carta z
hoje é um dia diferente, não foi um dia azul que eu fiz o favor de anuviar, faltam 12 dias e o inferno astral cai sobre mim como o céu no último toque da trombeta Pensei sobre tudo que poderia virar um tema aqui nesse espaço branco e opaco, opaco igual o vinho que coloquei na minha taça, que não é minha favorita, enquanto toca Cartola na TV que também não é a minha favorita dele, logo depois de ouvir Gal Costa e talvez a dela seja a minha favorita, apesar de não ouvir Gal com tanta frequência
E parei pra pensar em quantas coisas e quantas pessoas são as minhas favoritas e vi o quão bobo é isso tudo. Viver deveria ser alegre, mas é clichê não reclamar da vida, se fosse assim taças não se enchiam, pulmões não tragavam e músicas não seriam escritas.
Então pensei no meu poema favorito, percebi que não tenho um. Nunca apontei e disse ‘’é esse...’’ apesar de todo mundo saber que tenho queda pelos mesmos escritores...
Então fui pensando, pensando e pensando... e olhei pro rascunho que tem pendurado na minha geladeira e achei bobo ter escrito ‘’poesia é preciso’’ apesar de acreditar fielmente nisso. Talvez seja o dia anuviado...
E, do mesmo jeito que lembrei de Ísis, lembrei de quando começava todos os meus textos com “talvez...” e vi que nunca tive certeza de nada nessa vida. Nem sobre qual é a minha poesia favorita. Passei o dia me martirizando por todas as coisas que não escolhi...
O inferno astral mexe com a nossa cabeça. Se houvesse sol no céu nesse dia de hoje, talvez eu ficasse na rua com a cabeça no sol de meio dia esperando todas as ideias virarem um prato vazio para todas as minhas paranoias falidas e descompensadas... apesar delas terem uma certa razão no fim das contas
Não escolhemos pelo medo das consequências do favoritismo. imagina se Caio Fernando de Abreu perder a graça pela quantidade de vezes é lido
A história de Zezé é a minha favorita, mas toda vez que abro o livro é esperando um final feliz na vida do menino. Para lembrar que não sou tão má assim por gostar de uma história triste, esperança...
Imagina dizer pra alguém que, durante um tempo, de alguma maneira escrota Charles Bukowski era a minha leitura conforto. E como Cartas nas Ruas, ressignificou um monte de coisas... E não acho que seja vergonha dizer isso, é inacreditável, mas o mesmo cara que escreveu coisas ridículas em Cartas nas Ruas é o mesmo que escreveu que “O amor é um cão dos diabos...” e diversas outras coisas
Agora é um momento diferente, a cor do vinho na taça é a mesma, o papel ainda ta pendurado na geladeira com a mesma frase idiota necessária presa no ímã de Buenos Aires... e eu nunca fui pra lá...
Minhas perspectivas são diferentes de quem vê assim por fora. Se você estivesse aqui agora, seriam duas taças, com cores diferentes e eu estaria sorrindo e eu esqueceria do dia anuviado. Isso não agora, em junho, talvez em fevereiro. Me peguei olhando para conversas antigas e me fazendo diversas perguntas e pensando diversos versos pra encaixar aqui agora, mas aí seria um texto que não iria querer que você lesse. Então não vou dizer, talvez em outra carta Z mas não nessa
A gratidão de dias anuviados ao som de trombetas, só se encontra em momentos como esse. Não graças a taça, que não é a minha favorita, mas graça a coisas que penso, penso, penso...
Hoje graças a Morangos Mofados e a gratidão pelos versos de Caio Fernando de Abreu que disse que disse que (parafraseando) aos poucos eu me esqueci de todos os socos, pontapés e sei lá mais o que, mas que mesmo eu não sendo Capitu e tendo olhos de ressaca eu sigo em frente sabendo de todas as minhas fraquezas.
A minha alma anda limpa, por assim dizer
E talvez esse seja o meu verso favorito. Talvez seja por isso que só tive coragem de ler uma vez Morangos Mofados...
Apesar dos pesadelos, dos mortos que me acompanham, das noites sem sono em tremenda oração dizendo para os santos que, por Deus, eu só queria ser uma pessoa melhor
Sou o melhor que consigo ser por agora. E talvez, como ísis, essa seja a beleza da vida. A beleza de dias cinzas, prédios rosas, saudade, distancia, mensagens que não deveriam ter sido lidas novamente... ando tentando ser o melhor que consigo ser ao som da trombeta dos anjos, dos portões abertos do inferno e com a distância dele.
É aquele papo de ver o copo meio cheio mesmo sem nada dentro dele. Na verdade, uma taça meio cheia
E por falar em dias, venho escrevendo frequentemente nas últimas semanas, sem muita coragem de se quer colocar no mesmo site opaco em que “Lá vem o amor nos dilacerar novamente...” talvez pelo medo de estar sendo lida enquanto me derramo por aqui como em 2014 ou 2016
E apesar do papel na geladeira ser um rascunho mal feito de dias sem nenhum raio de sol pra fritar os pratos vazios do dia... Poesia é necessária.
Pode não ser pra esse bando de anjo desocupado e pra esses demônios sem alma para torturar. Pra mim, é o que me faz esquecer da dor de não se ter o que se quer, ou de não se desatar onde queria estar enlaçada com nós duplos. É o céu azul quando se sopra a nuvem.
Ah, e mesmo que o céu sucumba, a saudade permaneça e eu precise aprender a aceitar a saudade, o ciclo vai se encerrar. E eu serei o demônio que vai cultivar essa terra vazia e sem forma. Até ela virar alguma coisa.
Eu posso até chorar, mas virei ao mundo refeita novamente no dia 22. Como diz Caio Fernando.
- Bia, falecida Ísis












