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Os três Paulos
Sigo eu aqui, na medida do possível, relatando o meu mochilão para vocês e ainda falta MUITA coisa. Vamos ver, sobre o que eu já escrevi:
Noções básicas de como planejar um mochilão;
Como encontrar companhia para a viagem, ou não.
Pronto, agora só falta escrever sobre os 7600 km que separam a primeira e a quadragésima quarta carona que peguei até conseguir voltar para Maringá. Básico.
Bom, como já mencionei antes, o planejamento do tempo que se passa na estrada pegando caronas de um trecho a outro é imprescindível para o sucesso da viagem. No meu caso, fiz uma planilha no google docs com os nomes das cidades em que faria minhas paradas, a distância entre elas e os horários de chegada e partida. Costumo pegar caronas durante os horários em que há sol, pois não acho muito seguro viajar com desconhecidos à noite, ou meramente ficar na beira da estrada. É possível fazer até 600 km por dia em um período de 10 horas pegando carona (com pouca sorte), 700 km forçando a coragem e ampliando o período em uma ou duas horas após o pôr do sol.
Por que é mais arriscado pegar caronas à noite (na real, qualquer horário tem seus riscos)? Pessoas mal intencionadas podem confundir (propositalmente ou não) x mochileirx com prostitutas e golpistas de beira de estrada que costumam ficar na pista após às 19H - conhecimento de caminhoneiro aplicado. Para que isso não aconteça, é sempre bom estar vestidx da maneira mais básica possível, sem chamar muita atenção por meio da aparência deixando que sua mochila e a placa indicando o destino passem a mensagem de "só quero uma carona e estou em missão de paz".
Resolvida com as questões de horário e aparência, há outra questão de sobrevivência básica: alimentos e água. É bom ter na bolsa água ou isotônicos e bolacha/biscoito de água e sal (ou com alto teor de fibras, por conta da grande retenção de água). Ah, você também não tem controle sobre as condições meteorológicas: bom levar uma capa de chuva resistente.
Ok: tem horário, tem comida, tem capa de chuva, cadê a segurança nisso tudo? Não tenho uma resposta para isso, levei um canivete na minha viagem e spray de pimenta (que eu mesma fiz em casa) - porém, como o segundo não é legalizado, não ensinarei a fazer e nem incitarei seu uso. Há uma linha muito tênue entre se proteger e cometer um crime - eu sei, é foda, por isso recomendo muita fé no seu santo (ou como você preferir chamar essa crença de que chegará seguro a seu destino). Se você puder fazer um investimento em aulas de defesa pessoal, manuseio de facas (é o que você pode levar facilmente no bolso) ou alguma luta, melhor ainda. Como eu não tive essa opção, quis acreditar na minha positividade e na mentira que meu pai é policial federal e "tem amigos" (mentir com muita convicção e criar uma história consistente sobre a sua família para não se confundir na mentira), deu certo.
Pois bem, já escrevi um monte e ainda nem comecei o relato sobre o primeiro trecho. Lá vai.
Combinei de me encontrar com a minha companhia para o resto da viagem em Campinas - a 600 km de Maringá. Terminei meu contrato de trabalho no shopping num dia à noite e na manhã seguinte já estava na estrada com uma mochila de 75 litros cheia (que erro!), um colchonete, uma barraca e um ukulele.
Dica: leve só o que for indispensável, barraca só se for realmente acampar em algum lugar - caso fique no meio da estrada à noite, é possível dormir em postos de gasolina.
Seguindo com o relato: minha mãe me levou à praça em que o ônibus da linha Maringá-Mandaguari estaciona, ao lado do terminal de Maringá - como não há linhas de ônibus da minha casa até o centro da cidade (e de muitos outros pontos) que funcionem de madrugada, minha primeira carona foi da minha mãe mesmo. Às 5H45 peguei o ônibus e às 6H30 desci na praça de pedágio que há entre Marialva e Mandaguari, ponto que costumo sempre pegar carona para ir à Londrina: alguns quilômetros à frente há saídas em direção ao Estado de São Paulo e à Curitiba, sem contar que os carros diminuem a velocidade para passar por lá. Uma maravilha!
