Other Lover - Capitulo 19
Dor, dor e dor, foi o que eu senti quando abri meus olhos. Minha cabeça estava latejando demais, mal conseguia manter meus olhos abertos e estava com meu corpo dolorido. Com dificuldade, abri meus olhos e analisei em volta o lugar no qual estava e notei que era no tapete felpudo da minha sala de estar.
- Por que eu estou aqui? – me auto perguntei – Como eu vim parar aqui? – não lembrava de como fui parar em casa, ou dormir em meu tapete da sala.
Não era minha primeira ressaca, mas com certeza foi a mais forte que já tive. Me levantei do chão, e a dor em minha cabeça só aumentou, fui até a cozinha em busca de algum comprimido para reduzir essa dor e o tomei, logo em seguida indo em direção ao banheiro, eu estava precisando de um banho mesmo.
Liguei a ducha, logo sentindo o líquido quente escorrer pelo meu corpo e o relaxar, taquei diversas vezes a água em meu rosto, na luta de manter meus olhos abertos. Após o banho, fui enrolada numa toalha até meu quarto, abri o armário e peguei o que tinha na frente, que foi uma blusa branca comprida com uma estampa preto e branco, e uma legging cinza confortável. Já vestida, deitei em minha cama e fiquei massageando minhas têmporas na expectativa da dor aliviar.
Não me lembrava de nada direito noite passada, só sei que fui na festa de Juan e definitivamente bebi muito, e isso me incomodava muito, ter esse espaço vazio em minha mente. Olhei para o meu celular do outro lado da cômoda e o peguei, vendo algumas notificações das minhas amigas, zoando de como eu estava bêbada. Decidi ir na pasta de chamadas, e então arregalei os olhos ao ver o nome de Selena nela, mas o assustador nem foi isso, e sim o tempo de duração que a chamada tinha, era muito. E o pior, eu não lembrava de nossa conversa.
Disquei o número, e então coloquei o aparelho em meus ouvidos, aguardando ser atendida. Quando me deparei que não deveria estar fazendo isso e ia encerrar a ligação, uma voz do outro lado da linha interrompeu.
- Sim? – sua voz delicada ecoou. Merda.
- Antes de tudo, me desculpa! – pedi direta.
- Ashley, você está bem? – perguntou preocupada.
- Sim, eu estou – a respondi - É que eu acabei de olhar meu celular e pelo que eu vi, te incomodei por um longo tempo na ligação, e então eu imagino quanta porcaria eu devo ter falado, e você continuou ouvindo. Por isso eu liguei agora para você, para dizer desculpa por seja lá o que eu falei, e agora desculpa também, porque eu continuo te incomodando e... – estava me embolando com as palavras, falava sem pausa, até ela me interromper.
- Ash, calma! – pediu – Inspira e expira – segui seu conselho e me concentrei na minha respiração – Ok, primeiramente, não se preocupe com isso, você não me incomodou.
- Mas Selena eu... – ia voltar a falar, mas novamente ela me cortou.
- Shhhhh! – pediu silêncio e eu me calei – Segundo, você também não está me incomodando agora, ou seja, não tem motivos para pedir desculpa – não ousei a interromper novamente, mesmo querendo – Terceiro e mais importante, você está bem mesmo?
- Eu estou bem Selena, não se preocupe – lhe garanti.
- Ok, eu sei que voce está mentindo, é impossível você não estar com ressaca – fala convicta.
- Eu estava tão horrível assim? – fiz uma leve careta.
- Sim – ouvi sua risada, me fazendo rir baixo também – Mas você me fez rir bastante.
- E me fez ficar preocupada – senti sua voz abaixar.
- Me desculpa por isso – entortei minha boca me sentindo culpada – Prometo não se repetir.
- Espero que sim – ela falou num tom mandão – Ash, me desculpe, mas eu vou ter que desligar agora.
