Não me procures de baixo do viaduto, no trem, na praça da Sé, no metrô, naquele bar fedendo à gordura, não me procures nas cartas nem nos livros que eu disse que faziam parte da minha filosofia de vida. Pois ontem que foi anteontem já é hoje que logo será amanhã. Então, não me procures no que eu disse que gostava, no que eu disse que amava, idolatrava, admirava. Hoje já é diferente, e amanhã será diferente também. Ando me camuflando em paredes invisíveis para que ninguém tropece na minha complexidade, nas minhas tolices, nas minhas bobagens, nos meus envolvimentos. Ando me camuflando em qualquer coisa que seja diferente da que me camuflei ontem, por isso não me procures mais naquela música, nem naquela dança. Eu já estou distante, amor. Dentro de mim, em questão de segundos o castelo já é linha bamba de equilibrista desequilibrado. A terra nem sempre me serve como morada, às vezes gosto de uma ventania, um furacão, uma desarmonia. Hoje estou offline, amanhã poderei estar só ausente, depende muito, depende de tudo. Então não me procures e não me sigas, se quiser saber pra onde vou ou aonde estou, busque o improvável. Sua palidez diante do espelho pode ser a resposta perfeita: posso me camuflar na sua pele da próxima vez. Quem sabe até mesmo dentro dela. Quem sabe da próxima vez que você se ver triste e fraco diante do espelho você não estará tendo uma visão perfeita de como me encontro agora? Talvez eu esteja bem aí, dentro de ti, amor. Talvez eu seja você, só o que muda é o gênero. Camuflagem perfeita, não?