Desci do ônibus com uma vontade louca de usar o banheiro e entrei no posto de atendimento da concessionária que administra a via (outra vantagem de praças de pedágio e postos de gasolina). Voltei ao meu ponto para pedir carona, aliviada e preparada para esperar o tempo que fosse necessário por uma alma bondosa. Mochila no chão - pesada demais para ficar nas costas - e placa nas mãos: um papel A3 escrito bem grande e em vermelho: Ourinhos. A cidade fica no meio do caminho entre Maringá e Campinas, conseguindo chegar lá, o restante do trecho está garantido. Esperei cerca de trinta minutos para que um caminhão parasse - correria para levantar a mochila pesadíssima, barraca e colchonete do chão, ir até à janela do caroneiro, perguntar para onde ele estava indo, colocar as coisas dentro do veículo e seguir a viagem.
O motorista se chamava Paulo e estava indo para Londrina, aceitei o impulso, pedi que me deixasse na entrada da cidade e perto de algum posto de gasolina. Pedido atendido, porém, o posto ficava do outro lado da pista - fiquei quase em frente ao parque de exposições Ney Braga, num ponto em que há um sinaleiro, portanto, onde os motoristas devem reduzir a velocidade. Minha primeira carona tentou dar em cima de mim com um papo de "como pode uma moça bonita dessas viajar sozinha? O namorado não tem ciúme?", porém, eu, esperta e intolerante pra essas conversas que sou, logo vi um adesivo da empresa para qual o moço trabalhava, uma loja da Ceasa de Maringá, e usei dos meus conhecimentos sobre a instituição para impor respeito:
_ Então, você trabalha na Ceasa né? Meu tio já foi presidente da associação de lá, acho que você deve conhecer ele, não é verdade? Pois é, ele está sabendo dessa minha viagem, deve conhecer seu chefe...
Não menti em nenhum ponto da conversa, ele conhecia mesmo meu tio, tratou de enfiar o rabinho no meio das pernas e ser gentil comigo. Problema do assédio resolvido, o resto da minha pequena viagem em companhia do Paulo foi sossegada, ele até se abriu comigo, falou da vida pessoal, confessou que tinha cheirado uma carreira de cocaína para conseguir ficar acordado, contou de várias outras malandragens que os caminhoneiros fazem para completar suas entregas o mais rapidamente possível e aproveitar o rolê nas cidades em que param.
Desci do caminhão às 8H20 e Paulo me passou seu telefone, pois entregaria sua carga em Londrina e em seguida poderia me levar até a outra saída da cidade, caso eu não conseguisse nenhuma carona até às 11H. Descobri que o ponto em que eu estava era péssimo após ficar mais de uma hora e meio esperando por minha carona seguinte, já estava considerando ligar para o Paulo quando outro Paulo parou para me dar carona: estava sozinho em um Audi puxando uma carretilha com uma motocicleta, iria para Taboão da Serra e poderia me deixar em Sorocaba, onde a Rodovia Castelo Branco se encontra com a SP-75 em direção a Campinas. Aceitei a carona.
Assim que entrei no carro, Paulo pareceu mais preocupado que eu, passou a placa do seu carro e disse para eu me comunicar com minha família para falar que estava tudo bem - ele nunca tinha dado carona a ninguém e só parou porque não gostava de viajar sozinho. O restante da sua família já tinha saído de Apucarana (ou Arapongas?) - onde passaram o natal com a avó - para voltar à casa, em Taboão da Serra, ele ficou para dar um jeito de levar a moto (se não me engano). A viagem foi tranquila, conversei, dormi, inúmeras vezes Paulo perguntou se eu queria ir ao banheiro ou comer, paramos apenas uma vez num posto para que ele comprasse água e que ambos trocássemos as calças por shorts - o sol estava escaldante.
Chegando no ponto em que ele me deixaria para pegar outra carona, pelas 15H30, Paulo decidiu entrar na SP-75 e procurar um posto de gasolina para me deixar. Deixamos o primeiro posto para trás, porque era muito longe da pista, e nunca mais encontramos outro. O gentil motorista acabou me deixando em Campinas mesmo, mais especificamente, no distrito de Barão Geraldo. Desviou sua rota para chegar ao endereço da pessoa que me receberia em sua casa - coincidentemente, outro Paulo, também muito gentil. Desci do carro, agradeci do fundo do meu coração o empenho da minha carona, ele me deu um cartão de sua empresa, levei minhas coisas para dentro da casa e acabei esquecendo meu óculos de sol no carro. Nem havia começado a viajar direito, PUTZ, Camille!
