Nenhum pecado era cometido pela princesa de Navarra e Castela. Porém, a situação na qual se encontrava não podia ser dita convencional. Já decorria certo tempo desde o nascer do sol, poderia dizer que era início de tarde. É importante ressaltar que Catharina tinha chego a situação semelhante devido a extensa duração dos dias na corte de Belônia. As horas enfadonhas multiplicavam-se de forma que o sol ainda demoraria para se pôr. As tarefas destinadas à noiva do jovem rei exigiam pouco esforço mental quando exigiam algum, sendo assim eram em sua maioria realizada pelas damas de companhia que tinham o dever de evitar aborrecimentos. Tinham falhado. A mulher estava aborrecida devido ao marasmo ao qual fora entregue desde que abandonou sua terra natal. O futuro casamento pedia apenas sua aparição ao lado do noivo quando fosse solicitado, que distribuísse sorrisos, falasse quando solicitado e permanecesse em silêncio caso contrário. Eram atividades aparentemente tão simples, porém capazes de drenar toda a energia de um nobre quando executadas sem intervalo. A vitalidade de Cathy era recuperada ao segurar um livro. Como já foi dito antes, a atitude não poderia ser condenada, mas era prudente escondê-la. A princesa encontrava-se na sala do curandeiro, segurando um livro e ajudando-no a separar algumas ervas e poções de acordo com sua utilidade. Trocavam informações como se fossem iguais. Não era proibido. Repetiria esta afirmação até que se tornasse verdadeira. Nada mudaria o fato de que indivíduos pertencentes a diferentes gêneros não deveriam dialogar como se fossem iguais. Não ousaria alegar ter a inteligência de um homem, seus conhecimentos eram escassos mesmo com tanto estudo. Porém, era inegável seu conhecimento de botânica e anatomia era superior ao de alguns não importando o sexo deste.
Uma donzela entrou as pressas no ambiente, mas não teve tempo de ficar surpresa com a cena incomum. Informou o médico da corte sobre a existência de um nobre que necessitava de cuidados de maneira urgente. Aparentemente o homem sofria de graves ferimentos e parecia apresentar febre. Com a intenção de ajudar Catharina ajudava o curandeiro a separar o material necessário para sua atuação, enquanto a menina que veio informá-los retornava aos aposentos de onde veio. Antes que o homem pudesse abandonar o recinto apareceu um segundo chamado. A gravidade do segundo não se comparava ao do primeiro, mas o homem ferido era certamente mais importante. O príncipe Henrik não poderia ser ignorado para que um de seus subalternos fosse atendido. Não devia esquecer também que ele também sentia dor embora não tão intensa ou com a possibilidade de grandes consequências. A ajuda da princesa foi solicitada para cuidar do segundo chamado e ela engoliu seco, não tinha dado resposta alguma. Ainda assim, com toda a pressa que o momento exigia o seu companheiro considerou que tinha sido afirmativa e partiu em direção ao quarto do nobre. Cathy sabia, caso o filho do rei Andrev não fosse atendido existiria uma morte no dia seguinte e não seria um acidente. Por um instante ficou sem ter reação diante ao futuro rei que se apoiava em seu subalterno.
“¿Qué voy a hacer?” Resmungou para si mesma. Recuperando-se da confusão inicial gerada pela rápida sucessão de acontecimentos, voltou-se para Henrik. “Vossa Alteza, eu posso ajudá-lo. Caso esteja de acordo com a sua vontade.”
A insistência de alguns dos nobres para uma caça nas florestas Belonesas impediu Henrik de negar-lhes o pedido. Tanto seria bom um animal de maior parte e apreço ( um belo javali, eles esperavam naquela caçada e talvez alguns patos ) para oferecer no banquete aos romanos. Certamente que serviçais e criados poderiam o fazer, mas isso pouparia a energia já há muito resguardada dos homens e especialmente, de Henrik. Os cavalos foram deixados poucos metros atrás deles, que agora caminhavam de maneira lenta no solo coberto por folhas murchas e deterioriradas. O rapaz preferiria ir atrás do animal sem muitos atrás de si, afinal uma comitiva apenas servia para afatar o enorme porco que lhes serviria de refeição. Por isso, separaram-se em dois grupos, um seguindo para a direção do sol poente e Henrik ao oposto, percebendo as pegadas do animal incrustradas no barro mole. Não se caçava com espadas, essas eram reservadas para lutas com homens, contudo, carregava em sua mão uma rústica lança com ponta afiada. Liderando o grupo de homens, com alguns dos cãos de caças soltos a farejar o animal, sabiam que estavam no rastro certo, enquanto o utro grupo talvez pudesse trazer alguns patos ou coelhos, ironicamente pensou Henrik. Após um longo caminho, puderam avistar o animal de costas.
