 80 anos. Minha referência de 80+ hoje em dia é minha avó materna, que aos 86 enfrenta várias questões de saúde que a debilitaram bastante. E ver uma senhora com 6 anos a menos, tão ativa, tão moderna, utilizando redes sociais, mostrando fotos no celular de seus filhos, dos netos, dos bisnetos, viajando com aplicativos de carona, me aquece o coração e me inspira a pensar que eu gostaria de poder envelhecer assim, jovem.
Uma viagem de 2 horas e meia passou tão rápido que nem vi. Com o destino em que eu desembarcaria chegando, Dona Mariana contou que ela tem um livro! Isso foi o ápice do entusiasmo pra mim. Ela ganhou de presente de 80 anos um livro publicado pelos filhos sobre a história de sua vida. Disse que foi entrevistada e o escritor organizou sua história.
Tanto eu quanto Thiago e Raquel, sua namorada, dissemos que queríamos ler seu livro. Mais tarde, para nossa alegria, a neta de Dona Mariana nos encaminhou o ebook do livro pra que pudéssemos ler.
Em tempos que faltam luz pra iluminar o caminho, estar aberta pras viagens que a vida me proporciona acredito que tem sido um dos meus faróis.
Nem sempre a viagem é tão boa, às vezes não quero fazer, não quero ir pro destino, estou cansada desse lugar. Às vezes posso tentar melhor aceitar, com menos dor, que o caminho dessa viagem não vai ser tão prazeroso, mas que ele pode ser curto, que eu posso mudar a direção que vou. Nem sempre vou poder escolher o caminho que mais quero, mas posso escolher o que vou fazer enquanto viajo, enquanto caminho.
Quem sabe assim, sendo doce e gentil com as estradas que pego, eu recebo um carinho gostoso da vida Quem sabe no final da minha estrada, eu me sinto bem por ter andado o que andei, e recebo um tchau, “foi um prazer viajar com você” e uma benção como recebi de Dona Mariana.
Lerei o livro dela com muito carinho. Nesse momento me sinto até entusiasmada pelas novas viagens e novos caminhos de 2022, pelo tempo passando e a vida acontecendo. Acho que era essa a esperança que me faltava pra iniciar o novo ano.
Já disse Maria Rita, na música mais lembrada pela novela Senhora do Destino:
"E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar"
[Bárbara Brito - 22 de dezembro de 2021]