Sã e salva tomei um banho, troquei ideia com o terceiro Paulo, bebemos cerveja, esperamos seu companheiro de casa chegar e fomos ao mercado comprar os ingredientes para preparar nosso jantar no estilo joga tudo dentro da panela e vê no que dá. Ficamos conversando até a hora em que fui dormir, acredito eu que nos demos bastante bem. Fui deitar após a meia noite e a mocinha que ia me encontrar no outro dia começou a enviar mensagens loucamente perguntando mais coisas que minha própria mãe: como eu estava, como foi a viagem, como era a casa onde ela passaria uma noite. Respondi. Até esse momento, estava jurando que ela chegaria pelas 7H da manhã e que poderíamos continuar até o Rio de Janeiro, só aí que ela foi me contar que chegaria às 13H45 - fiquei puta da vida, pois perderíamos um dia de viagem. Ao final, ela disse para eu entrar no facebook para conversarmos. Bom senso mandou beijos, a minha natureza impaciente também (tenho que melhorar isso): passei boa parte do dia viajando, estava cansada, irritada com o fato de perder um dia de viagem e já havia dado satisfações à minha mãe. Pergunta: vocês acham mesmo que eu entraria no facebook para responder a um interrogatório por conta da insegurança da moça? Isso mesmo, não. Tive que me conformar para conseguir dormir.
Já que não sairia de Campinas no dia seguinte, aproveitei para dormir bastante, acordei só para responder às mensagens da minha companheira de viagem e almoçar com os meninos. Duas horas antes de chegar, ela já estava me mandando SMS toda preocupada sobre como ir da rodoviária de Campinas à Barão Geraldo, eu quis explicar sobre como pegar ônibus, para ver se ela saberia andar com as próprias pernas, os meninos se convalesceram e quiseram buscar a bonita de carro. Fui junto, dei as instruções para ela sair do ônibus e esperar na área de desembarque, junto aos táxis, do lado de fora da rodoviária. Paulo ficou um bom tempo procurando a moça, pois acredito eu que na cabeça dela para chegar à área de desembarque era só sair do ônibus e esperar. Fiquei irritada com a falta de noção de mundo da minha companheira de viagem e imaginando todos os problemas que isso poderia me causar, nem consegui cumprimentá-la direito quando, finalmente, chegou ao carro junto do Paulo.
Voltamos à casa, separamos nossas coisas, bebemos, esperamos uma amiga dos meninos chegar e fomos para o Sambão do Sibipiruna, que acontece sempre no primeiro domingo do mês em Campinas. Socializei horrores e cai no samba com desconhecidxs até o momento de voltarmos para casa. Nossos anfitriões nos surpreenderam com a gentileza de passear pela Unicamp conosco antes de irmos dormir e no outro dia nos levaram ao ponto onde pediríamos carona para chegar ao Rio de Janeiro.
Fotos do meu Instagram: @vaiqueneh (clique para acessá-lo).
Me and my Bobby Mcgee (Janis Joplin) - Songs for hitchhikers.
Trevor Gordon, Oregon Coast.
Um capítulo do meu mochilão chamado: não era amor, era cilada
Ter companhia para viajar é uma coisa essencial, especialmente se você está planejando pegar caronas na estrada, pelo simples fato de que é mais seguro. Outro ponto que eu acho importante (e que até senti falta durante a parte da minha viagem que fiz sozinha) é ter alguém para compartilhar o momento: não foram poucas as vezes que me peguei pensando "fulanx ia adorar isso aqui!/imagina se fulanx estivesse aqui comigo...".
Porém, cuidado: a relação deve ser de extrema cumplicidade e não de parasitismo. Nem sempre aquelx amigx de longa data que você ama de verdade é a melhor companhia para uma viagem longa, as condições físicas, emocionais, espirituais e psicológicas se tornam bem diferentes para o convívio na estrada, o que pode comprometer o relacionamento que já existia. A dupla ideal para uma viagem é um casal: duas mulheres juntas pode ser arriscado, afinal de contas, vivemos num país extremamente machista e o assédio é naturalizado; dois homens juntos intimidam xs possíveis caroneirxs, também é complicado.
