Dexter sabia que aquela era uma péssima ideia, mas, afinal, não era de péssimas ideias que viviam os Grimshaw? Tal habilidade de tecer planos fadados ao fracasso era de família, começando diretamente com a escolha de esconder a verdade sobre os membros daquela linhagem até o último momento. Dexter havia finalmente descoberto a realidade por trás da história de sua irmã naquele dia, e a raiva não poderia ser maior. Aquilo era inaceitável, e era mais inaceitável ainda que Dylan tivesse que pagar pelos erros de seu pai. O moreno havia crescido em companhia da meia-irmã, a quem sempre chamara de irmã de fato, e agora descobrir que ela havia sido machucada por alguém que só levava parte de seu sangue havia sido a gota d’água para Dexter. Ele estava farto. De mentiras, de aparências, do dinheiro de sua família que servia para encobrir o rastro de erros que marcava o caminho atrás.
Talvez a culpa de seu impulso em adentrar a festa alheia viesse daquilo. Talvez viesse da ponta ínfima de confusão que crescia em seu peito, ou que, levando por outra perspectiva, só passava a fazer sentido agora. Dexter havia passado boa parte de seu último ano em Hogwarts frequentando armários de vassouras e salas vazias, lugares para onde o sonserino se dirigia depressa após uma única e simples mensagem de texto. Apenas alguns minutos bastavam para que a remetente logo estivesse no mesmo espaço que o moreno, e ali o acordo de ódio e intolerância mútua ia por água abaixo junto com as roupas. Grimshaw e Gansey, dois nomes de famílias ricas, com a diferença de que uma era pura e a outra era trouxa. Mesmo parecidos, ambos viviam em mundos tão diferentes, rodeados pela mesma órbita, mas sendo afetados de maneiras desiguais. E, contudo, mesmo quando as farpas os seguiam nos corredores e as provocações eram dita em voz alta nas salas de aula, eram naqueles momentos a sós que Helen e Dexter se permitiam a algo mais íntimo. Mais pessoal.
No começo havia sido uma brincadeira. Um modo inesperado que haviam encontrado para suportar a presença um do outro. Dexter odiava tudo o que Helen representava: A família magnata, os desejos atendidos com um simples tocar de campainha, a importância do dinheiro em cada roupa de grife ou carro importado. Mesmo no mundo dos bruxos, havia uma separação de classes gigantesca, e Helen representava aquilo. Sempre andando com os melhores da casta pura, esbanjando relatos de suas últimas férias ou festas particulares. Dexter também era filho de pais ricos, mas a diferença era que o rapaz odiava aquele dinheiro e fazia de tudo para não ser ligado ao mesmo. Andava com amigos desleixados, bebia nas festas, tirava notas propositalmente ruins. Helen e Dexter viviam em órbitas diferentes em um mundo igual, motivados pelo desejo de fazer a diferença, de viver a contradição, até que aquilo os tivesse colocado em uma sala vazia aos beijos.
As mensagens viraram frequentes e os encontros também. Não havia muito mais do que o físico quando se encontravam, mas de algum modo aquilo havia construído algo entre os dois. E era naquela hora, enquanto Grimshaw deixava sua casa com passos largos de raiva, que as coisas passavam a fazer sentido. Ele não sabia por que havia pensado nela no meio daquela confusão, porque diabos seu nome havia surgido em meio aos pensamentos após ouvir a história de seu pai. Mas a menção de Gansey em sua mente lhe fez certo do único desejo: Precisava vê-la, falar com ela. Entender o quê ela via de tão produtivo em ser capacho de seus pais e, mais importante, saber se havia alguma chance de reverter aquilo. Pois sem as aparências, talvez algo a mais surgisse entre eles. Algo mais do que beijos ou toques sórdidos. Algo como os risos que ouvira dela em alguns encontros, ou o sorriso delicado quando por poucas vezes conversaram sobre coisas que não produziam farpas. Dexter havia se apegado aqueles lampejos de empatia, e agora desejava saber se havia alguma chance, por qualquer que fosse, que Helen tivesse sentido aquilo tudo junto.
O sonserino só não esperava encontrar aquela cena ao chegar à festa dos Gansey. Ele sabia do evento que aconteceria, e sabia que não era convidado. Mas penetrar em uma festa era um ato tão banal que Dexter entrara com facilidade, cumprimentando a todos com um sorriso educado e a pose que o dinheiro dos pais havia fabricado outrora, um papel para não parecer suspeito ali. Ele só precisava encontrar Helen, conversar com ela. Saber se havia algo entre eles para além das diferenças entre família. Mas quando o par de orbes castanhos finalmente encontrou quem procurava, Dexter soube que sua viagem havia sido completamente inútil.
Lá estava ela, em toda sua pose. O corpo bonito em um vestido de gala, os cabelos caindo como uma cascata escura. E os gestos, o sorriso... Dexter sabia bem sobre aquilo. Ali estava Helen Gansey em seu melhor papel: O de falsa interessada. O de garota que sabia quando e onde sorrir, o quê falar, eu gesto utilizar para fazer parecer que estava bebendo cada palavra da situação. Assistí-la jogar aquele disfarce tão evidente, tão malditamente claro, com o rapaz que conversava com ela fez a raiva subir em Grimshaw. Não pelo ciúme que também vinha a passos silenciosos, mas por saber que Helen estava fazendo aquilo tudo por uma única razão: Aparência. Ela não estava adorando a conversa, não estava interessada no rapaz. Parecia presunçoso da parte de Dexter pensar aquilo, mas ele havia visto os sorrisos mais reais dela mesmo em raras ocasiões, e vivera por tempo demais no mundo dos ricos para reconhecer a falsa pose de condescendência quando a via. Quis rir, amargo, daquilo. Ma então os olhos azuis lhe viram e Grimshaw ali ficou.
Por alguns minutos, ficou. Observando Gansey tentar levar seu teatro adiante enquanto o rapaz a sua frente falava. Por Merlin, como aquele cara podia ser tão imbecil? Tão cego? Dexter contou por quanta vezes os olhos dela lhe observaram pelos cantos àquele distância e, irritado, riu. Sem humor, um simples sopro de ar entre seus lábios. Deveria saber, eles eram diferentes demais. Não importava o que pudesse dizer, Helen sempre seria escrava das aparências e das poses que cultivava pelo bem de seu sobrenome.
Sem esperar para saber se a morena continuaria lhe ignorando pelo canto do olhar, Grimshaw meneou a face em negativo, o riso soprado e decepcionado presente mais uma vez, e então virou e se infiltrou na multidão, seguindo para o primeiro corredor que viu à procura da saída. Seu interior borbulhava de raiva, não podia simplesmente ficar ali e assistir aquela cena; fingindo, assim como Helen, que tudo lhe agradava.