A criatura de aparência monstruosa causava temor em muitos campistas, principalmente nos mais jovens. Não habituados a lidar com lutas reais, que em muito se diferiam do treinamento físico que experimentavam cotidianamente no Acampamento, os semideuses recuavam diante da Manticora e de outros seres de igual porte, os quais estavam prontos para diminuir consideravelmente a população do acampamento romano. Medo, no entanto, era algo que Shade Hester não deixava transparecer, em que pese o sentisse com frequência — seria burro ou demente se não o fizesse, considerando as experiências que vivenciava. A diferença residia no fato de que o semideus não era um novato em batalha. Com a idade e a carga que possuía, era esperado que já tivesse se oferecido para o cargo de instrutor no Júpiter, contudo, protelava a assunção da responsabilidade, preferindo seguir a rotina de campista. Hester participara de um considerável número de missões, muitas das quais não se orgulhava, e evitava falar, notadamente quando envolviam a baixa de colegas. Internamente, atribuía a si as falhas nas incursões, culpando-se pelas mortes. Como filho de Belona, era esperado que não perdesse nunca, certo? Porém, não era o que sempre ocorria quando se tratava de criaturas mitológicas. Não era surpresa que estivesse enfrentando a Manticora naquele momento; havia até mesmo certa resignação em cumprir seu papel — deveria morrer daquela forma, se fosse o caso; não haveria outra para pessoas como ele. A maça já começava a falhar em sua destinação, ou talvez fossem os músculos do semideus que imploravam por descanso; toda a energia tendo abandonado o corpo, gradativamente. Uma falha, um descuido, um momento de distração, e lá estava a cauda em formato de escorpião perfurando a carne de Shade. “Bem feito”, diria sua mãe. “Tem de matá-los com maior agilidade” — e não havia dúvidas de que a deusa estava certa, mas ele era só humano, ou metade deus. Mesmo com a picada, o moreno ainda foi capaz de acertar o animal com seu instrumento, colocando-o para dormir. Já não tinha forças para esmagar crânios, mas sempre havia quem o fizesse, e não tardou a aparecer um orgulhoso semideus para transformar a carcaça em pó. À essa altura, o filho de Belona já não se importava. A passos trôpegos, se afastou da movimentação da batalha, sentindo que o veneno da Manticora, aos poucos, se alastrava em seu corpo, não apenas afetando seus movimentos, mas também sua visão. Será que essa merda mata?, pensou consigo mesmo, chacoalhando a cabeça para se livrar da visão turva. Foi quando estava próximo da enfermaria que seus olhos cruzaram com os de outra garota, ou melhor: parecia, a princípio, uma garota, até ele se dar conta de que possuía ela uma cauda de serpente. Os cabelos negros estavam se movimentando também? Um monstro, sim, era só isso que via, imediatamente ao lado do que deveria ser um refúgio para os semideuses feridos. Sem raciocinar direito, e com a visão em estado deplorável, Shade puxou o gládio que trazia às costas, correndo na direção da criatura e empurrando-a contra a parede de concreto. De distância tão curta, podia-se dizer que não havia monstruosidade nos olhos castanhos — eram quase humanos — e confusão inundou o Hester. “Que tipo de demônio é você?”, perguntou, imprimindo pouco poder na voz; a espada já apontada para o pescoço alheio, pronta para perfurar.
Evidentemente, eu estava errada, e podia constatar isso só de sentir a lâmina contra o pescoço, a forma como tudo parecia esmagado. Queria gritar, implorar por algum tipo de misericórdia por parte dele, mas não parecia ser a hora certa para mover um centímetro que fosse. Deveria ter continuado deitada na Enfermaria, inerte de tudo o que estava acontecendo lá fora, mas tampouco pareceu justo naquele momento. Me lembrava do exato momento em que cruzei os olhos com os do meu agressor, mas não era como se me sentisse desapontada, ou mesmo irritada com as próprias escolhas. Primeiro, continuei parada no batente da Enfermaria, sangue pulsando nas veias até que percebesse que, de fato, ele precisava de ajuda --- não tinha visto o embate como um todo, era verdade, mas o coração se embrulhou ao notar a forma como ele cambaleava na minha direção. Por alguns segundos, entretanto, semicerrei os olhos, tentando buscar o alvo que ele parecia disposto a atacar, chegando até mesmo a virar de costas para onde a luta era travada --- talvez algo no telhado, não sabia ao certo. Nunca me ocorreu que ele estivesse querendo me atacar. Tentando analisar os passos dele, entretanto, era meio bobo que aquilo não tivesse passado pela minha cabeça. “Mas o qu---” Levantei os olhos, tentando buscar qualquer coisa que justificasse a reação violenta, a maior calma do mundo tentando atestar do que se tratava --- oras, seria bom ser avisada se havia algo atrás de mim, e como Rosetta não estava em qualquer lugar onde pudesse me avisar, ele poderia ter gritado ---, apenas a tempo suficiente de virar e ser quase espremida contra a parede. Parecia inútil gritar, mas arregalar os olhos foi quase involuntário, pequenas lágrimas embaçando a vista a medida em que eu sentia a lâmina cada vez mais funda no pescoço. Bastaria um corte, e então eu voltaria ao Submundo, dessa vez para sempre. Talvez fosse melhor, de fato, do que ter que sofrer sempre que a ida estava próxima, ficar meses sem ver Nonna e provar dos espaguetes ao molho verde, mas eu me vi respirando rápido, amedrontada com o que me esperava quando as visitas não fossem mais temporárias --- mamãe com certeza não deixaria que eu ficasse no palácio com ela mais, possivelmente. Poderia ter me desvencilhado, buscado tirar as mãos dele de cima de mim, mas a fraqueza da falta de comida sólida por semanas parecia cobrar o seu custo, e não era como se tivesse reação digna daquela ação. Ninguém me disse que teria que enfrentar aquilo.. O headset incomodava do jeito que a aproximação brusca se forçou, mas nada que parecesse de outro mundo, na verdade, tudo parecia um tanto quanto fora de foco, até, pelo menos, ele falar. “Demônio?” Pisquei algumas vezes, um tanto quanto amedrontada, com cuidado, mas podia sentir o sangue escorrer lentamente a medida em que a arma perfurava o pescoço, ardência tomando conta da região. Não sabia exatamente o que fazer, para ser sincera. Só não desejava morrer daquela forma. A aura que ele parecia expelir era decerto negra, e não tive tempo suficiente para encarar a situação de maneira lógica, a consciência de que ele provavelmente acabaria comigo ali mesmo fazendo com que a minha respiração se descompassasse cada vez mais, até que não tivesse mais o que perder. “Você perdeu a cabeça?!” Me vi perguntando, por fim, incapaz de formular qualquer outra frase lógica. Não sabia se ele tinha sentido o cheiro do Submundo impregnado na minha aura, mas deveria saber que demônios não existiam... Não exatamente. “Eles não existem.” Deixei escapar, por fim, em um fiapo de voz, um último suspiro antes que ele terminasse o trabalho. “Por favor... Eu não--- não sou isso.” Pisquei, gaguejando, e então as lágrimas rolaram pelas bochechas, incapaz de conter os soluços, cada vez afundando mais a adaga contra o pescoço.