- Oh, tudo bem – disse mentirosa, pois queria conversar mais com ela – Até breve! – ouvi sua risada baixa por eu usar esse meu clássico para despedir.
- Até muito breve – e então a morena desligou a chamada. Pus meu celular na cômoda, já sentindo o remédio fazer efeito, me estiquei em minha cama e voltei a ficar deitada de olhos fechados até pegar num sono mais profundo.
Duas horas já haviam se passado desde o momento que acordei, agora estava na sala assistindo novamente a “Garota Interrompida” no qual amava. Me assustei com o som da campainha de minha casa, fazendo eu olhar para a porta e questionar quem seria. Sai de meu casulo com cobertor, e fui até a entrada, abri a porta e fiquei muito surpresa com o que via.
- Oi – lancei um largo sorriso ao vê-la.
- Oi – disse tímida – Eu trouxe uma coisa para você – mostrou a sacola branca em suas mãos e eu dei espaço para entrar.
- Selena... – a repreendi com o olhar – Você sabe que não precisava.
- Sim, eu sei, mas eu quis e deu – colocou a sacola em cima da mesa da cozinha – E não é nada demais, é só parte da sobremesa de chocolate com frutas que eu fiz hoje – tirou o pote da bolsa. Me aproximei dela, e analisei a comida.
- Parece estar deliciosa, obrigada.
- E está – disse empolgada – Experimente! – Selena pegou a colher mais próxima que viu e a colocou na sobremesa, e agora em direção a minha boca, que prontamente abri – Como está? – me encarou esperando uma resposta.
- Hmmm – continuei a saborear aquela sobremesa em minha boca – Você é uma chef profissional e eu não sei? – comentei a fazendo sorrir.
- Fico feliz que gostou – sorrimos uma para outra, enquanto eu continuava a saborear e sobremesa – Desculpa aparecer sem avisar – entortou os lábios – Havia sobrado isso – apontou para o doce – E você foi a primeira pessoa que pensei em entregar, além do fato que por ontem à noite, imaginei que você estaria com fome.
- Sem problemas, você sempre pode aparecer aqui – apertei sua mão que pousava em cima da bancada, fazendo ela focar seu olhar em nossas mãos juntas – E você acertou, eu estava com fome mesmo! – voltei a me deliciar com a sobremesa feita por ela.
Após termos raspado o recipiente do doce, de tanto comermos, a convidei para se juntar a mim e assistir ao filme que eu estava vendo. Depois de uma certa insistência, a convenci de ficar, dei play novamente, e dividi o cobertor com ela. Algumas horas depois o filme terminou, eu peguei o controle e desliguei a TV.
- E então você gost... – parei de falar quando olhei para o lado e Selena dormia serenamente.
Puxei o cobertor mais para cima, a esquentando melhor, desliguei a televisão e fiquei a observando ela dormindo com sua boca entreaberta puxando o ar. Tirei levemente o cabelo que caia em seu rosto, o colocando delicadamente atrás de sua orelha. Olhei para o relógio e decidi deixa-la dormir em paz, me levantei do sofá e fui até a cozinha, pensando em como recompensa-la por ter sido tão boa comigo ultimamente.
O problema era que, diferente dela, eu não sabia cozinhar nada direito, só o necessário. Então decidi usar esse meu pouco talento e fazer o que podia. Fechei a porta da cozinha, para não ter barulhos para Selena, e fui nos armários em busca de todos os ingredientes que precisava, e os misturei no liquidificador, e com a massa já bem feita, coloquei-a a na frigideira, observando as bordas ficarem douradas e então usar a espátula para virar para o outro lado. Empilhei as panquecas em um prato, recheei com doce de leite, e então despejei mel por cima e coloquei alguns morangos que achei na geladeira em volta. Estava com uma aparência bonita, devo admitir. Como não tinha certeza se ela gostava da panqueca, fiz outro prato com uma simples omelete. Sai da cozinha e voltei a sala de estar, onde ela continuava deitada a vontade no sofá, me aproximei dela e fiz um carinho leve em seu rosto.
