Who is she?
Violet McGraw as young Eveline Wright.
edit credits: gica (♡)
tw. isso é um pequeno spoiler sobre o texto, mas preciso deixar claro que nada chegou a acontecer; a Eve escapou e seu algoz foi punido na sequência dos acontecimentos. Ainda assim, o texto pode ser aflitivo se você for sensível aos seguintes temas: pedofilia e abuso.
| Londres. Eveline Wright, 7 anos.
O sol brilhava forte do lado de fora, aquecendo as crianças enérgicas que brincavam no jardim do orfanato. Todas estavam lá fora, exibidas como peças de roupas para os bruxos escolherem quais vestiriam melhor suas famílias. Todas, exceto Eve, cuja imunidade constantemente falhava em protegê-la dos vírus mais simples. Ela suspirou, parcialmente escondida atrás da cortina, e juntou coragem para o que precisaria fazer. Após muito refletir, do alto de toda a sua sabedoria de 7 anos, ela achava ter encontrado a raiz do problema: ela. Certa vez ouvira a supervisora do orfanato conversando com um casal que mostrara interesse em adotá-la: a rígida senhora contara sobre sua saúde frágil e sua língua afiada, e mais tarde o mesmo casal acabara adotando Kate, uma menininha que costumava fazer caretas para Eve no jantar, mas aparentemente se mostrara uma candidata a filha melhor do que ela. Naquela noite, a menina chegou a chorar de raiva pela chance que a supervisora lhe fizera perder. Será que ela era tão terrível assim? Já tentara mudar: treinava sorrisos adoráveis na frente do espelho, moderava o tom de voz e até conseguira passar uma semana sem levar uma bronca, mas ninguém parecia dar tanta atenção as coisas boas que fazia quanto davam para as coisas ruins.
Ela precisava de chances que ninguém mais estava disposto a lhe dar. E no entanto, talvez pudesse criar uma para si mesma…
Quando todos estavam dormindo, Eve se colocou diante do espelho e treinou sua habilidade. Ela recém a havia descoberto e a supervisora não permitia que usasse, de modo que só havia se transformado parcialmente até então, mudando a cor dos olhos ou do cabelo, e portanto precisava treinar se quisesse que seu plano funcionasse. Quando o dia das visitas chegou novamente, Eve forjou outra virose para ficar no quarto e desceu como uma cópia perfeita de Kate. Ela mostrava uma capacidade surpreendente de tramar para a sua idade: há pouco tempo, um incêndio tomara o escritório da supervisora, destruindo muitos arquivos que ainda não haviam sido repostos, incluindo aquele que mencionava a recente adoção de Kate, e a supervisora havia partido em viagem na semana anterior, deixando em seu lugar uma jovem inexperiente que não conhecia as crianças muito bem. Sendo assim, não havia nada no orfanato que atestasse o fato de que Kate havia se mudado para a França com os pais adotivos. Nada, exceto as outras crianças, com quem Eve conversou, fazendo-se passar pela menina ruiva, e inventou uma história qualquer para justificar seu retorno. Para a sua surpresa, funcionou. E naquele dia, ela conquistou um casal de feições bondosas, que passaram a visitá-la individualmente. Quase não conseguia acreditar! Aquela fora a coisa mais arriscada que fizera na vida. Sabia que era errado, e sentia um caroço na garganta quando pensava que só seria amada se passando por outra pessoa, mas do alto de sua inocência, acreditava que seria possível revelar a verdade muito em breve, assim que tivesse certeza de que havia se encaixado na família. Afinal, com eles, ela agia exatamente como Eve, ainda que possuísse outro rosto. Tivera mesmo uma bela dor de barriga de nervosismo, e sentia medo e insegurança o tempo todo, mas valeria a pena: após alguns meses, Eve foi levada pela primeira vez para viver com a família em um período de experiência. Se se adaptasse bem, seria só dar entrada na papelada da adoção e ela teria oficialmente o que sempre quis!
Foram dias felizes. Os membros daquela família pareciam um pouco distantes uns dos outros, principalmente os pais, que haviam colocado a única filha na faculdade há pouco tempo e pareciam achar que Eve seria a substituta perfeita. Ela raramente passava algum tempo com os dois ao mesmo tempo, e quando acontecia, eles discutiam discretamente e pareciam desconfortáveis. Mas brincavam com ela, a ouviam e estavam presente durante todo o dia, e pela primeira vez, Eve não se sentia sozinha. Ela estava exultante, e planejava o momento em que revelaria quem era de verdade. Sentia que eles não desistiriam dela, e estava esperançosa. Mas não demorou muito para o pesadelo começar.
Certo dia, na hora do jantar, o casal teve uma discussão séria. A mulher, furiosa, saiu batendo a porta, alegando que precisava esfriar a cabeça, e o homem subiu para o quarto dos dois sem uma palavra para Eve, que assistia a tudo encolhida no sofá, tentando fingir que não prestava atenção. A menina ficou sozinha na sala, observando o fogo com um peso no peito. As coisas não pareciam boas. Se eles se separessem, com quem ela ficaria? Mas pouco depois, o homem desceu as escadas com passos pesados e parou na entrada da sala, todo torto, olhando para a menina com olhos enevoados. A camisa estava aberta e suja com manchas de comida que derrubara em si mesmo quando a discussão começou, e na ausência do cinto a calça quase caia dos quadris. Ele se aproximou do sofá onde Eve estava e se ajoelhou diante dela, um sorriso débil tomando seu rosto.
— Perdoa a mamãe, querida. Ela não sabe a merda que diz. Você sabe disso, não sabe? Você vê como ela é louca?
Eve ficou quieta, as mãozinhas envolvendo o joelho. Ele parecia estranho, estranho demais.
