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Janaina Medeiros

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Keep Out
Maldito passado que teima em me visitar.
Vem apenas para me importunar. Para me dar gatilhos. Para me deixar com medo de sair de casa.
Mas, felizmente, essa visita também serve como um lembrete de tudo o que não quero mais viver.
Não quero que nada do que vivi se repita. E esse é um dentre algumas dezenas de motivos que me fazem escolher não permitir que isso aconteça.
Se não está em minha vida atualmente, é porque eu não quero, não aceito e não permito que esteja. Mantenho aqui somente o que me cabe, o que me soma, o que merece.
Pra bem longe de mim com todos os seus problemas. Com toda a sua toxicidade.
Sou feliz por não ter mais nada disso em minha vida.
Então mantenha-se longe. Não se aproxime nunca mais.
Among the flames, 1907 - oil on canvas. — Antoni Piotrowski (Polish, 1853-1924)
Limítrofe
É um tanto quanto difícil ser uma pessoa que sente demais, mas não consegue expressar com clareza.
Minha mente funciona o tempo inteiro, procurando uma forma de racionalizar tudo. Enquanto meu coração sente demais, mas não consegue expressar nem um terço disso - graças à minha mente inquieta que faz questão de racionalizar até as vírgulas lidas.
Todos os defeitos estão no meu cérebro, eu diria. Esse músculo defeituoso com córtex pré-frontal super desenvolvido, aliado à um pensamento extremamente analítico que procura dar razão a tudo.
Que procura sentir firmeza em tudo o que meus pés tocam - e acha que qualquer demonstração de emoção transformará um chão firme em areia movediça.
É como se eu estivesse em cima de uma ponte, vislumbrando uma terra firme cheia de beleza, mas algo dentro de mim me fizesse recuar, ou pisar exatamente no local que fará a madeira ceder e me derrubar na água. Enquanto eu poderia simplesmente pular essa armadilha e atravessar a ponte, rumo à um lugar melhor.
Não à toa passei tantos anos tendo dificuldade em processar meus próprios sentimentos. Mesmo hoje, sendo eu uma pessoa capaz de reconhecer cada nuance minha, ainda caio nas armadilhas plantadas pela minha mente.
Procurando uma vírgula errada que seja suficiente para me auto sabotar, fugir e me isolar por alguns meses - para depois voltar desejando reconquistar o mínimo do que tinha antes, do que estava tão próxima de conseguir.
Não quero perder dessa vez. Não quero deixar minha mente ganhar mais uma batalha. Já tive perdas demais durante a minha vida, e não quero me perder nem mais uma vez.
Sempre que me vejo próxima da satisfação mental e pessoal acontece isso. É como se algo dentro de mim não me deixasse viver em harmonia, como se eu não pudesse ficar bem comigo, vivenciar momentos bons, conhecer pessoas que despertam algo novo em mim.
Mas eu tomei as rédeas da minha vida... não tomei? Ao menos foi disso que me convenci há um mês atrás. Então por que agora essa ânsia doentia em me auto sabotar? Por que tanta fragilidade, se encontrei força em mim?
Eu não quero mais viver em crise. Eu me recuso a viver em crise. Eu me recuso a deixar esse cérebro defeituoso ganhar mais uma vez.
Eu só quero ter uma vida boa e normal. E se precisar lutar contra mim para conseguir isso, então o farei.
Dessa vez, não vou deixar meu cérebro me convencer de que sou doente e deveria ficar sozinha para não machucar ninguém. Eu sou boa demais pra me isolar. Eu mereço viver coisas boas, momentos bons, com pessoas que podem me fazer feliz. Eu sou merecedora disso. Sou merecedora da felicidade. Sou merecedora de uma vida plena.
Não será dessa vez, querido cérebro defeituoso, que você irá me derrubar. Nem que eu precise encontrar um jeito de afogar essa personalidade doentia que se preocupa única e exclusivamente em fazer meu mal.
THE WITCH 2015 ― Dir Robert Eggers
Life is Beautiful
29.06
Não há nada como uma experiência de quase morte para me fazer sentir mais viva.
Na realidade, o que eu passei nos últimos dias me trouxe uma imensa surpresa: Eu não quero morrer. Eu quero viver. Quero me sentir viva, saudável e feliz.
Pensei em dizer que cansei dessa melancolia, mas na realidade eu apenas cansei de não saber para onde direcioná-la.