Soturno, Henrik se aproximava, mas sua discrição não se equiparava com a aguçada audição do suíno, que ao notar a presença alheia, parecia ter sido possuído pelos espíritos do inferno. Lanças foram jogadas na direção do javali, mas nem isso diminuía a sua fúria, apesar de torná-lo mais lento e moribundo, a sua acertando-o no dorso. O animal era grande e partia para cima dos homens e de seu príncipe, mas estava abatido enquanto tentava correr. O animal ainda se debateu diante da aproximação do Radovanovic e tentou lutar com o príncipe, causando-lhe alguns arranhões na pele alva. Henrik apesar de ser um exímio espadachim e esgrimista, não era nem de longe o mais forte dos homens, faltava-lhe massa muscular para lutar com um animal e isso foi o motivo da ferida em seu ombro, que rasgou-lhe um talho na pele, liberando o rubro tecido sanguíneo que manchava-lhe a camisa de linho branca. Contudo, retirou uma adaga do coldre de seu cinto, de prata, incrustada com pedras preciosas e a insígnia da família, terminando assim o sofrimento do anima. O sangue do corte limpo e preciso no pescoço do animal banhou-lhe em um rio quase negro e viscoso de sangue. A sensação de poder advinda da retirada de uma vida, ainda que animal, era incomparável. Uma sombra de um sorriso de glória podia ser vista no rosto do rapaz que arrastava a caça em conjunto com outros nobres para o dorso de seu cavalo, em direção ao palácio. Contudo, os gritos que vinham do oeste era indícios que a caçada do outro lado não fora muito bem como as de seu grupo. Um urso marrom atacara um dos nobres do conselho de seu pai, o homem possuía uma ferida das garras que cortava de fora a fora seu abdome. A cavalo, o grupo de nobres caçadores tornava ao castelo, ao trote mais rápido que seus cavalos lhes permitiam. [...]
Era noite no momento em que retornaram à Alveric e o homem já rolava os olhos em delírio diante da febre que acompanhava sua dor. No momento, o próprio Henrik havia se esquecido da ferida em seu ombro, não fosse o leve ardor que sentiu ao puxar o tecido que havia ficado incrustrado na pele e no ferimento com o sangue seco. O próprio príncipe parecia que havia participado de uma batalha sangrenta, tamanho o escarlate que cobria-lhe suas vestes e sua face e não sabia dosar o quanto do sangue espalhado era seu. Ele suspirou, enquanto corria para a sala do curandeiro e do médico familiar, com o nobre cada vez pior em sua situação deplorável. Era claro que não passaria daquela cama por mais um dia ou menos. Sinceramente, preocupava-se com o companheiro de caça, mas não havia nada que podia fazer além de se sentar em uma das camas vazias e retirar a camisa que estava imunda com sangue seco, para deixar o ferimento respirar. Não percebera que sua negligência havia tornado uma pequena ferida em algo um tanto preocupante, já que mesmo após horas de cavalgada, ao retirar o tecido que havia estacando e secado o ferimento, esse voltava a sangrar lentamente, manchando a pele do Radovanovic. Devia ser alguma provação de Deus, ou talvez castigo pelo tanto de blasfêmias e pecados que cometera contra a vontade do Senhor.
Naquele dia, encontrava-se silencioso, mas não foi nem preciso pedir para chamar o curandeiro, pois seus homens haviam o requerido para cuidar do príncipe. No entanto, ao invés do curandeiro, a noiva de Mihail aproximava-se dele. O rapaz arqueou uma das sobrancelhas ao vê-la em um local impróprio para mulheres que não estivessem pagando seus pecados ao ajudar os enfermos ou que não fossem freiras. ♚ — Vossa Alteza. Perdoe-me se soar pretensioso, mas como vós pretendes ajudar-me? Possui conhecimento sobre às artes da cura? ♚ Era uma delicadeza nua, que Henrik usava com raras pessoas, mas a beleza suave e gentil de Catharina era um fator que tornava-o cativo da noiva de seu primo. No momento, não lhes passaram quaisquer pensamentos egoístas, por ora, afinal a ferida pungente atrapalhava seus pensamentos coerentes. Ainda assim, não deixava de imaginar situações melhores para ficar à sós com a princesa de Navarra e Castela. ♚ — Se for esse o caso, estarei em vossas mãos. Posso confiar em vós? ♚ Não confiava, exatamente. Afinal, apesar de uma estrangeira, Catharina ainda era noiva de Mihail e por mais que subestimasse as capacidades de seu primo de desejar a sua morte, Theodora não era tão compassiva. E não sabia até onde iam a intimidade da noiva de Mihail com a futura sogra. No entanto, se algo acontecesse à sua saúde, possuía inúmeras testemunhas ao redor, ainda que parecessem tão distraídas frente à tragédia que acontecera com o duque e o urso, se Henrik desejasse incriminar Catharina de ser a responsável por piorar o seu estado, não duvidava do caos que poderia causar na corte. A única chance dada, fora para testar se a incorruptível bondade nos olhos azuis dela eram realmente reais, ou se eram apenas uma máscara para algo corrosivo, como muitas das mulheres que ostentavam faces angelicais em Belônia. Irreverente e imprudente, sim. Um plano que poderia levá-lo a morte se fosse confirmado, mas seus instintos eram gritantes em afirmar o contrário. E um futuro monarca jamais prosperaria sem um toque de audácia em seus planos.