Se você conhece alguém que já tem experiência com mochilões, metade do caminho já está andado, basta confirmar se a pessoa tem disponibilidade para te acompanhar. Se não conhece, a saída são os grupos de mochileirxs no facebook. Cuidado novamente: você não conhece a pessoa, então é bom conferir se ela possui cadastro em outras redes sociais, em especial no Couchsurfing, pois lá é possível ver as referências no perfil escritas por outros usuários que já tiveram experiências de viagem/hospedagem com x possível companheirx do seu mochilão. Manter o diálogo nesse ponto é essencial, é a partir daí que você percebe se o santo bate ou não, se a pessoa está comprometida com o planejamento do mochilão ou não, se você possivelmente vai ter problemas com a pessoa ou não. Todo sinal de insegurança, ansiedade e irresponsabilidade deve ser considerado para evitar problemas no futuro - e foi isso que eu fiz errado. Eis a chance de aprender com o erro dxs outrxs!
Um capítulo do meu mochilão chamado: não era amor, era cilada.
Ok, eu já contei pra vocês que uma mocinha muito determinada viu um dos meus posts em grupos de mochileirxs solicitando companhia para minha viagem, né? Pronto (em bom pernambuquês), a minha vontade de viajar era tanta que eu ignorei alguns sinais claros de que "não era amor, era cilada" (parafraseando o Molejão). Não, eu não me apaixonei loucamente pela moça. Não, ela não me deu um fora.
Bom, começamos a planejar a viagem em outubro, eu, por ter mais contato com o Robson e manjar mais dos paranauês de planejamento, desenhei a rota e solicitei os sofás no Couchsurfing. Todas as informações (cidades, distâncias entre um ponto e outro, dias de viagem, nome/ endereço/ telefone/ perfil do facebook e couchsurfing/ email de quem nos receberia) foram inseridas por mim numa tabela compartilhada pelo Google Docs na medida em que as pessoas respondiam às minhas solicitações de hospedagem. A única preocupação da mocinha era comprar sua mochila, um canivete (muito útil), preparar as malas e um repertório de música brasileira . Explico-me: ela é música, mais especificamente, flautista, e eu mais uma dessas que se mete a aprender tudo quanto é instrumento de corda em casa com o auxílio da magnífica interwebs, ou seja, se faltasse dinheiro, ou se simplesmente quiséssemos nos divertir, poderíamos tocar alguma coisa. Ela não fez o repertório, começou com umas conversas estranhas de que um amigo dela maestro não passava as partituras e eu comecei a me perguntar o porquê ela simplesmente não fazia uma busca no google, na viagem descobri a razão: ela não conhecia música popular brasileira. Isso é defeito? NÃO! Mas podia ter me avisado. Eu na correria de trabalhar em shopping também nem cobrei a menina, entre todos esses acontecimentos minha mochila chegou, comprei uma capa de chuva, um canivete e fiz as malas.
Bom, esse negócio de repertório não é muito grave, tirei algumas músicas para tocar no meu ukulele e falei pra ela levar algum instrumento pequeno de percussão, com um pouquinho de criatividade dá-se um jeito. Não se dá jeito em insegurança: cada dia que se aproximava da data que marcamos para começar a viajar, 4 de janeiro, ela ficava mais ansiosa confirmando cinco vezes ao dia se eu ia mesmo, cada informação que eu dava ela mesma precisava reconfirmar - não demonstrar confiança na pessoa com a qual você viajará é muito irritante e comprometedor - e a moça parecia sempre estar perdida me mandando mil links de blogs com coisas que ela pesquisou que "ai, essa menina desse blog faz desse jeito, por que você não faz como ela?", "ai, não sei se está certo isso que você me disse", ajudar que era bom NADA - até porque eu, chata que sou com organização desse tipo de coisa, não ia deixar funções tão importantes nas mãos de uma pessoa tão perdida. Eu não sabia, mas toda essa insegurança e inabilidade com organização são comprometedoras para uma viagem, sem contar que não consegui criar um laço de afeto ou o mínimo de cumplicidade com a dita cuja - demonstrações de ansiedade me irritam, sou bem impaciente, my bad.