Mas agora descobri, e é exatamente isso: em minha escrita, em minha arte. É onde deixarei minha melancolia, e daqui não passará. Eu realmente me cansei de viver com um peso tão grande, de carregar tantas infelicidades, tantos desgostos. Eu quero viver bem, quero viver feliz, quero viver saudável e sem o medo de acordar amanhã tendo mais um piripaque que poderá me deixar internada, sem nada a fazer além de encarar o teto extremamente claro de um hospital.
Terrível precisar passar por isso pra vida me mostrar que eu quero, sim, viver. Que tudo o que sempre falei, o que sempre pensei sobre mim, sobre minha vida e meus problemas psicológicos estavam errados. Que preciso mudar meu ministério, viver de maneira diferente ao invés de ficar parada no mesmo lugar de sempre - chorando por nada mudar -, enquanto finjo que estou correndo atrás de algum tipo de mudança - quando na realidade não estou.
Mas, sinceramente, depois da quantidade de vezes em que pedi pra morrer, sumir, deixar de existir, ou sei lá qual outro termo já utilizei, não me surpreende que o sinal tenha vindo de forma tão radical.
Precisamos aprender os sinais que a vida nos dá. O meu próximo poderia facilmente ser o que tanto pedi, e então eu não teria mais nada a consertar, e seria uma pessoa nova demais enterrada cedo demais.
Agora eu sei.
Alguns dias no hospital e eu entendi não só que quero viver, mas como quero viver. Consegui identificar tudo o que tenho feito de errado, e já sei exatamente como não quero a minha vida.
Agora vou correr atrás de como quero a minha vida.
As coisas irão mudar por aqui.
Já abri os meus olhos.
SPIRITBOX Soft Spine (Live on Jimmy Kimmel)
Sleep Token - Caramel
Caramel // Sleep Token
Sinal de vida
Me perder no escuro não é uma opção.
Fazia alguns meses que eu vinha me sentindo presa no escuro, definhando, sem ter pra onde correr. Chegava a ser claustrofóbico.
Eu estive no inferno diversas vezes, talvez ainda esteja. Fui trazida para cá por diversas mentiras celestiais, contadas pelos outros e por mim, e por alguns golpes que recebi - me apunhalaram algumas vezes, uma facada após a outra, sem dar o tempo necessário para me curar.
Apesar da dor, sentia meu corpo adormecido, ainda sinto. Como se o sofrimento e a apatia estivessem sincronizados.
Mas parece que ainda existe luz.
Finalmente senti em mim um sinal de vida, uma pulsação. Como se meu coração tivesse voltado a bater depois de muito tempo parado.
Sei que partir não será a minha salvação ou solução dos meus problemas. A escuridão é, e sempre foi, a minha companheira mais fiel. Mas sair do confinamento, do caixão que me prendia, certamente iluminará o meu caminho, mesmo que pouco.
Sei que muito de mim não mudará de imediato. Talvez eu cometa novos erros e acredite em novas mentiras que me levarão ao inferno de novo. Mas depois de morrer tantas vezes em minha vida, sentir esse sinal, essa pulsação ainda que fraca, me traz um pouco de esperança.
E eu vou me agarrar a isso.
Inutilidade
Perdida na sensação de me sentir inútil o tempo inteiro.
Sinto como se não tivesse mais utilidade para nada, em nenhum campo da minha vida.
Em meu trabalho, que sempre foi a minha maior paixão, sinto como se já não somasse em mais nada, já que passo meus dias enrolando ou procurando algo para preencher o vazio do tempo.
Vivo um relacionamento fadado ao fracasso.
Minha casa está sempre bagunçada ou suja ou os dois.
Meu gato, que é o ser mais importante da minha vida, está sempre pedindo por atenção, e até nisso eu falho.
Em minhas amizades, sequer sou presente. Estou sempre sumida, deixo de responder, dou a impressão de que não me importo mesmo não sendo assim.
Estou falhando em meus estudos, em meus hobbies, em cada campo da minha vida.
Sequer sou boa o suficiente para encontrar um emprego melhor do que este, que sempre me adoeceu mas eu só consegui perceber tardiamente.
Qual o sentido de viver se não sou útil?
E toda essa sensação de inutilidade faz com que meu isolamento apenas aumente, e com que minha vontade de fazer absolutamente nada cresça todo dia.
Oi pessoal, meu nome é Fernanda e eu não acrescento em nada a ninguém nesse mundo, e para algumas pessoas ainda sou um peso.
Todos os dias peço para deixar de existir. Espero que logo algum ser divino me ouça.