— Hein? Olha para mim. — uma mão tremula afastou seus cabelos do rosto. — Olha para o papai. Diz que ela é louca.
Seus olhos arregalados fixaram o rosto do homem.
— Diz para o papai. DIZ PARA MIM!
— Eu… — Eve teve um sobressalto. — Eu não sei.
Ele continou olhando para ela. Então sua mão desceu para o ombro de Eve, seus dedos tocando o pescoço da menina. Os olhos dele percorreram a forma pequena que começava a tremer, e algo dentro de Eve ficou muito, muito pequeno e escondeu os olhos com a mão.
— Você é linda, querida, sabia disso? Mais linda do que ela.
Os olhos de Eve percorreram o cômodo, buscando uma rota de fuga. Chovia lá fora. Para chegar a escada teria que passar por ele. Ela não sabia o que fazer. Para onde havia ido toda aquela sagacidade que a fizera acabar naquela situação, que a fizera criar todo um plano para conseguir o que queria? Agora, ela só queria sair dali, correr para bem longe, fechar os olhos tão forte que seria como se não existisse. Ele tinha um cheiro ruim, muito ruim, que sempre ficava mais forte quando ele a pegava no colo, como ele estava fazendo agora, e ela não gostava nada daquilo. — Você ama o papai, não ama? Fala para mim?
Lágrimas quentes começaram a se derramar por seu rosto e através delas, os olhos de Eve encontraram um dos retratos sobre a lareira. Era aquele homem, com outra garotinha no colo. Ela era loira e tinha grandes olhos castanhos, assim como a mãe. Era a filha dele quando era criança, aquela que havia fugido para uma faculdade distante na esperança de se livrar da pressão dos pais.
— Fala, querida. Quero ouvir você dizer que ama o papai.
As mãos de Eve se apoiaram nos ombros dele quando ela se empurrou para trás, para olhar em seu rosto, e quando a viu, os olhos do homem se arregalaram e uma expressão de horror tomou seu rosto.
— Eu não tenho pai. — disse Eve, com uma voz que não era a sua.
Seus cabelos, um dia castanhos como Eve, antes ruivos como Kate, agora estavam loiros. Ela era uma cópia quase perfeita da menina da foto, a filha biológica daquele casal problemático, e Eve vislumbrou algo que parecia vergonha no fundo dos olhos do homem quando ele a largou sem o menor cuidado e se impulsionou para trás, amaldiçoando. Ela não ouviu o que ele disse: assim que se viu livre, disparou escada a cima, seus passos soando forte contra o piso de madeira. A porta de seu quarto bateu com força, e ela agradeceu mentalmente pelas trancas. Ela ouviu os passos do homem se aproximando enquanto arrastava os móveis para servir de barricada, e se afastou, apertando as mãos contra os ouvidos. Ele esmurrou a porta, e apavorada e confusa, incapaz de pensar racionalmente sobre o que havia acontecido, Eve se sentou no chão na frente do espelho, ofegando enquanto tentava freneticamente voltar ao normal. A menina loira a olhava com olhos enormes e aterrorizados, mas Eve queria ver a si mesma. Queria ver seu rosto, seu cabelo, mas não conseguia se concentrar, não conseguia voltar ao normal, não conseguia encontrar a si mesma e temia nunca mais conseguir…
O som suave do sino soou ensurdecedor e fez Eve levantar a cabeça assustada, endireitando-se na cadeira atrás do balcão da recepção. Havia cochilado? O sol brilhava forte do lado de fora, mas o saguão estava vazio, o que era incomum para aquele horário.
— Olá? — disse alguém atrás do balcão.
Ela se levantou da cadeira, se inclinando para tentar achar a origem da voz. Quando encontrou, sua respiração ficou presa na garganta. A criança a encarou, a cabeça inclinada para trás para conseguir enxergá-la. Tinha cabelos loiros e olhos grandes, e carregava uma expressão fixa de horror e confusão. Era um rosto que vivia em seus pesadelos, sempre trazendo o mesmo questionamento.
— Você sabe quem eu sou?
Eve começou a ofegar, incapaz de falar.
— Eu me perdi…
O rosto da menina mudou, e seus cabelos se tornaram ruivos. Kate.
—… de mim mesma.
— Você sabe quem eu sou? — continuou. — Você sabe?
As feições da menina começaram a mudar freneticamente, como um canal de televisão sendo trocado. Eve aos 7 anos. Kate. A filha do homem. Eve se afastou do balcão, tremendo, até ser incapaz de enxergar a criança, mas a figura começou a se alongar e assumiu um quarto rosto; Fay, a jovem desconhecida cuja face Eve roubou ou inventou, aquela que vivia a vida que ela desejava viver e que se comportava como ela queria se comportar. Aquela que se parecia mais com Eve do que ela mesma.
— Você sabe? — disse Fay, com uma expressão piedosa e cruel ao mesmo tempo — Você sabe quem você é?
Puxando o ar com força, Eve se sentou na cama rapidamente, o peito subindo e descendo com sua respiração alterada. Segundos terríveis se passaram até que seus olhos se adaptassem a escuridão do lugar, mas quando aconteceu, foi envolvida pela familiaridade de seu quarto e acolhida pelo brilho pálido da lua sobre sua pele. Seu coração batia rápido em seus ouvidos. Ela havia guardado aquelas lembranças, aqueles sentimentos, em um lugar tão bem escondido que muitas vezes nem se lembrava deles. Tudo parecia ter acontecido há uma vida atrás, mas aquele sonho fora tão real… Eve encarou a lua pela janela como tantas vezes fizera na infância, lágrimas que não se lembrava de ter derramado secando em seu rosto e a mesma frase ecoando em seus ouvidos.
Você sabe quem você é?