Dei as orientações para ela sair da cidade em que mora, Itaú de Minas-MG, e me encontrar em Campinas. Eu iria até lá de carona, ela pegaria um ônibus, ou seja, eu estava mais suscetível às condições meteorológicas e imprevistos do que ela. Chegando o dia da viagem, comecei a consultar sites de previsão do tempo, todos diziam que no dia que eu deveria sair de Maringá e ir até Campinas choveria. Lá fui eu falar com a moça que possivelmente adiaria a data da minha saída devido às condições do tempo, porém, teria que esperar até o dia da partida para observar o céu. A primeira reação dela foi desconfiar que eu desistiria, a segunda foi passar uma semana inteira me enchendo o saco para saber quando eu realmente sairia, sendo que eu já havia avisado que teria que esperar até o dia da partida. Na tentativa de resolver o problema, disse para ela comprar a passagem dela para Campinas no dia 4 mesmo e me esperar lá, chegaria no máximo dois dias atrasada (de acordo com a previsão de dispersão das nuvens/abertura do tempo) e conseguiria avisar a todxs nossxs anfitriões sobre o atraso (pois isso afetaria toda a logística da viagem).
Deveríamos apenas passar a noite em Campinas para sair no outro dia cedo em direção ao Rio de Janeiro. O que a bonita fez? Com medo de que eu não chegasse, ou de ficar na casa de estranhxs sozinha, comprou passagem para o dia 5 e só chegaria às 13H45. No final das contas a previsão do tempo estava errada, eu consegui chegar em Campinas no dia 4 mesmo e tive que ficar esperando a bonita que só chegaria na tarde do dia seguinte, sendo que foi orientada a chegar antes, já que ela tinha controle sobre a data em que compraria a passagem e eu não. Uma perguntinha para vocês: coleguinhas, sabe quem sai à tarde pegar carona na estrada para fazer um trecho de mais de 500 km?
R: NINGUÉM! Digo, ao menos não é recomendado, deve-se pegar caronas enquanto há sol e esse período varia de acordo com a região e fuso-horário, não é muito seguro pegar - tampouco dar - caronas à noite.
Enfim, isso tudo me irritou muito, a ponto de eu nem conseguir cumprimentar a moça direito quando fui buscá-la na rodoviária com os meninos que estavam me hospedando em Barão Geraldo - distrito de Campinas, aquele da Unicamp. Já que o dia de viagem estava perdido mesmo, não custava nada aceitar o convite que estes mesmos rapazes nos haviam feito para irmos ao Sambão do Sibipiruna, uma roda de samba que acontece todo o primeiro domingo do mês, super-popular entre os universitários do distrito. Passamos a tarde bebendo e quase à noite fomos para lá. Libriana que sou, enturmei-me facilmente com a galera, quando vi já não estava mais na mesma roda de pessoas de quando cheguei. Encontrei os rapazes e a mocinha na volta, eles ainda fizeram a gentileza de passear conosco pela Unicamp, no outro dia de manhã nos levaram até o ponto em que pegaríamos carona.
Ah, optei por não citar nomes, até porque em certo ponto do relato não lembrarei de alguns deles. Bom lembrar que o relato do mochilão pode não ser o mais linear, cronologicamente falando, pretendo voltar e escrever sobre como foram as duas caronas que peguei para chegar em Campinas e como arrumar as malas para um mochilão. Por hoje fica só a lição de como não encontrar companhia para o mochilão, ainda faltam mais de 1000 km de história até a moça desistir finalmente de viajar comigo. Spoiler dado.
Cause I'll tell you everything about living free. Yes I can see you girl can you see me?
Wofmother - Vagabond
Songs for hitchhikers.
Yes, it does…via Shio Waline (Instagram)
Tem couchsurfing? Tá afim de me hospedar ou conhecer um pouquinho mais? Clica nesse link aqui, ó!
Dos projetos que eu parei de procrastinar
Um ano de faculdade de comunicação por terminar, muita cafeína, algumas frustrações das ordens criativa e funcional, porém, centenas de ideias por dia. Desenvolvendo mais de uma atividade simultaneamente, na maioria do tempo. A todo momento tentando resistir à entropia. Talvez essas sejam boas desculpas motivações para eu estar começando a relatar meu mochilão dois meses depois dele já ter acabado. Fica registrada, dessa maneira, minha satisfação por finalmente estar escrevendo e um pedido de desculpa às pessoas que possivelmente ficaram esperando para ver a ideia de ter um blog para devanear sobre minhas andanças tomar forma. Pedido de desculpas feito, vamos ao que interessa!
