Fitou o rosto voltar a endurecer como uma pedra de mármore e aquilo soava assustador. Uma hora JiHo estava quase sorridente, mas na outra lá estava a expressão séria que fazia de Haruki o mais inseguro entre os seres. Suspirou e fechou os olhos devagar, tentando assimilar toda a situação. - Você me pegou. - Disse voltando a abrir o sorriso de sempre. Era uma colocação certa no fim das contas e Haruki não era do tipo teimoso que insistia em uma ideia se outra melhor aparecia. Apenas assentiu ao ouvir a concordância dele sobre crianças. Haruki nunca teve um contato maior com elas porque as crianças eram sensíveis a muitas coisas relacionadas a ele, principalmente no fato de que ficavam verdadeiramente chateadas quando ele não se lembrava ou ficavam confusas e aquilo passava a sensação de que eram mentirosas e todas aquelas coisas que ele evitava fazer alguém sentir.
Havia sido aquilo um lampejo? Haruki jurava ter visto um sorriso. Isso porque os olhos estavam tão abertos e tão atenciosos as novas expressões de JiHo que era impossível o rapaz negar que tinha sorrido. Era um sorriso tão bonito. Estranho pra alguém que parecia ter acabado de ficar bravo. Assim que os olhos dele se abriram, os seus tiveram a mesma reação em um susto, mas relevou e disfarçou afinal ele era relativamente bom em disfarçar coisas. Ou não. - O seu nariz é larguinho como o meu, você tem boca fofa também e o seu rosto… Eu gosto dele. É.. - Tentou arrumar a palavra enquanto gesticulava, mas não obteve sucesso naquele ponto. - É bonito. - Deu de ombros. Aquela era uma definição apropriada, em sua mente. Levantou o tronco assim que sentiu o tapa e fitou o outro, confuso. Tudo foi uma questão de tempo para que ele estivesse no colo no policial e era estranho… Muito mais estranho do que imaginou ou que se lembrava de ter visto em um filme qualquer. Ouviu o sussurro e o corpo reagiu de uma forma que Haruki conhecia, mas que não se aplicava a aquele momento. Fitou os fios sutis do braço que estavam todos para cima agora e deixou um riso baixo sair perto o suficiente do ouvido do outro rapaz. - O corpo humano é tão misterioso. - Constatou o que deveria ter ficado em seu pensamento, mas foi naturalmente compartilhado com o policial.
Os olhos fecharam e o corpo parecia não mais pesar uma tonelada e a coluna parou de reclamar por alguns instantes, dando lugar agora a coxa que havia sido descoberta a pouco pelo organismo que insistia em combater qualquer tentativa de infecção e avisava o cérebro de Haruki enviando uma dor em forma de pontadas. Era ridículo o quanto parecia que era também a primeira vez que se machucava daquela forma porque simplesmente não se lembrava daquele tipo de dor. Assim que sentiu os dedos do rapaz encontrarem seus fios novamente, a dor foi esquecida assim como a coluna tinha sido e Haruki se concentrou em sorrir e soltar um som baixo de satisfação enquanto arrastava o corpo de forma lenta e encostava a cabeça em um lugar de Jiho que não era o peitoral, mas também não era a barriga, ainda sim, era por ali. Os olhos voltando a se fechar e o cheiro do perfume alheio sentido pela primeira vez por suas narinas fizeram com que ele deixasse o sorriso no rosto enquanto erguia de forma tortuosa o braço e tocava também daquela forma os fios curtos do policial, mexendo como quem toca uma melodia suave no piano ou tenta sentir a textura de uma folha. O primeiro bocejo indicava que o sono tinha voltado e junto ao sono, a lembrança de como ele era feliz quando dormia mexendo no cabelo de alguém. Fosse da mãe, do pai ou de qualquer outro funcionário da casa disposto a ficar com o garoto nas noites de pesadelo. - Obrigado por estar aqui… - Disse baixo. O quarto não tinha nenhuma luz além da que vinha lá do corredor proveniente da sala. - Se amanhã eu acordar e não me lembrar de você, aperte o machucado devagar. Se fizer forte, vou achar que foi você que fez e vou me assustar, mas se fizer isso devagar, vou entender que você está aqui porque eu pedi. - A indicação era clara e de uma experiência absurda de todas as vezes que acordava e via alguém estranho ao seu lado e quando criança, chorava ou gritava os pais. Até saia correndo, tropeçando e ralando o rosto. Quando adolescente, apenas sentia o desconforto e aquela sensação de pânico de ter se metido em encrencas até perceber que era sua casa, seu/sua funcionário/a e que estava tudo bem. - Se eu acordar e você não estiver mais aqui… - Suspirou contra o local no qual tinha se encaixado e ali sim parecia o peito. - Deixe um bilhete de como eu faço pra trocar o curativo e assine ele como ‘Jiho, a batata.’ e por favor… - Mais um suspirar. - Feche a porta do meu quarto porque eu tenho medo de dormir com ela aberta. - Naquele momento, aquilo não importava porque o outro estava ali e Haruki se sentia seguro. Mas absolutamente nada podia manter aquela segurança contra os outros humanos e contra os monstros dos filmes de terror que ele ainda se lembrava quando estava sozinho.
