Assentiu com a cabeça para o que ele disse, lançando-lhe um sorrisinho forçado daqueles que seus olhos quase fecham junto. Geralmente, quando levantava as sobrancelhas, era o seu sorriso mais sincero. — Uma das sinas da convivência. — Lembranças são como marcas corporais indesejáveis. Podem até sair com o tempo, mas ou você sente orgulho delas, ou tenta tampá-las. A garota tinha lembranças cujas se orgulhava, lá no fundo de sua mente. Tinha, como todos os outros, as que tampava, mas sempre chegava a hora de destampar e rever, tirar o fino pano que as cobria e as ver lá, intactas. Como eletrocutar seu melhor amigo e levar a culpa sabendo que a culpa fora realmente sua.
Respirou sonoramente fundo. Típico das pessoas que não aguentam mais o papinho e querem logo mudar de assunto. — Oh, não, não. Sei onde isso acaba. Você fala como se fosse um livro aberto e essa conversa provavelmente vai terminar comigo contando todas as desgraças que você aguentaria ouvir. Isso não vai acontecer. Podemos mudar de assunto agora? Ah, a parte do celular, eu não tenho um celular. — Estava claramente nem aí. — Está "fora dos meus padrões de socialização". — Fez uma careta, mas acabou se rendendo ao ouvir mais gritos, acabando por levantar naquele mesmo instante. Pela primeira vez no dia, sorriu de um jeito verdadeiramente animado. — Se você está aqui é porque é maluco. Então vamos ser malucos que matam consultas psicológicas.
Ao ouvir o que a garota tinha dito, Scott assentiu com a cabeça e não fez lá um dos seus sorrisos agradáveis, tanto pra ele quanto pra outras pessoas. No máximo ele estava pensando, no que realmente poderia mudar para o seu passado e futuro ? isso era o que se perguntava todos os dias, todas as noites, o ano todo desde a morte de seus melhores amigos, mas o que ele mais queria era afastar todo o tipo de sofrimento em sua mente pra bem longe, sem que o perturbasse até nos seus dias quase lá agradáveis.
Estava achando estranho e engraçado o jeito que a loira estava falando, nunca tinha conversado com alguém daquele jeito até desse nó na sua mente ou sabe-se lá o que, mas de uma coisa tinha razão, era melhor terminar com aquele assunto. — Se é isso que pensa, então vamos parar com esse tipo de coisa e bom… Talvez vamos é, falar de outra coisa. — comentou. — Então faremos o seguinte, me diga onde você mora, eu vou lá e ai te digo de como posso mudar, ok ? — perguntou mais em um tom de brincadeira. Retirou as mãos dos bolsos da jaqueta rapidamente e assim olhando pros dois lados. — É, talvez eu seja maluco. Mas vamos sair daqui pelo o menos com estilo, um modo de fuga perfeito. — voltou a olhá-la e sorriu de canto pra loira. — Então, pra onde você gosta de ir ?
Olhou para os lados em uma atitude sem paciência e retornou o olhar ao indivíduo ao seu lado em um suspiro. -- Desculpa. -- Sorriu meramente envergonhada. -- Eu errei com você, desculpa. Não é isso o que eu penso, é o que eu tenho certeza. Eu já tive conversas assim e sei como terminam, então se quiser inventar um assunto que não me lembre o que está lá dentro -- apontou para o hospital, chamado carinhosamente de hospício --, ou aqui dentro -- apontou a própria cabeça --, ficarei muito agradecida. -- O fato de confundir pessoas se passava pelo seu temperamento misturado. Quando você não sabe como agir, como é que você realmente agiria se fosse dita mentalmente sadia, você prefere agir como uma barreira, afastar tudo aquilo que provavelmente te prejudique e deixar passar pela grossa peneira apenas aquilo em que bote uma pequena pitada quase imperceptível de confiança. Até é muito natural, a única diferença é que pessoas que apenas pensam que sabem como é, não tem medo. Porque elas só pensam que sabem, se soubessem, elas teriam medo. -- Ai que pena, não passo nada que é meu para pessoas que eu não confio. Fica para a próxima. -- Falou no mesmo tom que o outro.
Agora de pé, pendeu o peso de uma perna para a outra enquanto falava, as libertando da tranquilidade que era estar parada. -- É engraçado o jeito que você fala. Não só como você fala, mas o que você fala. É como se você realmente fosse tornar tudo um arco-íris na vida das pessoas, como se você realmente acreditasse nisso. -- Percebeu o sorriso, mas não revidou, sua expressão já estava alegre o suficiente para aquele papo. -- Tem uma montanha depois do parque, a temperatura cai uns 7º lá em cima. Eu tenho mais chances de me livrar de você lá caso você faça alguma coisa contra mim. -- Ops, Kysa atacando novamente.









