Obra de Maria Rita Kehl conecta clínica, filosofia e literatura para explicar por que somos cada vez mais tomados por frustrações e vingança
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Obra de Maria Rita Kehl conecta clínica, filosofia e literatura para explicar por que somos cada vez mais tomados por frustrações e vingança
Deus sabe a loucura que eu faria se eu soubesse que aquela pessoa específica está se casando com outra. Eu iria infernizar a vida dela, infernizar o casamento. Seguir em frente é minha rola, se eu não posso ter você também não vai ter, tipo, eu queria a muito mais tempo antes de você chegar.
Todos os dias eu me recordo de você, nas músicas, nos seus hobbies, nos meus hobbies. Você invadiu minha mente, se alojou em meus pensamentos e devaneios. Não é amor, ou é amor?
Se não é amor, porque costumo lembrar-se de você toda vez que eu estou feliz ou lembro de algo feliz.
Mas se é amor, porque sua lembrança vem com sentimento de dor, de tristeza, mágoa e ardor?
É amor ou ressentimento?
É arrependimento ou nostalgia?
Havia ressentimentos demais para permitir que a luz do amor penetrasse a imensa escuridão do meu peito.
vez ou outra, escrevo.
O ressentimento, apesar do tom morno e conformista das lamentações que provoca, deve ser entendido como uma paixão. Mais especificamente, o ressentimento está entre aquelas que Espinosa qualificou como paixões tristes. A raiz da palavra “paixão” nos remete ao sentido primordial da palavra páthos – a mesma de que também advém “patologia”. A originalidade do filósofo setecentista em sua época, assim como a permanência de suas ideias no século XXI, reside no afastamento da tradição platônica que ele empreendeu. Para isso, além de ter incluído as paixões no conjunto de objetos do pensamento filosófico, Espinosa propôs que estas fossem avaliadas a partir de critérios diferentes daqueles que norteavam a filosofia platônica e a moral cristã. Em vez de avaliar as paixões como boas ou más (lato sensu), Espinosa sugere avaliá-las como alegres ou tristes. As paixões tristes, para Espinosa, são aquelas que diminuem a potência de agir do indivíduo. O ressentimento pode ser entendido como uma paixão triste.
Maria Rita Kehl
Die Arbeit nieder!
Über den Fetischismus des Schaffens, produktiven Müßiggang und antisemitische Ressentiments
https://conne-island.de/nf/249/15.html