Em lugar e tempo nenhum tem sido fácil a vida humana, por que tem sido, em toda parte e sempre, vida em cultura. Pois a cultura é simultaneamente des-alienação e alienação, mediação e encobrimento, emancipadora e condicionante. Tal ambivalência do ambiente cultural no qual o homem se encontra cria tensões externas, entre o homem e seu ambiente, e internas, no interior de sua consciência, dificilmente suportáveis. Por isso, procuravam os homens, em toda parte e sempre, escapar a tal tensão e embriagar-se. Inventavam meios entorpecentes. Tais meios são característicos da existência humana: o homem não é apenas ente que produz instrumentos, mas também ente que produz instrumentos para escapar à tensão produzida nele pelos seus instrumentos. A ambivalência característica da relação “homem–cultura” caracteriza também os entorpecentes que dela resultam. Do ponto de vista da cultura são eles “venenos”, do ponto de vista de quem os usa são “salva-vidas”. O termo droga exprime tal ambivalência: significa veneno e medicina.
As drogas, resultado que são da tensão entre o homem e sua cultura, espelham a cultura específica da qual visam escapar. Os opiatos do Oriente Extremo espelham a experiência religiosa de tais culturas: visam proporcionar “iluminação” negativa. O álcool espelha, de alguma forma, a nossa cultura, e o hachich a islâmica, e isso explicaria por que o Islã proíbe o álcool e tolera hachich, ao contrário do que acontece conosco. Caso-limite é exemplificado pela cultura mexicana. Trata-se aparentemente de cultura que tem o entorpecente, portanto o escape de si própria, por meta. Cultura que procura negar-se a si própria pelos cogumelos. Na nossa situação atual, na qual a tensão entre nós e a nossa cultura vai se tornando insuportável, isso explicaria o fascínio exercitado pela cultura mexicana.
Dada sua ambivalência, a posição ontológica da droga é escorregadiça. Ela é meio para superar a mediação cultural, e alcançar a vivência imediata. A droga é mediação do imediato. O inebriado alcança, graças ao álcool, ao hachich, ao LSD, a experiência imediata do concreto, vedada ao sóbrio pela barreira da cultura. Alcança, graças a tais meios, a “unio mystica”, pela qual se dissolve no concreto. Mergulha, graças a tais artifícios, no inefável. Devido a tal viscosidade ontológica da droga o espetáculo do inebriado é nauseabundo aos olhos do sóbrio, e seu êxtase provoca, no sóbrio, repulsa. Porque o sóbrio reconhece, no inebriado, a contorção de mediação que visa superar todas as mediações, e destarte reconhece no inebriado as contorções de toda existência humana, inclusive a sua. O espetáculo do inebriado é nauseabundo, porque todos nos reconhecemos nele.
Por certo: toda consideração da embriaguez evoca a questão da loucura e da arte. A primeira será aqui recalcada, e vibrará a sotto voce. Quanto à segunda, será considerada um pouco mais tarde. O que urge considerar, antes de mais nada, é posição central que o problema da droga vai ocupando na cena da atualidade. Posição essa jamais ocupada anteriormente. Aparentemente o uso da droga é sintoma da modificação profunda pela qual estamos passando.
É sintoma em dois sentidos: enquanto problema, e enquanto discussão em torno do problema. Enquanto discussão, eis como a droga se apresenta: Todos formaram opinião a respeito, embora poucos disponham de informação suficiente para tanto. Os “bem pensantes” condenam o uso da droga, por ser ele nocivo a “saúde” (entenda-se: integração na ordem estabelecida). Os “progressistas” desprezam tal atitude reacionária, e admitem que a droga pode proporcionar vivências novas e incentivar a fantasia. Os “bem informados”, os que leram publicações de divulgação para-científica a respeito, discutem a diferença entre drogas “duras” e “moles”. Os “homens políticos” procuram tirar proveito da discussão para as suas finalidades. Os “especialistas” condescendem a iluminar a massa ignara. Os institutos de publimetria publicam estatísticas periódicas sobre o consumo da droga e sobre as oscilações da opinião pública a respeito. os media personalizam o problema de maneira sensacionalista. E, com total desprezo a tudo isso, as drogas vão sendo produzidas, distribuídas e consumidas conforme programa implícito em nossa cultura. A discussão fornece, pois, exemplo da atual superação da política: o programa torna redundante a “conscientização” do problema, como o faz em outros campos, haja vista o problema da energia atômica ou o ecológico.