Ano passado a pessoa que vos escreve, universitária e, até então desempregada vivendo de seguro desemprego, começou a viajar de uma maneira mais econômica e imprevisível: pegando caronas. Fui motivada por meu primo, Robson de Campos (do relatos de um mochileiro), que é de Marialva (noroeste do Paraná), não tinha muito dinheiro para ir na Virada Cultural em São Paulo e começou a pesquisar sobre mochilão, se encorajou, foi, e desde então, não parou mais de viajar. O menino Robson, inquieto que é, logo veio me instigar a repensar minha maneira de me locomover entre as cidades. Eu, ousada que sou, resolvi acatar a sugestão: comecei a pegar caronas sozinha em outubro do ano passado para visitar as amigas que tenho em Londrina-PR, até há dois meses atrás costumava ir ao menos uma vez por mês para lá. Uma referência espacial nesse instante não faria mal, né? Pois bem, sou de Maringá, interior do Paraná, 80km de Londrina (o que explica a frequência das viagens).
O terceiro ano de faculdade estava por terminar, minha vontade de viajar só crescendo, o seguro desemprego acabando e fui me planejar para algo bem maior: um mochilão de verdade. Por que não esperar acabar o curso para ir depois tranquila? Por motivos de fogo na bacurinha (vulgo ansiedade) e de que estou me organizando para prestar mestrado no final desse ano. A vontade já estava lá, faltava o planejamento, lá vai Camille pesquisar, digo, encher a paciência do Robson: depois de muita orientação do mochileiro mais experiente, eis o que eu precisava para viajar:
Rota (com cálculo dos quilômetros que eu conseguiria rodar saindo às 5H da manhã e parando às 18H - média de 650km);
Um perfil no CouchSurfing preenchido de maneira a passar muita confiança às pessoas às quais solicitaria teto;
Um(a) companheira de viagem (o ideal seria outro menino, por segurança);
Uma mochila de 60L ou mais;
Mapa (ou celular com GPS);
Mínimo de dinheiro para alimentação, transporte público, possíveis imprevistos(com R$300 é possível fazer a mesma rota que eu, porém, à base de miojo e bolacha/biscoito de água e sal).
Comecei a procurar companhia para a viagem. O Robson não podia me acompanhar pois teria que trabalhar com os pais na colheita do início do ano, nenhum(a) conhecido(a) botou fé na viagem e a minha única saída foi me embrenhar nos grupos de mochileirxs no facebook e perguntar se alguém gostaria de me acompanhar. Ah, bom lembrar que, na realidade, minha ideia era viajar até o Chile, passando por Uruguai e Argentina, portanto foi isso o que eu postei nos grupos: que precisava de companhia para viajar de carona por parte da América do Sul. Uma moça mais jovem que eu, porém, muito determinada se apresentou, me adicionou no facebook, falou o quanto queria muito viajar e nos acertamos para fazê-lo juntas. Em determinada altura da organização a vontade de conhecer as praias nordestinas e respirar cultura afro-brasileira prevaleceu e os planos foram mudados.
Calculei nossa rota: iríamos de Maringá a Recife com paradas em Campinas-SP, Rio de Janeiro-RJ, Vitória-ES, Porto Seguro-BA, Ilhéus-BA, Salvador-BA, Aracaju-SE e Maceió-AL - quase quatro mil quilômetros. Tendo as paradas definidas, calendário na mão para eu decidir quantos dias ficaríamos em cada lugar e prever as datas para solicitar "sofás solidários". Rota pronta,companhia garantida, comecei a pedir os sofás para amigxs que viviam nas cidades planejadas e desconhecidxs do Couchsurfing.
Imprevisto à vista: comecei a me planejar em setembro para viajar em dezembro, assim que acabassem minhas aulas, porém, minhas expectativas com relação às economias não foram alcançadas e lá fui eu procurar um trabalho temporário em shopping para levantar uma grana para viajar. Passei o mês de dezembro inteiro trabalhando como vendedora em uma loja de roupas num shopping aqui de Maringá, querendo morrer todos os dias em que precisava acordar para trabalhar, porém, sacrificando-me para conseguir realizar o sonho do mochilão próprio. Tive que adiar em um mês a viagem, em compensação, conseguiria trocar o miojo por comida de verdade.
Acho que chega de escrever por hoje, mas não perca a próxima postagem: COMO (NÃO) ENCONTRAR A COMPANHIA IDEAL PARA SEU MOCHILÃO (e demais perrengues)!