- Selena – sussurrei – Acorde... – remexi seu ombro devagar e ela abriu os olhos – Eu fiz uma coisa para nós.
- O que? – ela perguntou ainda confusa – Você o que? – finalmente se sentou e me olhou.
- Eu fiz uma coisa, vem! – peguei em sua mão e a puxei até a cozinha. Puxei uma cadeira, e a fiz sentar, na minha que ainda estava vazia. Peguei ambos pratos e os coloquei na mesa, observando seu olhar surpreso – Eu não sou uma cozinheira como você, mas acho que dá pro gasto.
- Oh meu Deus, você não precisava fazer isso – falou ainda com sua boca aberta.
- Sim, eu precisava – empurrei o prato para mais perto dela – Só aceite e coma, se tiver ruim, você pode cuspir que eu não irei me importar – rimos, e eu fui até a geladeira pegar o suco de laranja para botar nos copos. Me sentei a sua frente, a assistindo comer o que eu havia preparado, esperando alguma reação.
- Senhorita não cozinheira mas que dá pro gasto, isso está ótimo! – falou de boca cheia apontando com o garfo para a panqueca.
- Minha única especialidade – sorri para ela que sorriu de volta, e voltou a devorar as panquecas, enquanto eu me satisfazia com o omelete.
- Isso é tão fofo da sua parte, Ashley! – disse quando terminou.
- Fazer comida para você? – ela concordou com a cabeça – Eu até poderia mentir que faria mais vezes, mas eu na cozinha é uma raridade.
- Deixa que dessa parte eu cuido então.
Me levantei pegando os pratos e os levando até a pia, mas claro que eu desastrada deixei alguns farelos caírem no chão. Os deixei na pia, e fui em busca da vassoura para varrer o chão sujo, e quando voltei Selena estava na pia lavando as coisas. Discuti com ela que eu que deveria estar fazendo aquilo, enquanto ela dizia que era o mínimo que ela podia fazer. Ela já tinha terminado de lavar os dois pratos e copos que sujamos, e eu acabava de jogar as migalhas foras, quando ouvi um barulho de porta fechar vindo da sala. Nós duas nos entreolhamos, mas então a voz da mulher ressaltou o ambiente.
- ASHLEY, VÁ PEGAR SEU FONE DE OUVIDO, QUERIDA! – minha mãe gritou com seguidas de pequenas risadas.
Já imaginava o que era, fui até a sala e Selena me seguiu. Infelizmente tive que presenciar a cena dela dando um tapa no bumbum daquele cara o empurrando para o quarto, e em seguida com risadinhas maliciosas. Olhei para o lado, e Selena segurava o riso.
- Mãe, temos visita – apontei para Selena.
- OH MEU DEUS! – ela arregalou os olhos vendo a morena – Ashley Victoria, você tem que me avisar dessas coisas – me lançou um olhar repreensor e se aproximou – Oi querida, como está você? – perguntou depois de dar um abraço em Selena.
- Eu estou bem, e a senhora?
- Oh querida, eu estou ótima! – deu ênfase na última palavra e eu dei um tapa em seu ombro.
- Mãe! – lhe dei um olhar para ela se calar.
- O que foi? Eu estou mesmo – Selena riu de seu comentário – Eu espero que minha filha tenha te tratado bem, mas me desculpe, nesse exato momento eu estou meio ocupada – falou arrastado e olhando para o quarto.
- Ok mãe, já entendemos – a girei e arrastei até a porta de seu quarto, enquanto ela se despedia de Selena e dizia para ela voltar mais vezes.
- Fones de ouvido, huh? – a morena arqueou uma sobrancelha e voltei a rir da minha situação.
- É geralmente o que tem, mas anda, vamos sair daqui – puxei seu pulso enquanto ela ainda continuava a rir. Abri a porta, calcei meus tênis e peguei meus óculos de sol que já estavam ali, enquanto esperava ela pegar sua bolsa e podermos sair daquele ambiente que estaria exalando a sexo depois.