Enquanto problema em si, a questão é esta: até que ponto está a embriaguez no programa atual dos aparelhos, e como está ela programada? O que é o método mais funcional: que os aparelhos nos programem em estado sóbrio, ou em estado embriagado? Os aparelhos dispõem, desde já, de drogas que superam de longe em eficiência as atualmente em uso, e as discutidas. Com efeito: embora tais drogas supereficientes sejam conhecidas de muitos, não são publicamente discutidas. Trata-se, por exemplo, de produtos químicos a serem injetados no sistema da distribuição de água, e que garantem comportamento específico da sociedade. Ou de métodos técnicos que permitem aos mediai de programarem os receptores subliminarmente. Ou de pílulas que acentuam ou atenuam as tendências dos superdotados, dos criminosos, dos rebeldes ou dos esportistas. Perspectivas imagináveis para a programação da sociedade estão, desde já, abertas.
A vantagem de tal programação em estado embriagado é o funcionamento sem atritos. A vantagem de programação em estado sóbrio, por manipulações ideológicas ou outras, é o funcionamento menos mecânico e mais maleável. Na fase atual os aparelhos passam por estágio de aprendizado, graças ao qual aprendem automaticamente qual dos dois métodos de programação é preferível em determinados casos. A aprendizagem se dá pelo feedback que nosso comportamento fornece aos aparelhos. O problema da droga vai sendo incorporado ao programa automaticamente.
Em todo caso os aparelhos funcionam em sentido da despolitização da sociedade. Despolitizam objetivamente, ao conscientizarem a sociedade da futilidade de toda ação política; e despolitizam subjetivamente, ao entorpecerem a faculdade crítica da sociedade. Tais funções de despolitização agem como tenazes alicates que esmagam a dimensão política da existência humana. O problema da droga se situa do lado subjetivo da função dos aparelhos. Trata-se de mais um método para entorpecer a consciência política.
Os aparelhos despolitizam ao ocuparem o espaço público todo. Privatizam a república, ao deformarem toda ação em funcionamento. As drogas, no entanto, despolitizam de forma diferente. As pessoas drogadas se recusam a participar do espaço público e retiram-se para o espaço privado. Tomar droga é gesto que afasta de si a república, que a rejeita. Não gesto a–político, como é o do funcionamento, é gesto antipolítico. O drogado não apenas não participa das eleições, vota contra. O gesto do drogado não é o gesto de jogador que não mais brinca: é gesto de jogador que perfura o jogo. Por isso, a droga é problema para os aparelhos, Os drogados emigram da praça pública, não para funcionarem nos aparelhos, mas para se retirarem. O problema é como recuperá-los pelos aparelhos.
Há mais grave ainda. O gesto do drogado, embora negador da república, é publicamente observável. É gesto de protesto. Nisso se assemelha ao gesto suicida: aponta publicamente o “além”, não apenas o “além” da república, mas igualmente do “além” dos aparelhos. É escândalo público: demonstra a possibilidade de os aparelhos serem transcendidos. Urge portanto, do ponto de vista aparelhístico, que a droga seja programada, transformada em função dos aparelhos. Como se trata de problema técnico, os aparelhos são aptos a resolvê-lo.
O problema se torna mais complexo, no entendo, quando se trata da droga específica chamada “arte”. Não há dúvida de que se trata de droga. De meio para proporcionar experiência imediata. De instrumento para escapar à ambivalência insuportável da mediação cultural, e de emigrar para um “reino melhor”, conforme diz Schubert no Lied “An die Musik” que canta a arte. A viscosidade ontológica que caracteriza toda droga, caracteriza a arte. Isso se torna patente se considerarmos os termos “artificial–artístico” e “artimanha–obra de arte”. Mas há, na arte, aspecto que falta nas demais drogas. A arte, depois de ter mediado entre o homem e a experiência imediata, inverta tal mediação, e faz com que o imediato seja “articulado”, isto é: mediatizado em direção da cultura. A arte torna dizível o inefável, e audível o inaudito. Nela o recuo da cultura vira avanço rumo à cultura. Artista é inebriado que emigra da cultura para re-invadi-la. Recuperar tal gesto não é tarefa fácil para os aparelhos. Porque tal gesto é indispensável aos aparelhos.