Os avisos foram respondidos com grunhidos, ruídos de que estava entendendo e registrando tudo mesmo com os olhos a meio caminho de fecharem. Eles podiam estar mesmo fechados com a pouca luz do quarto ajudando, e o peso no peito o puxando mais para baixo. O dia anterior havia sido absurdo de tão pesado e o estresse da ligação do meio da noite, juntamente com toda a energia coletada para atender o chamado rápido, cobravam um preço conhecido. O colchão era melhor do que o dele, o movimento dos próprios dedos era uma técnica de relaxamento, mas os do outro nos seus... JiHo virou a cabeça para longe, inclinando o pescoço para longe do toque e tentando não pensar no que a rejeição podia fazer para o sensível Haruki. Oh não achava que merecia isso, não quando ainda tinha todos os problemas e contas do mundo sobre os ombros mais do que cansados. Ele estava ali para ajudar, para servir de apoio e companhia, e não trocar de lugar com quem deveria ganhar toda a atenção. O sono veio após a força dos pensamentos se perderem em imagens confusas e sem sentido, o plano de sair assim que sentisse a respiração do outro aprofundando evaporando para o espaço. Foi bom, foi melhor do que bom, foi uma pequena férias no meio da semana. Jiho não se movimentava muito no sono, onde ficava acordava no dia seguinte, mas alguma coisa aconteceu durante a noite porque, ao abrir os olhos, deu de cara com outros. Fechados. Perto demais. Num rosto claro e parcamente iluminado pela luz do corredor. O policial suspirou, umedeceu os lábios, engoliu em seco... Antes de notar o que estava acontecendo e se esquivar rapidamente. Se afastando e levantando da cama sem acordar Haruki.
Segundos transformaram-se num segundo completo de silêncio quebrado pela respiração rápida. Parado no meio do quarto para se acalmar, e se acalmar, e colocar em ordem o que faria a seguir. Pegou o lençol e o cobriu com cuidado, praticamente correndo para fora do quarto e fechando a porta atrás de si. Não tinha tempo para o fragmento de imaginação que aparecera, muito menos para analisar o que tinha pensado ao abrir os olhos. Não. Primeiros problemas primeiro. JiHo deu início a sua preparação matinal fora de casa. O celular equilibrado entre a orelha e o ombro, as palavras ríspidas trocadas com o secretário da delegacia que não tinha sido capaz de realizar uma tarefa da lista deixada pelo detetive (uma lista muito explicativa, diga-se de passagem). Preparou um novo curativo e o kit em cima da mesa, atravessou a sala para a cozinha e se fez dono do fogão, cozinhando aquilo que parecia mais comum no café-da-manhã de Haruki -- baseando-se nos ingredientes que encontrara nos armários e na geladeira. Hora de ligar para a sobrinha. --- Jiyoon, já está pronta? --- Longe dele preparar algo para si com a comida dos outros. JaeHyo tinha feito algo para si e deixado em cima da mesa da sala, ele sendo responsável de levar a sobrinha para a escolinha hoje. JiHo coçou o topo da cabeça procurando mais o que fazer no pouco tempo que tinha antes de ir para o trabalho. Nada. Nada vinha à mente além do... --- Aish. --- Esfregou o rosto, pegou a bandeja com comida e itens médicos, voltando para o quarto de Haruki fazendo menos barulho que um ratinho.
Não dava para enxergar quase nada naquela escuridão, então deixou uma fresta de luz do corredor entrar, recaindo-se estrategicamente no pedaço de lençol que estava a perna alheia. Levantou o tecido e começou a trabalhar. Com tanto cuidado que demorou um tempo até tirar todo o curativo, limpar o corte e colocar a nova gaze por cima. A perna se mexeu no mesmo instante que colocou a mão em cima para firmar o curativo. Os olhos dardejaram para cima, culpado por tê-lo acordado. --- Cheson'hamnida, Haruki-yah. --- O aviso! Parecia errado demais apertar o ferimento então ele só colocou a mão em cima, pressionando os dedos de leve só para confirmar que estava bem grudado. Oh desceu o olhar, voltando a levantar e enfiando as mãos nos bolsos da calça. --- Eu já estava de saída. Precisa de mais alguma coisa? --- O papel embaixo da bebida tinha o básico para trocar o curativo, cada palavra escrita com simplicidade e facilidade, para que um ‘esquecido’ pudesse se achar. O problema estava, e esperava estar bem longe quando ele visse, na assinatura. Um desenho de uma batata, com os seus olhos e boca, ao lado do próprio nome.