Ela não sabia para onde eu estava a levando, mas também não questionou. Caminhei até o banco da praça infantil que tinha perto de casa. Havia umas três crianças brincando por ali, Selena se sentou ao meu lado e ficamos ali só observando as crianças. Fiquei relembrando da época em que eu vinha aqui, era uma praça sempre cheia, fazia sempre amigos que duravam só aquele único dia, mas pelo menos nos divertíamos. Agora as crianças ficavam enfurnadas em casa, em seus computadores e smartphones, e eu não as culpo, afinal o mundo evolui e com isso as mudanças são necessárias. Enquanto estava perdida em meus pensamentos, nem notei Selena correndo até o balanço e se auto empurrando, ri de sua criancice e fui me juntar a ela.
- É bom voltar a infância? – perguntei indo atrás dela e a empurrando mais alto.
- É ótimo! – ela falou empolgada. Quando chegava a um ponto mais alto, suas risadas ecoavam em meus ouvidos, parecia uma criança que está no parque pela primeira vez. Sua felicidade transpassava a mim.
Cansei de empurra-la e me sentei na cadeira de balanço ao seu lado, e aos poucos ela também parou. Decidi a encarar, e ela continuava sorrindo, era algo tão lindo e natural, podia ficar observando por longos dias sem me enjoar.
- O que foi? – ela perguntou franzindo o cenho.
- Seu sorriso, ele é bonito – disse automaticamente, sem pensar. Selena me olhou surpresa, colocou a mão em seu peito.
- Você está me cantando, Ashley Benson? – semicerrou os olhos e fingiu uma expressão chocada – Trate de parar – me deu um leve tapa no ombro e começou a rir.
- Como você descobriu? – coloquei a mão em meu peito, também fingindo estar ofendida – Não era para isso acontecer – entrei em sua brincadeira.
- Você deixou bem evidente. – agora ela falou de um modo mais sério, o que me deixou nervosa. Olhei para o chão, prendi minhas mãos e voltei a encara-la, dando um leve sorriso de lado.
- Bom, da próxima vez, vou ter mais cuidado – a respondi.
- Vai ter uma próxima vez? – arqueou sua sobrancelha e voltou a me olhar profundamente, me permiti mergulhar em seus escuros castanhos, e temo isso ter sido um erro. Me remexi no fino balanço e me aproximei dela, pousei minha mão em sua perna e fechei meus olhos, respirando fundo.
- AI! – soltei após sentir uma bolada em minha cabeça. Abri os olhos e vi um menino me observando, provavelmente esperando que eu devolvesse a bola. Me levantei e então chutei a bola de volta para ele, que agradeceu. Na verdade, eu que deveria te agradecer garoto, me salvou de fazer uma burrada – É melhor irmos embora, já está escurecendo – disse para a morena que continuava sentada.
- Sim, é verdade – ela olhou para o escuro céu e concordou, se levantando. – Obrigada por hoje, eu me diverti bastante.
- Obrigada você, por tudo. Sério, você é a melhor pessoa que alguém poderia ter – ela sorriu agradecida – Não quer que eu te leve para casa?
- Não, não. Eu vou daqui sozinha mesmo.
- Não, sério, está tudo bem, eu prefiro assim.
- Então ok, mas depois não reclame se chegar com dor nas pernas – lhe avisei.
- Não vou – afirmou e beijou minha bochecha, logo indo embora.
Fiquei a avistando se afastar, com sua grande bolsa, e seu rebolado natural enquanto andava. Relembrando do dia bom que ela me fez ter. Foi a melhor ressaca que eu já tive, de longe, e tudo isso por conta dela. Eu estava com saudades dela e nem me dei tanta conta disso, mas tendo sua presença próxima a mim de novo me fez notar isso. E agora eu faria o possível para ter minha amiga que me fazia bem, por perto.