Trata-se nele de movimento que se dirige para o “além” do espaço público rumo ao privado, e que agarra um pedaço de espaço privado, uma “experiência imediata”, para lançá-lo sobre o espaço público em forma codificada. Tal gesto é interpretável de várias maneiras. Como gesto que apanha “ruído” e transforma em “informação” (interpretação aparelhística esta). Ou como gesto de sonhador que transforma “fantasma” em “símbolo”. Mas, não importa como queiramos interpretar o gesto, trata-se sempre de gesto graças ao qual a cultura entra em contato com a experiência imediata. A arte é o órgão sensorial da cultura, por intermédio do qual ela sorve o concreto imediato. A viscosidade ambivalente da arte está na raiz da viscosidade ambivalente da cultura toda.
Pois tal análise ontológica (apressada), da arte não justifica, por certo, deificação nenhuma do “artista”. Não se trata de “criação ex nihilo”. A arte não é gesto que mergulha no nada para de lá voltar regado de algo. Mergulha no privado, e publica o privado. E o próprio privado é um “algo”, a saber: o público recalcado. Não obstante: a arte é espécie de magia. Ao publicar o privado, ao “tornar consciente o inconsciente”, é ela mediação do imediato, feito de magia. Pois tal viscosidade ontológica não é vivenciada, pelo observador do gesto, como espetáculo repugnante, como é nas demais drogas, mas como “beleza”. E: a cultura não pode dispensar de tal magia: porque sem tal fonte de informação nova, embora ontologicamente suspeita, a cultura cairia em entropia.
Os aparelhos não podem, na situação atual, simplesmente recuperar o gesto da arte, e transformá-lo em funcionamento. Se entorpecerem tal gesto, cairiam em redundância por falta de informação nova. Se recuperas sem a arte, os aparelhos se condenariam a si próprios? funcionariam em ponto morto. E os aparelhos estão atualmente aprendendo tal fato, e o fazem automaticamente. Na medida em que de fato recuperam o gesto artístico, estão eles caindo em entropia. Acresce-se que o gesto artístico não se limite ao terreno rotulado como “arte” pelos aparelhos. Pelo contrário: tal gesto mágico ocorre em todos os terrenos: na ciência, na técnica, na economia, na filosofia. Em todos tais terrenos há os inebriados pela “arte”, isto é: os que publicam experiência privada e criam informação nova. Não bastaria, do ponto de vista aparelhístico, simplesmente recuperar a “arte” assim rotuladas se quiserem reprogramar tal gesto. Deveriam fazê-lo em todos os terenos do funcionamento. O que implicaria em esvaziamento de todo funcionamento. Por outro lado os aparelhos não podem tolerar que o gesto mágico continue se processando como se processa. O gesto problematiza os aparelhos.
A razão disso é que o gesto re-politiza. Embora sua primeira fase seja antipolítica, a sua segunda é eminentemente política. Com efeito: a rigor trata-se do único gesto político eficiente. Publicar o privado é o único engajamento na república que efetivamente implica transformação da república, porque é o único que a informa. Na medida em que, pois, os aparelhos permitem tal gesto, põem eles em perigo sua função des-politizadora.
Não se vê, atualmente, como os aparelhos vão resolver o problema. Se optarão pela sua própria redundância, ou pela possibilidade sempre presente de serem eles próprios recuperados pela abertura do homem rumo ao imediatamente concreto. E nessa indecisão da situação atual reside a tênue esperança de podermos, em futuro imprevisível, e por catástrofe imprevisível, retomar em mãos os aparelhos.
———
FLUSSER, Vilém (2013) “Nossa embriaguez” in DUARTE, Rodrigo (org.), O Belo Autônomo: Textos clássicos de estética. Belo Horizonte: Autêntica Editora; Crisálida, 377–384.