Have yourself a merry little christmas
From now on our troubles will be out of sight
Apático. William estava apático.
Esfregava o balcão de madeira do Três Vassouras há mais de meia hora. Já nem ao menos prestava atenção nos movimentos que fazia, preocupado apenas em ocupar-se com algo. Em verdade, não fazia ideia de que horas eram; mas calculava que já estava ali, sozinho, há cerca de duas horas.
É claro que já poderia estar em casa. Madame Rosmerta liberava seus funcionários mais cedo durante datas comemorativas. A essa altura William já deveria estar em Londres, visitando seus pais, mas delegara a visita para o dia seguinte. Embora estivesse acostumado a passar o feriado inteiro na companhia da família, sabia que, ao menos naquele dia, deveria ficar sozinho. Ou pelo menos sentia que precisava. Por isso, pedira permissão a Madame Rosmerta para fechar o estabelecimento – liberdade que os três anos de serviço lhe concederam – e com isso procurou toda forma possível de distração. Já havia fechado o caixa, contado o lucro da semana, limpado todas as mesas, devolvido cada garrafa a seu devido lugar e, agora, esfregava com afinco o balcão sobre o qual se debruçava.
Here we are as in olden days
Happy golden days of yore
Faithful friends who are dear to us
They gather near to us once more
Não pôde deixar de notar a ironia em que estava inserido. Lá estava ele, sozinho, desgastado e desencantado, tendo como companhia logo aquela música. Frank Sinatra havia sido uma figura bastante presente em seus Natais quando mais novo, o que geralmente acarretava uma agradável sensação de nostalgia; mas, naquele dia em específico, parecia uma piada de tremendo mal gosto. Um lembrete de como ele estava sozinho, amaldiçoado por um dom de que não gostava e perseguido pelo remorso de ter perdido uma das melhores coisas que já lhe aconteceram.
E logo a lembrança dela lhe tomava a cabeça e o coração. Impulso suficiente para que ele se repreendesse, mais uma vez, por ser tão estúpido. Agora era tarde para remendar suas falhas, e o tanto que amadurecera desde o ocorrido lhe dava a certeza de que o melhor a ser feito era simplesmente deixar estar.
Balançou a cabeça, afastando os pensamentos. Estava, afinal, trabalhando em excesso justamente para não ser traído pela memória e pelo arrependimento. Mas que era difícil não ceder à melancolia, ah!, isso era.
Embora sua cabeça estivesse turbulenta por toda a sorte de pensamentos, havia um em especial que não lhe assombrara ainda. O motivo, por sinal, pelo qual ele decidira se isolar tão pouco tempo antes do Natal.
O fato é que William vinha tendo, há cerca de dois ou três anos, uma visão diferente de todas as outras. E essa era justamente a causa de sua agonia e tensão. Era, inclusive, o motivo pelo qual muitas coisas em sua vida vinham desandando.
A visão de si mesmo sendo levado à força para um hospício o visitara mais uma vez na madrugada anterior. Havia sido tão real e tão terrível que o loiro acordara berrando, se debatendo contra a cama. Tamanho foi seu susto que acabou atingindo o abajur sobre o criado mudo, que arrebentou-se contra sua mão, abrindo um extenso corte na palma. Mão essa que, agora, estava enrolada por uma faixa e, mesmo assim, empurrava com força o pano úmido contra a madeira do balcão.
William estava tão afogado em sua bolha de preocupações que nem ao menos notara que estava usando a mão ferida para fazer o trabalho, ou mesmo que ela ardia.
Hang a shining star upon the highest bough
So have yourself a merry little Christmas now…
Como se um feixe de luz tivesse sido direcionado para a escuridão da nuvem de amargura em que o loiro estava afundado, William subitamente foi arrancado de seu estado de transe. Primeiro, o sino; depois, Zenon passando pela porta.
Instantaneamente, William abriu um sorriso discreto para o moreno, não sabendo se agradecia por ter sido afastado de sua mente doentia ou se se sentia envergonhado por ser encontrado sozinho em plena época de Natal.
—– Hey —– cumprimentou o rapaz, apoiando o pano contra o balcão e dando o primeiro descanso a seus braços depois de muito tempo. Percebeu, com o súbito relaxamento dos músculos, que suas mãos formigavam.
—– Que trabalho horrível que está executando, William, o lugar está abarrotado de gente e você aí, parado sem fazer nada.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de William, dos quais escorreu uma risada baixa. O loiro assentiu com a cabeça, concordando com o comentário do colega. Já havia se acostumado com Zenon o suficiente para saber que ele estava brincando, embora seu semblante permanecesse mortalmente sério.
—– Merlin. Estou mesmo na merda, não estou? —– ele respondeu, balançando levemente a cabeça. —– Mas o que está fazendo aqui, afinal?